Dumplin - Julie Murphy

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DADO S D E C O PY RIG HT
S ob re a o b ra :
A p re se nte o bra é d is p onib iliz a d a p ela e q uip e
Le L iv ro s
e s e us d iv ers o s p arc eir o s, c o m o o bje ti v o d e
o fe re cer c o nte úd o p ara u so p arc ia l e m p esq uis a s e e stu d os a cad êm ic o s, b em c o m o o s im ple s te ste d a
q ualid ad e d a o bra , c o m o f im e xclu siv o d e c o m pra f u tu ra .
É e xp re ssa m ente p ro ib id a e to ta lm ente r e p ud ía v el a v end a, a lu guel, o u q uais q uer u so c o m erc ia l d o
p re se nte c o nte úd o
S ob re n ós:
O
Le L iv ro s
e s e us p arc eir o s d is p onib iliz a m c o nte úd o d e d om in io p ub lic o e p ro prie d ad e i n te le ctu al d e
f o rm a to ta lm ente g ra tu ita , p or a cre d ita r q ue o c o nhecim ento e a e d ucação d ev em s e r a cessív eis e l iv re s a
t o da e q ualq uer p esso a. V ocê p ode e nco ntr a r m ais o bra s e m n o sso s ite :
le liv ro s.l o ve
o u e m q ualq uer u m
d os s ite s p arc eir o s a p re se nta d os
neste l in k
.
"Q uan do o m undo e stiv e r u nid o n a b u sc a d o c o n hecim en to , e n ão m ais l u ta n do p or d in heir o e
poder, e n tã o n ossa s o cie d ade p oderá e n fim e vo lu ir a u m n ovo n ív e l."

“E sto u o bcecad a c o m e ste h um or f e rin o , e ste r e alis m o c o m ovente . P ers o nagens p or q uem n o s
ap aix o nam os e to rc em os.
Dum plin ’
é u m a v erd ad eir a e str e la .
”K ati e C otu gno , a uto ra d e
Duas v eze s a m or e 9 9 D ays
“ Dum plin ’
d ev eria s e r l e itu ra o brig ató ria p ara q ualq uer p esso a, m ulh er o u h o m em , q ue j á te nha s e
se nti d o d esc o nfo rtá v el – m esm o q ue s ó u m a p onti n ha – c o m o p ró prio c o rp o. A e str e la d e J u lie
Murp hy c o nti n ua a b rilh ar c o m e sta h is tó ria r e v olu cio nária e c o m ovente q ue m ud ará m uita s v id as.”
Jo hn C ore y W hale y, p re m ia d o a uto r d e
Quando t u do v o lta
e
Noggin
“O l iv ro r e tr a ta e d esa fia o s e ste eó ti p os d os c o ncurs o s d e b ele za , d os p ro ble m as c o m a o besid ad e
e d a a ceita ção f e m in in a. D e m aneir a d elic ad a e m ara v ilh o sa ,
Dum plin ’
e xp õe q uestõ es d e g ênero e
mostr a q ue m esm o p esso as a p are nte m ente a uto co nfia nte s s o fe m c o m o b ully in g e v iv em m om ento s d e
dúv id a.”
VO YA
“Ju lie M urp hy c o necto u to das a s p eças d a h is tó ria , d e f o rm a q ue, q uand o u nid as, c ria ra m u m l iv ro
afe tu o so , e ngra çad o e q ue n o s f a z r e fle ti .”
Publis h ers W eekly
, r e se nha e str e la d a
“A v oz a utê nti c a d a p ro ta go nis ta l e v a o l e ito r a p ensa r s o bre tu d o q ue c o nstr ó i – e d estr ó i – a
auto esti m a.”
Booklis t
, r e se nha e str e la d a
“U m a l e itu ra g o sto sa e a gra d áv el p ara to dos o s a d ole sc ente s q ue, e m a lg um m om ento , n ão s e s e nti r a m
bem n a p ró pria p ele .”
Sch ool L ib ra ry J o urn al

Copyrig ht
© 2 015
by
J u lie M urp hy
Public ado m edia nte c ontr a to c om F olio L it e ra ry
Managem ent, L LC e A gência R if f
TÍT U LO O RIG IN AL
Dum plin ’
CA PA
Raul F ern andes
IL U ST R A ÇÃ O D E C A PA
Danie l S to lle
DIA GRA M AÇÃ O
Fatim a A gra | F A s tu dio
ADAPTA ÇÃ O P A RA E -B O OK
Marc elo M ora is
CIP -B RA SIL . C ATA LO GA ÇÃ O N A P U BLIC A ÇÃ O
SIN DIC ATO N ACIO NAL D OS E D IT O RES D E L IV RO S, R J

M 96d

Murp hy, J u lie
Dum plin ' [ re curs o e le tr ô nic o] / J u lie M urp hy; tr a dução H elo ís a L eal. - 1 . e d. - R io d e J a neir o : V ale ntin a, 2 017.
re curs o d ig it a l
Tra dução d e: D um plin '
Form ato : e P ub
Vl V iv i s ta r
Requis it o s d o s is te m a: A dobe D ig it a l E dit io ns
Modo d e a cesso : W orld W id e W eb
IS B N : 9 788558890328 ( re curs o e le tr ô nic o)

1. R om ance a m eric ano. 2 . L iv ro s e le tr ô nic os. I . L eal, H elo ís a . I I. T ít u lo .
1 7-4 1325
CD D: 8 13
CD U: 8 21.1 11 (7 3)-3
Todos o s liv ro s d a E dit o ra V ale ntin a e stã o e m c onfo rm id ade c om
o n ovo A cord o O rto grá fic o d a L ín gua P ortu guesa .
To dos o s d ir e ito s d esta e d iç ã o r e se rv a dos à
ED IT O RA V A LEN TIN A
Rua S anta C la ra 5 0/1 1 07 – C opacabana
Rio d e J a neir o – 2 2041-0 12
Tel/ F ax: ( 2 1) 3 208-8 777
www.e dit o ra vale ntin a.c om .b r

Ded ic a do a t o das a s g ord elíc ia s.
Desc ub ra q uem v ocê é e f a ça i s so d e p ro pósito .
Dolly P arto n

UM
As m elh o re s c o is a s q ue a co nte cera m n a m in ha v id a c o m eçara m c o m u m a m úsic a d a
D olly P arto n. A té m esm o a m in ha a m iz a d e c o m E lle n D ry v er.
A c anção q ue n o s u niu fo i “ D um b B lo nd e”, d o á lb um d e e str e ia ,
Hello , I’m D olly
, d e 1 967. F oi n o
v erã o ante rio r ao prim eir o ano do ensin o fu nd am enta l, quand o a m in ha ti a L ucy e a S ra . D ry v er
r e so lv era m tr o car f ig urin has, j á q ue a m bas e ra m f ã s d a D olly . E nq uanto b eb eric av am c há g ela d o n a s a la ,
E lle n e e u a ssis tí a m os a d ese nho s n a te v ê s e nta d as n o s o fá , s e m s a b er o q ue p ensa r u m a d a o utr a . A té q ue
n um a ta rd e o uv im os a q uela m úsic a to cand o n o s o m d a S ra . D ry v er. E lle n c o m eço u a m arc ar o r itm o c o m
o p é e nq uanto e u c anta v a, e , a nte s m esm o d o re fr ã o , já e stá v am os g ir a nd o p ela s a la e s o lta nd o a v oz.
F eliz m ente , ta nto e ssa a m iz a d e q uanto a a d m ir a ção p or D olly d ura ra m m ais q ue u m a m úsic a.
Esto u e sp era nd o p or E lle n n a fr e nte d o J e ep d o n am ora d o d ela , e o s o l n o m eu r o sto
me o brig a a r e cuar o tr o nco c ad a v ez m ais a li n o a sfa lto d o e sta cio nam ento d a e sc o la .
T ento n ão fic ar m e c o nto rc end o e nq uanto a v ejo p assa r p ela sa íd a e a b rir c am in ho p ela m ulti d ão d e
a lu no s q ue d eix am o p ré d io .
El, o a p elid o q ue l h e d ei, é tu d o q ue e u n ão s o u: a lta , l o ura e c o m o d om d e s e r d esa je ita d a e s e xy a o
m esm o te m po, p ara d oxo q ue s ó p are ce e xis ti r n as c o m éd ia s r o m ânti c as. E la s e m pre s e s e nti u c o nfo rtá v el
n o p ró prio c o rp o.
Não e sto u v end o T im , o n am ora d o d ela , m as n ão te nho a m eno r d úv id a d e q ue d ev e e sta r a lg uns
p asso s a tr á s c o m o n ariz e nfia d o n o c elu la r, c o nfe rin d o o s re su lta d os d os jo go s q ue p erd eu d ura nte a
a ula .
A p rim eir a c o is a q ue e u n o te i a o c o nhecer T im fo i o fa to d e e le s e r, n o m ín im o, u ns d ez c entí m etr o s
m ais b aix o d o q ue E l, m as e la n unca d eu a m ín im a. Q uand o m encio nei a d ife re nça d e e sta tu ra , e la s o rriu ,
o r u b or n o r o sto s e e sp alh and o p elo p esc o ço , e d is se : “ F ofo , n é?”
El f r e ia o s p asso s a o c hegar d ia nte d e m im , o fe gante .
— V ocê v ai tr a b alh ar h o je à n o ite , n ão v ai?
Pig arre io .
— V ou.
— N unca é ta rd e p ra d esc o la r u m e m pre go d e v erã o n o s h o ppin g, W ill. — E la s e r e co sta n o J e ep , s e u
o m bro c utu cand o o m eu. — C om ig o .
Faço q ue n ão c o m a c ab eça.
— E u g o sto d o H arp y’s .
Um c am in hão p assa v oand o à n o ssa f r e nte , e m d ir e ção à s a íd a.
— T im ! — g rita E lle n.
O d is tr a íd o p ara b ru sc am ente e a cena p ara n ó s n o i n sta nte e m q ue o c am in hão ti r a u m f in o d ele , a u m
t r iz d e a chatá -lo f e ito p anq ueca.
— P elo a m or d e D eus! — m urm ura E l, n um to m d e v oz q ue s ó e u p osso o uv ir.
Acho q ue e le s f o ra m f e ito s u m p ara o o utr o .
— O brig ad o p elo a v is o — a gra d ece e le a o l o nge.
Mesm o q ue e sti v ésse m os n o m eio d e u m a i n v asã o a lie níg ena, T im d ir ia : “ T ra nq uilo .”
Dep ois d e a tr a v essa r o e sta cio nam ento , e le g uard a o c elu la r n o b ols o tr a se ir o e d á u m b eijo e m E l.
N ão d aq uele s n o je nto s, d e b oca a b erta , m as u m s e lin ho q ue m ostr a q ue s e nti u s a ud ad es e q ue a in d a a
a cha tã o b onita c o m o n o p rim eir o e nco ntr o .
Deix o e sc ap ar u m lo ngo s u sp ir o . S e p ud esse o lh ar p ara o la d o to das a s v eze s q ue v ejo u m c asa l s e
b eija nd o, te nho c erte za d e q ue m in ha v id a s e ria , p elo m eno s, d ois p or c ento m ais f e liz .
Não q ue e u s in ta in v eja d e E lle n e T im , o u q ue a che q ue e le e stá r o ub and o m in ha a m ig a d e m im , o u
m esm o q ue o q ueir a p ara m im . M as q uero o q ue e le s tê m . Q uero a lg uém q ue m e b eije s e m pre q ue m e
e nco ntr a r.
Dou u m je ito d e p assa r e sp re m id a e ntr e o s d ois , in d o a té a tr ilh a q ue c erc a o c am po d e fu te b ol
a m eric ano .
— O q ue a q uela s g aro ta s e stã o fa ze nd o a li? — V ária s m enin as d e s h o rti n ho e r e gata r o sa -c ho que s e
m ovim enta m p elo l o cal.

— E la s o rg aniz a ra m u m
boot c a m p
, u m c am po d e tr e in am ento p ara o c o ncurs o — r e sp ond e E lle n. —
Vai d ura r o v erã o i n te ir o . U m a d as m in has c o le gas d e tr a b alh o n a S w eet 1 6 v ai p arti c ip ar.
Não f a ço o m eno r e sfo rç o p ara n ão r e v ir a r o s o lh o s. C lo ver C ity n ão é f a m osa p or g ra nd es f e ito s. D e
ta nto s e m ta nto s a no s, n o sso ti m e d e fu te b ol a m eric ano c o nse gue c hegar à s fin ais , e d e v ez e m q uand o
alg uém d á u m j e ito d e s a ir d a c id ad e e r e aliz a r a lg o d ig no d e r e co nhecim ento . M as a ú nic a c o is a q ue p õe
a n o ssa c id ad ezin ha n o m ap a é o fa to d e s e d ia r o c o ncurs o d e b ele za m ais a nti g o d o e sta d o, o M is s
Jo vem F lo r d o T exas, q ue c o m eço u n a d écad a d e 1 930 e v em s e to rn and o m ais p opula r e m ais r id íc ulo a
cad a a no . E sto u p or d entr o p orq ue a m in ha m ãe d ir ig e o c o m itê o rg aniz a d or h á q uin ze a no s.
Elle n ti r a a s c hav es d o b ols o tr a se ir o d a b erm ud a d e T im a nte s d e m e d ar u m a b ra ço .
— T enha u m b om -d ia . S e lig a, v ê se n ão d eix a re sp in gar g o rd ura e m v ocê n a la ncho nete . — E m
se guid a, e la d estr a nca a p orta d o m oto ris ta e d iz p ara T im , q ue e stá d o o utr o l a d o: — D ese je u m b om -d ia
para a W ill.
Ele l e v anta a c ab eça p or u m m om ento e a b re o ta l s o rris o q ue E lle n ta nto a m a.
— W ill. — T im p ode p assa r a m aio r p arte d o te m po c o m a c ara n o c elu la r, m as q uand o a b re a b oca...
aí é q ue a g ente e nte nd e p or q ue u m a g aro ta c o m o a E l n ão q uer s a b er d e o utr o c ara . — E sp ero q ue te nha
um b om -d ia . — E f a z u m a r e v erê ncia a té a c in tu ra .
El r e v ir a o s o lh o s, s e nta -s e a o v ola nte e e nfia u m p ed aço d e c hic le te n a b oca.
Aceno p ara o s d ois , e j á e sto u q uase c hegand o n o m eu c arro q uand o e le s p assa m p or m im e E lle n g rita
tc h aaau
, c o m o m egassu cesso d a D olly “ W hy’d Y ou C om e i n H ere L ookin ’ L ik e T hat” j o rra nd o d os a lto -
fa la nte s.
Esto u p ro cura nd o a s c hav es n a b ols a , q uand o v ejo M illie M ic halc huk v in d o p ela c alç ad a e m p asso s
pesa d os, a tr a v essa nd o o e sta cio nam ento .
E im agin o a c ena a nte s d e a co nte cer. R eco sta d o à m in iv an d os p ais e stá P atr ic k T ho m as, u m g aro to
que d ev e s e r o m aio r b ab aca d e to dos o s te m pos. S eu m aio r ta le nto é p ôr a p elid os n as p esso as e fa ze r
co m que peguem . U m ou outr o até se sa lv a, m as em gera l sã o co is a s do ti p o
Haaaaaaaannah
pro nuncia d o c o m u m r e lin cho d e c av alo , p orq ue a g aro ta é ... d entu ça. P ois é , o c ara é e sp erto .
Tenho v erg o nha d e a d m iti r q ue M illie é o ti p o d e p esso a q ue a v id a in te ir a m e fe z p ensa r:
As c o is a s
poderia m s e r p io re s.
S ei q ue s o u g o rd a, m as a g o rd ura d e M illie é d o ti p o q ue e xig e e lá sti c o n a c in tu ra ,
porq ue n ão fa ze m c alç as c o m b otõ es e z íp ere s n o s e u ta m anho . E la te m o lh o s m uito p ró xim os e n arin as
la rg as. A in d a p or c im a u sa c am is e ta s e sta m pad as c o m c acho rrin ho s e g ati n ho s, e n ão é p or i r o nia .
Patr ic k f ic a n a f r e nte d a p orta d o m oto ris ta , e le e o b aru lh ento g ru p o d e a m ig o s q ue j á e stã o g ru nhin d o
co m o p orc o s. M illie c o m eço u a d ir ig ir h á a lg um as s e m anas, e q uem a v ê s e e xib in d o n aq uela m in iv an
pensa a té q ue é u m C am aro .
Ela e stá p re ste s a d obra r a e sq uin a e d ep ara r c o m o s p alh aço s r e unid os e m v olta d a v an, q uand o g rito :
— M illie ! C hega a q ui!
Abaix and o a s a lç as d a m ochila p re sa à s c o sta s, e la m ud a d e d ir e ção e s e a p ro xim a, o s o rris o f a ze nd o
as b ochechas r o sa d as c hegare m q uase à s p álp eb ra s.
— O iê , W ill!
Sorrio p ara e la .
— O i. — N em p ense i d ir e ito n o q ue lh e d ir ia q uand o e sti v esse n a m in ha fr e nte . — P ara b éns p or te r
ti r a d o c arte ir a d e m oto ris ta — i m pro vis o .
— A h, o brig ad a. — E la to rn a a s o rrir. — É m uito g enti l d a s u a p arte .
Atr á s d ela , v ejo P atr ic k T ho m as a chata r o n ariz c o m o d ed o, p ara f ic ar i g ual a u m f o cin ho d e p orc o .
Fic o o uv in d o M illie m e c o nta r c o m o te v e q ue r e p ro gra m ar to da a m em ória d as e sta çõ es n o r á d io d a
mãe e c o m o f o i s u a p rim eir a v ez n um p osto d e g aso lin a. P atr ic k m e d á u m a g era l. E le é o ti p o d e c ara q ue
você to rc e p ara n unca te n o ta r, m as n ão a d ia nta e u te nta r fic ar in v is ív el. U m e le fa nte n ão te m c o m o s e
esc o nd er.
Millie c o nv ers a c o m ig o p or a lg uns m in uto s, e e ntã o P atr ic k e o s a m ig o s d esis te m e v ão e m bora . E la
fa z u m g esto , i n d ic and o a v an à s s u as c o sta s.
— P orq ue, a fin al d e c o nta s, e le s n ão e nsin am a g ente a a b aste cer n as a ula s d e d ir e ção , e a q uele
negó cio ...
— O lh a... — i n te rro m po. — D esc ulp e, m as j á e sto u a tr a sa d a p ara o tr a b alh o .
Ela f a z q ue s im .
— M ais u m a v ez, p ara b éns.
Fic o v end o M illie c am in har a té o c arro . E la a ju sta to dos o s e sp elh o s a nte s d e d ar m arc ha à r é e s a ir
da v aga n o m eio d o e sta cio nam ento q uase d ese rto .

Esta cio no n o s fu nd os d a la ncho nete H arp y’s B urg ers & D ogs, c o rto c am in ho p elo
driv e-th ru e to co a c am pain ha. C om o n in guém a te nd e, to co d e n o vo. O s o l a p in o d o
Texas c asti g a m in ha c ab eça.
E e u l á p ara d a, e sp era nd o, q uand o u m s u je ito c o m u m a p in ta e sq uis ita , u sa nd o u m c hap éu d e p esc ad or
e u m a c am is e ta s u ja , p assa p elo d riv e-th ru e s o lta u m p ed id o q uilo m étr ic o e c heio d e d eta lh es, c hegand o
a m encio nar o n úm ero e xato d e p ic le s q ue q uer n o h am búrg uer. A v oz n o a lto -fa la nte a nuncia o to ta l. E le
olh a p ara m im , a b aix and o o s ó culo s d e l e nte s a la ra nja d as, e s o lta n a l a ta :
— E a í, d elíc ia .
Dou m eia -v olta , s e gura nd o o u nifo rm e c o m f o rç a a o r e d or d as c o xas, e to co a c am pain ha q uatr o v eze s.
Meu e stô m ago d á v olta s e m ais v olta s d e v erg o nha.
Eu n ão
te n ho q ue
v ir tr a b alh ar d e s a in ha. T am bém p osso u sa r c alç a c o m prid a. M as o c ó s d a c alç a d e
polié ste r n ão e ra e lá sti c o o b asta nte p ara p assa r p ela m in ha c in tu ra . P onho a c ulp a n a c alç a. N ão g o sto d e
pensa r n o s m eus q uad ris c o m o u m e sto rv o e s im c o m o u m a tr a ti v o. A fin al, s e e sti v ésse m os, d ig am os, e m
1642, e sse p opozã o d e p arid eir a v ale ria m uita s v acas.
A p orta s e e ntr e ab re e e sc uto a v oz d e B o d o o utr o l a d o:
— E u j á ti n ha o uv id o n as o utr a s tr ê s v eze s.
Sin to u m a rre p io . N ão v ejo B o a té e le a b rir u m p ouco m ais a p orta p ara e u e ntr a r. A l u z d o d ia i lu m in a
se u ro sto . A b arb a e stá p or fa ze r. U m s in al d e lib erd ad e. A s a ula s n a e sc o la e m q ue e le e stu d a — u m
co lé gio c ató lic o g rã -fin o , o nd e o s a lu no s s ã o o brig ad os a u sa r u m u nifo rm e to do e le gante — a cab ara m n o
co m eço d a s e m ana.
O c ano d e d esc arg a d o c arro s o lta u m e sto uro n o d riv e-th ru à s m in has c o sta s, e e u e ntr o c o rre nd o.
Meus o lh o s d em ora m u m s e gund o p ara s e a co stu m are m c o m a p enum bra .
— D esc ulp e o a tr a so , B o — d ig o a e le . B o. A s íla b a p ula n o m eu p eito , e e u a d oro . A doro o to m
cate gó ric o d esse n o m e tã o c urto . É o ti p o d e n o m e q ue d iz :
Sim , t e n ho c erte za a bso lu ta .
Sin to um in cênd io nas entr a nhas q ue m e so be até o ro sto . P asso o s d ed os p elo q ueix o , o s p és
afu nd and o n o c o ncre to c o m o s e f o sse a re ia m oved iç a.
A V erd ad e: so u to ta lm ente a p aix o nad a p elo B o d esd e q ue o c o nheci. E le te m u m c ab elo c asta nho
desp ente ad o q ue s e e nro la n o m aio r n in ho d e ra to n o a lto d a c ab eça. E fic a rid íc ulo n aq uele u nifo rm e
verm elh o e b ra nco . P are ce u m u rs o n um tu tu d e b aila rin a. A s m angas d e p olié ste r s u p erju sta s n o s b ra ço s
me fa ze m p ensa r n o q uanto s e us b íc ep s e m eus q uad ris d ev em te r e m c o m um . M eno s a c ap acid ad e d e
fa ze r m usc ula ção , é c la ro . U m a c o rre nti n ha d e p ra ta a p are ce a cim a d a g o la d a c am is e ta , e o s l á b io s e stã o
mela d os d e c o ra nte , g ra ças a o s e u e sto que i n fin d áv el d e p ir u lito s v erm elh o s.
Ele e ste nd e o b ra ço p ara m im , c o m o s e f o sse m e a b ra çar.
Resp ir o f u nd o.
E s o lto o a r q uand o e le e sti c a o c o rp o à m in ha f r e nte p ara p assa r o tr in co n a p orta d e e ntr e gas.
— R on e stá d oente e n ão v eio tr a b alh ar, p or is so h o je v am os s e r s ó e u, v ocê, M arc us e L yd ia . A cho
que e la f o i o brig ad a a e m end ar d ois tu rn o s, p orta nto , j á e sto u a v is a nd o.
— O brig ad a. V ocê n ão v ai m ais à e sc o la , n ão é ?
— N ão , a s m até ria s j á a cab ara m .
— A cho le gal v ocê d iz e r “ m até ria s” e m v ez d e “ aula s” . É c o m o s e já e sti v esse n a fa culd ad e e s ó
ti v esse d uas m até ria s p or d ia , e o re sto d o te m po p ud esse d orm ir à v onta d e n um s o fá e ... — C aio e m
mim . — V ou g uard ar m in has c o is a s.
Ele a p erta o s l á b io s n um m eio s o rris o .
— V ai l á .
Entr o c o rre nd o n a s a la d os f u ncio nário s e g uard o a b ols a n o a rm ário .
Nunca fu i d o ti p o q ue fa la m uito , m as o q ue sa i d a m in ha b oca n a fr e nte d e B o L ars o n p õe u m a
dia rre ia v erb al n o c hin elo . É m ais c o m o u m a e ru p ção v ulc ânic a v erb al, u m a c o is a g ro te sc a.
No d ia e m q ue n ó s n o s c o nhecem os, q uand o e u ti n ha a cab ad o d e s e r c o ntr a ta d a, e ste nd i a m ão e m e
ap re se nte i: “ W illo w dean. C aix a, fã d a D olly P arto n e g o rd a d e p la ntã o .” E e sp ere i p ela r e sp osta ... q ue
não v eio . “ B em , ta m bém s o u o utr a s c o is a s. M as...”
“B o”, a v oz fo i s e ca, m as o s lá b io s s e c urv ara m n um s o rris o . “ M eu n o m e é B o.” Q uand o e le a p erto u
min ha m ão , m il le m bra nças q ue n unca ti v e s e a cend era m n um fla sh . N ós d ois d e m ão s d ad as n o c in em a.
And and o p ela r u a. J u nti n ho s n um c arro .
Ele s o lto u m in ha m ão .
Naq uela no ite , enq uanto re le m bra v a no sso prim eir o co nta to , perc eb i que ele não ti n ha fic ad o
co nstr a ngid o a o m e o uv ir d iz e r q ue e ra g o rd a.
E g o ste i d is so .

Porq ue a p ala v ra
gord a
d eix a a s p esso as c o nstr a ngid as. M as, q uand o a lg uém m e v ê, a p rim eir a c o is a
que n o ta é o m eu c o rp o. E o m eu c o rp o é d e u m a g o rd a. P or e xem plo , e u p osso n o ta r q ue a lg um as g aro ta s
tê m p eito s g ra nd es, c ab elo s o le o so s o u jo elh o s o ssu d os. S ão c o is a s q ue é p erm iti d o d iz e r s e m r o deio s.
Mas a p ala v ra
gord a
, q ue é a q ue m elh o r m e d esc re v e, d eix a a s p esso as d esc o nfo rtá v eis .
Mas e ssa s o u e u. G ord a. N ão é n enhum p ala v rã o . N ão é n enhum in su lto . P elo m eno s, n ão q uand o e u
dig o . P or is so , se m pre m e p erg unto : p or q ue n ão c huta r lo go d e u m a v ez p ara lo nge e ssa p ed ra d o
cam in ho ?

DO IS
Esto u p assa nd o u m p ano n o b alc ão , q uand o e ntr a m d ois c ara s e u m a g aro ta . A l o ja e stá
t ã o s e m m ovim ento q ue j á q uase r e m ovi o v ern iz d a m ad eir a , d e ta nto e sfr e gar..
— E m q ue p osso s e rv i- lo s? — p erg unto , s e m l e v anta r o s o lh o s.
— B o! A rm ad or d os B uld ogues, o ti m e d e b asq uete d a H oly C ro ss! — g rita o c ara à d ir e ita , f a ze nd o
u m a v oz d e l o cuto r, m ão s e m v olta d a b oca.
Com o B o n ão a p are ce i m ed ia ta m ente , o s d ois f ic am r e p eti n d o s e u n o m e s e m p ara r:
— B o! B o! B o!
A g aro ta e ntr e o s d ois r e v ir a o s o lh o s.
— B o! — g rita M arc us. — V em l o go , p ro s s e us a m ig o s c ala re m a b oca.
Bo c o nto rn a o b alc ão , e nfia nd o a v is e ir a n o b ols o tr a se ir o d a c alç a. C ru za o s b ra ço s s o bre o p eito
e stu fa d o.
— F ala , C ollin . — A g aro ta e le c um prim enta c o m u m a ceno d e c ab eça. — A mber. R ory . — R eco sta -
s e n o b alc ão a tr á s d e n ó s, a um enta nd o o e sp aço q ue o s e p ara d os a m ig o s. — O q ue e stã o fa ze nd o p or
e ssa s b and as?
— D and o u m r o lé — r e sp ond e C ollin .
Bo p ig arre ia , m as n ão f a z c o m entá rio s. A te nsã o v ib ra e ntr e o s d ois .
O o utr o c ara , a cho q ue R ory , f ic a e stu d and o o m enu n o b alc ão .
— O i — d iz e le p ara m im . — S erá q ue p ode m e tr a ze r d ois c acho rro s--q uente s? S ó c o m m olh o e
m osta rd a.
— H um , c la ro . — D ig ito o p ed id o n o c o m puta d or, te nta nd o n ão d eix ar q ue m eus o lh o s s e d esv ie m .
— F az m uito te m po — c o m enta A mber.
Com o i s so é p ossív el? T odos o s a no s u m as tr in ta p esso as p or tu rm a s e f o rm am n a H oly C ro ss.
Collin p assa o b ra ço p elo s o m bro s d e A mber.
— T em os s e nti d o a s u a f a lta l á n a q uad ra . P or o nd e te m a nd ad o?
— P or a í — r e sp ond e B o.
— Q uer b eb er a lg um a c o is a ? — p erg unto .
— Q uero — r e sp ond e R ory , e e ste nd e u m a n o ta d e c in q uenta d ia nte d o m eu r o sto .
— S ó te nho tr o co p ra v in te , n o m áxim o. — A ponto p ara u m p eq ueno c arta z e sc rito à m ão n a f r e nte d a
c aix a r e gis tr a d ora .
— E e u s ó tr o uxe o c artã o d e c ré d ito , B o — a v is a C ollin . — Q ueb ra e ssa a í p ra g ente , n a m ora l.
Por u m m om ento , f a z-s e u m s ilê ncio m orta l, q ue p are ce n ão a cab ar n unca.
— N ão tr o uxe a m in ha c arte ir a .
Collin s o rri.
Amber, a I n crív el R ev ir a d ora d e O lh o s, e nfia a m ão n o b ols o e p õe u m a n o ta d e d ez n o b alc ão .
Dou o tr o co a e la e d ig o a R ory :
— S eu p ed id o j á v ai s a ir.
Collin i n clin a a c ab eça, m e o bse rv and o.
— C om o é s e u n o m e?
Abro a b oca p ara r e sp ond er, m as...
— W illo w dean. O n o m e d ela é W illo w dean — r e sp ond e B o. — T enho q ue v olta r a o tr a b alh o . — B o
s e d ir ig e à c o zin ha e n em s e d ig na a v ir a r-s e q uand o o s a m ig o s p ed em q ue v olte .
— G oste i d a b arb a — e lo gia A mber. — F ic o u b em e m v ocê. — M as e le j á s e f o i.
Ela o lh a p ara m im c o m a r i r rita d o, m as tu d o q ue p osso f a ze r é d ar d e o m bro s.
Já e m c asa , v ou a té o s f u nd os e e ntr o p ela p orta d e v id ro . A d a f r e nte e stá e m perra d a
há a no s. M am ãe s e m pre d iz q ue p re cis a m os c ham ar u m m arc eneir o p ara c o nse rtá -la ,
m as L ucy a chav a q ue e ra a d esc ulp a p erfe ita p ara n ão te rm os q ue a te nd er a c am pain ha. E n ão d eix av a d e
t e r r a zã o .
Mam ãe e stá s e nta d a à m esa d a c o zin ha, a in d a d e u nifo rm e, c o m o s c ab elo s lo uro s p re so s n o a lto d a
c ab eça, a ssis ti n d o a o n o ti c iá rio n a te v ê p ortá ti l. A té o nd e m e le m bro , e la s e m pre v iu te v ê a li, p orq ue
L ucy c o stu m av a o cup ar o s o fá d a s a la . M as já fa z s e is m ese s q ue m in ha ti a m orre u, e m am ãe a in d a e stá

aco m panhand o a p ro gra m ação p ela te v ê m eno r n a c o zin ha.
Ela b ala nça a c ab eça p ara o a p re se nta d or, e e ntã o d iz :
— O i, D um plin ’. O j a nta r e stá n a g ela d eir a .
Larg o a b ols a n a m esa e p ego o p ra to e m bru lh ad o e m p lá sti c o f ilm e. O f im d as a ula s a ssin ala o i n íc io
da te m pora d a d e p re p ara ti v os p ara o c o ncurs o d e b ele za , o q ue s ig nific a q ue e la e stá d e d ie ta . E , q uand o
min ha m ãe e stá d e d ie ta , o m und o i n te ir o ta m bém e stá . C onclu sã o : o j a nta r é s a la d a c o m f r a ngo g re lh ad o.
Poderia s e r p io r. E j á f o i.
Ela s o lta u m m uxo xo .
— V ocê e stá c o m u m a e sp in ha n a te sta . N ão te m c o m id o a q uela s c o is a s g o rd uro sa s q ue s e rv em n a
la ncho nete , te m ?
— V ocê s a b e q ue e u n ão m orro d e a m ore s p or h am búrg uer e c acho rro --q uente — re sp ond o. S in to
vonta d e d e s o lta r u m s u sp ir o , m as m e c o nte nho p orq ue e la v ai o uv ir. P or m ais a lto q ue e ste ja o v olu m e
da te v ê. M esm o q ue j á s e h o uv esse p assa d o d ois a no s e e u j á e sti v esse n a f a culd ad e o u m ora nd o e m o utr a
cid ad e, a c ente nas d e q uilô m etr o s d e d is tâ ncia , m in ha m ãe m e o uv ir ia s u sp ir a r e m e te le fo naria p ara
diz e r: “ D um plin ’, v ocê s a b e q ue e u d ete sto e sse s s u sp ir o s. N ão h á n ad a m ais d esin te re ssa nte d o q ue u m a
jo vem r e cla m ona.”
Na m in ha o pin iã o , e ssa te se e stá f u ra d a s o b v ário s a sp ecto s.
Sento -m e p ara ja nta r e d esp ejo u m a g enero sa p orç ão d e m olh o r a nch n o p ra to , p orq ue n o o ita v o d ia
Deus c rio u e ssa d elíc ia .
Mam ãe c ru za a s p ern as e e ste nd e u m d os p és, e xam in and o o e sm alte d esc asc ad o n as u nhas.
— C om o f o i o tr a b alh o ?
— T ud o tr a nq uilo . U m c ara n o d riv e-th ru m e p aq uero u. F ui c ham ad a d e
delíc ia
.
— A h, q ue f o fo ! A té q ue é l is o nje ir o , s e v ocê p ensa r b em .
— A h, m ãe, p or f a v or. É g ro te sc o , i s so s im .
Ela g ir a o b otã o d a te v ê, d eslig and o-a .
— F ilh a, a cre d ite e m m im q uand o e u te d ig o q ue o m erc ad o m asc ulin o v ai d im in uin d o à m ed id a q ue a
gente e nv elh ece, p or m ais b em -c o nse rv ad a q ue a g ente s e m ante nha.
Essa n ão é u m a c o nv ers a q ue e u e ste ja a f im d e te r.
— R on f ic o u d oente e n ão f o i tr a b alh ar.
— T ad in ho . — E la r i. — J á te c o nte i q ue e le fo i lo ucam ente a p aix o nad o p or m im n o s e gund o g ra u,
não c o nte i?
Pelo m eno s um a v ez p or se m ana, d esd e q ue co m ecei a tr a b alh ar, ela re fr e sc a a m in ha m em ória .
Quand o m e c and id ate i a o e m pre go n o fe ria d ão d o D ia d e A ção d e G ra ças, L ucy m e c o nto u q ue s e m pre
su sp eita ra te r s id o o c o ntr á rio . M as, d o je ito c o m o m in ha m ãe fa la , é c o m o s e to dos o s c ara s d a c id ad e
ti v esse m s id o v id ra d os n ela .
“T odo m und o q ueria ti r a r u m a c asq uin ha d a v enced ora d o c o ncurs o M is s J o vem F lo r d o T exas d e
Clo ver C ity ”, d ecla ro u c erta v ez, a v oz a rra sta d a d ep ois d e v ária s ta ças d e v in ho .
Esse c o ncurs o fo i a ú nic a r e aliz a ção im porta nte n a v id a d a m in ha m ãe. E la a in d a c ab e n o v esti d o —
fa to q ue n ão d eix a n in guém e sq uecer, ra zã o p or q ue, n a q ualid ad e d e c hefe d o c o m itê e a p re se nta d ora
ofic ia l, f a z q uestã o d e s e e sp re m er n o d ito -c ujo , n um a e sp écie d e b is a nual p ara o s f ã s d e c arte ir in ha.
Sin to n o s p és o p eso d e R io t, o g ato d a m in ha ti a . C om eço a b ala nçá-lo s, e e le r o nro na.
— V i u m m onte d e g aro ta s o rg aniz a nd o u m a e sp écie d e
boot c a m p
.
Ela s o rri.
— V ou te c o nta r... A c o m peti ç ão f ic a m ais a cir ra d a a c ad a a no .
— E v ocê? C om o f o i o s e u d ia n a c asa d e r e p ouso ?
— A h, n ão fo i d os m elh o re s, n ão . — E la fo lh eia o ta lã o d e c heq ues, e e ntã o m assa geia a s tê m pora s.
— P erd em os E unic e.
— A h, n ão . S in to m uito , m ãe.
Um a v ez p or a no , c o m o C in d ere la , m in ha m ãe l e v a u m a v id a g la m oro sa , a v id a q ue s e m pre q uis v iv er.
Mas, d ura nte o re sto d o a no , e la tr a b alh a c o m o s u p erv is o ra n o R ancho B uena V is ta , u m la r d e id oso s
ond e fa z c o is a s e xó ti c as, c o m o d is tr ib uir o s m ed ic am ento s, a lim enta r o s v elh in ho s e c uid ar d a h ig ie ne
dele s. E unic e e ra u m a d as re sid ente s fa v orita s d e m am ãe. S em pre a c o nfu nd ia c o m u m a d as ir m ãs e
su ssu rra v a s e gre d os d e i n fâ ncia n o s e u o uv id o q uand o e la s e a b aix av a p ara a ju d ar a i d osa a s e l e v anta r.
— E la c o m eu u m a ti g elo na d e a m bro sia n a s o bre m esa , c o m o s e m pre , e f e cho u o s o lh o s. — B ala nça a
cab eça. — D eix ei q ue c o nti n uasse s e nta d a p or u m m in uto , p orq ue p ense i q ue e sti v esse c o chila nd o. —
Lev anta -s e e d á u m b eijo n a m in ha c ab eça. — V ou d orm ir, D um plin ’.
— B oa n o ite .

Esp ero a té o uv ir o s o m d a p orta s e fe chand o, e ntã o d esp ejo o p ra to n a la ta d e lix o e c ub ro tu d o c o m
um d aq uele s jo rn ais g ra tu ito s q ue d is tr ib uem n a ru a. P ego u m p unhad o d e b is c o ito s e u m re fr ig era nte
ante s d e s u b ir a e sc ad a c o rre nd o. P aro p or u m m om ento d ia nte d a p orta fe chad a d o q uarto d e L ucy e
deix o q ue o s d ed os r o cem a m açaneta .

TR ÊS
— A cho q ue q uero tr a nsa r c o m o T im n esse v erã o — d ecla ra E lle n, e e ntã o p ega u m
c ub in ho d e q ueijo e o e nfia n a b oca. T odas a s s e xta s-fe ir a s, d esd e o a no p assa d o, E l v em “ estu d and o a
h ip óte se ” d e tr a nsa r c o m T im . F ala nd o s é rio , a nte s d o c o m eço d e c ad a f im d e s e m ana, n ó s d is c uti m os o s
p ró s e c o ntr a s d e a d up la f in alm ente c hegar à s v ia s d e f a to .
— A cho e str a nho . — N ão le v anto o s o lh o s d as m in has a no ta çõ es. N ão s o u m á a m ig a, m as é q ue já
t i v em os e ssa c o nv ers a m il v eze s. A lé m d o m ais , é o ú lti m o d ia d e a ula , e e u a in d a te nho q ue fa ze r u m a
p ro va f in al. E sto u te nta nd o m ete r a c ara n o s e stu d os, m as E l n ão p re cis a p orq ue j á f e z to das.
Com a b oca c heia d aq uela s n o ze s c ara m ela d as, e la p erg unta :
— A cha e str a nho o q uê?
— M e fa z p erg unta s s o bre a m até ria ? — p eço , c o lo cand o u m p unhad o d e p assa s n a b oca, e e ste nd o
p ara e la u m a f o lh a c o m tó pic o s s o bre e sc alõ es d o g o vern o . — Q ue n ão é n enhum c asa m ento . N ão é ti p o...
“ A hhh, e u g o sto d as c o re s d o v erã o . V ou p erd er a v ir g in d ad e n o v erã o , p ra p oder c o m bin ar a lin gerie
c o m a m in ha e sta ção f a v orita .” A p esso a d ev e f a ze r s e xo p orq ue e stá a f im .
Ela r e v ir a o s o lh o s.
— M as o v erã o é u m p erío do d e tr a nsiç ão . E u p osso v olta r d as fé ria s já se nd o
mulh er
— d iz ,
e sb anja nd o d ra m ati c id ad e.
Rev ir o o s o lh o s p ara m in ha a m ig a. D ete sto f a la r p or f a la r. S e E l e sti v esse m esm o p ensa nd o e m l e v ar
i s so a d ia nte , e u te ria s u b id o n a m esa e e ngati n had o a té e la p ara a g ente te r u m a c o nv ers a o lh o n o o lh o
s o bre o a ssu nto , n o s s e us m ín im os d eta lh es. M as e la n unca v ai e m fr e nte . N ão e nte nd o c o m o p ode fa la r
t a nto s o bre a
possib ilid ade
d e tr a nsa r.
Quand o p erc eb e q ue n ão m ord i a i s c a, d á u m a o lh ad a n a f o lh a.
— O s tr ê s p odere s d o g o vern o .
— E xecuti v o, le gis la ti v o e ju d ic iá rio . — D ecid o lh e d ar u m a m ig alh in ha. — D e m ais a m ais , tr a nsa r
n ão fa z d e n in guém u m a m ulh er. Is so n ão p assa d e u m c lic hê b obo. S e q uis e r tr a nsa r, tr a nse , m as n ão
t r a nsfo rm e o s e xo n um a c o is a d esc o m unal, c o m u m s ig nific ad o h is tó ric o . D esse je ito , v ocê v ai a cab ar
t e nd o u m a d ecep ção .
Ela c urv a o s o m bro s e f r a nze a s s o bra ncelh as.
— Q uanto s s e nad ore s e d ep uta d os c o m põem o C ongre sso ?
— Q uatr o cento s e tr in ta e c in co s e nad ore s e c em d ep uta d os.
— A certo u o s n úm ero s e e rro u o s c arg o s.
— T á. — R ep ito o s n úm ero s e m v oz b aix a. — E a e sta ção d o a no ta m bém n ão im porta , d esd e q ue
v ocê s in ta q ue é a h o ra c erta , c o nco rd a? A fin al, o in v ern o ta m bém é le gal, p ois v ocê p ode d iz e r... “ A i,
e sto u c o m ta nto f r io ... V em m e e sq uenta r.”
Ela r i.
— É , te m r a zã o .
Mas e u n ão q uero te r r a zã o . N ão q uero q ue E l tr a nse a nte s d e m im . T alv ez a té s e ja e go ís ta d a m in ha
p arte , m as n ão v ou s a b er lid ar c o m o fa to d e e la já te r fe ito u m a c o is a q ue e u a in d a n ão fiz . A cho q ue
e sto u c o m m ed o d e n ão s a b er s e r u m a b oa a m ig a. A fin al, s e xo é c o is a s é ria , e c o m o e u p osso o rie ntá -la
n um te rre no e m q ue n unca p is e i?
Min ha v onta d e é p ed ir q ue e sp ere . M as e la e T im já e stã o n am ora nd o h á q uase u m a no e m eio , e E l
a in d a fic a v erm elh a to da v ez q ue fa la n ele . N ão s e i c o m o s e m ed e o a m or d e u m a p esso a, m as e sse
p are ce u m b om p onto p ara c o m eçar. T am bém n ão se i se lh e p ed ir ia p ara e sp era r p or q ualq uer o utr o
m oti v o a lé m d e m im .
Enq uanto d ou u m a o lh ad a n o m eu r e su m o, M illie a v ança p ela n o ssa f ila c o m u m a b and eja d e a lm oço e
a m elh o r a m ig a, A mand a L um bard , a lg uns p asso s a tr á s. J u nta s, M illie e A mand a f o rm am u m a e sp écie d e
a lv o m óvel g ig ante q ue s ó f a lta g rita r: Z O EM A G EN TE.
Amand a te m u m a p ern a m ais c urta d o q ue a o utr a , p or i s so é o brig ad a a u sa r b ota s o rto péd ic as q ue a
d eix am pare cid a co m Fra nkenste in (p elo m eno s, na opin iã o do Patr ic k T ho m as). Q uand o éra m os
p eq uenas e e la a in d a n ão u sa v a e sse s s a lto s e sp ecia is , A mand a m ancav a, b ala nçand o o s q uad ris a c ad a
p asso . E la nunca p are ceu se im porta r, m as is so não im ped ia q ue as p esso as fic asse m re p ara nd o e
c o m enta nd o. O ap elid o é b asta nte id io ta , se a gente p ensa r b em . F ra nkenste in era o m éd ic o , não o

monstr o .
Millie a cena, e e u l e v anto a m ão d ep re ssa q uand o e la p assa p or n ó s.
El s o rri.
— A miz a d e n o va?
Dou d e o m bro s.
— À s v eze s, s in to p ena d ela .
— P ra m im , ela pare ce fe liz . — E l m e fa z m ais alg um as perg unta s so bre a m até ria , enq uanto
te rm in am os d e a lm oçar. — Q ue s is te m a e stá e m v ig ência p ara q ue n enhum s e to r d o g o vern o s e to rn e
podero so d em ais ?
— O s is te m a d e f r e io s e c o ntr a p eso s.
— E a í, c o m o f o i o tr a b alh o o nte m à n o ite ? C om o v ai o G aro to d a E sc o la P arti c ula r?
Com eço a e nro la r n o d ed o u m a p onta s o lta d a e sp ir a l d o c ad ern o .
— T ud o tr a nq uilo . — D ou u m a o lh ad a n o m eu a lm oço d a c anti n a. — E le e stá b em .
Tenho v onta d e d e c o nta r tu d o s o bre o s a m ig o s g ro sse ir o s e a b arb a p or f a ze r q ue B o e stá u sa nd o, m as
não s e i c o m o to car n o a ssu nto s e m d ar a im pre ssã o d e q ue s o u u m a lo uca v arrid a q ue g uard a a s u nhas
co rta d as d o c ara n um p ote d e v id ro d eb aix o d a c am a. N a n o ite p assa d a, ti v e q ue r e co nta r tr ê s v eze s o
din heir o d a r e gis tr a d ora , p orq ue e le n ão p ara v a d e p assa r n a m in ha f r e nte .
— E u g o sto d a S w eet 1 6, m as s in to u m a c erta i n v eja d e v ocê p or tr a b alh ar c o m g aro to s. — E la g uard a
a c eno ura m ord id a n o s a co p lá sti c o e p uxa o z íp er. — A in d a n ão c o nsig o a cre d ita r q ue n ão e sta m os
tr a b alh and o j u nta s.
El n unca v ai m e d eix ar e sq uecer q ue e str a guei n o sso s p la no s d e f a ze r u m a d obra d in ha d ep ois d a a ula
quand o a rra nje i u m e m pre go n o H arp y’s . S e e la n ão te v e s e nsib ilid ad e p ara p erc eb er p or q ue e u n ão q uis
tr a b alh ar n um a l o ja c uja s r o up as n ão c ab em e m m im , e u é q ue n ão i a m e d ar a o tr a b alh o d e e xp lic ar.
— P or q ue v ocê g o sta ria d e tr a b alh ar c o m g aro to s? N ão f o i v ocê m esm a q ue a cab ou d e d iz e r q ue q uer
tr a nsa r c o m o T im ?
Ela d á d e o m bro s, c o m o s e o m eu a rg um ento f o sse i r re le v ante .
— S eria d iv erti d o, s ó i s so .
Term in am os d e a lm oçar, e e u fa ço a p ro va s o bre o g o vern o . E p onto fin al. O s e gund o a no d o e nsin o
méd io acab ou. O esta cio nam ento se enche de grito s de co m em ora ção e pneus canta nd o. M as não
exp erim ento a m esm a s e nsa ção d e p ro gre sso q ue o s o utr o s. O q ue s in to é q ue e sto u p re sa , e sp era nd o q ue
a m in ha v id a a co nte ça.

QUATR O
O c arro d a m am ãe j á e stá n a p orta d a g ara gem q uand o c hego e m c asa d ep ois d o ú lti m o
d ia d e a ula . E sta cio no o m eu, p uxo o f r e io d e m ão e r e co sto a c ab eça n o d esc anso d o b anco .
Adoooro
o
m eu c arro . É u m P onti a c G ra nd P rix v erm elh o -c ere ja 9 8, q ue g anhei d e L ucy e b ati z e i d e J o le ne.
Já e m c asa , s u b o a e sc ad a s e guin d o o r u ge-ru ge d e te cid os n o q uarto d a m in ha ti a , o nd e m am ãe e stá
s a cud in d o s u a b und a a rre b ita d a. E is so p orq ue e stá u sa nd o o a gasa lh o d e g rife q ue u m e x-n am ora d o lh e
d eu h á s e is a no s. E la o c ham a d e “ lo ungew ear” e é o s e u b em m ais v alio so , s ó p erd end o p ara a c o ro a d e
r a in ha d o c o ncurs o M is s J o vem F lo r d o T exas.
— C heguei — a v is o , o p ânic o tr a nsp are cend o n a m in ha v oz. — O q ue e stá f a ze nd o a q ui?
Ela s e e nd ir e ita e s u sp ir a , s o pra nd o o s fio s d e c ab elo d a te sta . O r o sto e stá v erm elh o d e c alo r, e o s
f io s l o uro s n a te sta s e e nro la ra m e m c achin ho s.
— A f u nerá ria f in alm ente m and ou a q uela u rn a q ue e nco m end am os, p or i s so s a í m ais c ed o d o tr a b alh o .
R eso lv i v olta r p ara c asa e c o m eçar a p ôr a s c o is a s e m o rd em .
Solto a m ochila n o c o rre d or e e ntr o n o q uarto .
— Q ue c o is a s?
Mam ãe s e s e nta n a c am a a o la d o d e u m a p ilh a d e v esti d os d e a nd ar e m c asa , to dos e ngo m ad os e
p end ura d os n o s c ab id es a d orn ad os c o m f ita s.
— A h, v ocê s a b e, a s c o is a s d e L ucy. N ossa , c o m o ti n ha m ania d e g uard ar tu d o! M al d á p ara a b rir a s
g av eta s. A cre d ita q ue e nco ntr e i a té o v éu d a s u a a v ó? E u e sta v a a tr á s d ele h á s é culo s.
Curv o o s l á b io s n um s o rris o .
— A h, é ?
Mam ãe re iv in d ic o u o v esti d o d e c asa m ento d a v ovó q uand o e la a in d a e sta v a n o a silo . N ão te ria
m esm o c ab id o e m L ucy, p or i s so a s d uas n unca c hegara m a d is c uti r. M eno s p elo v éu, p orq ue e sse s e rv ir ia
p ara q ualq uer u m a. E la s b rig ara m p or c ausa d ele d ura nte m ese s, a té q ue o s n erv os d e L ucy fic ara m tã o
a b ala d os q ue e la d esis ti u . E ntã o , h á a lg uns a no s, o b end ito v éu d esa p are ceu.
Era m in ha m ãe q uem n ão l a rg av a d o p é d ela , m as é c o m o s e L ucy ti v esse f ic ad o c o m a ú lti m a p ala v ra .
Não c o stu m av a s e r a ssim o te m po to do. A s d uas n em s e m pre v iv era m b rig and o, m as e sse s m om ento s
s e d esta cam m ais n a m in ha m em ória d o q ue a s n o ite s d e s e xta e m q ue e u c hegav a e m c asa e a s e nco ntr a v a
j u nta s n o s o fá , a o s r is o s, a ssis ti n d o a o s s e us f ilm es a nti g o s f a v orito s.
— E o q ue v ai f a ze r c o m to das e ssa s c o is a s? — p erg unto .
— B om , a cho q ue v ou d oar. V ocê s a b e c o m o é d ifíc il p ara a s m ulh ere s m aio re s e nco ntr a re m r o up as,
p or i s so te nho c erte za d e q ue a lg uém v ai a d ora r tu d o i s so .
— M as e s e e u q uis e r a lg um as? N ão p ra u sa r. S ó c o m o l e m bra nça.
— A h, D um plin ’, v ocê n ão q uer e sse s v esti d os v elh o s. E a s g av eta s s ó tê m c alc in has, s u ti ã s, a náguas
e r e co rte s d e j o rn ais .
Eu se i q ue já d ev eria te r su p era d o a m orte d e L ucy. A fin al, fa z se is m ese s. E , a in d a a ssim , e sto u
s e m pre e sp era nd o v ê-la c o m R io t n o c o lo o u f a ze nd o p ala v ra s c ru za d as n a c o zin ha. M as n ão e stá . E la s e
f o i. E n em te m os r e tr a to s d ela . A r e alid ad e d o s e u c o rp o n ão e ra a lg o q ue e la g o sta sse d e v er r e fle ti d a
s o b a f o rm a d e f o to gra fia s.
Is so m e a ssu sta . S e n ão p osso v ê-la o u o uv i- la , v ou a cab ar p or e sq uecê-la .
Aos tr in ta e s e is a no s, p esa nd o d uze nto s e v in te e c in co q uilo s, L ucy m orre u. S ozin ha, d e u m in fa rto
f u lm in ante , s e nta d a n o s o fá e nq uanto a ssis ti a a u m p ro gra m a n a te v ê. N in guém a v iu m orre r. P or o utr o
l a d o, n in guém e m c asa ja m ais a v ir a v iv er. E a go ra n ão re sto u n in guém p ara le m brá -la . N ão d o m odo
c o m o e la g o sta ria d e s e r l e m bra d a. P orq ue m am ãe, s e m pre q ue p ensa n a i r m ã, s ó c o nse gue s e l e m bra r d e
c o m o e la m orre u.
É p or is so q ue a id eia d e e la d esm onta r o q uarto c o m o s e fo sse u m a e xp osiç ão iti n era nte s e r e v este
d essa d or e s e tr a nsfo rm a e m a lg o to ta lm ente n o vo.
Ela a b re a g av eta d a m esa d e c ab eceir a e c o m eça a s e p ara r p ap éis e m v ária s p ilh as. P osso v er s u a
c ab eça tr a b alh and o: o q ue g uard ar, o q ue d esc arta r, o q ue d eix ar d e l a d o p ara d ecid ir d ep ois . A lg uns d ia s
e u m e p erg unto e m q ual d as c ate go ria s m e e ncaix o .
— P or q ue n ão d eix a c o m o e stá ? — p erg unto . — E ra o q uarto d ela .
Mam ãe s e v ir a p ara m im c o m u m a e xp re ssã o i n cré d ula .

— D um plin ’, e sta m os d eix and o u m q uarto in te ir o d a c asa se e ncher d e p oeir a . E a te m pora d a d o
co ncurs o v ai c o m eçar. V ou p assa r o v erã o to do tr a b alh and o fe ito u m a c o nd enad a. V ai s e r b om te r u m
quarto p ara c o stu ra r tr a je s tí p ic o s o u m onta r u m o u o utr o a d ere ço d e c enário s e m q ue a c asa i n te ir a f iq ue
entu lh ad a d e c o is a s.
— U m a te liê ? — P ro nuncio a p ala v ra c o m a m arg ura . — E stá p ensa nd o e m tr a nsfo rm ar o q uarto d e
Lucy n um a te liê ?
Ela a b re a b oca, m as s a io a nte s q ue te nha te m po d e r e sp ond er.
No H arp y’s , B o e stá f r ita nd o h am búrg uere s n o g rill, u sa nd o f o nes d e o uv id o. L ev anto
a m ão p ara a cenar q uand o p asso .
— F eliz v erã o , W illo w dean — d iz ele , a v oz um p ouco alta d em ais . O s lá b io s estã o m ela d os,
verm elh o s e c o m a lg um s a b or q ue e u a d ora ria p ro var.
Beija r B o. A i d eia m e m ata d e v erg o nha. S in to v onta d e d e m e tr a nsfo rm ar n um a p oça e e sc o rre r p elo
ra lo d a c o zin ha.
Na f r e nte d a l o ja , M arc us j á e stá d ia nte d o c aix a.
— C hego u a nte s d e m im ? — c o m ento .
— T iff te m m e d eix ad o a q ui m ais c ed o p or c ausa d os tr e in o s.
Marc us e e u n unca p assa m os d e f ig ura nte s n a v id a u m d o o utr o . E le e stá u m a no à f r e nte n a e sc o la q ue
fr e q uenta m os d esd e a i n fâ ncia . C onheço o c ara d o m esm o j e ito c o m o a g ente c o nhece o p rim o d a m elh o r
am ig a: d e n o m e e d e v is ta . Q uand o c o m ecei n o H arp y’s , e ra l e gal tr a b alh ar c o m a lg uém q ue p elo m eno s
eu r e co nhecia , e a go ra a cho q ue s o m os a m ig o s. E le e T iffa nie , a c ap itã d o ti m e d e b eis e b ol, c o m eçara m a
nam ora r n o i n íc io d o a no , e e m q uestã o d e s e m anas s u as v id as j á ti n ham s e c o la d o f e ito v elc ro .
— C om o f o i n as p ro vas f in ais ? — p erg unta M arc us.
Dou d e o m bro s. D is tr a íd a, m e v ir o p ara o lh ar e v ejo B o n o s o bse rv and o d e tr á s d o b alc ão . E e le n ão
desv ia o s o lh o s. M eu e stô m ago d á v olta s d e m onta nha-ru ssa .
— A certe i m eu n o m e — r e sp ond o. — D ev e v ale r a lg um a c o is a . E v ocê?
— F ui b em . E stu d ei c o m a T iff. E la v ai v is ita r v ária s f a culd ad es n o s p ró xim os m ese s.
Perc eb o q ue p ro vav elm ente e u d ev eria e sta r p ensa nd o n o q ue fa ze r q uand o c o nclu ir o e nsin o m éd io ,
mas n ão c o nsig o m e im agin ar n a fa culd ad e e n ão s o u c ap az d e fa ze r p la no s p ara a lg o q ue n ão c o nsig o
im agin ar.
— E v ocê? T am bém v ai v is ita r a lg um a?
Ele v ir a a v is e ir a d e l a d o e c o nco rd a, p ensa ti v o.
— A cho q ue s im .
Os sin in ho s acim a d a p orta co m eçam a ti lin ta r q uand o alg uns garo to s d a esc o la entr a m em fila .
Enq uanto e sp era m os q ue te rm in em d e l e r o m enu, M arc us o lh a p ara a v itr in e e d iz :
— M in ha n am ora d a v ai e m bora d a c id ad e, e s ó s e i q ue e u v ou c o m e la .
Clo ver C ity é o ti p o d e lu gar q ue a g ente d eix a p ara tr á s. É u m a m or q ue te s u fo ca o u te e xp uls a .
Poucas p esso as c o nse guem s a ir d aq ui e n ão v olta r, e nq uanto q ue a m aio ria d e n ó s b eb e, p ro cria e v ai à
ig re ja , e i s so p are ce s e r o b asta nte p ara n o s m ante r v iv os.
Com o f e cham os m ais ta rd e n as s e xta s e n o s s á b ad os, m am ãe j á e stá d orm in d o q uand o
chego . D ep ois d e a p agar a s lu ze s e tr a ncar a p orta d os fu nd os, s u b o a e sc ad a p é a nte
pé e d ou u m a c o nfe rid a p ara v er s e e la n ão a co rd ou. R onco s s u av es s a em d e b aix o d a s u a p orta e nq uanto
entr o n o q uarto d e L ucy, p is a nd o c o m to do o c uid ad o p ara o a sso alh o n ão r a nger, e c o m eço a r e v ir a r a s
pilh as d e o bje to s f e ita s p or m am ãe.
São m il q uin q uilh aria s in úte is , p ilh as d e r e co rte s d e jo rn ais s o bre p esso as e lu gare s q ue n unca fa rã o
se nti d o p ara m im . D ete sto q ue h aja c o is a s — c o is a s tr iv ia is , ti p o q ual a r a zã o d e e la g uard ar u m a m até ria
so bre a a uto ra d e u m liv ro d e c ulin ária q ue v ir ia v is ita r a b ib lio te ca — s o bre a s q uais n unca p ud e lh e
perg unta r p or n em te r c hegad o a to m ar c o nhecim ento .
A p io r p arte fo i o se rv iç o re lig io so . E n ão a p enas p elo s m oti v os ó bvio s. M eta d e d e C lo ver C ity
co m pare ceu — a fin al, o q ue m ais r e sta a f a ze r n um a c ir c unstâ ncia d essa s? A cho q ue to dos e sp era v am v ê-
la n um c aix ão , c o m o u m a e sp écie d e a d vertê ncia s in is tr a . M as a tr is te v erd ad e é q ue n ão p ud em os p agar
pelo c aix ão m aio r e m ais c aro . P or i s so , a p esa r d a c ris e n erv osa d e m am ãe p or n ão p oder d ar à i r m ã u m
“ente rro d ecente ”, L ucy f o i c re m ad a.
Mas n ão s u p orto m e le m bra r d o s e rv iç o r e lig io so . P re fir o r e co rd ar o utr a s o casiõ es, c o m o o d ia e m
que e la m e le v ou à p rim eir a a ula d e b alé , q uand o e u e sta v a n o te rc eir o a no d o e nsin o fu nd am enta l. M eu

co lla nt se esti c av a ao m áxim o so bre a b arrig a re d ond a, e as co xas ro çav am , p or m ais q ue eu lh es
im plo ra sse p ara n ão f a ze re m i s so . J á e ra b em g o rd a n a é p oca. E m uito a lta . N ão m e p are cia e m n ad a c o m
as o utr a s m enin as q ue e sp era v am p ara e ntr a r n a s a la d e a ula .
Com o m e r e cuse i a s a ir d o c arro , L ucy v eio s e s e nta r a o m eu l a d o n o b anco tr a se ir o .
“W ill.” S ua v oz e sta v a d oce c o m o m el. P re nd eu u m a m echa s o lta d os m eus c ab elo s a tr á s d a o re lh a,
ti r o u u m le nço d e p ap el d o b ols o d o v esti d o d e a nd ar e m c asa e m e e ntr e go u. “ E u p erd i m uito te m po n a
vid a m e p re o cup and o c o m o q ue a s p esso as d ir ia m o u p ensa ria m . E , à s v eze s, e ra e m r e la ção a c o is a s
bobas, c o m o u m a i d a à m erc earia o u a o s c o rre io s. M as h o uv e o casiõ es e m q ue m e p ro ib i d e f a ze r c o is a s
im porta nte s. E tu d o p orq ue e sta v a c o m m ed o d e q ue a lg uém m e o lh asse e d ecid is se q ue e u n ão ti n ha
valo r. M as v ocê n ão te m q ue s e i n co m odar c o m e ssa s b obagens. P erd i to do e sse te m po p ara q ue a m in ha
so brin ha n ão ti v esse q ue p assa r p elo m esm o. S e e ntr a r l á e c o nclu ir q ue n ão é p ara v ocê, e ntã o n ão v olte
mais . M as a o portu nid ad e v ocê te m a o brig ação d e a p ro veita r, e stá m e o uv in d o?”
Acab ei f r e q uenta nd o a s a ula s s o m ente n o o uto no , m as n ão f o i i s so o m ais i m porta nte .
Na g av eta d e m eia s d e L ucy, e nco ntr o u m a c aix in ha c o m f ita s c asse te — to das d a D olly . E sc o lh o u m a
ao a caso e a p onho n o so m d a m esa d e c ab eceir a . D eito n a c am a e fic o o uv in d o c o m o v olu m e tã o
baix in ho q ue é q uase u m m urm úrio . L ucy d ev ia a d ora r D olly m ais d o q ue tu d o. E a cho q ue E lle n e e u
ta m bém a d ora m os.
Talv ez a S ra . D ry v er s e ja a m elh o r s ó sia d a D olly P arto n p or e sta s b and as d o T exas, c o m o m esm o
ti p o m ig no n e ti m bre d e v oz. C om o L ucy f o i v ic e-p re sid ente d e u m a s e ção r e gio nal d o f ã -c lu b e d a D olly
até a lg uns a no s a tr á s, a s d uas se m pre se e nco ntr a v am . A cho d ifíc il d eix ar d e a cre d ita r q ue a m in ha
am iz a d e c o m E lle n n ão te nha s id o tr a çad a m uito a nte s d e n asc erm os, n o s te m pos e m q ue D olly e ra u m a
ilu str e d esc o nhecid a, s e m u m to stã o , n o T ennesse e. C om o s e E l fo sse u m a e sp écie d e p re se nte q ue L ucy
se m pre q uis m e d ar.
Não fo i só a a p arê ncia d a D olly q ue n o s a tr a iu . F oi a a ti tu d e in sp ir a d a n a c o nsc iê ncia d e q ue a s
pesso as a chav am e ssa a p arê ncia r id íc ula , m as s e m m ud ar n em u m ú nic o d eta lh e, p orq ue s e s e nti a b em e m
re la ção a s i m esm a. P ara n ó s, e la é ... i n v encív el.

CIN CO
Já n ão a cho m ais a m esm a g ra ça d as fé ria s d e v erã o q ue a chav a q uand o e ra p eq uena.
Q uand o E l e e u e stá v am os n o e nsin o fu nd am enta l, L ucy n o s le v av a a u m a s o rv ete ria . C om a s m ão zin has
m ela d as d e c ald a, s e ntá v am os n o s a lã o m al ilu m in ad o c o m u m v enti la d or d e te to g ir a nd o n a v elo cid ad e
m áxim a, e nq uanto L ucy z a p eav a o s c anais n a te v ê a té e nco ntr a r u m d aq uele s p ro gra m as d e b aix aria s a
q ue m in ha m ãe n unca n o s d eix aria a ssis ti r.
O p rim eir o f im d e s e m ana d o v erã o p assa c o m o u m d ia i g ual a o s o utr o s. N a m anhã d e s e gund a, a co rd o
e e nco ntr o a te la d o c elu la r p is c and o.
ELLE N : N ADAR. A GORA . V ER Ã O. M AIO R. C A LO R.
ELLE N : A GORA .
ELLE N : A GORA .
Não p osso d eix ar d e s o rrir a o v er a s m ensa gens. E lle n v iv e n um c o nd om ín io b em p opula r, q ue a té te m
p is c in a, m as é p ra l á d e m altr a ta d a. C ontu d o, d ura nte o v erã o , o l u gar é u m v erd ad eir o o ásis .
Sei q ue a s g aro ta s g o rd as d ev eria m te r a le rg ia a p is c in as, m as e u a d oro n ad ar. N ão s o u b oba: s e i q ue
a s p esso as f ic am e ncara nd o, m as n ão p odem m e c ulp ar p or e u q uere r d ar u m a r e fr e sc ad a. E p or q ue i s so
d ev eria fa ze r alg um a d ife re nça? P or q ue te r co xas eno rm es e cheia s d e celu lite m e o brig a a p ed ir
d esc ulp as à h um anid ad e?
Paro n a fr e nte d a c asa d a E l e e nco ntr o m in ha a m ig a s e nta d a n a v ara nd a, d e b iq uín i, c o m u m a to alh a
e nro la d a n a c in tu ra .
Nossa s h av aia nas v ão b ate nd o p ela s c alç ad as e nq uanto c am in ham os tr ê s q uarte ir õ es a té a p is c in a, e ,
e m bora a in d a s e ja m d ez d a m anhã, j á e sta m os p in gand o ( m in ha m ãe d iz
cin tila ndo
) d e s u o r.
— A h, n ão ! — e xcla m a E l, e nq uanto e sp era m os n a f ila . — E stá u m f o rm ig ueir o h um ano . — E c ru za o s
b ra ço s.
Dou o b ra ço a e la .
— V am os l á .
Por c ausa d a m ulti d ão , s ó c o nse guim os e nco ntr a r u m a e sp re guiç ad eir a v aga. E l d ese nro la a to alh a d a
c in tu ra e c o rre p ara a p is c in a. T ir o o v esti d o p ela c ab eça, d esc alç o a s h av aia nas e a cele ro n a p onti n ha
d os p és.
El a fu nd a a té o s o m bro s, e nq uanto a á gua b ate n a m in ha c in tu ra , e a s e nsa ção d e fr e sc o r e a lív io m e
f a z r e v ir a r o s o lh o s. A hhh, a go ra s im , é v erã o !
Fic am os b oia nd o c o m o e str e la s-d o-m ar, e e u m e l e m bro d e q ue, q uand o é ra m os p eq uenas, í a m os p ara
b aix o d ’á gua c o m o s ó culo s d e n ata ção e g ritá v am os s e gre d os u m a p ara a o utr a . S ó q ue n ão tí n ham os
n enhum , e ntã o e ra m s ó c o is a s q ue j á s a b ía m os. “ C H ASE A NDER SO N É O M AIO R G ATIN HO!” , g rita v a
E l. “ R O UBEI D EZ D ÓLA RES D A C A RTEIR A D A M AM ÃE!” , g rita v a e u.
Conti n uo b oia nd o a té o o m bro r o çar o s l a d rilh o s d a p is c in a e e u s e nti r u m a s o m bra e m c im a d e m im .
E ntr e ab ro o s o lh o s e v ejo u m g aro ti n ho a gachad o n a b eir a . S ua b oca f o rm a v ária s p ala v ra s.
Fic o d e p é, e o b aru lh o e sti lh aça m eus tí m pano s, q uase m e d and o u m a c o ncussã o c ere b ra l. F echo o s
o lh o s c o m f o rç a p or u m s e gund o. M in ha c ab eça p are ce te r s id o e m bala d a a v ácuo .
— Q ue é ?
O c alç ão v erm elh o d o g aro ti n ho p in ga n um a p oça d ’á gua à s s u as c o sta s.
— P ense i q ue v ocê ti v esse m orrid o. E tá to da v erm elh a. — E ntã o , ele se le v anta se m a m eno r
c erim ônia e v ai e m bora .
Lev o a s m ão s a o r o sto , e a á gua e sc o rre d os d ed os p ara a p ele c o m o g o ta s d e c huv a p or u m a te rra
s e ca e r a chad a. N ão s e i h á q uanto te m po e sto u b oia nd o. O lh o a o r e d or à p ro cura d a E l e m e d ep aro c o m
e la s e nta d a n a n o ssa e sp re guiç ad eir a , c o nv ers a nd o c o m u m c asa l. C am in ho a té a p arte r a sa d a p is c in a o
m ais d ev agar p ossív el, n a e sp era nça d e q ue o s p om bin ho s d ecid am ir e m bora , m as, d ep ois d e m ais u ns
m in uto s te nta nd o g anhar te m po, e le s a in d a n ão a rre d ara m p é.
Vou lo go m e pre p ara nd o e sa io da pis c in a em alta velo cid ad e. E l está se nta d a na beir in ha da
e sp re guiç ad eir a , e nq uanto u m a g aro ta q ue n ão c o nheço s e s e nta n a o utr a p onta c o m u m r a p az à s c o sta s,
c o m o s e e sti v esse p ilo ta nd o u m a m oto c o m e le n a g aru p a.
— O i — d ig o .
Por u m a fr a ção d e s e gund o, E l n ão r e sp ond e, e a o utr a g aro ta fic a m e e ncara nd o c o m u m a r d e q uem

diz :
Com o p osso t e a ju dar? P re cis a d e a lg um a c o is a ? N ão? E ntã o, p ode i r e m bora .
— G ente , e ssa é a W ill, m in ha m elh o r a m ig a. — E l se v ir a p ara m im . — E ssa é a C allie . E o
nam ora d o... — S ua v oz s e a rra sta p or u m s e gund o, e e la e sta la o s d ed os.
— B ry ce — in fo rm a C allie . E le fa z q ue s im à s s u as c o sta s. E stá u sa nd o a q uele s ó culo s e sp elh ad os
rid íc ulo s e sti lo v ôle i d e p ra ia , m eio p are cid os c o m o s d e
Sta r T re k
. S uas m ão s s e gura m o s o m bro s d e
Callie , e e u p erc eb o q ue d ev em s e r d o ti p o d e c asa l q ue n ão d esg ru d a.
— P ra ze r e m c o nhecê-lo s — r e sm ungo .
El m e f u zila c o m o s o lh o s.
Não é q ue e u n ão g o ste d e c o nhecer p esso as. É q ue g era lm ente n ão m e s in to à v onta d e c o m p esso as
que a in d a n ão c o nheço . E ta lv ez se ja e ssa a m in ha c ara cte rís ti c a q ue m ais ir rita a E l. A té o nd e m e
le m bro , e la v iv e te nta nd o e str a gar o n o sso p ar p erfe ito c o m u m a te rc eir a p esso a. T alv ez e u é q ue s e ja a
chata , m as n ão p re cis o d e o utr a m elh o r a m ig a. E m eno s a in d a d essa g aro ta q ue n ão d esg ru d a o s o lh o s d e
mim , c o m o s e e u f o sse u m a cid ente d e tr â nsito .
El s e a fa sta u m p ouco p ara q ue e u p ossa m e s e nta r a o s e u l a d o, m as c o nti n uo o nd e e sto u.
— S ab ia q ue a C allie v ai p arti c ip ar d o c o ncurs o ?
Bry ce a p erta o s o m bro s d a n am ora d a, q ue s o lta u m r is o e str id ente .
— P ois é . M in ha i r m ã f o i f in alis ta h á u ns a no s. A cho q ue s e p ode d iz e r q ue e stá n o s m eus g enes.
— Q ue b om p ra v ocê. — M in ha v oz s a i g ra v e e a m arg ura d a, e m bora s e m a m eno r i n te nção .
El f o rç a u m s o rris o .
— C allie ta m bém v ai p arti c ip ar d aq uele tr e in am ento q ue a gente v iu d ep ois d a aula na se m ana
passa d a.
Não f a ço a m eno r i d eia d o q ue e la e sp era q ue e u d ig a. E ssa c o nv ers a é u m v erd ad eir o l e tr e ir o d e n éo n
pis c and o a m ensa gem B EC O S E M S A ÍD A.
— A liá s, C allie , v ocê s a b e q ue a m ãe d a W ill é a d ir e to ra d o c o ncurs o , n ão s a b e? — p erg unta E l.
Aqui n o S ul, o s jo gad ore s d e fu te b ol a m eric ano s ã o id ola tr a d os c o m o d euse s, e a s c heerle ad ers n ão
fic am m uito a tr á s. M as, e m C lo ver C ity , a s m ulh ere s q ue r e in am s o bera nas s ã o a s m is se s. In fe liz m ente ,
se r a f ilh a g o rd a d a m is s m ais q uerid a d a c id ad e n ão m e c o nfe re ta nto p re stí g io .
Callie b lo queia o s o l c o m a m ão a o l e v anta r o r o sto p ara m im .
— S ei. — S e e u p ud esse m ud ar s ó u m a c o is a n a m am ãe, s e ria o s ta tu s d e e x-m is s. N a v erd ad e, te nho
certe za d e q ue m in ha v id a in te ir a d esla ncharia ti p o e fe ito d om in ó s e e u p ud esse d ar u m je ito d e a p agar
esse e v ento a nual.
Callie s o lta u m a r is a d a.
— M as v ocê n ão v ai p arti c ip ar, v ai?
Esp ero u m s e gund o. D ois . T rê s. Q uatr o . E lle n n ão d iz u m a p ala v ra .
— E p or q ue n ão p arti c ip aria ? — O bvia m ente , e u n unca e ntr a ria n um c o ncurs o d e p opula rid ad e c ru el
daq uele s. M as e d aí? Q ue ti p o d e i m becil f a z e sse ti p o d e d ed ução ?
— V ocê n ão p are ce s e r d esse ti p o d e g aro ta . Q uer d iz e r, n o b om s e nti d o.
De r e p ente , e u m e l e m bro d e q ue o m eu m aiô é m in úsc ulo . O s e lá sti c o s d as c av as m arc am o s q uad ris e
as a lç as a p erta m o s o m bro s. S in to a a nsie d ad e s e e m ara nhar a o m eu r e d or c o m o m il b arb ante s.
— P ois é — c o nti n ua C allie — , B ekah C otte r v ai s e r u m p áre o d uro . A g aro ta é a tí p ic a n am ora d in ha
da A méric a.
O i m puls o d e f u gir c o m eça a p uxar m eus p és.
Mas, o bvia m ente , C allie r e so lv eu f a ze r o m eu v esti d o d e to alh a d e p ra ia , p ara q ue a s u a p re cio sa p ele
não e nco ste n o a sse nto p lá sti c o q uente .
Dig o a E lle n:
— V ou d ar u m p ulo n a s u a c asa p ra u sa r o b anheir o . — E nfio o s p és n as h av aia nas, p ego a p rim eir a
to alh a q ue v ejo e m e a fa sto o m ais d ep re ssa p ossív el.
— T em alg um a co is a erra d a? — O uço a v oz d e C allie p erg unta r, co m o se d is se sse :
Qual é o
pro ble m a d essa g aro ta ?
— M as te m u m v esti á rio a q ui! — a v is a E l a d is tâ ncia .
A to alh a m al d á a v olta n a m in ha c in tu ra . M as n ão m e i m porto . C onti n uo c am in hand o.
Um c arro c heio d e g aro to s p assa p or m im e d á u m a b uzin ad a.
— A h, v ão s e f o der! — g rita E l à s m in has c o sta s.
Dou m eia -v olta . E la v em c o rre nd o p ela c alç ad a, s ó d e b iq uín i, c arre gand o n o s b ra ço s o v esti d o e a
sa co la q ue d eix ei p ara tr á s.
— E sto u te nta nd o te a lc ançar! — g rita e la .
Abro a b oca p ara f a la r, m as e ntã o l e m bro q ue e sto u f u rio sa c o m e la e c o nti n uo a nd and o. E l e e u n unca

brig am os. S ei q ue é n o rm al m elh o re s a m ig as s e d ese nte nd ere m d e v ez e m q uand o, m as n ão n ó s. C la ro ,
podem os a té d is c uti r p or c ausa d e b obagens c o m o p ro gra m as d e te v ê o u o m elh o r v is u al d a D olly , m as
nunca n ad a s é rio . M esm o a ssim , e sto u z a ngad a p or e la n ão te r m e d efe nd id o d a ta l d a C allie . N ão d eu
nem u m a p ala v ra , p oxa.
Talv ez e u e ste ja f a ze nd o u m a te m pesta d e n um c o po d ’á gua. T alv ez s e ja u m a d aq uela s c o is a s q ue s ó e u
no to . C om o a q uela e sp in ha n a te sta q ue a g ente a cha q ue é a ú nic a c o is a q ue o s o utr o s v eem q uand o n o s
enco ntr a m .
Mas e u n ão f a nta sie i a q uele o lh ar d e c im a a b aix o q ue C allie m e d eu. C om o s e e u f o sse u m a a b erra ção
da n atu re za . E a v erd ad e é q ue e sto u fu rio sa p rin cip alm ente p or te r s e nti d o v erg o nha — a fin al, p or q ue
dev eria ? P or q ue d ev eria m e s e nti r m al s ó p or e sta r a f im d e c air n a p is c in a o u d e u sa r m aiô e m p úb lic o ?
Por q ue d ev eria s e nti r n ecessid ad e d e e ntr a r e s a ir c o rre nd o, s ó p ara n in guém v er a a tr o cid ad e q ue s ã o a s
min has c o xas?
— W ill! E sp era , c aceta . P elo a m or...
Sem m e d ar a o tr a b alh o d e p ara r, r e sp ond o:
— P re cis o i r p ra c asa .
— M as s e rá q ue n ão d á, p elo m eno s, p ra m e e xp lic ar o q ue a co nte ceu? V ocê fic o u p au d a v id a. P or
que i s so ?
Sou o brig ad a a p ara r p orq ue c heguei à c asa d a E l e , a go ra q ue o s p és n ão tê m m ais p ara o nd e ir, é
co m o s e e u n ão c o nse guis se i m ped ir a b oca d e f a la r.
— “ P or q ue
is so
?” — re p ito a p erg unta , ta m bém a o s g rito s. — P orq ue v ocê m e d eix o u s o zin ha n a
pis c in a. P orq ue m e ab and ono u co m ple ta m ente . E q uem era aq uele p alito esc ro to ? — A ssim q ue as
pala v ra s sa em da boca, sin to um arre p end im ento m orta l. A vid a in te ir a ti v e um co rp o dig no de
co m entá rio s, e s e h á u m a c o is a q ue v iv er n a m in ha p ele m e e nsin o u fo i q ue, s e o c o rp o n ão é s e u, v ocê
não te m d ir e ito d e d iz e r n ad a. S eja a p esso a g o rd a, m agra , a lta o u b aix a, n ão i n te re ssa .
Mas E l s e l im ita a e xp lic ar:
— V ocê p are cia tã o r e la xad a! D e q ue j e ito te d eix ar s o zin ha n a p is c in a m e to rn a m á a m ig a? V ocê te m
deze sse is a no s e e stá z a ngad a c o m ig o p or u m a c o is a d essa s?
Já v i a E l b rig ar co m o T im um m onte d e v eze s, p or is so se i q ue essa é a su a esp ecia lid ad e:
sim plific ar a o m áxim o a s itu ação , p ara q ue o o utr o s e s in ta i d io ta . E la é o ti p o d e p esso a q ue a g ente q uer
te r c o m o a d vogad a, n ão c o m o a d vers á ria .
Nego c o m a c ab eça, p orq ue n ão q uero d iz e r a v erd ad e c o m to das a s l e tr a s. N ão q uero d iz e r q ue e sto u
za ngad a p orq ue f iq uei s e m a m in ha m ule ta : e la . O u q ue d ev eria te r to m ad o a s m in has d ore s, e m v ez d e s e
om iti r.
— E o “ p alito e sc ro to ” — c o nti n ua E l — é m in ha c o le ga d e tr a b alh o . V ocê n ão p re cis a v a f ic ar a m ig a
dela , m as p odia , p elo m eno s, te r s id o g enti l.
Lev anto a s m ão s.
— T á. A ssu nto e ncerra d o. N ão q uero b rig ar.
Ela p õe a s a co la e o v esti d o n o p orta -m ala s d a J o le ne.
— T ud o b em .
Colo co o v esti d o, d ese nro lo a to alh a d a c in tu ra e l h e e ntr e go a nte s d e ti r a r a s c hav es d a b ols a .
— A g ente s e f a la m ais ta rd e. — V ou a té o l a d o d o m oto ris ta , m as e la c o nti n ua p ara d a n o m esm o l u gar.
— E sp era ... E ntr a u m p ouco .
Solto u m s u sp ir o p elo n ariz .
— A h, p ara d e s u sp ir a r! P re cis o d a s u a a ju d a.
No q uarto d e E lle n, s e nto d e p ern as c ru za d as n o c hão .
— M e d eix a p egar o J a ke?
Ela tr a nca a p orta e c am in ha a té o a rm ário .
— V ai te r q ue f ic ar p ra o utr a v ez. E le e stá tr o cand o d e p ele .
Com o q ualq uer p esso a c o m a c ab eça n o l u gar, s e m pre s e nti u m m ed o s a ud áv el d e c o bra s, m as, q uand o
está v am os c o m o nze a no s, o s p ais d a E l s e s e p ara ra m d ura nte u m te m po, e e la fic o u n o fu nd o d o p oço .
Para l e v anta r s e u a str a l, o S r. D ry v er l h e p ro m ete u u m b ic ho d e e sti m ação . O q ue n ão i r ia i m agin ar n em
em m il a no s e ra q ue a f ilh a f o sse p ed ir l o go u m a c o bra .
Quand o E l g anho u J a ke, u m m acho a lb in o d e c o bra d o m ilh o , e le n ão p assa v a d e u m l á p is , m as m esm o
assim e u m e r e cusa v a a c hegar p erto d a c asa d ela . N ão p odia n em p ensa r e m f ic ar d eb aix o d o m esm o te to
que o lá p is . M as e ntã o v eio o a n iv ers á rio d e d oze a no s d a E l, e e u n ão p oderia p erd er a fe sta . L ucy m e

le v ou a té o p et s h o p p ara e u d ar u m a o lh ad a n as c o bra s, e a té p ed iu à v end ed ora p ara m e d eix ar s e gura r
um a. C om o fiq uei c o m m ed o, e la m esm a fe z is so . D av a p ara v er q ue e sta v a c o m a s m ão s tr ê m ula s, m as
mesm o a ssim c o nse guiu m e a calm ar.
Ago ra e u s o u c ap az d e p assa r h o ra s v end o film es c o m E l, e nq uanto J a ke p asse ia d e u m la d o p ara o
outr o p or c im a d as n o ssa s m ão s, c o m o s e f o sse u m f io d e l in ha n o s c o stu ra nd o.
Elle n ti r a u m a s a co la d a S w eet 1 6 d o f u nd o d o a rm ário .
— P re cis o q ue v ocê m e a ju d e a d ecid ir.
Sento -m e s o bre o s jo elh o s e nq uanto e la d esp eja c o nju nto s d e s u ti ã s e c alc in has d e r e nd a p or to da a
cam a.
— P ara o T im . — S enta -s e n a b eir a d o c o lc hão . — Q uero f ic ar s e xy p ara e le .
Lev anto u m p ar tr a nsp are nte c o m a p onta d o d ed o m in d in ho .
— V ocê c o m pro u tu d o i s so n o tr a b alh o ?
— C allie m e a ju d ou a e sc o lh er a lg uns, e e u p re cis o q ue v ocê m e a ju d e a e le ger o s fin alis ta s, p ra
poder d ev olv er o r e sto .
— A h. — S in to v onta d e d e p erg unta r s e e la c o nto u a C allie q ue s e ria a s u a p rim eir a v ez. C om eçam os
a a v alia r o s c and id ato s. R osa , b ra nco , p re to , v erm elh o . A té u m v erd e. C la ro q ue d ev e te r c o nta d o. S ei
que e sto u fa ze nd o u m a te m pesta d e n um c o po d ’á gua. N ão p osso m ono poliz a r a s c o nv ers a s d a E l s o bre
su a v id a s e xual c o m T im , m as m esm o a ssim e sto u m e s e nti n d o c o m o s e ti v esse s id o tr a íd a.
— T ud o b em — c o m eço . — V ocê é v ir g em , e n ão h á n ad a d e e rra d o n is so . N em h av eria s e n ão f o sse ,
mas, n a m in ha o pin iã o , n ão fa z s e nti d o fic ar c o m u m a r d e s a nta in to cáv el. A fin al, a ra zã o d e s e r d o
enco ntr o é j u sta m ente v ocê s e r
to ca da
, n ão é ?
— É . — S ua v oz s o a c ate gó ric a e nq uanto e la p ega o c o nju nto d e c alc in ha e s u ti ã b ra nco . — V ocê a cha
que e u d ev eria te r e sc o lh id o a lg um a c o is a m ais c are ta ?
Faço q ue n ão c o m a c ab eça.
— V ocê a certo u n a m osc a e m r e la ção a o e sti lo . P assa a m ensa gem d e q ue e stá p ro nta p ra s e e ntr e gar,
mas s e m q uere r e nco sta r o c ara n a p are d e.
— E u m orre ria s e m v ocê. S im ple sm ente d eix aria d e e xis ti r.
Um s o rris o s e a b re n o m eu r o sto .
— O p re to é m uito i n ti m id ante . Q uer d iz e r, é s u p ers e xy, m as ta lv ez d ev esse f ic ar m ais p ra f r e nte .
Ela o e nfia n a g av eta d e b aix o d a m esa d e c ab eceir a .
— E u g o sto d o v erd e, m as n ão é o i d eal. — I g no ro o b ege, o v erm elh o , o r o xo e o a zu l. — E ste a q ui.
— E m purro to dos o s c o nju nto s p ara o l a d o, d eix and o s ó u m d e l is tr in has m arro ns e v erm elh as. — E ste s ó
fa lta g rita r: “ V ir g em , m as n ão p or m uito te m po!”
El d á u m ta p a n o m eu b ra ço e e ntã o p ega o c o nju nto . É to do d eb ru ad o p or u m a r e nd a b ord ad a c o m
botõ ezin ho s d e p éro la s. E la o le v a a té o p eito e s e s e nta n o c hão a o m eu la d o, e nq uanto m e v ir o e m e
se nto ta m bém .
Ela e nco sta a c ab eça n o m eu o m bro . A doro o c heir o q ue f ic a n o c o rp o q uand o a g ente s a i d a p is c in a.
Clo ro e s u o r. O c heir o d o v erã o .
— V ai s e r h o je à n o ite — r e v ela .

SE IS
Saio d a c asa d a E l m e se nti n d o e xausta , e p assa r a n o ite in te ir a a no ta nd o p ed id os
p are ce u m a m is sã o i m possív el.
Colo co o b oné d o H arp y’s p re nd end o o r a b o d e c av alo , e nq uanto a ssu m o o c aix a.
— O i, o i, W ill — d iz M arc us, d o b alc ão d e c o nd im ento s. — T á b em m ore nin ha. A nd ou p egand o u m a
c o r?
— P are ce.
— E stá u m p ouco a tr a sa d a.
Dou u m a o lh ad a n o s c o m parti m ento s d e m oed as p ara v er s e p re cis o b usc ar tr o co n o e sc ritó rio .
— O lh a s ó , e u a nd ei p ensa nd o e m fa ze r u m b olã o d o c o ncurs o . Q uer s e r m in ha in fo rm ante q uand o
c hegar a h o ra ?
Faço q ue n ão c o m a c ab eça, f e chand o a g av eta .
— Q ue é? — perg unta M arc us. — G re v e de silê ncio ? O F orti n ho M ud o lá atr á s dev e te r te
c o nta m in ad o
— d iz e le , r e fe rin d o-s e a o a p elid o q ue d eu p ara B o.
Resp ir o f u nd o e d ou u m a o lh ad a n o s u p rim ento d e s a co la s d eb aix o d o c aix a.
— T iv e u m d ia m uito c ansa ti v o. P re cis o d e u m te m po.
Marc us r e sm unga n ão s e i o q uê s o bre T PM e , p ara m in ha s u rp re sa , v em a v oz d e B o d a c o zin ha:
— P or q ue e la n ão p ode e sta r te nd o u m d ia r u im ? N ão p re cis a i n v enta r n enhum m oti v o i d io ta p ra i s so .
No e sc ritó rio , R on s o lta u m a sso vio b aix in ho .
Marc us c ai n a r is a d a.
— E ita .
— T alv ez e la te nha v is to a s u a c ara — c o nti n ua B o — , e a í s o ub e q ue o d ia e sta v a p erd id o.
E d á u m a p is c ad in ha p ara m im , d a j a nela d e a te nd im ento . V ir o a c ab eça e s o rrio .
Mante nho a s m ão s o cup ad as e ntr e u m c lie nte e o utr o , fa ze nd o e r e fa ze nd o e sto ques d e g uard anap os e
c o nd im ento s. B o e stá o uv in d o m úsic a, m as a go ra s ó c o m u m d os fo nes. M arc us p assa a n o ite in te ir a a o
c elu la r e , p elo q ue p erc eb o, e stá d is c uti n d o c o m T iffa nie p or m ensa gens.
Bekah C otte r, c o m s e us lo ngo s c ab elo s d oura d os e c urv as e nxuta s, e ntr a a co m panhad a d e u m v asto
g ru p o d e a m ig o s, q ue m onta m u m v erd ad eir o a cam pam ento n o H arp y’s e ntr e b ata ta s f r ita s e r e fr ig era nte s.
C allie te m r a zã o . B ekah v ai p arti c ip ar d o c o ncurs o e p ro vav elm ente v encerá . E la é u m a d essa s b eld ad es
q ue a g ente fa z o p ossív el p ara d ete sta r. M as é m uito s im páti c a, e a té q ue te m ta le nto . S e é q ue fa ze r
m ala b aris m os c o m b astõ es c o nta c o m o ta le nto .
Hoje B o e stá tr a b alh and o n o s a lã o , e , e nq uanto v ai s e m ovim enta nd o c o m o a sp ir a d or s e m f io , B ekah
p ega d ep re ssa u m re sto d e c o m id a n um a m esa v iz in ha e d iz a lg um a c o is a p ara e le . N ad a q ue d ê p ara
o uv ir. M as B o so rri, e é d ifíc il n ão m e se nti r c o m o se ti v esse e ngo lid o u m p unhad o d e p ed ra s. N ão
e nte nd o p or q ue c ham am i s so d e p aix ão , q uand o s e p are ce m uito m ais c o m u m a m ald iç ão .
O s in in ho a cim a d a p orta c o m eça a ti lin ta r, e , e m s e guid a, e ntr a m M illie e a a m ig a A mand a, c o m a s
b ota s o rto péd ic as d o F ra nkenste in . M illie e stá u sa nd o u m s h o rti n ho e u m a c am is e ta a m are lo -c la ra c o m a
g o la d eb ru ad a d e p ed ra s d e s tr a ss e m f o rm ato d e c o ra ção . G osta ria d e e nco ntr a r u m j e ito d e l h e e xp lic ar,
s e m p are cer e sc ro ta , c o m o e la d ific ulta d esn ecessa ria m ente a p ró pria v id a d e m il e u m a m aneir a s.
Sua te sta e stá to da s u ad a, m as o s l á b io s e xib em u m s o rris o f ir m e e f o rte .
— A h, o i, W ill! N ão s a b ia q ue v ocê tr a b alh av a a q ui.
Amand a b ala nça a c ab eça, p are cend o m uito im pre ssio nad a. E stá u sa nd o u m s h o rt d e fu te b ol e u m a
c am is e ta c o m u m a f o to e m s ilk sc re en d o i r m ão c açula v esti n d o o u nifo rm e d o ti m e d ente d e l e ite . O ti p o
e xato d e c am is e ta q ue a g ente v ê o s p ais u sa nd o q uand o v ão a ssis ti r a o j o gão d o f ilh o te .
— A posto q ue te d eix am c o m er tu d o d e g ra ça — d iz A mand a, e e ntã o a p onta o p ole gar p ara B o, n o
s a lã o . — E a v is ta ta m bém n ão é d as p io re s.
Conco rd o c o m e la , te nta nd o n ão r ir.
— A h, s im . T enho p assa d o m uito b em p or a q ui.
Ela s p egam a s s a co la s c o m o s p ed id os, e A mand a s e d em ora u m p ouq uin ho d em ais , te nta nd o d ar u m a
b oa e sp ia d a e m B o e nq uanto e le s e d ir ig e à c o zin ha.
Faço m eu in te rv alo d ep ois d e M arc us e B o. Q uand o a b ro o a rm ário p ara p egar o p ro te to r la b ia l,

enco ntr o u m p ir u lito v erm elh o . E d aq uele s m ais c aro s, q ue a g ente v ê n o d is p la y a o la d o d o c aix a n o
su p erm erc ad o. H esito p or u m m om ento , to rc end o a b oca d e u m la d o p ara o o utr o , a nte s d e fin alm ente
enfiá -lo n o b ols o , m e e sfo rç and o p ara n ão d ar b and eir a , p ois p ode te r a lg uém o lh and o.
Quand o e u e ra p eq uena, n ó s d eco rá v am os c aix as d e sa p ato s n a e sc o la p ara u sa r c o m o c aix as d e
co rre io s n o D ia d os N am ora d os. E la s f ic av am e m c im a d as c arte ir a s o d ia i n te ir o . E u n ão s u p orta v a q ue
me v is se m e sp ia nd o a m in ha. N ão p or te r m ed o d e n ão re ceb er c artõ es, já q ue to dos o s a lu no s e ra m
obrig ad os a tr o cá-lo s, m as p orq ue s e m pre e sp era v a r e ceb er a lg o m ais . Q ueria s e r a g aro ta c o m u m c artã o
esp ecia l, a ssin ad o
Do S eu A dm ir a dor S ecre to
.
O p ir u lito p ode n ão s e r u m c artã o n um a c aix a d e s a p ato s, m as m esm o a ssim m e fa z s e nti r c o m o s e o
meu c o ra ção f o sse f e ito d e c ara m elo d erre ti d o.
Quand o o d ese m bru lh o , p enso e m m and ar u m a m ensa gem p ara a E l, m as a cab o v ir a nd o a te la d o
celu la r p ara b aix o , s e m c o nse guir d ecid ir o q ue d iz e r. D esa b o n um a c ad eir a e s a b ore io o d oce p re se nte .
Ela p ode e sta r fa ze nd o a m or
neste e xa to m om en to
. P ode a té já se r u m a e x-v ir g em o fic ia l, e e u n em
sa b eria . F ic o i m agin and o s e f a lo u c o m C allie d ep ois q ue f u i e m bora . D ev e te r f a la d o. E la s a b eria o q ue
diz e r a E l. Q uand o te rm in o d e c hup ar o p ir u lito , jo go o p auzin ho e o c elo fa ne n a la ta d e lix o . E nfio o
celu la r n o s u ti ã e , q uand o e sto u p assa nd o p ela c o zin ha, m eus p eito s c o m eçam a v ib ra r. P aro b ru sc am ente
para l e r a nte s d e e ntr a r.
ELLE N : T ô m eio n erv osa , te l ig o m ais ta rd e.
ELLE N : Q uer d iz e r, d ep ois .
EU : A g ata s u p ers e xy v ai p ôr a s g arra s d e f o ra . M ia aaaauuuu.
ELLE N : V ocê é a m elh o r a m ig a d o m und o. T alv ez e u v á d orm ir n a s u a c asa a í a g ente c o nv ers a . x o .
Um v ago s o rris o s e e sb oça n o s m eus lá b io s m ela d os. L ev anto o s o lh o s e v ejo B o m e o bse rv and o n o
in sta nte em que enfio o celu la r no su ti ã . Entã o perc eb o, dois se gund os ta rd e dem ais , co m o é
co nstr a nged or a g ente s e r p ega p elo c ara p or q uem e stá a p aix o nad a m ete nd o a m ão n a b lu sa .
Já r e ceb i o lh are s o b asta nte n a v id a p ara s a b er q ue, q uand o u m a p esso a é fla gra d a e ncara nd o o utr a ,
desv ia o s o lh o s p or i n sti n to . M as B o c o nti n ua m e o lh and o f ix am ente , c o m o s e n ão ti v esse n ad a d o q ue s e
env erg o nhar.
Coro a té a ra iz d os c ab elo s. L im po o s lá b io s c o m a s c o sta s d a m ão e c o m eço a c uid ar d as ú lti m as
ta re fa s d o d ia n o s a lã o .
Ron p erm ite q ue M arc us s a ia d ez m in uto s m ais c ed o n o f im d a n o ite , p ois T iffa nie e stá e sp era nd o p or
ele , fu rio sa se i lá c o m o q uê. S enta d o lá n o e sc ritó rio , R on te rm in a d e fa ze r o s re la tó rio s n o tu rn o s
enq uanto B o p assa o e sfr e gão n o p is o d a c o zin ha e e u l im po o s ta m pos d as m esa s.
— C uid ad o — a v is a e le . — A cab ei d e l a v ar b em a tr á s d e v ocê.
And o c o m p asso s le v es, to m and o c uid ad o p ara n ão e sc o rre gar, e la v o a g o rd ura d as m ão s n a a m pla
pia i n d ustr ia l.
Já c um pri c o m to das a s m in has o brig açõ es, m as c o m eço a i n v enta r m il c o is a s p ara f a ze r e nq uanto B o
te rm in a d e l a v ar o c hão . E ncho a p ia p ara q ue e le p ossa d eix ar o e sfr e gão d e m olh o d ura nte a n o ite , c o m o
Lyd ia g o sta .
— V ão p ara c asa , v ocês d ois — d iz R on, d e l o nge. — E a té a m anhã.
Corro a té o a rm ário p ara p egar a s m in has c o is a s, c o m o s e e sti v esse c o m m ed o d e q ue B o s a ia s e m
mim . S ig o -o p elo s f u nd os d a l o ja , e e le a b re a p orta p ara q ue e u p asse , p or i s so te nho q ue m e a b aix ar s o b
se u b ra ço . Q ue n ão e stá c heir a nd o m al, d ig a-s e d e p assa gem . C om o é q ue e le c o nse gue p assa r a n o ite
in te ir a f r ita nd o h am búrg uere s s e m f ic ar c o m c heir o d e g o rd ura e te m pero s?
Enq uanto c am in ham os e m s ilê ncio a té o s n o sso s c arro s, a m ão d ele r o ça a m in ha s e m q uere r e e u m e
perg unto q ual s e ria a s e nsa ção s e e le a a p erta sse , e ntr e la çand o o s n o sso s d ed os.
Paro a o l a d o d o c arro , o lh o p ara e le p or c im a d o te to e d ig o :
— O brig ad a p elo p ir u lito .
Ele n ão s e v ir a , l im ita nd o-s e a i n clin ar a c ab eça p ara o c éu.
— B oa n o ite , W illo w dean.

SE TE
Sem e u te r q ue p ed ir, E l m e b rin d a c o m to dos o s d eta lh es p ic ante s d a p erd a d a s u a
v ir g in d ad e. A cab ou r o la nd o n o q uarto d o T im , p orq ue a m ãe d ele ti n ha i d o v is ita r a a v ó e m o utr a c id ad e,
e o p ai, q ue é p olic ia l, e sta v a tr a b alh and o n o tu rn o d a n o ite .
Deita m os n a m in ha c am a, n ariz c o m n ariz , a s l u ze s a p agad as.
— C om o f o i? N ão o a to e m s i, m as c o m o v ocê s e s e nti u ?
Ela f e cha o s o lh o s p or u m s e gund o.
— E u m e s e nti ... n o c o ntr o le . T ip o a ssim , d a m in ha v id a. — A bre o s o lh o s. — E a m ad a. M as ta m bém
e sto u m e s e nti n d o e str a nha.
— P or q uê?
— P orq ue nó s fiz e m os um a co is a ad ulta . E xtr e m am ente ad ulta . M as se m deix arm os de se r nó s
m esm os. A in d a e stá v am os r in d o, f a ze nd o p ia d as. E u e sp era v a m e s e nti r u m a p esso a to ta lm ente d ife re nte ,
m as e ra e u, a v elh a E lle n d e s e m pre ... to m and o u m a d ecis ã o d e q ue n ão p oderia m ais v olta r a tr á s.
Bala nço a c ab eça. E c o m a m aio r s e rie d ad e, p orq ue, d ito n esse s te rm os, p osso e nte nd er.
El to ca o m eu ro sto c o m a s p onta s d os d ed os e , p ela p rim eir a v ez, n o to a s lá grim as e sp ars a s q ue
e sc o rre m p or e le . E la e nco sta a te sta n a m in ha, e n ão s e i q ual d e n ó s d uas p ega n o s o no p rim eir o .
Apesa r d a c asa e ntu lh ad a d e s a co la s c o m m il m ate ria is p ara o c o ncurs o d e b ele za , a s
se m anas s e guin te s p assa m s e m m aio re s p ro ble m as. T ra b alh o a m aio r p arte d o te m po
c o m R on, à s v eze s c o m L yd ia . A s s e gund as e q uarta s s ã o s u p ertr a nq uila s, m as a s s e xta s e o s s á b ad os s ã o
u m a l o ucura . M am ãe d ete sta o f a to d e f ic arm os a b erto s a té a m eia -n o ite , m as, q uanto a i s so , n ão h á n ad a
q ue e u p ossa f a ze r.
Certa n o ite d e s e xta , e nq uanto fe cham os a lo ja , R on e ntr a n o s a lã o c arre gand o v ária s e m bala gens d e
c o pos p lá sti c o s.
— C opos n o vos — d iz , c o lo cand o-o s n o b alc ão .
— Q ual é o p ro ble m a c o m o s q ue e sta m os u sa nd o? — p erg unto .
Ele r a sg a o p lá sti c o d e u m a d as e m bala gens e m e e ntr e ga u m c o p o v erm elh o q ue te m o n o sso l o go ti p o,
m as, lo go a b aix o , e xib e e m v erm elh o a fr a se
Patr o cin ador O fic ia l d o C oncu rso M is s J o vem F lo r d o
T exa s
. À s v eze s, te nho a i m pre ssã o d e q ue o c o ncurs o é c o m o o N ata l, e f ic am os te nta nd o c o m em orá --lo
c ad a v ez m ais c ed o, a té s e tr a nsfo rm ar n um e v ento d e a no i n te ir o .
— U m a d as g aro ta s d o c o m itê d a s u a m ãe v eio a té a q ui, e , b em , a m in ha m ãe fo i a v enced ora d o
c o ncurs o d e 1 977. E u n ão p oderia d eix ar p assa r a o portu nid ad e d e a p oia r o e v ento m ais im porta nte d e
C lo ver C ity .
Sin to a m in ha te sta f r a nzir.
— E ntã o n ó s v am os j o gar f o ra to dos o s c o pos q ue e stã o e m p erfe ito e sta d o p ara u sa r e sse s?
Ele d á d e o m bro s.
— R eab aste ce o s d is p ense rs a nte s d e s a ir, tá ?
Sem pre m e e sq ueço d e c o m o é h o rrív el e ssa s e gund a m eta d e d o a no q ue a nte ced e o c o ncurs o . É c o m o
s e e la e ntu lh asse a m in ha v id a, m al m e d eix and o e sp aço p ara r e sp ir a r.
Quand o te rm in am os d e fe char o H arp y’s , M arc us e R on já e stã o d and o m arc ha a r é n o s s e us c arro s
m uito a nte s d e B o e e u c hegarm os a o s n o sso s.
Enq uanto d estr a nco a p orta — a c hav e d o m eu c arro n ão te m a q uele b otã o c hiq ue q ue b asta a p erta r — ,
B o a nuncia :
— V ai te r u m a c huv a d e m ete o ro s d aq ui a p ouco . M as n ão d as g ra nd es.
Jo go a b ols a n o b anco d o c aro na.
— C om o é q ue v ocê s a b e?
— M in ha m ad ra sta d is se . E la a d ora e str e la s, a str o lo gia , e ssa s c o is a s.
Não se i q uase n ad a so bre a str o lo gia , a n ão se r q ue, se gund o a ig re ja d a m am ãe, é o m esm o q ue
b ru xaria . N um i m puls o , f e cho a p orta d o c arro .
— N unca v i u m a c huv a d e m ete o ro s.
Ele m eneia a c ab eça n a d ir e ção d a tr a se ir a d a c am in ho nete , e nq uanto a s lu ze s d o e sta cio nam ento
c o m eçam a s e a p agar.

— V am os e sp era r p or e la ?
Pre nd o o fô le go . A cho q ue d ev e s e r e ssa a s e nsa ção q ue a p esso a e xp erim enta q uand o a s u a v id a
fin alm ente c o m eça a a co nte cer.
— T em a lg um c o berto r p ra g ente s e s e nta r?
Ele l ig a o r á d io e p ega u m a gasa lh o c o m a s i n ic ia is d a H oly C ro ss n o i n te rio r d a c am in ho nete .
— U sa i s so .
Bo f e cha o s o lh o s d e u m j e ito b em o ste nsiv o e nq uanto e u f a ço u m b aita e sfo rç o p ara s u b ir n a tr a se ir a .
Esp ero q ue e ste ja m m esm o fe chad os, p orq ue a p ala v ra
esfo rç o
e o u nifo rm e d e p olié ste r n ão c o m bin am
na m esm a f r a se . E le m e o fe re ce a m ão , e n ão te nho v erg o nha d e a d m iti r q ue f in jo p re cis a r d ela .
Fic o s u rp re sa a o p erc eb er q ue s e us d ed os e stã o c ale ja d os d o tr a b alh o . G osto d e s e nti r o c o ntr a ste
ásp ero n a p ele . Q uand o j á e sto u a co m odad a, a cho d ifíc il s o ltá -lo s.
Ele d em onstr a d or p or u m s e gund o a o i m puls io nar o c o rp o.
— V ocê e stá b em ?
— J o elh o e sto ura d o. — E le s e s e nta p erto d e m im e e ste nd e a p ern a.
— Q ual é o p ro ble m a? A lg um a l e sã o , o u s e m pre f o i a ssim ?
— U m p ouco d os d ois .
— M as v ocê e stá b em ?
Ele to sse n o p unho .
— E sto u.
Os ú lti m os p oste s n a ru a se a p agam . V iv em os d entr o d os lim ite s d a c id ad e, m as, to das a s n o ite s,
quand o C lo ver C ity e ncerra a s su as a ti v id ad es, é d ifíc il e sq uecer c o m o e sta m os is o la d os. L onge d o
cam in ho d e q ualq uer e str a d a o u r o dovia m aio r, é o ti p o d o lu gar q ue s ó p ode s e r e nco ntr a d o p or q uem
esti v er m uito a f im .
Bo d á u m a o lh ad a n o r e ló gio d o c elu la r.
— J á d ev e e sta r e sc uro o b asta nte p ara v er.
Consig o d is ti n guir c o m a m aio r f a cilid ad e a f o rm a d e v ária s c o nste la çõ es.
— V ocê d is se q ue a s u a m ad ra sta c urte a str o lo gia ?
Ele e sfr e ga o s n ó s d os d ed os n o q ueix o .
— H um -h um .
— S eus p ais s ã o d iv orc ia d os?
Ele n ega c o m a c ab eça, m as n ão f a z c o m entá rio s.
— A h, d esc ulp e p or p erg unta r. E u s o u e d ucad a f e ito u m to uro n um a l o ja d e c ris ta is . Q uer d iz e r, é u m
pro ble m a s é rio .
— N ão , n ão é is so . N ão m e im porto d e c o nta r p ra v ocê, p or is so n ão p re cis a p ed ir d esc ulp as. É q ue
eu n ão s o u d e f a la r m uito . A s p esso as d em ora m u m p ouco p ra s e a co stu m ar.
Enco sto a c ab eça n o v id ro tr a se ir o d a c am in ho nete e c ru zo o s to rn o ze lo s.
— J á e u f a lo c o m o s e o m und o s ó p ud esse c o nti n uar g ir a nd o s e f o sse a o m eu r e d or.
— E u go sto d e te o uv ir. — E le ri. — U m la nce assim ti p o sín d ro m e d e E sto co lm o, q uand o o
se q uestr a d o c o m eça a g o sta r d o se q uestr a d or. N o c o m eço , e ra m eio a ssu sta d or, m as a go ra a té a cho
re co nfo rta nte . T ip o, o m und o p oderia e sta r a cab and o, m as s e e u v ie sse tr a b alh ar v ocê e sta ria fa la nd o
co m o s e ti v esse o d ev er d e f a ze r i s so .
— D esc ulp e, m as s e rá q ue e sse c o m entá rio s o bre o s e q uestr a d or f o i u m a m aneir a d esa str a d a d e d iz e r
que e u s o u
ca tiv a nte
?
— B oa ti r a d a — r e sp ond e e le .
Dou u m ta p a n o s e u b ra ço . E le s e gura a m in ha m ão e n ão a s o lta . O r á d io a tr á s d e n ó s c o m eça a to car
“C re ep in ’ In ”, a q uele d ueto d a D olly c o m a N ora h J o nes. N ossa c id ad ezin ha e stá to ta lm ente à s e sc ura s,
mas s in to o s o lh o s d e B o s e u nin d o a o s m eus.
— E stá c o m eçand o — s u ssu rra e le , e f in alm ente l a rg a a m in ha m ão .
Solto u m s u sp ir o tr ê m ulo q ue n em n o te i q ue e sta v a p re nd end o.
— É u m a c huv a d e m ete o ro s b em p eq uena — d iz , a in d a s u ssu rra nd o. — D esc ulp e p or n ão s e r m ais
im pre ssio nante .
Ain d a e sto u to ta lm ente fa sc in ad a c o m tu d o. R aio s re m oto s re co rta m o c éu, d eix and o ra str o s ro xo s
co m o h em ato m as. F aço q ue n ão p ara e le .
— N unca ti n ha v is to u m a. A cho q ue i s so a to rn a e sp ecia l, n ão é ?
In clin am os a in d a m ais a s c ab eças p ara o c éu. P assa d os a lg uns m in uto s, e le d iz :
— A p rim eir a c huv a d e m ete o ro s q ue v i f o i u m e sp etá culo . N ão q ueria q ue a cab asse n unca.
— N ão podem os te r co is a s m ara v ilh o sa s o te m po to do — co m ento . — E sq uecería m os o quão

mara v ilh o sa s e la s s ã o .
Ele fa z q ue s im . C onti n uam os s e nta d os a li p or u m b om te m po, c o m o s e tu d o q ue e stá a co nte cend o
fo sse u m a m úsic a f e liz to cand o n o r á d io s e m i n te rru p çõ es.
— V ocê n ão s e s e nte u m p ouco c o m o s e n ó s fô sse m os a s ú nic as p esso as n o m und o q ue e stã o v end o
is so ? — p erg unto d ep ois d e a lg um te m po, q uase c o m m ed o d e q ueb ra r o e ncanto d o m om ento .
— N ão s e i. — A v oz d e B o s a i g ro ssa e b aix a. — M in ha m ãe m orre u. H á c in co a no s. G osto d e p ensa r
que, o nd e q uer q ue e la e ste ja , s e u c éu ta m bém te m c huv a d e m ete o ro s. — C ad a p ala v ra é u m p ed acin ho
de s i q ue e le e xp õe, e e sto u l o uca p ara j u nta r a s m ig alh as q ue j á te nho p ara p oder c o m pre end ê-lo .
Fic o e sp era nd o q ue e le f a ça a lg um a d end o, q ue d ig a q ue e ssa te o ria é a b su rd a, o u q ue s e d esc ulp e p or
to car n um a ssu nto m eio d ep rim ente . P orq ue é o q ue e u fa ria . M as B o n ão s e d esc ulp a. E e u g o sto d is so .
Gosto d o fa to d e e le n ão te r p elo q ue s e d esc ulp ar. S in to v onta d e d e d iz e r q ue la m ento m uito p ela s u a
mãe e q ue ta m bém g o sto d e p ensa r o m esm o e m r e la ção a L ucy, m as m e l im ito a o bse rv ar:
— A cho q ue o c éu é g ra nd e d em ais p ara n ão s e r c o m parti lh ad o.

OIT O
Na m anhã s e guin te , q uand o m am ãe p erg unta a q ue h o ra s c heguei, i n v ento q ue o H arp y’s
e sta v a ain d a m ais lo ta d o que de co stu m e. N ão paro de m exer os lá b io s, le m bra nd o os m om ento s
p assa d os n a tr a se ir a d a c am in ho nete d e B o.
Sei q ue d ev eria l ig ar p ara E lle n e c o nta r tu d o, n o s m ín im os d eta lh es. M as a in d a n ão e sto u p ro nta p ara
m e a b rir s o bre o q ue a co nte ceu. G osto d a id eia d e g uard ar m eu m und o e m p eq ueno s c o m parti m ento s,
p ara e v ita r q ualq uer r is c o d e c o lis ã o .
O m ovim ento d a n o ite d e s á b ad o é m eio in sa no . S em pre fic a fr a co e ntr e a s d ez e m eia e a s o nze e
m eia , m as, p erto d a h o ra d e f e char, r e ceb em os u m a ú lti m a m anad a d e c lie nte s.
Ron e stá lá n o s fu nd os, a ju d and o a p re p ara r o s p ed id os, e nq uanto m e e ncarre go d e a no tá -lo s. H oje ,
M arc us está no driv e-th ru . O s fo nes de ouv id o m al co nse guem se aju sta r nas ore lh as co m aq uela
c ab ele ir a a tr a p alh and o. E ntr e u m p ed id o e o utr o , e le d á u m a c o rrid in ha p ara m e a ju d ar a a rru m ar a s
b and eja s d a c lie nte la , m as a f ila c o nti n ua q uilo m étr ic a.
Já n em e sto u m ais m e d and o a o tr a b alh o d e le v anta r o s o lh o s d o c aix a, q uand o d e re p ente e sc uto
a lg uém d iz e r:
— A h, m eu D eus. E sq ueci to ta lm ente q ue a E lle n ti n ha d ito q ue v ocê tr a b alh a a q ui.
Meus o m bro s s e c urv am d e d esâ nim o q uand o r e co nheço a v oz.
Callie s e d eb ru ça n o b alc ão e s o lta n a l a ta :
— D esc ulp e a f r a nq ueza , m as e sse s u nifo rm es s ã o h o rrív eis .
— B em -v in d a a o H arp y’s B urg ers & D ogs. E m q ue p osso s e rv i- la ? — p erg unto .
O n am ora d o, C am don, B ra nd on o u se ja lá q ual fo r o n o m e d o c ara , a ti r a a c arte ir a p ara C allie e
i n fo rm a:
— P re cis o d ar u m a m ija d a.
Os d ois tr o cam u m b eijo . N a b oa: p re cis a v a? S erá q ue e le v ai s e a fo gar n a p riv ad a? C allie o lh a p ara
m im c o m u m s o rris in ho c o m pre ensiv o.
— T ud o b em , e le v ai q uere r u m n úm ero 1 c o m D r. P ep per. S em to m ate e c o m c eb ola e xtr a b em
d oura d in ha. E , s e fo r p ossív el, tr o ca a b ata ta fr ita p or b olin ho d e b ata ta ? E u v ou q uere r u m h am búrg uer.
S em q ueijo . E b ata ta p eq uena. — O s o rris o s e to rn a c úm plic e. — J á e sto u d and o b alã o n a d ie ta p ara o
c o ncurs o . H om ens s ã o u m a p éssim a i n flu ência .
— D ez d óla re s e s e te nta e q uatr o c enta v os.
— T alv ez a p erg unta p are ça u m p ouco e str a nha, m as s e rá q ue u m d ia e u e a E l- b ell p odería m os d ar u m
p ulin ho n a s u a c asa ? E u a d ora ria ... ti p o a ssim , c o nv ers a r c o m a s u a m ãe s o bre o c o ncurs o e o a no e m q ue
e la v enceu. U m p ap o i n fo rm al.
Mal c o nheço e ssa g aro ta , e e la j á e stá te nta nd o i n v ad ir a m in ha v id a, c o m o s e tu d o n o m und o e sti v esse
à s u a d is p osiç ão .
— T enho a nd ad o m uito o cup ad a — r e sp ond o, s e m a lte ra r a v oz.
Ela fr a nze o s o lh o s p ara m im p or um se gund o ante s d e so rrir e checar as no ta s na carte ir a d o
n am ora d o, a té ti r a r u m a d e v in te .
— A liá s, m enin a! V ocê n ão le v ou u m c ho que q uand o... — a b aix a a v oz — ... E lle n te c o nto u s o bre o
d esa str e q ue f o i o l a nce
ora l
d ela c o m o T im ?
— O q uê...? — E u
sa bia
q ue a E l c o nv ers a ria s o bre e ssa s c o is a s c o m a C allie e n ão c o m ig o . M as n ão
d eix o q ue a s u rp re sa tr a nsp are ça. — A h, s im . Q ue l o ucura , n é? S eu p ed id o j á v ai c hegar.
Esto u f u rio sa . S ab ia q ue i s so i r ia a co nte cer. S ab ia q ue o s e xo c ria ria u m a b arre ir a e ntr e m im e E lle n.
M as, a cim a d e tu d o, e u e sto u m e s e nti n d o i n fe rio riz a d a.
Ron s a i d a c o zin ha e a v is a :
— P esso al, n ó s v am os f e char. O u l e v am o s p ed id os p ra v ia gem , o u v ão e m bora s e m e le s. — C olo co o
d a C allie n um a s a co la e l h e e ntr e go n o i n sta nte e m q ue s e u n am ora d o e stá s a in d o d o b anheir o .
Dep ois d e tr a ncarm os a s p orta s d o s a lã o e o c aix a, d ou u m p ulo n a c o zin ha p ara p egar o l ix o .
— V ou l e v ar l á p ara o s f u nd os.
— M e d á s ó u m m in uti n ho — p ed e B o. — E u te a ju d o.
Quand o e le te rm in a e M arc us a p aga a s lu ze s d o d riv e-th ru , B o m e s e gue p ela p orta d os fu nd os, c ad a
u m d e n ó s se gura nd o v ária s sa co la s q ue q uase tr a nsb ord am d e lix o . Q uand o a p orta d e v aiv ém e stá

pre ste s a s e fe char à s n o ssa s c o sta s, B o e ncaix a u m a p ed ra c o m o p é e ntr e e la e o b ate nte . C olo ca a s
sa co la s n o c hão , p ega a m in ha, l e v anta o b ra ço a cim a d a c ab eça e a a ti r a n a c açam ba. E m s e guid a, f a z o
mesm o c o m a s d ele .
— O brig ad a. — D ou m eia -v olta p ara e ntr a r.
— E sp era . — S eus d ed os r o çam m eu c o to velo , e e u p re nd o a r e sp ir a ção . — A n o ite p assa d a. G oste i
muito d a s u a c o m panhia .
— T á. Q uer d iz e r, ta m bém g o ste i d a s u a. — E e ste nd o a m ão p ara a m açaneta .
— W illo w dean. — A v oz d e B o m e a ssu sta . E le e stá tã o p erto q ue d á p ara s e nti r o c heir o d a p ele ,
encharc ad a d e s u o r.
Chego a e ntr e ab rir o s l á b io s p ara r e sp ond er, m as e le s e i n clin a p ara m im , h esita p or u m s e gund o e m e
deix a s e m p ala v ra s q uand o m erg ulh a a b oca n a m in ha. N em te nho te m po d e p ensa r n a s u a lín gua e n o
je ito c o m o a m in ha r e age. S em s a b er o q ue f a ze r c o m o s b ra ço s, d eix o -o s e ste nd id os a o l o ngo d o c o rp o,
as m ão s f e chad as e m p unho s. O b eijo te m u m g o sto d e c ere ja a rti fic ia l e p asta d e d ente s. S in to v onta d e d e
beijá -lo a té o s l á b io s c aír e m .
Ele f in alm ente s e a fa sta .
Meu p rim eir o b eijo . U m b re v e m om ento q ue d ura p ara s e m pre .
O a r d a m eia -n o ite e stá q uente e s e co , m as i s so n ão i m ped e q ue e u m e a b ra ce. E sp ero p ela s p ala v ra s
— d ele o u m in has — , m as n enhum a v em . O c ho que q ue s in to e stá e sta m pad o n a m in ha e xp re ssã o . P asso o
pole gar p elo l á b io i n fe rio r e v olto p ara a l o ja . E le n ão te nta m e i m ped ir.
Fechar a lo ja d em ora u m a e te rn id ad e. O s a lã o e stá u m c ao s, a c o zin ha ta m bém , m as
nem n o to , p orq ue B o e o m eu p rim eir o b eijo d ão v olta s e m ais v olta s p ela m in ha
cab eça. M eu p rim eir o b eijo , q ue aco nte ceu no s fu nd os d o H arp y’s B urg ers & D ogs, p erto d e um a
caçam ba a b arro ta d a d e l ix o .
Mesm o a ssim , fo i p erfe ito . C ad a o sso d o m eu c o rp o e stá d oend o, c o m o se e u ti v esse so fr id o u m
acid ente d e c arro s e m te r q ualq uer f e rim ento , m as a in d a s e nti s se o i m pacto d a c ab eça a o s p és.
No f im d a n o ite , e ntr o n o c arro e s a io d o e sta cio nam ento a nte s m esm o d e R on tr a ncar a p orta d a l o ja .
Paro d ia nte d o s in al n a e sq uin a e p asso a s m ão s p elo r o sto v ária s v eze s, te nta nd o a ssim ila r tu d o o q ue
aco nte ceu.
Um c arro d á u m a b uzin ad a, e l e v anto o s o lh o s p ara o s in al, m as a in d a e stá v erm elh o . E sc uto u m g rito
ab afa d o à d ir e ita .
Na o utr a p is ta , B o a cena c o m o s d ois b ra ço s, a p onta nd o p ara a m in ha ja nela . E sse n ão é o c am in ho
que e le p ega a o v olta r p ara c asa . S em pre v ir a m os e m d ir e çõ es o posta s — e le v ai p ara a Z ona L este e e u
moro n a Z ona O este .
No i n sta nte e m q ue a b aix o o v id ro , e le c o m eça a f a la r:
— M e p erd oe. E u n ão d ev ia te r... —
beija do v o cê
, m in ha c ab eça c o m ple ta a fr a se — ... fe ito a q uilo .
Eu s ó ... — E le e rg ue o s o lh o s, e p erc eb o q uand o v ê q ue o s in al n o c ru za m ento f ic o u a m are lo . — S egue o
meu c arro . P or f a v or.
Dou u m a o lh ad a n o r e ló gio . J á é u m a e tr in ta e c in co d a m anhã.
O m oto ris ta a tr á s d ele d á u m a b uzin ad a.
— P or f a v or. — E le tr o ca d e p is ta , p ond o o c arro n a f r e nte d o m eu.
Pro vav elm ente , e u n ão d ev eria s e guir d e m ad ru gad a u m c ara q ue m al c o nheço p or u m a ru a e sc ura .
Afin al, e le p oderia a té m e m ata r, d e r e p ente , e a í j á n ão f a ria a m eno r d ife re nça s e e u s o u g o rd a e o m eu
prim eir o b eijo a co nte ceu a o la d o d e u m a tr a nsb ord ante c açam ba d e lix o , p orq ue e u e sta ria to ta lm ente
fe rra d a.
Quand o a a v enid a s e b ifu rc a e e u d ev eria p egar a d ir e ita , d esv io p ara a e sq uerd a e s ig o u m e str a nho
garo to p ela r u a e sc ura , e nq uanto o c éu a cim a d e n ó s d orm e p ro fu nd am ente .

NO VE
Seguim os a té o s lim ite s d a c id ad e, b em o nd e fic a a v elh a e sc o la p rim ária q ue p ego u
f o go h á a lg uns a no s e d esd e e ntã o e stá a b and onad a.
Is so d ev eria te r b asta d o p ara m e fa ze r s a ir c o rre nd o. A cho q ue e u n asc i d esp ro vid a d e u m e fic ie nte
a la rm e d e a uto pre se rv ação n a c ab eça, p orq ue o n egó cio e stá c o m to da a p in ta d e se r u m a c ila d a d e
p sic o pata .
Quand o e sta cio nam os, e sp ero q ue e le s a ia d o c arro p rim eir o . S e a E l e sti v esse a q ui, e la m e d ir ia p ara
p egar a c hav e d e r o da n o p orta -m ala s o u e sq uenta r o i s q ueir o d o c arro , m as n ão e stá . E ntã o , p ro curo a lg o
q ue s ir v a d e a rm a n o b anco d a f r e nte , m as tu d o q ue e nco ntr o é u m p ote v azio d e m ante ig a d e a m end oim ,
u m d óla r e tr in ta e d ois c enta v os, e u ns fo lh eto s p ub lic itá rio s q ue h á s e m anas m e e sq ueço d e jo gar n o
l ix o . F ic o p esa nd o o c hav eir o n a m ão p or u m m om ento .
A-h á! S ep aro a s tr ê s ú nic as c hav es ( c arro , c asa , E l) e f e cho a m ão n um p unho , f a ze nd o c o m q ue c ad a
u m a s e p ro je te d entr e o s d ed os. L em bro q ue v i i s so n um p ro gra m a, u m a m até ria s o bre d efe sa p esso al. A
t e le v is ã o s a lv a v id as.
Esto u m e s e nti n d o r id íc ula , m as, e nfim ...
Bo e stá e nco sta d o n o c ap ô d a v elh a c am in ho nete . N a l a te ra l, v ejo r e sq uíc io s d e l e tr a s, c o m o s e e le a
t i v esse c o m pra d o d o d ono d e a lg um e sta b ele cim ento c o m erc ia l e p in ta d o p or c im a p ara a p agar a nti g o s
d iz e re s.
— Is so é m eio e sq uis ito — o bse rv o, in d ic and o a e sc o la c o m a m ão d esa rm ad a. O lu gar in te ir o e stá
c ham usc ad o, m as a in d a d á p ara v er o a rc ab ouço d a c o nstr u ção , m eno s a p arte d o m eio , q ue f o i to ta lm ente
d estr u íd a. A n atu re za n ão f o i n ad a g enero sa c o m a e str u tu ra e xp osta . D e o nd e e sto u, d ev id o a o b rilh o d o
l u ar, d á p ara v er a s ilh ueta d os b rin q ued os n o p áti o , e negre cid os. N o e sta cio nam ento i n te ir o h á a p enas a
l u z d e u m ú nic o p oste . E e sta m os m uito l o nge d a i lu m in ação .
— D esc ulp e. — E le ti r o u o u nifo rm e d o H arp y’s , q ue n o to jo gad o n o b anco d a c am in ho nete , e e stá
u sa nd o só a cam is e ta d e b aix o . A co rre nti n ha q ue se m pre v ejo ap are cend o acim a d a go la te m um a
m ed alh a d e u m s a nto p ad ro eir o . — E u e stu d ei a q ui. A té a e sc o la s e r d estr u íd a p elo i n cênd io . F oi o ú nic o
l u gar p or p erto q ue m e o co rre u a e ssa h o ra d a n o ite .
— A h. — T enho v onta d e d e p erg unta r o q ue a co nte ceu c o m a m ãe d ele , q ual e ra a s u a p ro fe sso ra
f a v orita , s e v in ha à a ula n o ô nib us e sc o la r o u s e o s p ais o tr a zia m to das a s m anhãs. M as n ão p erg unto .
F ic o s ó n a v onta d e. E q ue v onta d e.
Ele c o m eça a r ir, e n ão é u m r is o b aix in ho . C hega a p erd er o f ô le go .
— V ocê v eio p re p ara d a — o bse rv a, a p onta nd o o m eu p unho .
Lev anto a m ão q ue e stá p ro nta p ara m e d efe nd er.
— H um , é q ue v ocê m e tr o uxe a u m a e sc o la a b and onad a. Is so e sta v a c o m to da a p in ta d e c o nv ite d e
p sic o pata q ue q uer m ata r a m ulh er p ara p assa r s e m anas b rin cand o d e b oneca c o m o c ad áv er.
Ele p ara d e r ir p or u m m om ento e d iz :
— E stá c erto . F az s e nti d o. M and ou b em .
Guard o a s c hav es n o b ols o d o v esti d o e c o m eço a c huta r p ed rin has n o c hão .
— N ão m e m ata , h ein ?
Ele e sb oça u m b re v e s o rris o a nte s d e r e sp ond er:
— N ão d ev ia te r te b eija d o d aq uele j e ito . S em p ed ir.
— E ntã o . P or. Q ue. F ez. I s so ? — C ad a p ala v ra c ai c o m o u m a g o ta n um b ald e v azio .
— S ab e q uand o a g ente é c ria nça e e stá te nd o u m d ia m ara v ilh o so ? G osta d a p ro fe sso ra , te m a m ig o s
l e gais , n ão é m au a lu no . M as a í fa z u m a c o is a q ue n unca s e ria c ap az d e c o ntr o la r, m esm o q ue s o ub esse
q ue te ria o i m puls o ?
Ele p erc eb e a c o nfu sã o n o m eu r o sto .
— T ip o... c ham ar a p ro fe sso ra d e m am ãe.
Não c o nsig o e sc o nd er a e xp re ssã o h o rro riz a d a.
— E sp era a í. C om o a ssim ? D esc ulp e, m as v ocê c o m paro u o im puls o d e m e b eija r a o d e c ham ar s u a
p ro fe sso ra d e m am ãe?
Ele p assa a s m ão s p elo s c ab elo s, l a m enta nd o.
— N ão . Q uer d iz e r, s im . F oi c o m o e ssa r e ação q ue e u ti v e. U m a c o is a q ue n ão d eu p ra c o ntr o la r.

— E a go ra e stá e nv erg o nhad o?
— N ão , n ão ! — E le le v anta a s m ão s, c o m o s e p ud esse m a p agar s u as p ala v ra s. — O q ue e u q uero
diz e r é q ue o i m puls o f o i i r re sis tí v el. S ó e sto u e nv erg o nhad o p or n ão te r n em m e d ad o a o tr a b alh o d e v er
se v ocê e sta v a a f im . E p eço d esc ulp as p or n ão s e r u m a c o is a q ue v ocê q ueria q ue e u f iz e sse .
— N ão te m p ro ble m a — r e sp ond o, p rin cip alm ente p orq ue e le n ão c o stu m a fa la r m uito e e sto u m eio
fa sc in ad a c o m i s so .
Ele d á u m p asso n a m in ha d ir e ção .
— V ocê q uer d iz e r q ue m e p erd oa, m as n ão q uer q ue s e r e p ita n unca m ais o u... q ue g o sto u?
Dou d e o m bro s, p orq ue o r e sto d o c o rp o e stá p ara lis a d o.
Ele a v ança m ais u m p asso . T ud o fic a e m s ilê ncio p or u m m om ento . É a m in ha c hance d e re cuar e
im ped ir q ue i s so , s e ja l á o q ue f o r, a co nte ça. M as s in to o a uto co ntr o le c o m eçar a f u gir.
— P orq ue e u te nho a i m pre ssã o d e q ue v ocê ta m bém m e b eijo u.
Meu r o sto c o m eça a a rd er. A go ra e le m e p ego u.
— N ão f o i r u im . S ó n ão f o i n enhum a b om ba a tô m ic a — m in to .
— B asic ão ?
Mord o o s l á b io s, f a ze nd o-o s d esa p are cere m . D ou tr ê s p asso s, d im in uin d o a d is tâ ncia e ntr e n ó s.
Ele a p oia o s c o to velo s n a c am in ho nete e i n clin a a c ab eça p ara tr á s.
Faço o m esm o e , p or u m m om ento , f ic am os o bse rv and o o c éu, a té e u r o m per o s ilê ncio .
— Q uer d iz e r q ue v ocê m e b eijo u p or im puls o ? — A te nsã o q ue c o ntr a i m eus m úsc ulo s d im in ui
quand o m e s in to m ais à v onta d e c o m e le . — M as p or q uê? — S ó q ue o z u m -z u m c o nti n ua. A v ib ra ção d a
ad re nalin a.
Gota s d e c huv a p in gam n a g ente , f a ze nd o c o m q ue o a r f iq ue i n sta nta neam ente c arre gad o d e u m id ad e.
Bo o lh a p ara o a lto , c o m o s e e sti v esse te nta nd o d esc o brir u m j e ito d e f a ze r c o m q ue p are m .
— V am os e ntr a r n a c am in ho nete . — A bre a p orta d o c aro na p ara m im e e u m e s e nto , e nq uanto e le d á
um a c o rrid a a té o o utr o l a d o e e ntr a .
Por p ouco o te m pora l n ão n o s p ega. A s g o ta s b ate m f u rio sa s n o p ara --b ris a s. O b aru lh o é tã o a lto q ue
ele é q uase o brig ad o a g rita r:
— Q ue n o ta v ocê d aria , d e u m a d ez?
— V ocê n ão v ai m ud ar d e a ssu nto , v ai?
— É q ue e u s o u m eio e go m anía co .
Esto u m e s e nti n d o c o ra jo sa . O u m elh o r, e u s o u c o ra jo sa .
— T alv ez v ocê d ev esse m e d ar o utr o . P ara e u d iz e r q ual o m elh o r.
Ele p ig arre ia , e e u o o bse rv o i n te nsa m ente .
— B om , g era lm ente e u p re fir o a certa r d e p rim eir a , m as d ete sta ria p riv ar v ocê d e u m b is . — E le s e
afa sta d o v ola nte n a m in ha d ir e ção . S ua m ão a nin ha m eu r o sto . A baix and o a c ab eça, s e us lá b io s q uase
enco ntr a m o s m eus.
— T em c erte za ?
Surp re end end o a té a m im m esm a, n ão r e sp ond o. A penas b eijo B o L ars o n. E , q uand o e le e ntr e ab re o s
lá b io s ju nto a o s m eus, n ão p enso n is so . P orq ue, p ela p rim eir a v ez n a v id a, e u s o u a ceita . T ota lm ente
aceita , s e m n enhum a p erg unta .
Ele s e gura m eu r o sto c o m a s d uas m ão s e m e p uxa p ara m ais p erto .
Se E l s e nte u m d écim o d is so q uand o e stá c o m T im , e ntã o n ão s e i c o m o p ode te r e sp era d o ta nto p ara
tr a nsa r c o m e le , p orq ue, q uand o o s lá b io s d e B o s e m ovem s o bre o s m eus, n ão c o nsig o p ensa r e m m ais
nad a a lé m d e n ó s d ois .
Suas m ão s p assa m p ara m eu p esc o ço e o m bro s. S eu to que fa z c o m q ue o nd as d e e m oção p erc o rra m
meu c o rp o. E xcita ção . T erro r. E ufo ria . T ud o a o m esm o te m po. M as e ntã o e le v ai d esc end o o s d ed os
pela s m in has c o sta s a té a c in tu ra . P re nd o o fô le go . A s e nsa ção é c o m o u m a v erd ad eir a p unhala d a n as
co sta s. M in ha c ab eça tr a i o c o rp o. A r e alid ad e d e B o m e to cand o. A i d eia d e B o s e nti n d o a g o rd ura n as
min has c o sta s e o p neu n a c in tu ra m e d á â nsia s d e v ôm ito . P ois n a m esm a h o ra e u m e c o m paro c o m to das
as g aro ta s q ue e le j á d ev e te r to cad o. T odas c o m a s c o sta s r e ta s e a c in tu ra f in a.
— D esc ulp e. — S eu f ô le go s a i q uente e r á p id o.
— N ão , n ão , n ão se d esc ulp e. — N ão so u d esse ti p o d e g aro ta . N ão p asso h o ra s m e o lh and o n o
esp elh o , p ensa nd o n as m il e u m a m aneir a s c o m o p oderia fic ar a in d a m ais b onita . A id eia d e fu gir d os
se us b ra ço s m e e nv erg o nha d e u m j e ito q ue n ão e nte nd o to ta lm ente .
Ele n ega c o m a c ab eça.
— N ão , q uer d iz e r, e u n ão d ev ia te r... A cho q ue n ão ... d ev eria n am ora r n in guém n o m om ento .
O e str a nho é q ue, a té e le to car n o a ssu nto , a i d eia — a p ossib ilid ad e — d e n am ora rm os n em ti n ha m e

passa d o p ela c ab eça.
— A h. — M in ha r e sp osta s a i c o m o u m s u sp ir o .
— E sto u c o m m il p ro ble m as n a m in ha v id a. E n ão d ev o n am ora r n in guém . O u, p elo m eno s, n ão
nam oro h á a lg um te m po.
Faço q ue s im c o m a c ab eça.
Se q ualq uer g aro ta m e c o nta sse q ue u m c ara ti n ha d ito is so , e u a a co nse lh aria a p is a r n o fr e io e d ar
marc ha à r é . P orq ue e sse p ap o é d e u m e sp erta lh ão . E e u n ão c o nsig o p ensa r i s so d e B o. M as a cho q ue é
assim q ue to das a s m ulh ere s já a p anhara m n a g uerra d os se xo s. P orq ue a s re gra s se a p lic am a to do
mund o, m eno s à g ente .
Abro a p orta .
— É m elh o r e u i r p ara c asa . — A c huv a m olh and o o i n te rio r d a c am in ho nete .
— J á é ta rd e. — P ois é . A ú nic a c o is a q ue e le te m a d iz e r.
— T e v ejo n o tr a b alh o .
A c huv a le v a d ois s e gund os e m eio p ara m e e ncharc ar. L á s e fo i m in ha d ig nid ad e p or á gua a b aix o ,
lite ra lm ente . E ntr o n o c arro e s a io d o e sta cio nam ento a to da v elo cid ad e. L ig o o r á d io n o v olu m e m áxim o,
na e sp era nça d e q ue a b afe o v oze rio n a m in ha c ab eça. L ucy, m am ãe, E lle n, B o. É c o m o s e e u ti v esse
vers õ es e m m in ia tu ra d e c ad a u m d ele s d entr o d e m im , u m a m ais b aru lh enta q ue a o utr a . A ú nic a v oz q ue
me f a lta — e a d e q ue m ais p re cis o — é a m in ha.

DEZ
Ago ra é o fic ia l: e stá q uente d em ais p ara i r n ad ar. A té E lle n c o nco rd a. J a ke f ic a i n d o e
v in d o p or b aix o d as n o ssa s m ão s e nq uanto a ssis ti m os a u m p ro gra m a d e b aix aria s q ue e xib e o c aso d e
u m a m ulh er q ue s e a p aix o no u p elo i r m ão s e m s a b er q uem e le e ra , p ois n ão f o ra m c ria d os j u nto s.
— E le s s ó p odem e sta r m enti n d o — c o m ento .
El b ala nça a c ab eça, d is c o rd and o.
— N ão , n ão , e le s p odem s e r e sq uis ito s, m as a cho q ue e stã o d iz e nd o a v erd ad e. D e m ais a m ais , p or
q ue m enti r ia m ?
— H um , p orq ue s ã o n o je nto s e s a b em d is so . P ro vav elm ente f o ra m p ego s e m f la gra nte e p re cis a v am d e
u m a d esc ulp a, o u a lg o d o g ênero .
— S anto D eus. — E la s o lta u m b ufo . — V ocê é tã o c éti c a. Q ue é q ue te c usta a cre d ita r q ue n em to do
m und o é m al- in te ncio nad o?
Ja ke s e e nro la e m v olta d o m eu p uls o . S uas e sc am as e stã o l is in has p or te r a cab ad o d e tr o car d e p ele .
— N em s e m pre s o u c éti c a, m as a s p ro bab ilid ad es d e e le s e sta re m d iz e nd o a v erd ad e s ã o p ra ti c am ente
n ula s. S eria o m esm o q ue d iz e r q ue T im p ode s e r s e u i r m ão .
Ela e stá tã o a b so rta n o p ro gra m a q ue n em r e sp ond e.
Seria u m a b oa h o ra p ara e u c o nta r o q ue a co nte ceu c o m B o. M am ãe já e sta v a d orm in d o q uand o e u
v olte i, m as d is se q ue ti n ha m e o uv id o c hegar d ep ois d as d uas e q ue d a p ró xim a v ez q ue i s so a co nte cesse
l ig aria p ara o m eu p atr ã o .
Is so n ão é h ora d e u m a m oça d e fa m ília c h eg ar e m c a sa
, d ecre to u. F iq uei
m eio ir rita d a p or e la a uto m ati c am ente p re su m ir q ue e u ti n ha v in d o d ir e to d o tr a b alh o .
EU E STAV A A O S
B EIJ O S C O M U M G AR O TO N U M E STA C IO NAM EN TO A B AN D ONAD O
, ti v e v onta d e d e g rita r. M as
i s so é e sp anto so d em ais . A té p ara m im . E e u e sta v a l á .
Não s e i c o m o fo rm ar a s fr a se s p ara e xp lic ar a E l q ue n ão a p enas g anhei o m eu p rim eir o b eijo , c o m o
e le te rm in o u n um a p egação f o rte , c o m tu d o a q ue ti n ha d ir e ito . E l j á f ic aria b asta nte c hate ad a c o m ig o p or
e u n ão c o nta r o q ue e u s e nti a p or B o d esd e o c o m eço . E , e m bora n enhum a d e n ó s te nha d ito q ue o q ue
a co nte ceu n a n o ite p assa d a d ev eria s e r m anti d o e m s e gre d o, e ssa é a s e nsa ção q ue te nho .
É u m a b este ir a , e u s e i, p orq ue a E l n unca p ensa ria i s so , m as te nho a i m pre ssã o d e q ue a n o ite p assa d a
f o i to ta lm ente i n exp lic áv el. U m g aro to — u m g aro to l in d o d e m orre r, q ue a s g aro ta s f ic am s e cand o — m e
b eijo u, e m e b eijo u
pra v a le r
. U m d aq uele s b eijo s q ue d eix am a g ente s e m fô le go . E e u n ão s e i c o m o
c o nta r i s so à m in ha m elh o r a m ig a. F ora o f a to d e q ue, s e f a la sse s o bre a n o ite p assa d a, ta m bém te ria q ue
d iz e r c o m o a n o ite a cab ou. C om B o p ro m ete nd o q ue i s so n unca m ais a co nte ceria e e u m orta d e v erg o nha
a o p ensa r n as m ão s d ele a lis a nd o o m eu c o rp o.
Mas n ão e sto u a f im d e c o nta r n ad a d is so p ara a E l. M esm o q ue s e ja u m a b obagem , q uero p re se rv ar a
b oa i m pre ssã o q ue e la te m d ele , p orq ue a cho q ue, n o f u nd o, n o f u nd o, a in d a s in to a e sp era nça d e te r u m a
c hance c o m e le , a p esa r d o j e ito c o m o a n o ite te rm in o u.
Mas um a chance d e q uê? D e nam ora rm os? E ssa id eia m e p are ce tã o rid íc ula q ue nem co nsig o
i m agin ar c o m o s e ria a p are cer e m p úb lic o d e m ão s d ad as c o m a lg uém .
Não é q ue e u n ão te nha a uto esti m a. S ei q ue m ere ço o m eu f in al f e liz . M as e s e B o f o r o p onto a lto d a
m in ha v id a e e u n ão p assa r d e u m tr o peço n a d ele ?
Sin to f a lta d e L ucy.
Os c ré d ito s d o p ro gra m a c o m eçam a p assa r, e E l s e ca a s l á grim as n o r o sto .
— A h, m eu D eus — e xcla m a. — A h, m eu D eus. Q ue h is tó ria m ais tr is te . E le s s e a m am ta nto q ue n ão
c o nse guem s e a fa sta r. E a s o cie d ad e n unca v ai a ceita r.
— V ocê e stá m enstr u ad a, o u o q uê?
— V ocê é m uito c hati n ha à s v eze s, s a b ia ? — E la s e le v anta c o m J a ke. — V ou c o lo cá-lo n a g aio la .
Q uer f ic ar p ara o a lm oço ?
Sorrio .
— É m elh o r e u ir p ara c asa . Q uero d ar u m a o lh ad a n as c o is a s d e L ucy a nte s d a m am ãe c hegar. E la
c o m eço u a l im par o q uarto d a m in ha ti a h á u m as s e m anas.
Sig o E l a té o q uarto , e e la p õe J a ke n a g aio la . E le s e a co m oda p or b aix o d a lu m in ária q ue a q uece a s
s u as e sc am as, d elic ia d o.
Após a lg uns m in uto s, E l m e c ham a.

— O q ue é ?
— T ia L u c o stu m av a u sa r u m b ro che d e a b elh a q uand o n ó s é ra m os p eq uenas. L em bra ? A quele q ue e la
co lo cav a n o s o bre tu d o q uand o i a b usc ar a g ente n a e sc o la ?
Min ha b oca f ic a s e ca. B ala nço a c ab eça. E la o u sa v a n a g o la . I s so f o i a nte s d e a ti n gir o p eso m áxim o,
mas já e sta v a b em g o rd a. O so bre tu d o e ra p re to , b anal, o bvia m ente c o m pra d o p ela p ra ti c id ad e, se m
qualq uer p re te nsã o d e s e r c hiq ue — o ti p o d e s a crifíc io q ue a g ente fa z q uand o é b em m aio r d o q ue a
méd ia . M as o b ro che e ra c o m o u m r a io d e s o l b rilh and o p or e ntr e n uv ens e sc ura s. E la n o s c ham av a d e
min has a belh udas
e n o s l e v av a p ara to m ar c ho co la te q uente à s s e gund as, p orq ue n ão a chav a j u sto q ue a
gente s ó r e ceb esse u m a a te nção e sp ecia l à s s e xta s.
Era e ngra çad o: e u m e i m agin av a c o m o u m a s e gund a e E lle n c o m o u m a s e xta . M as a s e gund a e a s e xta
sã o s ó p erío dos d e v in te e q uatr o h o ra s c o m n o m es d ife re nte s.
— S e e nco ntr a r a q uele b ro che, e s ó s e n ão q uis e r p ra v ocê, s e im porta ria d e g uard ar p ra m im ? N ão
que v ocê m e d ev a i s so , m as é q ue e u s e m pre a d ore i a q uela a b elh a.
— P ode d eix ar. V ou p ro cura r p or e le , s e m f a lta .
Desd e o d ia e m q ue L ucy m orre u, ti v e a s e nsa ção d e q ue e u e ra a ú nic a r e sp onsá v el p or m ante r v iv a a
su a le m bra nça, e que, se não co nse guis se , esta ria fa lh and o co m ela da pio r m aneir a possív el. A
co nsc ie nti z a ção d e q ue e la n ão e ra s ó m in ha m e v em c o m o u m d olo ro so a lív io .

ONZE
Não v o u b eija r B o L arso n. N ão v o u p en sa r e m B o L arso n. N ão v o u b eija r B o L arso n.
N ão v o u p en sa r e m B o L arso n.
É u m m antr a q ue fic a s e re p eti n d o s e m p ara r n a m in ha c ab eça e q ue
c hego m esm o a r e cita r e m v oz a lta , q uand o e sto u s o zin ha.
Hora s a nte s d e i r p ara o tr a b alh o n a ta rd e d e s e gund a, m am ãe m e p ed e p ara a v ia r u m a r e ceita p ara e la ,
p ois e stá c o m m ed o d e e nco ntr a r a f a rm ácia f e chad a q uand o s a ir d o tr a b alh o .
Vou a té o C entr o d a c id ad e, o nd e fic a a d ro garia L uth er & S ons. C om o n ão e nco ntr o o nd e e sta cio nar,
s o u o brig ad a a p ara r n um a v aga n a fr e nte d a A ll T hat S hin es, u m a lo ja d e b iju te ria s q uase tã o v elh a
q uanto C lo ver C ity , q ue é a d is tr ib uid ora o fic ia l d as c o ro as d os c o ncurs o s e m to do o e sta d o d o T exas.
Sin to o s o m bro s a rd ere m d e c alo r e nq uanto tr a nco a p orta d a J o le ne.
— A h, q ue m erd a — m urm uro . B em n a f r e nte d a v aga, p re so n um b lo co d e c o ncre to , h á u m c arta z c o m
o s d iz e re s: E X CLU SIV A P A RA C LIE N TES.
Dou u m a o lh ad a, m as n ão v ejo n enhum a o utr a v aga, p or i s so d ecid o d ar u m a c o rrid in ha a té o i n te rio r
d a l o ja .
Por tr á s d o e m poeir a d o b alc ão d e v id ro , s e nta d a n um b anq uin ho d e m ad eir a q ue ra nge, e stá D onna
L ufk in . O s L ufk in tê m ta nto o rg ulh o d a su a fa m ília q ue n em m esm o a tr a d iç ão e o c o nse rv ad oris m o
c o nse guem c o nv encer u m a L ufk in a tr o car d e n o m e q uand o s e c asa . M as D onna n unca s e c aso u.
É u m a m ulh er c o rp ule nta , d e p orte r o busto . E stá v esti n d o u m a b erm ud a c arg o c o m b ain ha d esfia d a, e ,
p elo c heir o d as g alo chas d e j a rd in agem , f o ra m u sa d as e xata m ente p ara o q ue s e d esti n am . E la é o o posto
d o q ue s e p oderia e sp era r d e a lg uém q ue v end e c o ro as p ara c o ncurs o s d e m is se s. C la ro , e la v end e o utr a s
c o is a s ta m bém , m as s ã o a s c o ro as q ue f a ze m d a l o ja u m m onum ento c ultu ra l.
— W illo w dean D ic kso n! — e xcla m a e la . — N ão te v ejo d esd e... — E s e c ala .
— O s e rv iç o r e lig io so d e L ucy — te rm in o .
Ela c o nco rd a, m as n ão te nta s o rrir, e f ic o -lh e m ais g ra ta p or i s so d o q ue e la p ode i m agin ar.
— S ua m ãe te m and ou b usc ar a lg um a c o is a ? A cab ei d e r e ceb er a s n o vas c o ro as.
— N ão , s e nho ra . É q ue e u n ão a chei v aga, e a í p ense i s e p oderia d eix ar o c arro n a d a lo ja e nq uanto
d ou u m p ulo n a f a rm ácia .
Ela m e d esp acha c o m u m g esto .
— E sse s c arta ze s n ão s e rv em p ra n ad a m esm o.
— O brig ad a — r e sp ond o, j á c o m a m ão n a p orta .
— Q uer d ar u m a o lh ad a n ela s?
— N ela s o q uê?
Ela a b re u m s o rris o .
— N as c o ro as, é c la ro .
Pode n ão p are cer g ra nd e c o is a , m as a s c o ro as d e z ir c ô nia c úb ic a s ã o g uard ad as c o m m ais s e gura nça
d o q ue s e ria m n o b anco d o o utr o l a d o d a r u a. P or m ais q ue e u d esp re ze e sse c o ncurs o , n ão é u m a o fe rta
q ue s e p ossa s im ple sm ente r e cusa r.
Donna tr a nca a p orta d a l o ja e e u a s ig o , a tr a v essa nd o a c o rti n a q ue l e v a a o e sto que. T em os q ue p assa r
p or d ois e sc ritó rio s a té e la d estr a ncar u m p eq ueno a rm ário c o m p ra te le ir a s c heia s d e c aix as. C ad a u m a
e stá m arc ad a c o m o s n o m es d as c id ad es d o e sta d o, m as n a f r e nte e n o c entr o tr ê s d ela s tê m e ti q ueta s q ue
d iz e m C LO VER C IT Y.
— E sp era a í. P or q ue tr ê s?
Ela e num era n o s d ed os.
— A p rim eir a é a o rig in al. À s v eze s, é e xib id a n a p re fe itu ra . A s e gund a é a q ue é d ad a à v enced ora . E
a te rc eir a é a q ue f ic a d e r e se rv a, p ara o c aso d e a s e gund a s e r r o ub ad a.
Ela ti r a as tr ê s caix as e as co lo ca la d o a la d o na esc riv anin ha. A q ue é d ad a à v enced ora e a
s o bre ssa le nte s ã o q uase id ênti c as, m as a o rig in al... b em , e ssa p are ce o ti p o d e p re cio sid ad e q ue v ocê
e nco ntr a ria n a c aix a d e b iju te ria s d a s u a a v ó. A s p ed ra s d e s tr a ss e stã o e m baçad as e o m eta l, o xid ad o d e
v elh ic e, m as e la a in d a te m q ualq uer c o is a d e n o bre . G osto d o fa to d e n ão s e r b rilh ante o u a lti v a d em ais
c o m o a s m ais n o vas, e , a in d a a ssim , te r p ers o nalid ad e.
Donna m e v ê o bse rv and o a o rig in al.
— T am bém é a m in ha f a v orita .

Por u m m om ento , o c o ncurs o f a z s e nti d o, e e u e nte nd o p or q ue m am ãe l h e d ed ic a m eta d e d a s u a v id a e
a m aio ria d as g aro ta s n a c id ad e s o nha c o m v esti d os d e g ala e re fle to re s n as n o ite s e m q ue o c éu e stá
cra v eja d o d e e str e la s.
— A s e nho ra d á u m a e xp erim enta d a d e v ez e m q uand o?
Suas f a ces s e c o bre m d e u m r u b or c la rís sim o.
— M uito c á e ntr e n ó s, u m a v ez o u o utr a . — C om g ra nd e c uid ad o, e la p õe a s m ão s n a c aix a q ue c o nté m
a o rig in al.
— E xp erim enta .
— T em c erte za ? — C om m in ha s o rte , v ou s e r l o go e u a q ueb ra r a c o ro a o rig in al.
Ela m e o lh a f ix am ente .
— E e u p are ço s e r d o ti p o d e m ulh er q ue n ão te m c erte za d e a lg um a c o is a ?
Faço q ue n ão .
Ela m e l e v a a té a f r e nte d o e sp elh o q ue f ic a a tr á s d a p orta . P re nd o a r e sp ir a ção q uand o p õe a c o ro a n o
alto d a m in ha c ab eça. S ei q ue é b iju te ria , to das a s p ed ra s s ã o fa ls a s, m as is so n ão m e im ped e d e s e nti r
se u p eso c o m o u m a r e sp onsa b ilid ad e. G osta ria q ue L ucy, E lle n o u m esm o a m in ha m ãe e sti v esse m a q ui
para m e v er c o m o u nifo rm e v erm elh o e b ra nco d o H arp y’s e o b em m ais p re cio so d e C lo ver C ity n a
cab eça.
— V erd ad e s e ja d ita , n ão a cho q ue a s u a m ãe a te nha s e q uer e xp erim enta d o. É m elh o r n ão c o nta r i s so
a n in guém .
Dig o q ue s im a p enas c o m o s o lh o s, p orq ue e sto u c o m m ed o d e b ala nçar a c ab eça.
— P or q ue m e d eix o u e xp erim entá -la ?
Ela d á d e o m bro s.
— T alv ez p orq ue n em s e m pre s e ja p re cis o v encer u m c o ncurs o p ara s e p ôr u m a c o ro a n a c ab eça.
Não v o u b eija r B o L arso n. N ão v o u p en sa r e m B o L arso n.
Marc us lig o u p ara a v is a r q ue e stá d oente e n ão v em tr a b alh ar, c o m o s e e sti v esse
pre sse nti n d o q ue o c lim a h o je v ai f ic ar s u p erp esa d o.
O b rilh o d a c o ro a já d esb oto u, e n ó s e sta m os a té o p esc o ço d e tr a b alh o . B o a cab a te nd o q ue se r
dese nto cad o d a c o zin ha p ara m e a ju d ar n o c aix a. P elo q ue v ejo , a s ú nic as f r a se s e m s e u v ocab ulá rio s ã o :
“V ai c o m er a q ui o u é p ra v ia gem ?” e “ S ão ... [ o v alo r d o p ed id o]” .
De v ez e m q uand o, n o ssa s m ão s s e r o çam o u e sb arra m . E c ad a to que f a z c o m q ue e u s in ta u m c ho que
elé tr ic o c o rre r p ela s m in has v eia s. M as, q uand o e le c o m eça a d is c uti r c o m u m c lie nte p or c ausa d e
pic le s, R on o m and a d e v olta p ara a c o zin ha.
No f im d a n o ite , R on d esp acha to do m und o p ara c asa m ais c ed o e p ro m ete v ir a m anhã d e m anhã p ara
fa ze r a c hecagem f in al. E u a té p ro te sta ria , p ois m in ha m ãe m e e nsin o u q ue u m a d am a d o S ul s e m pre b ate
o p é q uand o o utr a p esso a s e o fe re ce p ara f a ze r a f a xin a, m as e sto u l o uca p ara i r e m bora .
Tento s e r r á p id a e c hegar à p orta a nte s d e B o, m as e le a co m panha c ad a p asso q ue d ou, r e nte n o s m eus
calc anhare s.
Vou te r q ue a rra nja r o utr o e m pre go .
Já e sto u c o m a m ão n a p orta d o c arro e q uase l iv re p ara d ar o f o ra .
— W illo w dean.
Dou m eia -v olta .
Ele s e a p ro xim a tã o d ep re ssa q ue c hego a te r a s e nsa ção d e q ue ta m bém e sto u m e a p ro xim and o d ele .
Nosso s n ariz e s s e e nco sta m e s e us l á b io s p ara m a u m m ilím etr o d os m eus. M in ha r e ti n a m enta l a in d a
pre cis a a v ançar n o te m po e a ssim ila r q ue e le e stá a q ui, n o m eu e sp aço , r e d efin in d o tu d o o q ue a chei q ue
sa b ia s o bre m im m esm a. M in ha d is c riç ão . M eu o rg ulh o . A mbos s e e v ap ora ra m , e é c o m o s e e u e sti v esse
usa nd o a nto lh o s d e c av alo .
Esto u b eija ndo B o L arso n. E sto u p en sa ndo e m B o L arso n.
Pela p rim eir a v ez n a v id a, e u m e s in to í n fim a. M in úsc ula . M as n ão d e u m j e ito q ue m e i n ti m id a, e s im
me to rn a l iv re e p odero sa .
— Q uero te b eija r — a nuncia e le , s e us l á b io s r o çand o o s m eus a c ad a p ala v ra .
Perc o a c ap acid ad e d e f a la r e , d esis ti n d o, e ntr e la ço o s d ed os n o s s e us c ab elo s e p uxo a té s u a b oca s e
co la r à m in ha.

DO ZE
Quand o f ic o n a p onta d os p és p ara a lc ançar a p ra te le ir a m ais a lta , s in to o n ó n a c in tu ra
s e d esfa ze r e o a v enta l c air. O lh o p ara tr á s, à d ir e ita e à e sq uerd a, e v ejo B o s o rrin d o.
Ele d á u m a p is c ad in ha.
Bo s e to rn o u a m elh o r p arte d o m eu d ia — e a p io r ta m bém .
Meu r e ló gio d e p uls o m arc a s e is e d ois d a ta rd e. H ora d o in te rv alo . E nfio o ú lti m o s a co d e p ães d e
h am búrg uer n a p ra te le ir a , n a c erta a m assa nd o-o s c o m o g esto d esc uid ad o, e m e v ir o p ara s e gui- lo . O s
p és m e c arre gam s e m q ue a c ab eça p ossa d ar q ualq uer p alp ite . A b aru lh eir a à s m in has c o sta s s ile ncia a té
s ó r e sta re m o s e co s d o H arp y’s : p ed id os g rita d os, c lie nte s r e cla m and o, o a sso bio d o M arc us, a c hia d eir a
d a f r itu ra — tu d o s e tr a nsfo rm a n o m ais a b so lu to s ilê ncio .
Até o c o m eço d o v erã o , e u n ão c o nhecia n ad a p are cid o c o m is so . É o m om ento a nte s d e e u p egar o
s a co d e l ix o q ue f ic a e m c im a d os e ngra d ad os e e sc ancara r c o m o p é a p orta e ntr e ab erta d os f u nd os.
É o s e gund o a nte s d e e u la rg ar o s a co tr a nsb ord ante p erto d a c açam ba q uand o B o L ars o n m e d á u m a
p re nsa c o ntr a a p orta d e m eta l e s ó s e us lá b io s m e to cam . É a q uele m ilis se gund o s e m a s m ão s. S ó o s
l á b io s.
E e ntã o , c o m o s e a s c o m porta s d e u m a r e p re sa s e a b ris se m , s u as m ão s s e m exem e o m om ento p assa .
E e u m e l e m bro d o c o nstr a ngim ento q ue s in to q uand o e la s p asse ia m p elo m eu c o rp o f lá cid o.
Quand o e ssa c o nsc iê ncia m e a ti n ge, m in ha c ab eça lig a d e n o vo, c o m o s e e sti v esse n um ti m er. C ad a
m om ento p are ce e nsa ia d o, p orq ue, à m ed id a q ue a s c o is a s fo ra m a v ançand o e ntr e n ó s, c o m ecei a m e
c o ncentr a r c ad a v ez m ais e m p re v er o q ue e le f a ria e m s e guid a. E a go ra e u j á s e i. S ei q ue, q uand o e le m e
e m purra le nta m ente e m d ir e ção à c açam ba ta m pad a e p assa a m ão p ela m in ha c in tu ra , é p orq ue q uer m e
l e v anta r. P or is so , s e m pre m e a p oio e fa ço is so e u m esm a, p orq ue m e a p av ora a id eia d e q ue e le p ossa
t e nta r e m e d eix ar c air. Q uand o s in to s e us d ed os d esc end o p elo m eu p eito , v ou l o go c o ntr a in d o a b arrig a.
O q ue é u m a p erd a d e te m po, já q ue n unca fa z a m eno r d ife re nça n as fo to s, p orta nto d uv id o q ue fa ça
a go ra .
É n esse s m om ento s q ue e u m e to rn o u m a s o m bra d a m ulh er q ue fu i. D a m ulh er q ue L ucy s e m pre q uis
q ue e u f o sse .
Mas, q uand o e le d iz m eu n o m e, é s e m pre u m a s u rp re sa . “ W illo w dean”, d iz e le , e c ad a l e tr a m e c o rre
c o m o u m a rre p io a té o s d ed os d os p és.
Toda n o ite , q uand o R on n o s m and a p ara c asa , c am in ham os a té o s n o sso s c arro s, s e p ara d os p or a lg uns
p asso s. D ep ois q ue s a ím os d a l u m in o sid ad e a v erm elh ad a d o H arp y’s p ara a e sc urid ão , B o r o ça o s d ed os
n o s m eus a nte s d e s e d ir ig ir à p orta d a c am in ho nete .
“M e s e gue.”
Nem m e d ou a o tr a b alh o d e b ala nçar a c ab eça, p orq ue v ou s e gui- lo e e le s a b e d is so .
Ele d á a p arti d a n a c am in ho nete e e u n a J o le ne. N ossa r e la ção é c o m o u m p asse io d e m onta nha-ru ssa .
O s f r e io s p odem e sta r q ueb ra d os e o s tr ilh o s e m c ham as, m as n ão c o nsig o e sc ap ar d o c arrin ho .

TR EZE
Fiq uei s a b end o m uita s c o is a s s o bre B o. E m esm o a ssim e le a in d a é u m m is té rio p ara
m im . C om o o la nce d os p ir u lito s v erm elh o s. E le ti n ha d ific uld ad e p ara c o ntr o la r a ra iv a q uand o e ra
p eq ueno , p or is so a m ãe lh e d av a u m p ir u lito d esse s e d iz ia :
Se v o cê a in da e stiv er z a ngado q uando
t e rm in ar d e c h upar e sse p ir u lito , p ode e sp ern ea r e g rita r à v o nta de.
M as h o uv e o utr a s c o is a s, c o m o a
c o rre nti n ha q ue e le s e m pre e nfia d e v olta q uand o s a i d e b aix o d a c am is e ta . Q uand o e u p erg unta v a p or
q uê, e le s e m pre d esc o nv ers a v a e d iz ia q ue e ra u m a m ed alh in ha c o m o s a nto p ad ro eir o d a H oly C ro ss.
A v elh a e sc o la s e to rn o u o q ue s e p oderia c ham ar d e “ no sso c anti n ho ”. E u e sta v a u m a p ilh a d e n erv os
n a p rim eir a v ez q ue f o m os a té l á . M as, a go ra , e ssa e sc o la a rru in ad a s e to rn o u o n o sso s a ntu ário .
Esta cio no a tr á s d a c am in ho nete , ti r o a c hav e d a ig niç ão e d estr a nco o c arro , tu d o p ra ti c am ente a o
m esm o te m po. E le a b re a p orta d a J o le ne p ara m im .
Entr o n a c am in ho nete .
Ele d á u m b eijo n a p onta d o m eu n ariz . D e b aix o d o b anco , r e ti r a u m a s a co la d e p re se nte v erm elh a,
t o da a m assa d a, e a c o lo ca n o p ain el.
— F eliz a niv ers á rio .
Fiz a no s h á tr ê s d ia s. N ão c o nte i p ara n in guém n o tr a b alh o . N ão p orq ue n ão q uis e sse q ue fic asse m
s a b end o, m as p orq ue p are ceria q ue e u e sta v a p re ssio nand o o p esso al ( p rin cip alm ente B o) a f a ze r a lg um a
c o is a p ara m im . E n ão é a ssim q ue a s c o is a s fu ncio nam e ntr e n ó s. N ão h á q ualq uer c o m pro m is so . N em
r e sp onsa b ilid ad es.
— C om o v ocê d esc o briu ?
Ele d eu d e o m bro s.
— O uv i R on te d ese ja r u m f e liz a niv ers á rio .
— P osso a b rir ?
— N ão . O p re se nte é a s a co la . N ão e sto u te d and o m ais n ad a a lé m d ela .
Rev ir a nd o o s o lh o s, p ego -a n o p ain el. M eu e stô m ago d á v olta s e m ais v olta s d e e xcita ção . O p eso d a
s a co la a fu nd a n o m eu c o lo . U m a s a co lin ha o nd e c ab e to da u m a h is tó ria d e v erã o .
Ele p ig arre ia .
— E u n ão ti n ha p ap el d e s e d a.
Seu o lh ar q ueim a a m in ha p ele . F echo o s o lh o s e r e ti r o a le ato ria m ente u m i te m d a s a co la .
— U m a B ola 8 M ágic a — d iz e le .
Um s o rris o s e a b re n o m eu r o sto . E sto u m e s e nti n d o u m a b oba.
— B em , n unca m ais v ou te r q ue s o fr e r c o m o p eso d e u m a d ecis ã o .
— O lh a o r e sto .
Obed eço . U m a M ola M alu ca d e m eta l, u m a m assin ha S illy P utty e u m s a q uin ho d e c ara m elo s.
Bo s o pra b olh as n a m assin ha e a u sa p ara ti r a r a ti n ta d o s e u m anual d e u su ário , e nq uanto b rin co c o m a
M ola M alu ca, d eix and o q ue d esliz e p ela s m in has m ão s, c o m o J a ke.
— O brig ad a. N ão p re cis a v a te r c o m pra d o n ad a.
Ele d á d e o m bro s e o bse rv a o s o bje to s e sp alh ad os e ntr e n ó s.
— V ocê e sq ueceu u m a c o is a . — E le e nfia a m ão n a s a co la . — F echa o s o lh o s.
Obed eço .
Sin to s u as m ão s n o m eu r o sto e nq uanto e le a je ita u m p ar d e ó culo s n o m eu n ariz . M eu c ab elo p re nd e
n um a r e entr â ncia d a a rm ação , m as e le te m o c uid ad o d e c o lo car a s h aste s d ir e iti n ho n as o re lh as.
— P ro nto . P ode a b rir.
Aje ita o e sp elh o r e tr o vis o r n a m in ha d ir e ção , e v ejo u m p ar d e ó culo s d e u m v erm elh o v ib ra nte e m
f o rm ato d e c o ra ção . C om o a s le nte s sã o ti n gid as e e sc ura s, m eus o lh o s d em ora m u m m om ento a m e
r e co nhecer. T ir o o c ab elo d e o nd e f ic o u p re so .
Os ó culo s s ã o p ara s e r e ngra çad os. Is so e u e nte nd i. M as a d ore i m esm o a ssim ! E le s m e tr a nsfo rm am .
N o e sp elh o , v ejo u m a m ulh er q ue a cho q ue a in d a n ão ti v e o p ra ze r d e c o nhecer.
— S ão lin d os — d ecla ro , p ara lo go e m s e guid a m e s e nti r b oba. S ão ó culo s b ara ti n ho s, d e lo ja d e
1 ,9 9. U m a c o is a q ue e le d ev e te r a ti r a d o n a c esta n a ú lti m a h o ra , q uand o j á e sta v a n a f ila d o c aix a.
Ele i n clin a o c o rp o n a m in ha d ir e ção e p re ssio na o s l á b io s n o s m eus. M eu c o rp o i n te ir o f ic a m ole a o
s e nti r o p eso d aq uela m usc ula tu ra .

— V ocê p re cis a i r p ra c asa — s u ssu rra e le , e ntr e b eijo s.
Faço q ue s im . E c o nti n uam os n o s b eija nd o.
Fic o no esta cio nam ento co m B o p or te m po d em ais , m as te nho so rte d e enco ntr a r
mam ãe d orm in d o a s o no s o lto c o m a p orta fe chad a q uand o c hego . T enho p assa d o o
verã o in te ir o in v enta nd o m il d esc ulp as p ara te r q ue “ tr a b alh ar” a té m ais ta rd e d o q ue o n o rm al. E la n ão
pare ce acre d ita r em nenhum a, m as nunca m e in te rro ga. A lé m dis so , está co nfe ccio nand o banners ,
entr e v is ta nd o n o vos ju ra d os e p ro cura nd o p atr o cin ad ore s p ara o c o ncurs o , p or is so ti r o u lic ença d o
carg o d e m ãe p or a lg uns m ese s.
A p orta d e L ucy e stá fe chad a, c o m o n o s ú lti m os d ois m ese s. T oco n a m açaneta a o p assa r, m as n ão
ab ro . D esd e o d ia e m q ue m am ãe c o m eço u a a rru m ar o q uarto e ti v em os a q uela b rig a, e la r e so lv eu d eix á-
lo e m p az, c o m o s e ti v esse e sq uecid o o in cid ente . E e u n unca to co n o a ssu nto , p or m ed o d e q ue e la
re co m ece o q ue i n te rro m peu.
Quand o e sto u q uase p egand o n o s o no , o c elu la r c o m eça a v ib ra r.
ELLE N : M enti r o sa .
Merd a.
E la d ev e te r d esc o berto . M as ta m bém te m g uard ad o s e us s e gre d in ho s d e m im . N ão p osso m ais
ouv i- la f a la r d o T im s e m m e l e m bra r d o c o m entá rio q ue a C allie f e z n aq uela n o ite n o H arp y’s s o bre o ta l
“la nce o ra l” . S ei q ue f o i u m a c o is a s e m i m portâ ncia e q ue, c o m o te m po, n ão v ai f a ze r d ife re nça, m as n ão
posso d eix ar d e m e p erg unta r o q ue m ais e la n ão m e c o nto u. A go ra , v ir e i a a m ig a v ir g em q ue n ão m anja
dessa s c o is a s.
ELLE N : S ua c acho rra m enti r o sa . V ocê p ro m ete u p assa r n o T im q uand o s a ís se d o tr a b alh o .
Ah, g ra ças a D eus. E u ti n ha m e e sq uecid o to ta lm ente d a f e sta d o T im , m as i s so e la v ai p erd oar m uito
mais f á cil d o q ue s e d esc o bris se s o bre o s m eus p egas c o m B o.
O c elu la r v ib ra d e n o vo.
ELLE N : V ocê p erd eu u m s e nho r E -S -C -Â -N -D -A -L -O .
Vir o d e la d o e d ig ito u m a m ensa gem rá p id a p ara m e d esc ulp ar e d iz e r q ue a g ente s e fa la a m anhã,
ante s d e p assa r p ara a s e guin te .
BO : B oa n o ite .
Solto u m l o ngo s u sp ir o . E n ão tô n em a í p ra i s so .

QUATO RZE
Aco rd o c o m a c am pain ha to cand o.
Ante s d e m e l e v anta r d a c am a, d ou u m a o lh ad a n o c elu la r.
ELLE N : T ô a q ui a b re a p orta .
Vis to u m s h o rti n ho d e ly cra s u rra d o e d esç o a e sc ad a a o s tr o peçõ es p ara a b rir a p orta d os fu nd os.
E nco ntr o E lle n c o m a c ara c o la d a n o v id ro , f a ze nd o b aru lh o s d e p um c o m a b oca.
O verã o in te ir o te m sid o m egab iz a rro , um univ ers o to ta lm ente no vo para nó s. Sem pre fo m os
d ia m etr a lm ente o posta s. L ucy c o stu m av a d iz e r q ue a s m elh o re s a m ig as tê m tu d o e n ad a e m c o m um .
Cada
m en in a é s ó u m a v ersã o d ife re n te d a m esm a h is tó ria
, a fir m av a. M as, n este s ú lti m os d ois m ese s, e u m e
s in to c o m o s e e sti v ésse m os s e nd o p uxad as e m d ir e çõ es o posta s, e s o u a ú nic a q ue p are ce te r c o nsc iê ncia
d is so .
Desliz o a p orta e , p or u m s e gund o, E l d esliz a o r o sto j u nto c o m e la . P or f im , e ntr a n a c o zin ha e s e j o ga
n um a d as c ad eir a s a o r e d or d a m esa .
— M in ha n o ssa , W ill. E u e sta v a d erre te nd o l á f o ra .
Dou u m a o lh ad a n o r e ló gio d o m ic ro -o nd as.
— É m uito c ed o — r e sm ungo , m e jo gand o n um a c ad eir a . C onte nho o im puls o d e d iz e r q ue fiq uei a té
a s d uas d a m anhã c o m o B o d a E sc o la P arti c ula r.
— H oje é d ia d e p agam ento . N unca é c ed o d em ais p ara r e ceb er m in ha g ra na. — E la s e l e v anta e a b re
a lg uns a rm ário s, p ro cura nd o u m p aco te d e b is c o ito s o u u m s a co d e b ata ta s f r ita s p ara b elis c ar. — E s ã o
o nze d a m anhã. N ão é tã o c ed o a ssim . S ua m ãe te ria u m tr o ço s e s o ub esse q ue v ocê d orm iu a té e ssa h o ra .
— P aciê ncia . — C ru zo o s b ra ço s s o bre a m esa e e nco sto a c ab eça n ele s. — V ocê e stá c o m u m a c ara
f e liz . P or q ue e ssa e ufo ria to da?
— S ei lá . P orq ue e sto u v iv a. P orq ue e stá tu d o c o rre nd o b em . P orq ue a s a ula s v ão c o m eçar d aq ui a
u m a s e m ana. — E la f e cha a p orta d e u m a rm ário e s e v ir a p ara m im . — E d e r e p ente p orq ue n ão s o u m ais
t ã o r u im f a ze nd o s e xo .
— A c o is a n ão p ode se r tã o c o m plic ad a a ssim , p ode? — M as, p ara se r sin cera , a id eia d e fa ze r
A QUIL O m e d eix a a p av ora d a.
— U m d ia v ocê v ai v er. — E la b ala nça a c ab eça.
Não v o u n ão,
p enso .
Vou s e r v ir g em a v id a i n te ir a . E ste h ím en v eio p ra f ic a r.
— V ai s e v esti r. E stá n a h o ra d e e u r e ceb er o m eu d in d im !
—Tem u ns sa co s d e b ata ta s fr ita s n a d esp ensa — a v is o , e nq uanto m e d ir ijo à e sc ad a. — M e d á
q uare nta e c in co m in uto s.
— V ocê e stá c o m s o rte , te nho u m m onte d e p ro gra m as d e b aix aria s g ra v ad os n a s u a te v ê a c ab o p ara
a ssis ti r — g rita e la à s m in has c o sta s.
Tom o u m b anho r á p id o e s e co o s c ab elo s c o m u m a to alh a a nte s d e p re nd ê-lo s n um c o que f r o uxo . D ou
u m a b oa o lh ad a n o a rm ário , m as e ntã o d ecid o q ue e stá fa ze nd o m uito c alo r p ara m e p re o cup ar c o m
r o up as e e sc o lh o u m s h o rti n ho e u m a c am is e ta d e u m d os c o ncurs o s d a m am ãe.
— T ô p ro nta — d ig o , c o rre nd o p ela e sc ad a. — T enho q ue d eix ar u m p ouco d e ra ção n a ti g ela d o
R io t...
— J á f iz i s so — a nuncia E lle n.
Vou n a d ir e ção d a c o zin ha e a e nco ntr o g uard and o u m sa co d e b ata ta s fr ita s, q ue só c o m eu a té a
m eta d e.
— M in ha m ãe v ai p ensa r q ue f u i e u — c o m ento . C la ro q ue e la n unca f a ria q ualq uer c o m entá rio , e n em
s e ria p re cis o .
— S ua m ãe a nd a p re cis a nd o tr a nsa r. — R io t p ula n a b ancad a d a c o zin ha e E lle n fa z u m a fe sti n ha
v ig o ro sa a tr á s d e s u as o re lh as. — P eguei o c arro d a m in ha m ãe j á n a r e se rv a. A g ente p ode i r n a J o le ne?
— P ode, c la ro . — E l m e s e gue p ela p orta d os f u nd os e , q uand o e sto u tr a ncand o o p ortã o , p erg unto : —
E o q ue é q ue te m s e xo a v er c o m o q ue a m in ha m ãe d ir ia s o bre a s b ata ta s f r ita s?
El d á d e o m bro s e p uxa a m açaneta , esp era nd o q ue eu d estr a nq ue o carro . D esd e q ue p erd eu a
v ir g in d ad e, e stá s e a chand o u m a v erd ad eir a s e xó lo ga, e q ue a c ura p ara tu d o é f a ze r s e xo a d oid ad o. I s so
m e d eix a l o uca. S ou v ir g em , n ão b urra .
Quand o destr a nco o carro e se nto ao vola nte , so lta m os asso vio s in v olu ntá rio s ao re ceb er um a

bafo ra d a d e a r q uente n a c ara .
— M in ha n o ssa — e xcla m a E l — , a b re l o go e ssa s j a nela s!
O q ue s e m pre a chei ir ô nic o n a S w eet 1 6 é q ue o m aio r m aneq uim q ue e le s tê m é 4 4.
Até c o m ente i i s so c o m a E lle n u m a v ez, m as a cho q ue e la f in giu n ão o uv ir.
Na p rim eir a v ez q ue e ntr e i lá , fiz u m e sfo rç o c o nsc ie nte p ara n ão d eix ar q ue o m eu c o nstr a ngim ento
tr a nsp are cesse . M as, d ep ois d e v olta r c o m a E l to das a s q uin ta s p ara e la r e ceb er o c heq ue, p osso a fir m ar
co m s e gura nça q ue já d is p onho d e e v id ência s s u fic ie nte s p ara fo rm ar u m a o pin iã o c ie ntí fic a s o bre e sse
lu gar.
Min ha O pin iã o C ie ntí fic a: e sse lu gar é u m a m erd a, e to das a s g aro ta s q ue tr a b alh am a q ui s ã o u m as
esc ro ta s s e b osa s q ue m e tr a ta m c o m o s e e u f o sse u m a o bra d e c arid ad e d a E l.
As p are d es d a S w eet 1 6 s ã o c o berta s d e e sp elh o s e m aneq uin s c o m o s o sso s d os q uad ris s a lie nte s,
je ans S ain t- T ro pez e c am is e ti n has b ab y lo ok c o m d iz e re s d o ti p o
Sou g ata d em ais p ara fa ze r d ever d e
ca sa
. S ig o E lle n p or e ntr e a s a ra ra s l o ta d as d e r o up as, to m and o c uid ad o p ara n ão d erru b ar a p orc aria d a
lo ja i n te ir a c o m o s m eus c ulo te s.
— E l- b ell! — g rita C allie , q ue já e le gi c o m o m in ha in im ig a m orta l. — M om ô — e la c ham a a lg uém
que d ev e e sta r à s s u as c o sta s, a m ão e m v olta d a b oca. — A E l- le fa nti n ha v eio p egar o d in d im ! — R eti r a
deb aix o d o c aix a u m e nv elo pe b ra nco n o vin ho e m fo lh a e o e ntr e ga a E l. — O i, W illo w ! — In clin a-s e
para m im e a cre sc enta : — M enin a, n em te c o nto ! O c am po d e tr e in am ento d o c o ncurs o fa z m ila gre s.
Esto u q uase c o m u m a b arrig a d e ta nq uin ho . M as n ão q uero f ic ar m uito m usc ulo sa . A cho g ro te sc o .
— M eu n o m e é W illo w dean — m urm uro , m as e la n ão m e o uv e p orq ue M org an, a g ere nte , u m a m ulh er
velh a d em ais p ara s e r u niv ers itá ria e n o va d em ais p ara s e r m ãe d e g aro ta s d a n o ssa i d ad e, s a i e m p asso s
desp re o cup ad os d a s a la d os f u ncio nário s. É a lta e l o ngilín ea, tu d o q ue a E l e stá c o m eçand o a s e to rn ar.
— M in ha filh a, n em te c o nto . C hego u a c o le ção n o va, fo fé rrim a e e u e sto u a q ui m orre nd o c o m M
maiú sc ulo . Sério , gaste i quase to do m eu sa lá rio ! Q uem quer sa b er dessa s ilu str e s desc o nhecid as
cham ad as “ co nta s a p agar” ?
El c ai n a r is a d a. O q ue m e d eix a f u rio sa . Q ue g ra ça i s so te v e?
— E l — c o nti n ua a c ria tu ra , u sa nd o o a p elid o q ue
eu
d ei p ara a
min ha
m elh o r a m ig a — , v ocê te m q ue
vir a q ui e xp erim enta r e sse s m odelito s!
El d á m eia -v olta e o lh a p ara m im .
Conco rd o c o m a c ab eça, d e m á v onta d e.
Ela b ate p alm as.
— T á, m as n ão p osso d em ora r! — T orn a a s e v ir a r. — P ro m eto q ue v ai s e r v ap t- v up t. A posto q ue
nenhum v ai c ab er m esm o e m m im .
Sorrio c o m o s lá b io s a p erta d os. S ig o -a a té o s fu nd os d a lo ja , m as s o u p ara lis a d a p ela s o bra ncelh a
arq uead a d e M org an.
— S in to m uito — d iz e la , o s lá b io s s e to rc end o n um s o rris o . O ti p o d e s o rris o q ue m ostr a q ue a
pesso a n ão s e nte n em u m p ouco . — A á re a é r e str ita a f u ncio nário s.
— V ocê v ai f ic ar b em a q ui? — p erg unta E l, s e us o lh o s b usc and o o s m eus.
— V ou. M as a nd a l o go .
Ela s e gue M org an a té o s fu nd os, e nq uanto C allie s e p osta a tr á s d o b alc ão , b ala nçand o o s q uad ris n o
ritm o d e u m a m úsic a p op q ue s a i d os a lto -fa la nte s, fin gin d o le r u m c alh am aço c o m p in ta d e r e la tó rio d e
vend as.
Esp re m id a e ntr e m il a ra ra s, fic o p ensa nd o q ue e ste lu gar d ev e v ir a r u m in fe rn o a o s s á b ad os. C allie
aum enta o v olu m e q uand o o rá d io c o m eça a to car u m d ance, e e ncaro is so c o m o u m a d eix a p ara m e
esc o nd er n um d os p ro vad ore s. C ad a u m c o nsis te e m u m a c o rti n a, u m b anq uin ho e m ais n ad a. O ú nic o
esp elh o é o q ue fic a n o c o rre d or, e te m q ue s e r c o m parti lh ad o p ela s c lie nte s. D ev e s e r u m s a co te r q ue
sa ir d o p ro vad or to da v ez q ue a g ente q uer v er s e u m a r o up a f ic o u b oa.
Do o utr o l a d o d a c o rti n a, s o m d e c ab id es a rra nhand o m eta l.
— A ond e f o i a a m ig a d a E l? — p erg unta M org an.
— S ei l á — r e sp ond e C allie . — N ão v i e la s a ir, m as n ão é d o ti p o q ue p assa d esp erc eb id a.
— A h, q ue m ald ad e — d iz M org an. P ode a té p are cer q ue te nto u s e r g enti l, m as a v oz f o i d e s a rc asm o.
— S ab e s e a E l- b ell e nco ntr o u a lg um a c o is a ?
— E la e stá e xp erim enta nd o u ns v esti d os n a s a la d os f u ncio nário s.
Mais c ab id es a rra nhand o m eta l.
— É m uito g enero so d a p arte d a E l s a ir c o m a q uela m enin a, m as a c o ita d a n ão fa z o utr a c o is a s e não

fic ar a tr á s d ela d e u m la d o p ara o o utr o , fe ito u m c acho rrin ho . D ev eria te r v id a p ró pria , n ão ? É m eio
dep rim ente .
Basta e u o uv ir i s so p ara o m eu c o rp o i n te ir o s e r e te sa r d e r a iv a. E m purro a c o rti n a e tr o peço n o te cid o
ao s a ir.
Quatr o o lh o s m e s e guem a té o b anco q ue fic a n a fr e nte d a S w eet 1 6, o nd e m e s e nto e m e a b aix o o
máxim o p ossív el p ara n ão te r q ue v er a s d uas.
Se a m in ha p ele ti v esse u m z íp er p ara e u a b rir e f u gir, é o q ue e u f a ria .
Todas as v itr in es d o sh o ppin g estã o lo ta d as d e tr a je s d e gala p ara o B aile d e H om eco m in g e a
te m pora d a d o c o ncurs o . D ia nte d a S w eet 1 6 h á u m a l o ja c ham ad a F rills q ue e xib e u m l o ngo a zu l- c la ro d e
la nte jo ula s. D e p onta à p onta d a v itr in e, e m g ra xa d e s a p ato , v eem -s e o s d iz e re s:
Clo ver C ity s ó p ode t e r
um a M is s J o vem F lo r d o T exa s. F aça c o m q ue s e ja v o cê. C onfir a o s n osso s m odelo s e xclu siv o s!
Odeio o se nti m ento d e d esp re zo q ue esse co ncurs o m e in sp ir a , m as ele p are ce um a v erd ad eir a
ep id em ia . E a c id ad e i n te ir a e stá d oente .
— O i.
Vir o a c ab eça e v ejo B o s e nta d o d o o utr o l a d o d o b anco .
— O q ue e stá f a ze nd o a q ui? — p erg unto e m to m d e a cusa ção .
— C om pra s c o m m in ha m ad ra sta e m eu i r m ão . — E le a p onta p ara a s a p ata ria a o l a d o d a S w eet 1 6. —
Vi v ocê se nta r aq ui. M eu ir m ão caçula está exp erim enta nd o tê nis d e b asq uete há q uare nta e cin co
min uto s. — E le s o rri e a b aix a o q ueix o a té o p eito . — E v ocê, W illo w dean, o q ue e stá f a ze nd o a q ui?
Sin to v onta d e d e to cá-lo . D e m e a p ro xim ar, d e d ar u m b eijo n o s e u r o sto e d iz e r o i. M as n ão f a ço i s so .
Porq ue n ão e sta m os a b ra çad os n o e sc urin ho a tr á s d o H arp y’s n em a tr a cad os n a c am in ho nete , e p orq ue,
em bora n enhum d e n ó s te nha c hegad o a d iz e r i s so c o m to das a s l e tr a s, n o sso c aso é u m s e gre d o.
— V im a q ui c o m u m a a m ig a. E la v eio r e ceb er o s a lá rio .
— E lle n?
Faço q ue s im . J á f a le i s o bre a E l c o m B o, m as c o nju gand o to dos o s v erb os n o p assa d o. N ão s e i c o m o
exp lic ar e sse e str a nho a b is m o q ue s e a b riu e ntr e n ó s, p or is so fo i m ais fá cil fa la r s o bre e la d o m esm o
je ito c o m o f a le i s o bre a L ucy — c o m o s e e la p erte ncesse à m in ha v id a a nte s d e e u o c o nhecer.
Noto q ue e le e stá u sa nd o u m s h o rt e u m a c am is a d e u m a nti g o c am peo nato d e b asq uete .
— É e str a nho te v er s e m o u nifo rm e. Q uase n ão te r e co nheci.
— A h, m as e u te r e co nheci. — E le e ste nd e a s p ern as s o bre o b anco . E q ue p ern as... N unca a s ti n ha
vis to e xp osta s a nte s. — E a í, o nd e s u a a m ig a tr a b alh a?
Aponto p ara a S w eet 1 6.
Ele fic a b oquia b erto , e se i q ue a go ra v ou p assa r a ju lg á-lo b ase ad a n o m odo c o m o re agiu a e ssa
in fo rm ação , m as u m a v oz o i n te rro m pe.
— B o — c ham a u m a m ulh er a lta e m agra , c o m c ab elo s c asta nho s b rilh ante s c o rta d os e m lo ngas
cam ad as. É j o vem d em ais p ara s e r a m ãe e v elh a d em ais p ara s e r u m a i r m ã.
Ele o lh a p ara tr á s, e d e n o vo p ara m im .
— M in ha m ad ra sta — s u ssu rra .
Fic o c o m a c ara n o c hão . S em pre m orri d e m ed o d o m om ento e m q ue o s n o sso s m und os s e c ho caria m .
Atr á s d a m ad ra sta d e B o e stá o ir m ão . É tã o a lto q uanto e le , m as o ro sti n ho re d ond o m ostr a q ue é ,
pelo m eno s, u m a no m ais n o vo.
— P erd i a n o ção d a h o ra , n ão f o i? — p erg unta a m ad ra sta . — O S am my te m b asq uete à u m a d a ta rd e.
Esta m os e m c im a d a h o ra . — O s o lh o s d ela s e f ix am e m m im , q ue e sto u s e nta d a d o o utr o l a d o d o b anco .
— E q uem é e ssa ?
— C om o v ai? — L ev anto e e ste nd o a m ão , p orq ue s o u u m a s u lis ta e , e m bora a m in ha m ãe d ig a o
co ntr á rio , s o u m uito b em -e d ucad a.
— E ssa é a W illo w dean — re sp ond e B o. O lh a e le d iz e nd o m eu n o m e to do o utr a v ez. — É m in ha
co le ga d e tr a b alh o .
— W illo w dean. U m n o m e... b em c o m prid o, n ão é ?
Esb oço u m s o rris o , p re ste s a a gra d ecer — p elo q uê, n ão f a ço a m eno r i d eia — , q uand o E lle n a p are ce
ao m eu l a d o e d iz :
— M as p ode c ham á-la d e W ill.
Engulo e m s e co e b ala nço a c ab eça.
A m ad ra sta d e B o i n clin a a c ab eça p ara o l a d o, c o m o s e ti v esse a cab ad o d e v er a c o is a m ais a d orá v el
do m und o.
— E v ocê é ...?
— E lle n — re sp ond o p or e la . — M in ha m elh o r a m ig a. — R esp ir o fu nd o. — E lle n, e sse é B o. E le

tr a b alh a c o m ig o n o H arp y’s .
Bo d á u m a ceno c urto p ara E lle n, m as e la p ousa a m ão n o b ra ço d ele e d iz :
— M uito p ra ze r e m c o nhecê-lo .
A m ad ra sta s o rri.
— V ocê é u m a s im pati a !
Eu s e i q ue E lle n a m a T im . E , m esm o a ssim , s in to u m c ala fr io d e c iú m e n a e sp in ha q ue m e p ara lis a .
Desd e o c o m eço d o v erã o , te nho e nco ntr a d o m il m oti v os p ara n ão c o nta r a E lle n s o bre m eu c aso c o m B o.
Mas, p or m ais q ue e u e nro le , s e i q ue, p ara e la , a o m is sã o v ale p or u m a m enti r a . N a v erd ad e, é a té c ap az
de a char q ue é p io r d o q ue u m a m enti r a .
— I m agin o q ue v ocês d uas e stu d em n a C lo ver C ity H ig h?
El e e u b ala nçam os a c ab eça.
— A h, é m ara v ilh o so s a b er q ue B o v ai e nco ntr a r ta nta s c o nhecid as j á n o p rim eir o d ia !
— C om o? — d eix o e sc ap ar. H á m il c o is a s e rra d as n a m in ha r e la ção c o m B o, m as, s e h á u m a q ue e stá
certa , é o f a to d e n o sso s m und os n ão te re m q ualq uer á re a d e i n te rs e ção f o ra d o tr a b alh o . E , e nq uanto f o r
assim , s e rá f á cil f in gir q ue s o u u m a g aro ta n o rm al, f ic and o c o m u m c ara n o rm al.
— P ois é , B o e S am my n ão v ão v olta r p ara a H oly C ro ss e ste a no . — E la f r a nze u m p ouco a te sta . —
Vai s e r b om . U m a m ud ança é s e m pre b em -v in d a, n ão é , m enin o s?
Nenhum d os d ois re sp ond e. O s lá b io s d e B o s e a p erta m n um tr a ço fin o , e e nte nd o q ue e le já s a b ia
desd e o c o m eço d o v erã o e n ão q uis m e c o nta r.
— L ora in e — d iz à m ad ra sta — , é m elh o r a g ente i r a nd and o. S am te m tr e in o . — E le p ega a s s a co la s
no c hão , e a m ad ra sta s e gue à f r e nte , o s q uad ris b ala nçand o. E s ó . N em u m o lh ar, n em u m d ar d e o m bro s.
Nad a q ue m e p ro m eta u m a e xp lic ação .
Sin to a r a iv a m e f e rv er d a c ab eça a o s p és.
— N ossa ! — e xcla m a E l. — O c ara é a in d a m ais g ato d o q ue v ocê d is se !
— V am os. — S aio p is a nd o d uro à s u a f r e nte e m d ir e ção a o e sta cio nam ento .
— V ocê n o to u a q uela c ab ele ir a s e xy q ue e le te m ? E a b arb a p or f a ze r?
Note i. É c la ro q ue n o te i. M as n ão i m porta . P orq ue v ou te r q ue d ar u m b asta n is so . M in has i lu sõ es e m
re la ção a o n o sso r o m ance c la nd esti n o e stã o s e e v ap ora nd o r a p id am ente .
Eu ti n ha u m a i m agem m uito d efin id a d e c o m o a n o ssa r e la ção p oderia s o bre v iv er a té o f im d o a no . E u
e e le i r ía m os tr a b alh ar e d eix aría m os n o ssa s v id as r e ais d o l a d o d e f o ra d a p orta . S em p erg unta s, s ó n ó s
dois . M as d ev e h av er a lg um a r a zã o p ara B o n ão te r m e c o nta d o q ue m ud aria d e e sc o la . T em q ue h av er. E ,
mesm o q ue n ão h aja , n ó s te m os q ue te rm in ar, p orq ue n ão p osso d eix ar q ue e sse r o lo i n v ad a a v id a r e al.
Não v ou s e r r id ic ula riz a d a. N ão q uero s e r a m eta d e d e u m c asa l q ue to do m und o fic a e ncara nd o e s e
perg unta nd o:
Com o f o i q ue e la p eg ou e sse c a ra ?

QUIN ZE
Desd e o in íc io d o v erã o , te nho p assa d o to das a s n o ite s liv re s e m c asa , e nto cad a n o
q uarto c o m o la p to p e o s liv ro s q ue e u já h av ia d eix ad o s e p ara d os n as p ra te le ir a s. M as h o je m am ãe
b oto u n a c ab eça q ue e u te nho p orq ue te nho q ue a ssis ti r a u m p ro gra m a c o m e la , e nq uanto c o nfe ccio na
a d ere ço s p ara o n úm ero d e d ança q ue v ai a b rir o c o ncurs o .
Eu m e s e nto n o s o fá , n o l a d o o posto a o c anto o nd e L ucy s e m pre s e s e nta v a, c o m o m eu l a p to p a p oia d o
e m c im a d e u m tr a v esse ir o . M am ãe g uard ou n a c ris ta le ir a a c o ro a q ue c o stu m av a fic ar n o c entr o d o
a p ara d or d a la re ir a , p ara d ar e sp aço à u rn a c o m a s c in za s d e L ucy. É b em p eq uena, m as b asta p ara m e
l e m bra r d e q ue m in ha m ãe é m ais d o q ue o c o ncurs o .
Ela e stá u sa nd o u m ti p o d e p ap el- m ante ig a p ara c o la r u ns r e m end os c o m o f e rro d e p assa r e m to alh as
d e b rim . É p ara o a lm oço d o c o ncurs o , te nho c erte za .
— E ntã o , e u v i u m a c ham ad a d esse e sp ecia l o utr o d ia .
Ela z a p eia o s c anais a té p ara r n a M TV.
A c âm era s e gue u m a g aro ta q ue a nd a d e c o sta s p ela ru a d e u m b air ro c o m a s c alç ad as c o berta s d e
n ev e. É co rp ule nta , co m a b arrig a p end ura d a so bre o je ans. N a m esm a ho ra se i ao nd e m am ãe está
q uere nd o c hegar.
Dete sto v er g o rd as n a te v ê o u n o c in em a, p orq ue p are ce q ue o ú nic o je ito d e o m und o a ceita r u m
g o rd o é se e le e sti v er in fe liz c o m o p ró prio p eso o u se fo r o m elh o r a m ig o p ia d is ta . E e u n ão so u
n enhum a d as d uas c o is a s.
A v oz d e u m lo cuto r in ic ia a n arra ção , e nq uanto a g aro ta é m ostr a d a fa ze nd o c o is a s n o rm ais , ti p o
c am in har e c o m er. “ P ris c illa , d e d eze sse is a no s, q ue m ora e m B rid gep ort, C onnecti c ut, p ode s e r lo uca
p or d oces, m as is so n ão sig nific a q ue se us d eze sse is a no s d e v id a te nham sid o d oces. P ro vocad a e
r id ic ula riz a d a a v id a i n te ir a , e la j á e stá f a rta d e c arre gar o s q uilo s e xtr a s. E la a in d a n ão s a b e d is so , m as
n ó s d a M TV r e so lv em os a te nd er a o s e u p ed id o.” A c âm era d á u m c lo se n o tr a se ir o d a v íti m a, o ti p o d e
b und a q ue a fin a n a b ase e s e m pre fa z a p esso a p are cer q ue a cab ou d e le v ar u m c uecão . D e re p ente , a
c âm era c o rta p ara u m a te la ro xa c o m o n o m e d o p ro gra m a e sta m pad o c o m o u m s e lo d e re je iç ão :
ME
T R ANSFO RM EM : O DEIO S E R G ORDA.
Dou u m a o lh ad a n a m am ãe, m as e la c o nti n ua p re sta nd o a te nção n o s e u p ro je to . M in ha v onta d e é m e
l e v anta r e ir m e tr a ncar n o q uarto , m as a go ra fiq uei c urio sa p ara s a b er q ual s e rá o d esti n o d a P até ti c a
P ris c illa , p or is so d ecid o a ssis ti r m ais u m p ouco . T alv ez s u a v id a s e ja a in d a m ais c o m plic ad a d o q ue a
m in ha, e n o f im v ou s e nti r q ue, p elo m eno s, e sto u n um a s itu ação m elh o r d o q ue a p obre g aro ta .
Essa e str a té gia d a m am ãe n ão é n enhum a n o vid ad e. A nte s m esm o d e e u c hegar a o s o nze a no s, e la já
h av ia m e o brig ad o a fa ze r m ais d ie ta s d a m oda d o q ue p osso e num era r. E is so s e m pre fo i u m m oti v o d e
d is c ó rd ia e ntr e e la e L ucy. E u o uv ia a s d uas b ate nd o b oca n a c o zin ha, m uito d ep ois d a h o ra e m q ue já
d ev eria e sta r d orm in d o.
“E la é s ó u m a c ria nça”, a rg um enta v a L ucy.
“P ois q uero q ue s e ja u m a c ria nça s a ud áv el” , re to rq uia m am ãe. “ É c la ro q ue v ocê e nte nd e p or q ue
e sto u f a ze nd o i s so , n ão e nte nd e, L u? E u s ó n ão q uero q ue e la c re sç a e f iq ue...”
“C om o e u? P ode d iz e r, R osie . V ocê n ão q uer q ue e la c re sç a e f iq ue c o m o a s u a i r m ã m ais v elh a. M as
e la m e v ê to dos o s d ia s, p elo am or d e D eus. A cho q ue a m in ha sim ple s exis tê ncia já b asta p ara
d ese sti m ula r q ualq uer u m .”
“V ocê s a b e m uito b em o q ue e nfr e nta m os q uand o é ra m os p eq uenas. V ocê s e l e m bra .”
Mam ãe n unca fa lo u s o bre s u a v id a a nte s d a a d ole sc ência . E la e ra g o rd a c o m o e u. E n ão e ra a lg o d e
q ue s e o rg ulh asse . M as, n o v erã o a nte s d e c o m eçar o e nsin o m éd io , e la p erd eu to da a g o rd ura , c o m o J a ke
t r o cand o d e p ele . L ucy, q ue já e sta v a n o ú lti m o a no , n ão te v e ta nta s o rte . P or fim , e la a cab ou d esis ti n d o
d e m e o brig ar a fa ze r d ie ta q ua nd o c heguei à s e xta s é rie . N ão s e i e xata m ente p or q ue m oti v o, m as s ó
p ode te r s id o c o is a d a L ucy.
Na te v ê, P ris c illa é a b ord ad a n a e sc o la p or u m a m ulh er a ta rra cad a e a gre ssiv a, q ue s e a nuncia c o m o
p ers o nal tr a in er. A pesa r d e te r s id o e la m esm a q ue s e in sc re v eu n o p ro gra m a, P ris c illa e ntr a e m p ânic o
n a h o ra H , r e so lv e s e tr a ncar n o b anheir o e te m u m a v io le nta c ris e d e c ho ro . P or fim , a p ers o nal v ai a té
e la e m ostr a que te m co ra ção , bate nd o um pap o carin ho so co m a garo ta para anim á-la . Taí...
s in cera m ente , a té f iq uei m eio e ntu sia sm ad a. E m r e la ção a o q uê, n ão f a ço a m eno r i d eia .

Eu n em p re cis o v ir a r o r o sto p ara s a b er q ue o s o lh o s d a m am ãe e stã o ú m id os. E sse m om ento “ É s u a
vid a q ue e stá e m j o go , p are d e s a b ota r a m agra q ue e xis te d entr o d e v ocê” é o f a v orito d ela e m q ualq uer
pro gra m a s o bre p erd a d e p eso .
Passo u m a h o ra in te ir a s a in d o d o a r a m aio r p arte d o te m po, m as n ão c o nsig o d esg ru d ar o s o lh o s d a
te la q uand o, d ura nte u m a s e ssã o d e e xerc íc io s n a p is ta d e c o rrid a d a e sc o la , a p ers o nal d e P ris c illa p ega
tã o p esa d o q ue a g aro ta v om ita n a a rq uib ancad a — d ia nte d o ti m e i n te ir o d e f u te b ol.
Dep ois d is so , a c arra sc a d a P ris c illa d ecid e q ue e la d ev e m alh ar n um a a cad em ia . M as a g aro ta s e
re cusa a s e m atr ic ula r. A p ers o nal p erd e a c ab eça e a e nche d e d esa fo ro s.
“V ou m e se nti r m uito so zin ha”, d esa b afa P ris c illa , e ntr e so lu ço s. “ V ocê já e ntr o u n um lu gar q ue é
ded ic ad o a tu d o q ue v ocê n ão é ? Q uero s e r s a ud áv el, m as ta m bém q uero s e r f e liz .”
No f in al, P ris c illa p erd e s e is q uilo s. A p ers o nal a a p la ud e d ura nte a ú lti m a p esa gem , m as d á p ara v er
se u o lh ar d ecep cio nad o. O s c ré d ito s p assa m e a s le gend as e xp lic am q ue, s e is m ese s d ep ois , P ris c illa
ain d a e stá c o m pro m eti d a e m m ante r u m e sti lo d e v id a s a ud áv el, m as q ue j á s e r e sig no u c o m o f a to d e q ue
te rá p ro ble m as c o m a b ala nça p elo r e sto d a v id a.
Se E l esti v esse aq ui, co nv ers a ría m os so bre o rid íc ulo de um pro gra m a desse s se r co nsid era d o
entr e te nim ento .
— B em — d iz m am ãe — , f o i i n sp ir a d or.
Não te nho n ad a a d ecla ra r q ue e la e ste ja d is p osta a o uv ir.
— V ou p ara o q uarto . J á a cab ou a í?
Ela p ega o c o ntr o le r e m oto e s in to niz a o n o ti c iá rio d a n o ite .
— N ão , n ão . T enho u m m onte d e c o is a s p ara fa ze r a nte s d a re uniã o d e a m anhã c o m a d ir e to ria d o
co ncurs o .
— V ou d orm ir.
— B oa n o ite , D um plin ’.
Já n o s e gund o a nd ar, p aro d ia nte d a p orta d e L ucy p or u m m om ento lo ngo d em ais a nte s d e ir p ara o
meu q uarto . T ir o o c elu la r d o c arre gad or e v ejo q ue n ão re ceb i n enhum a m ensa gem d e B o. D esa b o n a
cam a e s e guro e ntr e a s m ão s a B ola 8 M ágic a q ue e le m e d eu. T enho p erg unta s d em ais p ara m e c o nte nta r
co m u m a s ó , m as s a cud o a e sfe ra tr ê s v eze s e o lh o a r e sp osta .
O p ro gnóstic o n ão é b om .
O c elu la r v ib ra .
ELLE N : A cab ei d e sa ir d o tr a b alh o . V ocê e stá b em ? P are ceu m eio e str a nha q uand o a g ente v eio
em bora d o s h o ppin g.
Decid o c o nta r m ais u m a m enti r a , p orq ue a go ra é ta rd e p ara v olta r a tr á s.
EU : E sto u b em . É q ue o c o ncurs o to m ou c o nta d a m in ha c asa . “ P eito p ra c im a! B und a p ra fo ra !” U m
sa co .
ELLE N : G ro te sc o . Q uer q ue e u v á a í?
EU : A cho q ue p re fir o i r d orm ir.
ELLE N : T ud o b em . T im c o m pro u u ns ó le o s d e m assa gem . A cha b iz a rro ?
Reflito s o bre a p erg unta p or u m s e gund o.
EU : N ão , a m eno s q ue te nham c heir o d e a lg o dão d oce. C ês d ois s ã o u m n o jo . B oa n o ite .

DEZE SSE IS
A ra iv a fu rio sa d e o nte m d eu lu gar a u m a tr is te fr u str a ção . N ão te nho m oti v os p ara
p ensa r q ue B o m e d ev e a lg um a c o is a .
Beijo s tr o cad os d ia nte d e u m a c açam ba d e lix o e n o e sta cio nam ento d e u m a e sc o la a b and onad a n ão
s ig nific am n ad a. S e é só is so q ue n ó s te m os — m om ento s n a so m bra e u m a sa co la d e p re se nti n ho s
c ô m ic o s — , f u i m uito i d io ta e m p ensa r q ue m ere cia a lg o m ais d ele .
Essa é a c o nv ers a q ue te nho c o m ig o m esm a a c am in ho d o tr a b alh o .
Guard o m in has c o is a s n o a rm ário e s a io d a c o zin ha o m ais d ep re ssa p ossív el. A no to o s p ed id os c o m
t o da r a p id ez e e fic iê ncia , e n em m e d ou a o tr a b alh o d e o lh ar p ara o s c lie nte s. B o fix a o s o lh o s b em n a
m in ha te sta e nq uanto c o lo ca s a nd uíc hes s o b a lâ m pad a q ue m anté m a c o m id a a q uecid a o u c o la a d esiv os
d esn ecessá rio s n as e m bala gens d os s a nd uíc hes, a lg o q ue s e m pre m e fa z s o rrir. M as c o nti n uo d ilig ente ,
c o m o s o lh o s f ix o s e m q ualq uer c o is a , m eno s n ele .
Posso se nti r a m ud ança e ntr e n ó s, c o ncre ta e p alp áv el, m as M arc us e R on n ão e stã o n o s tr a ta nd o
d ife re nte , p orq ue, p ara e le s, n ão h á n enhum p ro ble m a v is ív el. M eu m und in ho d e v erã o e stá d esa b and o e m
c im a d e m im e e u s o u a ú nic a te ste m unha.
É i s so q ue a co nte ce,
p enso ,
quando u m s e g re d o s e t r a nsfo rm a
n um a m en tir a .
Dep ois d o c o rre -c o rre d a h o ra d o ja nta r, a c o zin ha fic a u m c ao s, c o m o s e d ois e xérc ito s ti v esse m
t r a v ad o u m a b ata lh a d e v id a o u m orte p ela c o m id a. Q uand o R on p ed e u m v olu ntá rio p ara r e ab aste cer o
b alc ão d e c o nd im ento s, e u m e o fe re ço c o m o m aio r p ra ze r.
Fic o esp era nd o q ue a p orta d a d esp ensa se fe che atr á s d e m im , m as, co m o is so não aco nte ce,
c o m pre end o a r a zã o .
— O i — d iz B o.
Não m e v ir o p ara e le .
Tir a nd o p ro duto s d e v ária s p ra te le ir a s, c o m eço a a rru m ar a s p ilh as d e s u p rim ento s p ara le v ar p ara o
b alc ão .
— O lh a... — c o m eça e le . — E u i a te c o nta r.
Esc uto o s o m d os p asso s e o h álito n o m eu p esc o ço . E le p õe a m ão n a m in ha e s in to a s e cura d as l u v as
d e b orra cha q ue e le u sa n a c o zin ha, m as, m esm o a ssim , e le a in d a m e s e d uz.
— N ão s u rg iu u m a o portu nid ad e. — S eu n ariz r o ça m in ha n uca e p re ssio na o s f io s d e c ab elo s o lto s d o
r a b o d e c av alo . — N ão f ic a z a ngad a.
— N ão ... E u n ão p osso c o nv ers a r s o bre i s so a go ra . — N em m esm o s e i c o m o c o nv ers a r c o m e le . N ão
s e m o s n o sso s l á b io s c o la d os.
Ele b eija m eu p esc o ço , a r e giã o s e d osa n a b ase d a o re lh a.
— P or fa v or. P or fa v or, p ara . — A rra nco a m ão , a p erto c o ntr a o p eito a s c aix as d e g uard anap os,
u te nsílio s e c o nd im ento s e p asso b ru sc am ente p or e le .
— W illo w dean.
Quero p egar m eu n o m e d e v olta . A pagar o m om ento d o n o sso p rim eir o b eijo , d e q ue e le s e a p ro prio u
i n d ev id am ente .
— P oxa, p or fa v or... — p ed e e le , u m p ouco b aix o d em ais , c o m o s e já e sti v esse r e sig nad o a p erd er
u m a b rig a q ue a in d a n em c o m eço u.
No f im d a n o ite , c o m eço a c o m ple ta r o s s a le ir o s e p im ente ir o s. A c am pain ha a cim a
da p orta ti lin ta , e d eix o q ue M arc us a te nd a.
— E i, B o — c ham a e le . — S eu a m ig uin ho tá a q ui.
Dou u m a o lh ad a n o o utr o c anto e v ejo C ollin , o m esm o g aro to q ue v is ito u B o n o c o m eço d o v erã o .
— V eio f a ze r o q uê a q ui, c ara ? — p erg unta B o. E stá p are cend o e xausto , c o m o lh eir a s f u nd as.
Collin a b re u m s o rris o .
— V im s ó f a ze r u m a v is ita a o m eu v elh o a m ig o . A H oly C ro ss n ão v ai s e r a m esm a s e m v ocê.
— V ocês v ão s o bre v iv er.
— A liá s, A mber m and ou u m a b ra ço . E stá p assa nd o m uito m elh o r. A d is tâ ncia fe z b em p ra e la . —
C ollin d á d e o m bro s. — D is tr a çõ es s e m pre a ju d am .
— B om p ra e la — m urm ura B o e ntr e o s d ente s.

— V ocê d ev eria p in ta r l á n a q uad ra u m a n o ite d essa s. P ara a ssis ti r n a a rq uib ancad a, s e i l á .
Alg um a c o is a f a z c ó cegas n a m in ha m ão . D ou u m a o lh ad a e v ejo q ue e nto rn ei s a l e m c im a d o b alc ão .
Os d ois s e v ir a m p ara m im .
Collin s o rri.
— A h, e u m e l e m bro d e v ocê. C om o é m esm o o s e u n o m e?
Abro a b oca p ara r e sp ond er, m as...
— W ill. O n o m e d ela é W ill — a d ia nta -s e B o.
É u m a n av alh ad a n o r o sto o uv i- lo m e c ham ar p or o utr o n o m e q ue n ão W illo w dean. D eix o o s a l e a
pim enta n o b alc ão e s a io p ela c o zin ha p ara p egar o l ix o . P asso s m e s e guem .
— P or f a v or, f a la c o m ig o — p ed e B o.
Saio a p re ssa d a p ela p orta d os fu nd os, s e m r e sp ond er. E ste nd o o b ra ço e te nto d esta m par a c açam ba
alta u m a, d uas, tr ê s v eze s. E le e ste nd e o d ele e c o nse gue d e p rim eir a .
— P re cis a m os co nv ers a r. — B o ti r a o s sa co s d as m in has m ão s fe chad as e o s jo ga na b oca d a
caçam ba.
Esfr e go a s m ão s s u ad as n as c o xas.
— S obre o q uê? E a ta l g aro ta ? H ein ? O q ue e u f u i? S eu c asin ho d e v erã o ?
Ele d á u m p asso à fr e nte e e u q uase d ou u m a tr á s p ara m ante r a d is tâ ncia , m as n ão e sto u d is p osta a
mostr a r u m a g o ta d e f r a q ueza .
— V ocê n ão f o i u m c asin ho , tá l e gal? N ão é i s so q ue a n o ssa r e la ção f o i. O q ue a n o ssa r e la ção é . —
Sua v oz d esp enca u m a o ita v a. — M as a c o m unic ação n unca f o i e xata m ente o f o rte d a n o ssa r e la ção .
— V ocê p odia , p elo m eno s, te r m e c o nta d o q ue n ão v olta ria p ara a H oly C ro ss.
Ele s e c ala p or u m m om ento , e e u i n te rp re to s e u s ilê ncio c o m o u m a c o nfis sã o .
— P or q ue n ão q uis m e c o nta r, B o? P or q uê? E sta v a to rc end o p ara q ue e u n ão d esc o bris se ?
— N ão , é q ue...
— N ão im porta . — S usp ir o . — N em s e i p or q ue e sta m os n o s d and o a o tr a b alh o d e d is c uti r. N ós n o s
beija m os a tr á s d a c açam ba e n um e sta cio nam ento a b and onad o. N ão é o ti p o d e r e la ção q ue v alh a a p ena
dis c uti r.
Para n ão f a la r n o j e ito c o m o a m in ha a uto esti m a v ai p or á gua a b aix o s e m pre q ue e le e nco sta e m m im .
Com o s e m eu i n co nsc ie nte d is se sse : n ão te nho v alo r. N ão s o u b onita . N ão s o u m agra .
— E u p ensa v a q ue v ocê fo sse in co m pre end id o. Q ue as p esso as não te ente nd esse m . M as esta v a
enganad a. V ocê é u m b ab aca, B o L ars o n. — A go ra d ou u m p asso a tr á s, a fr o uxand o a l in ha e ntr e n ó s q ue
no s m ante v e te nso s o v erã o i n te ir o . G osta ria d e p oder c o nta r tu d o i s so a E lle n. — E p ra m im j á c hega d e
se r o s e u s e gre d o.

DEZE SSE TE
Mal d ou u m a o lh ad a n a m in ha a gend a a nte s d o p rim eir o d ia d e a ula .
Fic o e sp era nd o p ela E l n a f r e nte d a s a la d ura nte o s e gund o te m po. É a ú nic a a ula q ue te m os e m c o m um
e ste s e m estr e . Q uand o a c am pain ha to ca p ela s e gund a v ez e já e sto u p re ste s a e ntr a r s o zin ha, lá v em e la
v oand o p elo c o rre d or n a m in ha d ir e ção , c o m T im a tr á s.
— M e d esc ulp e, W ill! — p ed e E l, o fe gante . T im d á u m a a p erta d in ha n a m ão d ela e c o nti n ua c o rre nd o
a té a p ró xim a s a la , o nd e s e rá a a ula d ele .
— Q ue é q ue v ocês e sta v am f a ze nd o?
Ela m exe a s s o bra ncelh as, m alic io sa , e d á d e o m bro s.
Bala nço a c ab eça e e ntr o n a s a la a tr á s d ela .
Só e nco ntr a m os d uas c arte ir a s v agas. U m a a tr á s d a C allie , a c o le ga d a E l, q ue a cena p ara e la i r s e nta r
a li, e o utr a n o s f u nd os d a s a la , u m a c arte ir a d up la , a o l a d o d e M itc h L ew is .
El s e v ir a p ara m im e s u ssu rra :
— M e p erd oe, W ill, d e c o ra ção . A g ente c hega m ais c ed o n a p ró xim a a ula . P ro m eto .
Vou m e a rra sta nd o a té o s f u nd os d a s a la p ara m e s e nta r a o l a d o d e M itc h.
Quand o m e a co m odo, M itc h r e ti r a a m ochila p ara e u te r m ais e sp aço d o m eu l a d o d a c arte ir a . M itc h é
u m g ig ante . É m eio b arrig ud o e te m o s o m bro s m ais la rg o s q ue u m a p orta , m as n in guém o lh a p ara e le e
d iz q ue é g o rd o, e s im a tl é ti c o . O q ue f a z s e nti d o, j á q ue é z a gueir o d o C CH S R am s.
— O i — s u ssu rra e le c o m o tí p ic o s o ta q ue s u lis ta q ue a g ente o uv e o s a to re s d e H olly w ood i m ita re m .
É q uase s im páti c o . — W ill, n ão é ?
Faço q ue s im c o m o s o lh o s fix o s n o S r. K ris p in , c o m o s e n ão p ud esse s u p orta r q ue m e d is tr a ia m d a
s u a f a sc in ante c ham ad a.
— E u s e ria c ap az d e a p osta r q ue n ão a ssis ti m os a u m a a ula j u nto s d esd e o s e xto a no .
— S ra . S alis b ury . — S orrio , su rp re sa por ele se le m bra r de um a co is a dessa s. F oi a m elh o r
p ro fe sso ra q ue j á ti v e. E u m e l e m bro d e M itc h p orq ue e le f a zia a s p erg unta s m ais b urra s d o m und o, ti p o
“ P or q ue o a r é i n v is ív el? ”, e , e nq uanto o p esso al r ia b aix in ho , e la d av a u m a r e sp osta tã o i n te lig ente q ue
t o do m und o p erc eb ia q ue a p erg unta n ão ti n ha s id o tã o b urra a ssim .
O S r. K ris p in d á i n íc io à s a ti v id ad es d o d ia e , n o f im d a a ula , q uand o a c am pain ha to ca, e le a nuncia :
— E sp ero q ue n enhum d e v ocês te nha p ro ble m as p ara a ssu m ir c o m pro m is so s. O s lu gare s o nd e s e
s e nta ra m h o je s e rã o o s m esm os q ue o cup arã o d ura nte o r e sto d o s e m estr e .
Enq uanto o r e sta nte d a tu rm a a v ança e m p eso p ara a p orta , E l a b re c am in ho p ela m ulti d ão p ara c hegar
a té m im .
— M e p erd oa? — p ed e.
— É a ú nic a a ula q ue v am os te r j u nta s, e n ão v am os n em p oder s e nta r a o l a d o u m a d a o utr a .
Callie a tr a v essa a m ulti d ão e n o s i n te rro m pe.
— E l- b ell, v ocê v ai p ara o c o rre d or C , n ão v ai? — E p ara m im : — O i, W illo w .
Fin jo u m s o rris o q uilo m étr ic o , a té o nd e o r o sto s e e sti c a.
Elle n a p erta a m in ha m ão .
— F alo c o m v ocê m ais ta rd e, tá ? — E la já d eu tr ê s p asso s n a d ir e ção o posta , q uand o se v ir a e
a cre sc enta : — E p ode d eix ar q ue e u c o nv ers o c o m o K ris p in s o bre o s l u gare s o nd e a g ente v ai s e s e nta r.
Não v ejo s in al d e B o o d ia in te ir o , s ó o ir m ão c açula , q uand o p asso p elo c o rre d or
ond e e stã o o s a lu no s d o n o no a no . E m bora s a ib a q ue v ou v ê-lo n o tr a b alh o à n o ite ,
s in to u m a lív io i m enso a o s e guir p ara o e sta cio nam ento , à p ro cura d o J e ep d o T im .
— W ill!
Lev anto o s o lh o s. A c ab eça d e M itc h s e a gita n o m eio d a m ulti d ão .
Para m in ha s u rp re sa , s o rrio q uand o e le s e a p ro xim a.
Mitc h c o m eça a c am in har a o m eu l a d o e d iz :
— E a í, o q ue v ocê c o stu m a f a ze r?
Quase d ou u m a r is a d a, m as e ntã o s in to a l e m bra nça d a S ra . S alis b ury p ousa r n o m eu o m bro c o m o u m
p assa rin ho .
— A lé m d e v ir à e sc o la ?

— É .
— B om , e u tr a b alh o . — M eus o m bro s s e e rg uem , e m d úv id a. — V ejo te v ê... É is so q ue v ocê q uer
sa b er?
— O nd e v ocê tr a b alh a?
— N o H arp y’s . P or q uê?
Ele p assa à m in ha f r e nte e a b re a p orta p ara m im .
— E u q ueria s a b er a o nd e te le v ar n o n o sso p rim eir o e nco ntr o , e a í p ense i q ue d ev eria d esc o brir u m
pouco m ais s o bre v ocê a nte s d e e sc o lh er o l u gar.
— N osso p rim eir o e nco ntr o ? — A guard o e nq uanto e le s e gura a p orta p ara u m a m anad a d e a lu nas d o
no no a no p assa r.
Bem -e d ucad o. P ai d o c éu. E le é b em -e d ucad o.
— E xata m ente . O e nco ntr o p ara o q ual e sto u p re ste s a te c o nv id ar. E e ntã o , q uer m e c o nced er a h o nra
de s a ir e m m in ha c o m panhia ?
— E u... M as p or q uê?
— P or q ue e u te c o nv id ei?
Faço q ue s im .
— B em , p orq ue v ocê é b oniti n ha. E p orq ue m e tr a z b oas l e m bra nças d a s e xta s é rie .
— A h, tá . — O “ b oniti n ha” n ão c hega a m e e ncanta r, m as é m elh o r d o q ue o utr o s a d je ti v os q ue já
ouv i. — E v ocê j á c o nv id ou a lg um a m enin a p ra s a ir a nte s?
— U m a o u o utr a .
— E a lg um a a ceito u? — P aro e m e v ir o p ara e le , m ão s le v anta d as. — E sp era a í. N ão . S ab e d e u m a
co is a ? — A i m agem d e B o n o r e sta ura nte s e a cend e n a m em ória . O uço -o d iz e r m eu n o m e, e p enso q ue a
no ssa s itu ação n ão te m f u tu ro . — S im . A r e sp osta é s im . E u a ceito s a ir c o m v ocê.
Ele e ste nd e a m ão p ara u m a p erto e e u a s e guro . F ic o e sp era nd o q ue e ste ja s u ad a, m as n ão e stá . C om o
em C achin ho s D oura d os e a te rc eir a c am a. B em s e q uin ha.
Mitc h d ig ita m eu n úm ero n o c elu la r e p ro m ete m e m and ar u m a m ensa gem p ara q ue e u p ossa s a lv ar o
dele . E ntã o , s e gue e m d ir e ção a o v esti á rio , q ue f ic a n a f r e nte d o e stá d io .
Acho q ue é c ap az d e s e r u m a m á id eia , m as e u v iv o a chand o m il c o is a s. E p re cis o e sq uecer o B o.
Pare ce u m b om c o m eço .
— W ill! — c ham a E l b ru sc am ente . E la v em a v ançand o p ela s file ir a s d o e sta cio nam ento d os a lu no s,
re b ola nd o o s q uad ris c o m o u m a c o rre d ora d ura nte u m a p ro va d e m arc ha a tl é ti c a n as O lim pía d as. — O .
Que. F oi. I s so ?
Dou d e o m bro s.
— S ua g alin ha! D eu o te le fo ne p ra e le !
Tim s e a p ro xim a a tr á s d ela , o c elu la r n a m ão .
— E sp era a í — d iz e le . — A quele e ra o M itc h L ew is ?
Elle n r e sp ond e a nte s m esm o q ue a s p ala v ra s m e o co rra m :
— E m c arn e e o sso . E e ssa p erig uete a cab ou d e d ar o n úm ero d ela .
— O c ara j o ga m uito . O uv i d iz e r q ue a s g ata s v iv em e m c im a d ele .
Esse é o p ro ble m a d e to dos o s jo gad ore s d e fu te b ol a m eric ano d ecente s d e C lo ver C ity . D e v ez e m
quand o, o n am oro s e tr a nsfo rm a e m a lg o m ais . A ú nic a c o is a q ue s e a p ro xim a d o fu te b ol a m eric ano p or
aq ui é o c o ncurs o . O s d ois s ã o a ra zã o d e s e r d a c id ad e. E d ig o is so n o b om s e nti d o. O c o ncurs o e o
fu te b ol a m eric ano o brig am n o ssa c id ad ezin ha a s a ir d a p ró pria c asc a e f lo re sc er. P orq ue, q uand o a s l u ze s
do e stá d io s e a cend em e a s c o rti n as d o p alc o s e a b re m , e sta m os n o á p ic e d e n ó s m esm os.
— N ão i m porta s e e le j o ga b em o u n ão — d ecre ta E lle n. — É a m ig o d o P atr ic k T ho m as.
— A h, m eu D eus. A quele b ab aca, n ão . — A in d a v ejo o c ara m e fu zila nd o c o m o s o lh o s d ep ois d a
aula n o d ia e m q ue s a lv ei a M illie d as g arra s d ele .
Tim b ala nça a c ab eça.
— É v erd ad e. E le s s ã o a m ig o s d esd e p eq ueno s.
Cam in ham os a té a J o le ne, T im a tr á s d e n ó s, n o vam ente e nfr o nhad o n o c elu la r.
— E ntã o , ta lv ez o e sq uem a d as c arte ir a s n a a ula d o K ris p in n ão v á s e r tã o m au a ssim — d iz E l. S e e la
so ub esse tu d o q ue a co nte ceu e ntr e m im e B o, b ancaria a v oz d a m in ha c o nsc iê ncia e d ir ia q ue é c ed o
dem ais . Q ue p rim eir o p re cis o e sq uecê-lo .
Este nd o a m ão à s c o sta s e p ro curo a s c hav es n o b ols o f r o nta l d a m ochila .
— É , e u a cho q ue s im , m as a in d a p re fe rir ia m e s e nta r c o m v ocê — r e sp ond o.
— V ocês n ão v ão s e s e nta r j u nta s n o s e gund o te m po?
— N ão . G ra ças a e ssa a í — a p onto p ara E l — , c hegam os a tr a sa d as.

— D esc ulp e — r e p ete e la . — E u j á p ed i d esc ulp as?
— B om , p elo m eno s v ocê te m a C allie — p ro voco .
— A h, p or f a v or. N ão s e ja a ssim .
— F ala s é rio , g ata — d iz T im . — V ocê s a b e q ue a q uela g aro ta é a m aio r m ala s e m a lç a d o m und o, n ão
sa b e?
— M e d eix em e m p az, v ocês d ois . E la é m in ha a m ig a, tá l e gal?
— N ós s o m os s e us ú nic o s a m ig o s — d iz T im , u m s o rris o c urv and o s e us lá b io s. — V ocê n ão p re cis a
de o utr o s a m ig o s. — D á u m b eijo n o r o sto d e E l.
— É i s so a í — m eto m in ha c o lh er to rta . — S ó d a g ente . — E e sto u q uase f a la nd o s é rio .
El b ate c o m o o m bro n o m eu.
— S enti a s u a f a lta h o je .
— E u ta m bém . — E m bora e la e ste ja p ara d a b em a o m eu la d o, p are ce tã o d is ta nte . M ais d is ta nte d o
que p osso v er.

DEZO IT O
À n o ite , q uand o j á e sto u n o tr a b alh o , o c elu la r to ca. D eix o M arc us n o b alc ão e a te nd o,
e nq uanto c am in ho a té a s a la d os f u ncio nário s.
— O i, tu d o b em ? A qui é o M itc h. — A lin ha fic a e m s ilê ncio p or u m s e gund o. — E sto u te lig and o
p ara c o m bin ar n o ssa s a íd a. — E le já n ão e stá m ais p are cend o tã o c o nfia nte n o te le fo ne. O q ue a té s e ria
f o fo , s e n ão ti v esse ta m bém c erta p in ta d e p ro pagand a e ngano sa . M as a cho q ue fo i s im páti c o d a p arte
d ele te le fo nar e m v ez d e m and ar u m a m ensa gem .
— A h, s im . C la ro .
— Q ue ta l n o s á b ad o? — p erg unta e le . — N ossa p rim eir a p arti d a v ai s e r n a s e xta .
— C la ro , n o s á b ad o e stá ó ti m o.
— T ud o b em , e ntã o . — P osso o uv ir s e u s o rris o . — M ara v ilh a.
— E ntã o e stá c o m bin ad o, n o s á b ad o. M as v ou te v er n a e sc o la a nte s d is so — r e le m bro a e le .
— C erto . S im , v am os n o s v er a nte s. P orq ue e stu d am os n a m esm a e sc o la . E p orq ue p are ceria e str a nho
s e e u te e v ita sse a té l á .
Dou u m a r is a d a.
— H um -h um . C la ro . M uito e str a nho .
Dep ois d e d eslig ar, v olto a a tr a v essa r a c o zin ha, o nd e B o e stá e nco sta d o n o fo gão , c o m o s b ra ço s
c ru za d os, m ord end o o l á b io i n fe rio r, e nq uanto s e u o lh ar m e s e gue a té e u c o nto rn ar a p are d e.
Esto u m e s e nti n d o ó ti m a. É a lg o q ue m e f a z m uito b em . S er d ese ja d a s e m s e r p ossu íd a.
No fim da no ite , sa io co m B o e M arc us, já que R on ain d a está pre enchend o os cheq ues dos
f u ncio nário s. M arc us e ntr a n o c arro d a n am ora d a e s o m e d o e sta cio nam ento e m q uestã o d e s e gund os.
Bo n ão d iz u m a p ala v ra , a p enas e sp era p ara i r e m bora e nq uanto l ig o a J o le ne e s a io d e r é d a v aga.
O carro passa pelo queb ra -m ola s na sa íd a e os fa ró is ilu m in am as vitr in es do C hili B ow l, o
r e sta ura nte q ue fic a d o o utr o la d o d a ru a. E m old ura d o p ela v itr in e, está um gra nd e carta z q ue d iz
E STA M OS C O NTR ATA NDO. O c hili a té p ode s e r u m a e sp ecia lid ad e d a c ulin ária s u lis ta , m as a O pin iã o
O fic ia l d e W illo w dean é a s e guin te : s e p are ce c o m id a d e c acho rro e c heir a a c o m id a d e c acho rro , e ntã o
d ev e s e r c o m id a d e c acho rro . H á u m a l o nga l is ta d e c o is a s q ue e u p re fir o f a ze r a tr a b alh ar l á .
Bo p assa p or m im , m as c o nti n uo o lh and o p ara f r e nte . S em pre p ara f r e nte .
E a go ra c á e sto u e u, e sp era nd o p ara f a la r c o m o g ere nte d o C hili B ow l.
O lu gar fo i c o nstr u íd o p ara s e p are cer c o m u m a c ab ana d e b rin q ued o, d aq uela s
b em r ú sti c as, f e ita s d e to ra s e m pilh ad as. A s p are d es s ã o c o berta s p or m il e u m e sti lo s d e m old ura s c o m
f o to s d e m ora d ore s d e C lo ver C ity d os ú lti m os s e sse nta a no s f a ze nd o d e tu d o, d esd e c urti r u m p iq ueniq ue
a o la d o d o c arro a té b eb er c erv eja n a v ara nd a o u se e sp arra m ar n a g ra m a p ara a ssis ti r à p ara d a d o
Q uatr o d e J u lh o .
Entr o n um a b aia p ara e sp era r o g ere nte , c o m o H arp y’s b em d o o utr o l a d o d a r u a m e a to rm enta nd o.
A c ulp a é to da d o B o. A s c o is a s e sta v am i n d o m uito b em a té o q uin to te m po. E u e sta v a te nd o u m ó ti m o
d ia . T ud o n o rm al n o tr a b alh o n a v ésp era , e ta lv ez e u e sti v esse m e s e nti n d o m eio e nv aid ecid a d em ais p or
c ausa d is so . U m p rim eir o d ia d e a ula b asta nte ra zo áv el. U m p rim eir o e nco ntr o à v is ta . E u m a re la ção
p ro fis sio nal r e la ti v am ente a m ig áv el c o m B o.
Mas, q uin ze m in uto s d ep ois d e c o m eçar a a ula d e h is tó ria , B o e ntr a n a s a la c o m u m p ap el a m are lo
d obra d o a o m eio . U m a v is o d e tr a nsfe rê ncia .
— T urm a — c ham a a S rta . R ub io — , g o sta ria q ue d esse m a s b oas-v in d as a B o L ars o n. E le v ai
p arti c ip ar d a n o ssa a ula p elo r e sta nte d o a no .
A m elh o r a m ig a d a M illie , A mand a, q ue s e nta p erto d e m im , s o lta u m a sso vio b aix in ho .
Ele fo i se se nta r n a fila a o la d o, d uas c arte ir a s à m in ha fr e nte . E nq uanto se a co m odav a, d eu u m a
o lh ad a p ara tr á s e p is c o u p ara m im s e m a m eno r c erim ônia .
— E sse n ão é o c ara c o m q uem v ocê tr a b alh a? — c o chic ho u e la .
— É . — A s e nsa ção d e p av or f o i tã o v io le nta q ue e u c heguei a f ic ar n ause ad a.
— E c o m o é q ue v ocê c o nse gue tr a b alh ar o lh and o
pra quela
b und in ha q ue p are ce u m p êsse go ?
— O q uê?
— P are ce d ir e iti n ho o e m oji d o p êsse go — e xp lic a e la . —
Bundin ha d e P êsse g o
s u cule nta ...

Dep ois d a a ula , s a í e m c am po c o m o q uem r e aliz a u m a m is sã o . N em e sp ere i p or E l e T im . E ntr e i n o
carro , b ote i n o d riv e e s a í d o e sta cio nam ento o m ais d ep re ssa p ossív el. M ila gro sa m ente , n ão a tr o pele i
nenhum p ed estr e n o c am in ho .
Porta nto , f o i i s so q ue m e tr o uxe a o C hili B ow l.
— E stá a q ui p or c ausa d o e m pre go ? — U m c ara q ue n ão d ev e te r m ais d e v in te e c in co a no s, c o m
cab elo s p re to s l is o s e e sc o rrid os, s e nta n um a c ad eir a à m in ha f r e nte . — M eu n o m e é A le ja nd ro .
— H um -h um . — B ala nço a c ab eça.
— O s a lá rio é u m a m erd a.
— E u p re cis o d e u m e m pre go .
— T ud o b em . — E le s e in clin a p ara m im , c o m o s e a lg uém p ud esse o uv i- lo , e m bora o lu gar e ste ja
dese rto . A cho q ue e le é d o ti p o a nsio so , e p or is so p re fe re tr a b alh ar n um lu gar s e m m ovim ento . — O
negó cio é o s e guin te : j á f o i p re sa ?
— N ão .
— J á tr a b alh o u n um r e sta ura nte ?
— M ais o u m eno s. E u f u i c aix a n o H arp y’s .
— C hega p erto . E , f in alm ente , f o i d em iti d a d o ú lti m o e m pre go ?
— N ão .
Ele g ir a o s p ole gare s e m v olta u m d o o utr o e r e sp ir a p ausa d am ente v ária s v eze s.
— Q uand o p ode c o m eçar?
E e sse é o f im d a e ntr e v is ta .
Eu m e r e co sto n a b aia . D ia nte d o H arp y’s , R on e stá s e nta d o n o m eio -fio , fu m and o u m c ig arrin ho n o
se u i n te rv alo . E sto u m e s e nti n d o u m a i d io ta p or d eix á-lo s d esse j e ito , s e m q ualq uer a v is o , m as n ão p osso
enfr e nta r B o q uatr o n o ite s p or s e m ana.
— A go ra m esm o — r e sp ond o.
A p orta d o e sc ritó rio d e R on e stá a b erta . E le e stá s e nta d o a tr á s d a m esa , v esti n d o u m a
berm ud a c áq ui e u m a c am is a p olo d o ti m e d o c o lé gio .
— W ill.
— E u... P odem os c o nv ers a r? — A bro a p orta m ais u m p ouco , a s d obra d iç as r a ngem .
— O q ue é q ue m and a, m enin a?
Pre nd o a r e sp ir a ção e e ntã o s o lto o a r.
— P re cis o i r e m bora .
Ele a p erta o s lá b io s, fr a nzin d o a s so bra ncelh as g ro ssa s. V ejo a s d úv id as n o se u ro sto , m as e le se
lim ita a p erg unta r:
— A co nte ceu a lg um a c o is a ?
Faço q ue n ão c o m a c ab eça.
— V ou d ev olv er o u nifo rm e d ep ois q ue l a v ar.
Ele a sse nte .
— N ão te m p re ssa .
E, e xata m ente c o m o a co nte ceu c o m B o, f ic o tr is te p or e le n ão te r i n sis ti d o m ais .
Nenhum d e n ó s d iz u m a p ala v ra .
— M as... m uito o brig ad a — a cre sc ento , r o m pend o o s ilê ncio . — P ela o portu nid ad e.
— V ou s e nti r f a lta d e v er o s e u r o sto p or a q ui — d iz e le .
Volto p ara c asa e m s ilê ncio , c o m a s j a nela s a b aix ad as, o s p ensa m ento s s e nd o e ngo lid os p elo v ento .

DEZE N O VE
Na s e xta , v ou p ara a c asa d a E l d ep ois d a a ula . S enta m os à m esa d a s a la d e ja nta r,
d iv id in d o u m s a co d e b ata ta s f r ita s, e nq uanto a m ãe d ela a b re e m bala gens d e m ate ria is p ara tr a b alh ar n o
s e u s c ra p book. E sp alh ad as s o bre a m esa à n o ssa fr e nte e stã o v ária s fo to s d a S ra . D ry v er e xib in d o m il e
u m v is u ais d a D olly P arto n. D ep ois d e lim par o s d ed os n o je ans, o bse rv o u m a d as fo to s e m q ue e la
a p are ce v esti n d o u m c asa co d e c am urç a c o m m angas fr a nja d as e u m a lo nga s a ia lá p is je ans. O s c ab elo s
e stã o l is o s, c o m u m to pete b em a lto , c o m o o s d a D olly n o s p rim eir o s a no s d a s u a c arre ir a .
— G osto d este — d ig o a e la .
A S ra . D ry v er p ousa a m ão n o m eu o m bro .
— A h, eu ta m bém . A cho que é o m eu pente ad o fa v orito . F oi um a dra g queen em O dessa que
c o nfe ccio no u a p eru ca p ara m im . E le d em oro u u m a s e m ana p ara a certa r.
El p ega u m a f o to gra fia d a m ãe e nv erg and o u m l o ngo d e l a nte jo ula s v erm elh as.
— B elo p erm anente , m ãe. M uito c hiq ue.
— E lle n S ad ie R ose , v ocê n ão re co nheceria u m a c o is a c hiq ue n em e m u m m ilh ão d e a no s. — F az
c ó cegas n a n uca d a E l c o m a s u nhas c o m prid as.
Enq uanto E lle n é a lta e m agra , a m ãe é a ta rra cad a e c urv ilín ea. M as d á p ara v er q ue s ã o m ãe e filh a
p elo j e ito c o m o e la s e nro la m o c ab elo n o d ed o, m ord em o l á b io i n fe rio r e a sso bia m p elo c anud in ho a nte s
d e d ar u m g o le .
— L ev a e sta d e l e m bra nça — d iz a S ra . D , e ntr e gand o-m e u m a f o to e m q ue a p are ce c o m L ucy, ti r a d a
h á ano s. E la s estã o dia nte de um le tr e ir o de néo n que diz T H E H ID EAW AY. A tr á s dela s há um
e sta b ele cim ento l o ta d o d e g ente e f u m aça. P are ce s e r u m b ar o u u m a b oate , m as, s e ja l á o q ue f o r, é o ti p o
d e lu gar a o nd e L ucy n unca te ria id o d esa co m panhad a. A S ra . D ry v er e stá u sa nd o u m m acacão c o m u m a
c am is e ta v erm elh a ju sti n ha p or b aix o , e nq uanto L ucy u sa u m d os v esti d os b em la rg o s q ue e ra m su a
a ssin atu ra , m as c o m u m to que d e so m bra a zu l n o s o lh o s. E u n unca a ti n ha v is to m aq uia d a. A S ra . D
d esp erta v a o la d o m ais a rro ja d o d e L ucy. S ei q ue e la e ra im porta nte p ara a S ra . D , m as, p ara L ucy, e ra
u m a a m iz a d e e te rn a.
Guard o a fo to n o b ols o d a m ochila . A dore i, m as ta m bém m e e ntr is te ceu. A S ra . D ry v er é a D olly
p erfe ita , e e ra im possív el p ara L ucy, c o m a s p ern as g ro ssa s e p álid as e o c ab elo e sc o rrid o, n ão p are cer
d ep rim ente e m c o m para ção . A fin a c am ad a d e so m bra a zu l n as p álp eb ra s fo i u m a p elo sile ncio so à
m ulh er q ue e la s e m pre q uis s e r. M esm o p osa nd o d e q ueix o e m pin ad o, n ão p osso d eix ar d e v er o q ue e la
n ão e ra . E m e s in to u m a tr a id ora p or i s so .
— P or q ue v ocê n unca p arti c ip ou d o c o ncurs o , m ãe? — p erg unta E l.
Está a í u m a c o is a q ue e u se m pre q uis sa b er. A v id a d a S ra . D é p ra ti c am ente c o ncurs o a tr á s d e
c o ncurs o . E la te ria ti r a d o d e l e tr a o d e C lo ver C ity .
Ela d á d e o m bro s.
— E u a té p ense i e m p arti c ip ar. A cho q ue to das a s g aro ta s d a c id ad e p ensa m . M as e u n ão e ra a m esm a
p esso a q ue s o u h o je . N a é p oca, e u n ão ti n ha c o ra gem p ara fin gir q ue s o u s e gura d e m im o b asta nte p ara
e ntr a r n um c o ncurs o d e b ele za .
Suas p ala v ra s c ala m fu nd o e m m im . E m e p erg unto s e é p or is so q ue o c o ncurs o m exeu m ais c o m ig o
e ste a no d o q ue n o a no p assa d o. A s c and id ata s d ev em s e o rg ulh ar d e s i o b asta nte p ara a chare m q ue
m ere cem
c o m peti r. E sse ti p o d e a uto co nfia nça i n ab alá v el e stá m e d eix and o i n se gura d e u m j e ito c o m o e u
n unca ti n ha m e s e nti d o.
Elle n e nfia u m p unhad o d e b ata ta s f r ita s n a b oca.
— V am os l á p ra c im a.
Pego a ti g ela e a s ig o a té o q uarto . D eita m os e m d ir e çõ es o posta s, e la c o m a c ab eça a o s p és d a c am a e
e u c o m a m in ha n o s tr a v esse ir o s e m pilh ad os.
— Q uer d iz e r e ntã o q ue v ocê s a iu d o H arp y’s ? A ssim , s e m m ais n em m eno s? — p erg unta e la , d e b oca
c heia .
— O C hili B ow l e sta v a p re cis a nd o d e a te nd ente s.
— O C hili B ow l s e m pre e stá p re cis a nd o d e a te nd ente s — r e b ate e la .
Pego u m p unhad o d e b ata ta s n a ti g ela .
— S ei l á . E sta v a c ansa d a d e u sa r a q uele u nifo rm e.

Acho q ue E l s e d á p or s a ti s fe ita c o m e ssa e xp lic ação , p orq ue n a m esm a h o ra p assa p ara u m a ssu nto
muito m ais p ic ante .
— E a í, q uand o é q ue v ai s e r o s e u e nco ntr o ?
— A manhã.
— E stá n erv osa ?
— A cho q ue s im . M as n ão m uito .
— M itc h... E u n unca te ria a d iv in had o. V ocê g o sta d ele ?
— G osto . S ei l á , a cho q ue p re cis o d e a lg o n o vo. — C ub ro o r o sto c o m u m d os tr a v esse ir o s, a b afa nd o
as p ala v ra s. — N ão te ria a ceita d o o c o nv ite , s e n ão g o sta sse .
— A lg o n o vo? V ocê n em n unca fo i b eija d a. — E la d á u m la ço fr o uxo n o s c ad arç o s d o m eu tê nis . —
Ele n ão p are ce f a ze r o s e u ti p o.
Esto u s u fo cand o d e c ulp a. N ão p osso m ais c o nta r a e la s o bre B o. É ta rd e d em ais , e , d e to do m odo,
não h á m ais n ad a a c o nta r.
— E u n ão te nho u m ti p o.
— A in d a n ão .
Mais ta rd e, q uand o e sta cio no o c arro n a f r e nte d e c asa , a p rim eir a c o is a q ue n o to é a
ja nela a cesa d o q uarto d e L ucy.
Eu a té d ev eria m e d em ora r m ais u m p ouco e m e p re p ara r p ara o q ue a m in ha m ãe e sti v er f a ze nd o c o m
aq uele q uarto , m as, e m v ez d is so , ti r o a c hav e d a i g niç ão e a v anço a p asso s f u rio so s p ara o s f u nd os. R io t
está e sfr e gand o o c o rp o n a p orta d e v id ro . A p rim eir a c o is a q ue o uço é O liv ia N ew to n-J o hn n o v olu m e
máxim o n o s e gund o a nd ar.
Jo go a b ols a n a b ancad a d a c o zin ha e nq uanto R io t c o rre p ela e sc ad a, a lg uns p asso s à m in ha f r e nte .
Não s e i o q ue e sp ero e nco ntr a r, m as n ão é m am ãe s e nta d a p or tr á s d e u m a m esin ha d obrá v el e to dos
os m óveis d e L ucy e m purra d os a té a s p are d es.
— O q ue e stá fa ze nd o? — p erg unto à q ueim a-ro up a. O s d is c o s e m old ura d os d a D olly P arto n q ue
enfe ita ra m e ssa s p are d es d ura nte a m in ha v id a i n te ir a e stã o e m pilh ad os n a p onta d a c ô m oda, e o i P od d a
mam ãe, j o gad o e m c im a d o to ca-d is c o s r o sa -c la ro d e L ucy.
É o p io r q ue p oderia te r a co nte cid o.
— B em — r e sp ond e e la , o s o lh o s fix o s n a m áq uin a, e nq uanto c o stu ra u m a lin ha r e ta . — E u s e m pre
pre cis e i d e u m a te liê . N ós já c o nv ers a m os s o bre is so . E o m eu q uarto n ão e stá m ais d and o c o nta d o
re cad o.
— S eu q uarto ? V ocê te m a c asa i n te ir a !
Ela e m purra o s ó culo s d e l e itu ra a té o a lto d o n ariz .
— E u s e i q ue v ocê e stá a b orre cid a, D um plin ’. E u s e i. M as n ão p odem os d eix ar e ste q uarto fe chad o
co m o u m m auso lé u. T em os q ue s e guir e m f r e nte . L u c o m pre end eria .
Sou e u q ue n ão c o m pre en do.
— M as v ocê m ud ou tu d o. S erá q ue n ão p ode tr a b alh ar a q ui s e m v ir a r o q uarto d o a v esso ? A té ti r o u a s
cap as d os d is c o s d as p are d es. P or q ue f e z i s so ?
— A h, q uerid a, e sse s d is c o s já e sta v am tã o v elh o s... E ta m bém v am os te r q ue tr o car o p ap el d e
pare d e, p or c ausa d as m anchas q uad ra d as q ue d eix ara m .
Pego o m aio r n úm ero p ossív el d e d is c o s e o s c arre go a té m eu q uarto . S e m e r e sta sse m m ão s liv re s,
ta m bém b ate ria a p orta . S olto o s d is c o s e m c im a d a c am a e v olto p ara b usc ar m ais .
— D um plin ’...
Dou m eia -v olta , a p erta nd o c o ntr a o p eito o s d is c o s e m bolo ra d os.
— É c o m o s e v ocê e sti v esse te nta nd o s e l iv ra r d ela .
— V ocê s a b e q ue i s so n ão é v erd ad e — m urm ura m am ãe, u m a a gulh a p re sa e ntr e o s d ente s.
— A fin al, n o q ue e stá tr a b alh and o?
— C enário s. E ste a no , o te m a s e rá “ T exas: S om os O u N ão S om os O s B ão ?” — E la tr a ça u m a l in ha n o
ceti m c o m u m p ilô v erm elh o . — E v ocê n ão d ev eria e sta r tr a b alh and o?
— E u m e d em iti .
— S e d em iti u ? — S ua v oz s a i m ais a lta d o q ue o n o rm al.
Por f im , e la e nd ir e ita u m l o ngo p ed aço d e c eti m n a m áq uin a d e c o stu ra , o p é s u sp enso a cim a d o p ed al.
A m in ha v id a i n te ir a , e sse b end ito c o ncurs o i n v ad iu c ad a c entí m etr o d o m eu m und o, m eno s o q uarto d e
Lucy. P orq ue, n o m und o e m q ue e u v iv ia c o m e la , n in guém d av a a m ín im a p ara c o ro as e f a ix as.
— É e xtr e m am ente d esre sp eito so d a s u a p arte v ir c o stu ra r e ssa s f a nta sia s r id íc ula s l o go a q ui. A fin al,

o q ue p ode s e r tã o d ifíc il a ssim n um a fa nta sia d e E stá tu a d a L ib erd ad e? B asta jo gar u m p ed aço d e p ano
em c im a d o o m bro . — M in ha v oz c o m eça a f a lh ar. M ante nho o s o lh o s b em a b erto s, c o m m ed o d e p is c ar e
rio s d e l á grim as e sc o rre re m p elo m eu r o sto .
A m áq uin a d e c o stu ra tr e p id a n um r itm o m etó dic o , i m pla cáv el, m as q ue v ai f ic and o m ais f o rte a c ad a
ponto . A a gulh a i n cessa nte p erfu ra m in ha c ab eça, e sp era nd o q ue e u e ntr e gue o s p onto s.
— D um plin ’ — e la m e c ham a s e m ti r a r o s o lh o s d a m áq uin a, ig no ra nd o to ta lm ente o q ue a cab ei d e
diz e r. — P or q ue n ão v ai à c o zin ha e to m a u m c o po d e á gua g ela d a p ara s e a calm ar?
O d ese sp ero c re sc e n o m eu p eito , e e u p enso q ue s e ria c ap az d e f a ze r q ualq uer c o is a p ara ti r á -la d este
quarto .
Cam in ho e m p asso s d uro s a té a c ô m oda e a rra nco a g av eta d e c im a. S em q ualq uer h esita ção , e ncho o
in te rio r v azio c o m tu d o e m q ue c o nsig o p ôr a s m ão s — p rin cip alm ente d is c o s.
— W illo w dean D ic kso n, a cho b om r e za r p ara n ão te r q ueb ra d o o tr ilh o d a g av eta .
— É c o m o s e a m orte d ela n ão b asta sse ! — g rito . — V ocê n ão v ai s e s e nti r s a ti s fe ita a té d ar s u m iç o
em c ad a p arte d e L ucy e e ncher e ste q uarto c o m tu d o q ue e la n ão e ra !
A m áq uin a f in alm ente p ara . M in ha m ãe s e l e v anta s e m d iz e r u m a p ala v ra .
Lev o a g av eta p ara o q uarto e b ato a p orta . T orv elin ho s d e p oeir a g ir a m n o a r, fa ze nd o c ó cegas n as
min has n arin as. S olto u m e sp ir ro v io le nto n o s á lb uns.
— S aúd e — d iz e la , d o c o rre d or. S ua v oz s a i tã o b aix a q ue m al d á p ara o uv ir.

VIN TE
Os pre p ara ti v os para o m eu enco ntr o co m M itc h m ais pare cem um pro cesso de
t r a nsfo rm ação to ta l q ue a co nte ce n o m eu q uarto . E l m e fa z e xp erim enta r m il e u m v esti d os, d esd e o q ue
u se i n a fe sta d e fo rm atu ra d a o ita v a sé rie a té e ssa tú nic a tr a p ézio d e c hiffo n c o m e sta m pa flo ra l q ue
m am ãe m e d eu n o N ata l p assa d o. “ V ocê fic a tã o m ad ura c o m e la ”, fo ra m su as p ala v ra s. Q ue e u n ão
r e ceb i c o m o u m e lo gio .
Por f im , o v is u al e sc o lh id o é u m j e ans c o m u m a c am is a d e l is tr in has b ra ncas e p re ta s, a rre m ata d o p or
m eus c ab elo s c asta nho -c la ro s s o lto s s o bre o s o m bro s.
Dig o a M itc h p ara v ir m e b usc ar à s c in co , já q ue m am ãe fic o u p re sa n a r e uniã o c o m a d ir e to ria d o
c o ncurs o a té a s s e is , e e u n ão e sta v a a f im d e o uv ir u m d is c urs o q uilo m étr ic o s o bre c o m o s e r u m a m oça
f in a e q uais s ã o a s e xp ecta ti v as d os r a p aze s. F ora o f a to d e q ue e u a in d a e sta v a f u rio sa c o m e la , é c la ro .
Após tr a ncar a p orta d os fu nd os, s e nto -m e n o m eio -fio a o la d o d a c aix a d e c o rre io . O uço e s in to o
c heir o d o c arro a nte s m esm o d e d obra r a e sq uin a. E le d ir ig e u m v elh o S ub urb an v erm elh o -ti jo lo q ue n ão
d ev e p assa r p or u m a r e v is ã o h á u ns c in co a no s. E sta cio na à m in ha f r e nte e s a i n o i n sta nte e m q ue d eslig a
o m oto r.
— E sto u a tr a sa d o? — E le s e gura a m in ha m ão e m e p uxa... N ossa , q ue f o rç a.
— N ão , n em u m p ouco .
— É q ue e u n ão e nte nd i p or q ue v ocê e stá se nta d a a q ui fo ra , já q ue n o rm alm ente o s ra p aze s v ão
b usc ar a s m oças n a p orta d e c asa .
— A h. — A ponto o p ole gar p ara a v ara nd a. — É q ue n ó s n ão u sa m os a p orta d a s a la . E stá e m perra d a
h á s é culo s.
Ele i n clin a a c ab eça d e l a d o.
— V ocê e stá m uito b onita .
— V ocê ta m bém . — E e stá m esm o. C om u m a c am is a s o cia l, c o m prid a a té m esm o p ara u m c ara a lto
c o m o e le , e u m je ans e ngo m ad o, c o m v in co e tu d o. E b ota s. N ão d aq uela s d e b ic o fin o d e c aub ói q ue a
g ente v ê n o c in em a, m as e sp orti v as, c o m b ic o a rre d ond ad o. M in ha a v ó c o stu m av a d iz e r q ue n unca s e
d ev e c o nfia r n um h o m em c o m b ota s l im pas.
O in te rio r d o c arro d e M itc h e stá re la ti v am ente lim po, m as n ão h á u m s u lc o à v is ta q ue n ão e ste ja
e ntu p id o d e p ó e s u je ir a . O b an co tr a se ir o é u m v erd ad eir o m ar d e ro up as — c alç as c o m e sta m pa d e
c am ufla gem , b ota s — e c o pos d esc artá v eis .
Ele m e le v a a u m re sta ura nte c ham ad o M r. C hang’s C hin ese P ala ce, u m p oin t b ad ala d o n um v elh o
s h o ppin g q ue ab rig a v ária s fin anceir a s, co m panhia s d e se guro s e a filia l d e um a em pre sa q ue fa z
d ecla ra çõ es d e i m posto d e r e nd a e o brig a o s f u ncio nário s a s e f a nta sia re m d e E stá tu a d a L ib erd ad e.
A h o ste ss n o s a co m oda n um a c ab in e d e “ m ad re p éro la ” c o m o u m a d aq uela s c o nchas g ig ante s d e
A
P eq uen a S ere ia
, e m q ue a A rie l f ic av a c o m a s i r m ãs. P ara m in ha s u rp re sa , M itc h s e nta a o m eu l a d o e n ão
à m in ha f r e nte , e u m “ ah” i n v olu ntá rio m e e sc ap a d os l á b io s.
A g arç o nete a p are ce p ara a no ta r n o sso p ed id o e M itc h p erg unta :
— S ab e a q uele s n ego cin ho s c ro cante s q ue v ocês tê m ? P odia tr a ze r u m a p orç ão , c o m m olh o d e m açã?
— H um , c la ro — re sp ond e a g arç o nete , u m a m enin a q ue re co nheço c o m o s e nd o u m a d as a lu nas d o
ú lti m o a no q uand o e u e sta v a n o n o no a no , o p rim eir o d o e nsin o m éd io .
Assim q ue e la s e a fa sta , M itc h s e v ir a p ara m im .
— E u d ete sta v a ir a r e sta ura nte s c hin ese s q uand o e ra p eq ueno , p orq ue o c o uv ert n ão ti n ha p ão n em
t o rra d in has, p or i s so m in ha m ãe s e m pre p ed ia a q uele s n ego cin ho s c ro cante s...
— R olin ho s p rim av era . — T enho q ue m e c o ntr o la r p ara n ão s o rrir. — É a ssim q ue s e c ham am .
— H um -h um . P ois é , s ã o u m a d elíc ia .
Estu d am os o c ard áp io e m s ilê ncio . Q uand o a g arç o nete s e a p ro xim a c o m n o ssa s b eb id as, M itc h s e
i n clin a e s u ssu rra n o m eu o uv id o:
— P ode p ed ir o q ue q uis e r.
Fic o te nta d a a r e sp ond er q ue to dos o s p ra to s n o c ard áp io tê m m ais o u m eno s o m esm o p re ço , m as m e
l im ito a a gra d ecer.
Assim q ue a g arç o nete a no ta o s p ed id os, M itc h e ste nd e u m r o lin ho p ara m im .
— A ceita ?

Faço q ue n ão .
— E u s o ub e q ue o s e u ti m e g anho u o nte m .
Ele c o nco rd a.
— F oi m eio a p erta d o, m as, e nfim , v itó ria é v itó ria .
Fic am os e m s ilê ncio p or u m m om ento , e nq uanto o r á d io to ca n o s a lto -fa la nte s e n o sso s p és s e r o çam .
Mitc h d á u m a to ssid a n o p unho .
— Q uer d iz e r e ntã o q ue a E lle n D ry v er é a s u a m elh o r a m ig a.
Pego o c o po d ’á gua e m in ha b oca f ic a d e u m l a d o p ara o o utr o , s e m c o nse guir e nco ntr a r o c anud o.
— É , s im . — C onto a e le s o bre L ucy e a S ra . D ry v er, e c o m o a D olly P arto n n o s a p ro xim ou.
— V ocê é f ã za ça d a D olly P arto n? M as e la n ão e stá c aq uéti c a?
Não s e i s e e xis te a lg um m anual e nsin and o a g ente a s a ir c o m u m c ara s e m p agar o m ic o d o s é culo ,
mas, s e e xis te , te nho c erte za d e q ue c o nfe ssa r u m a o bse ssã o b iz a rra p or D olly P arto n n ão e stá n a l is ta d o
que s e d ev e f a ze r. M esm o a ssim , n ão c o nsig o tr a ir o i n te nso s e nti m ento d e l e ald ad e q ue te nho e m r e la ção
a e la .
— V am os a o s fa to s. S im , e u s o u fã za ça d a D olly P arto n. E h á u m a c o is a q ue v ocê p re cis a e nte nd er
so bre o s fã s d a D olly : a m aio ria d e n ó s é lo uca d e p ed ra . E ntã o , c o nsid era nd o e ssa a lta ta xa d e lo ucura
entr e n ó s, e u, e m c o m para ção , n ão so u tã o p in el q uanto o s o utr o s. A fin al, h á p esso as n o m und o q ue
ded ic ara m a v id a a f a ze r b onecas d e p orc ela na d a D olly P arto n. A lg um as a té a b and onara m a f a m ília e o
em pre go s ó p ara f ic ar p erto d ela .
— T ud o b em — d iz M itc h, a s s o bra ncelh as fr a nzid as. D á p ara v er q ue e le e stá fa ze nd o u m g ra nd e
esfo rç o p ara c o m pre end er. — T ud o b em , m as, n um a e sc ala d e u m a d ez...?
— N um a e sc ala d e u m a d ez, s e nd o d ez o g ra u d e l o uco v arrid o, a cho q ue E lle n e e u s o m os q uatr o . O u
ta lv ez c in co . A S ra . D ry v er n ão é m eno s d e o ito , m as n ão c hega a n o ve, p orq ue n ão fe z p lá sti c a. P elo
meno s, a in d a n ão . E a cho q ue a m in ha ti a L ucy e ra s e te .
— E ra ? — p erg unta e le .
A l e m bra nça d a m in ha ti a s e a p odera d e m im e s e e ntr a nha a té o f u nd o d os o sso s.
— E ra . E la m orre u e m d eze m bro d o a no p assa d o.
Mitc h s e r e co sta n o s o fá .
— A h, p uxa. S in to m uito . S in cera m ente .
— O brig ad a. T ud o b em . — P ego u m r o lin ho . — E v ocê? Q uem é o s e u m elh o r a m ig o ?
Por f a vo r, n ão d ig a q ue é o P atr ic k T hom as. P or f a vo r, n ão d ig a q ue é o P atr ic k T hom as.
Ele e sta la a s j u nta s d a m ão d ir e ita , d ep ois a s d a e sq uerd a.
— S ou m uito a m ig o d e to do o p esso al d o ti m e. É d ifíc il n ão s e r. M as a cho q ue o m eu m elh o r a m ig o
mesm o é o P atr ic k T ho m as.
Mord o o l á b io e m e d ou c in co s e gund os p ara p ensa r n um a r e sp osta . U m ... D ois ... T rê s...
— V ocê s e e nco lh eu to da — o bse rv a e le .
— H um ? N ão m e e nco lh i, n ão .
Ele r i.
— S e e nco lh eu, s im . M as n ão te m p ro ble m a.
Meus o m bro s s e c urv am .
— T á. — T ro co d e p osiç ão n o s o fá p ara o lh á-lo m elh o r. — É q ue a q uele c ara é u m ...
— E sc ro to .
— E xata m ente . E v ocê n ão é .
— E u c o nheço o P atr ic k h á s é culo s. À s v eze s, a in d a p enso n ele c o m o o m esm o g aro ti n ho q ue e ra n a
no ssa i n fâ ncia , e a í m e l e m bro d e q ue e le s e m pre f o i a ssim .
Ente nd o o q ue M itc h q uer d iz e r. Q uand o a g ente c o nhece a lg uém h á m uito te m po, n ão v ê a s m esm as
co is a s n a p esso a q ue o s o utr o s v eem . M as q uand o a a m iz a d e s e b ase ia e m q uem v ocês fo ra m e n ão e m
quem s ã o , é d ifíc il n ão p ro cura r o f io c o m um q ue o s u ne. M esm o a ssim , a cho q ue n ão te nho o d ir e ito d e
polic ia r a v id a s o cia l d o M itc h.
— S im , e u e nte nd o.
Ele d á d e o m bro s e ta m borila c o m o s d ed os n a m esa .
— H um ... E a í, q ual é o s e u f e ria d o f a v orito ?
— A cho q ue é o Q uatr o d e J u lh o .
Ele s e ca o s u o r d a te sta c o m u m g uard anap o.
— J á e u p re fir o o H allo w een.
A g arç o nete a p are ce e p õe d uas ti g ela s d e s o pa d e o vo n a n o ssa f r e nte .
— D ete sto o H allo w een. — S em pre d ete ste i. E l a d ora , e m e a rra sta p ara m il fe sta s to dos o s a no s.

Mas, q uand o e u e ra p eq uena, n enhum a f a nta sia c ab ia e m m im e e u a cab av a te nd o q ue m e c o nte nta r c o m o
que e nco ntr a sse n o s a rm ário s d a m am ãe e d e L ucy. A cho q ue a m agia d e se r o utr a p esso a se p erd e
quand o v ocê n ão p ode s a ir to ta lm ente d a p ró pria p ele . P ara m im a g o ta d ’á gua f o i n o q uin to a no , q uand o
mam ãe m e m and ou p ara a e sc o la f a nta sia d a d e R ain ha E liz a b eth , c o m u m v elh o ta ille ur a m are lo , o c ab elo
to do c achead o e b ra nco d e s p ra y. T odas a s m enin as n a tu rm a fo ra m d e p rin cesa , p op s ta r o u b ru xa. O s
go rd os j á tê m b asta nte d ific uld ad e p ara e nco ntr a r r o up as, n ão p re cis a m d o e str e sse e xtr a d o H allo w een.
— V ocê n ão s a b e o q ue e stá p erd end o.
Sin to v onta d e d e d iz e r a M itc h q ue d ete sto o H allo w een p orq ue te nho a im pre ssã o d e q ue, s e nd o u m
cara c o rp ule nto , e le v ai e nte nd er, m as n ão s e i c o m o fo rm ar a s p ala v ra s o u m esm o s e e sto u p ro nta p ara
desp ir e ssa c am ad a d e m im m esm a e d eix ar q ue e le m e v eja . S ó p orq ue é u m c ara g ra nd ão , is so n ão
sig nific a q ue p osso l h e c o nta r to dos o s m eus S egre d os d e G aro ta G ord a.
Tom am os a s o pa e m s ilê ncio a té a g arç o nete tr a ze r o j a nta r. Q uand o te rm in am os d e c o m er, M itc h p aga
pela r e fe iç ão c o m n o ta s d e c in co .
Já e m c asa , e le s a i d o c arro e a b re a p orta p ara m im .
— O brig ad a p elo j a nta r.
— O p ra ze r f o i to do m eu. — E le e ste nd e a m ão e e u a o bse rv o p or u m m om ento , a nte s d e e le a p erta r a
min ha v ig o ro sa m ente .
— H um ... b oa n o ite .
E esse é o fim d o m eu p rim eir ís sim o enco ntr o o fic ia l: D olly P arto n, m in ha fa le cid a ti a , no sso s
fe ria d os fa v orito s, n o sso s m elh o re s a m ig o s e u m a p erto d e m ão . E a go ra v ou te r q ue m e s e nta r a o la d o
dele p elo r e sto d o a no .
Não te nho fo rç as p ara lig ar p ara E lle n e c o nta r tu d o e m d eta lh es. T ro car b eijo s c o m B o e nco sta d a
naq uela c açam ba p are cia m il v eze s m ais r o m ânti c o d o q ue e sse e nco ntr o . G osto d e p ensa r q ue n ão s o u
muito e xig ente , m as s e rá q ue é p ed ir d em ais q ue ro le u m a q uím ic a e ntr e m im e o c ara ? U m to que d e
magia q ue m e f a ça s e nti r c o m o s e n ó s f ô sse m os a s ú nic as p esso as n o m und o d ura nte d ez m in uto s?
Em c asa , m am ãe e stá s e nta d a à m esa d a c o zin ha f a la nd o a o c elu la r, e nq uanto to m a n o ta s n um c ad ern o
co m a c ap a c o berta d e g litte r.
— É q ue n ó s n ão p odem os c o re o gra fa r o n úm ero d e d ança a nte s d a a b ertu ra d as i n sc riç õ es. — E la f a z
um a p ausa . — S im , e u c o nfio n as s u as h ab ilid ad es, m as e ste a no s ó te m g ente n o va, J u d ith . E e u... S ó u m
min uto . — E la ta p a o f o ne e s e v ir a p ara m im . — Q uem f o i q ue te tr o uxe e m c asa ?
— U m a m ig o . — D o o utr o la d o d a lin ha, J u d ith c o nti n ua s o lta nd o o v erb o s o bre a c o re o gra fia d o
co ncurs o , q ue n unca p asso u d e m eia d úzia d e p asso s c ad encia d os. — V ou d orm ir.
Já n o q uarto , d ou u m a v asc ulh ad a n as p ilh as d e d is c o s d e L ucy a nte s d e c o lo car u m n o to ca-d is c o s. E
fic o o bse rv and o a a gulh a s e guir o s s u lc o s d a v oz d a D olly .

VIN TE E U M
A n o ite p assa d a f o i a m in ha e str e ia l á n o C hili B ow l. N in guém , e q uero d iz e r n in guém
m esm o, e ntr a n o C hili B ow l. S e e sse p rim eir o d ia d e tr a b alh o s e rv e c o m o i n d ic ad or, é i m possív el q ue a
l u z d aq uele r e sta ura nte a in d a n ão te nha s id o c o rta d a.
No f im d a n o ite , q uand o A le ja nd ro tr a nco u a p orta d a l o ja , e le s o lto u u m s u sp ir o e d is se :
— É q ue a in d a n ão c hego u a é p oca e m q ue o p esso al c o m e c hili.
Nem i m agin o q ual s e ja a é p oca d o a no q ue f a ça ta nta d ife re nça a ssim , q uand o to do m und o s a b e q ue n o
s u l d o T exas s ó te m os d uas e sta çõ es: Q uente C om o U m F orn o e Q uase T ão Q uente C om o u m F orn o .
Com o e u n ão ti n ha n ad a p ara fa ze r a n ão s e r fic ar re le m bra nd o o e nco ntr o m ais c o nstr a nged or d e
t o dos o s te m pos, c o m pile i u m a l is ta d e p ró s e c o ntr a s e m r e la ção à m in ha m ais r e cente e sc o lh a d e v id a.
Os p ró s e o s c o ntr a s d e t r a balh ar n o C hili B ow l
PR Ó S
Posso tr a b alh ar d e c alç a j e ans. N ão te nho q ue u sa r a q uele u nifo rm e d e p olié ste r c o m z íp er
na f r e nte .
Não g o sto d e c hili, p or i s so n ão v ou te r c o m o q ue m e e m pantu rra r tã o c ed o.
Não v ejo B o.
Não r e ceb em os a d ole sc ente s b êb ad os q ue r e so lv em fa ze r p ed id os c in co m in uto s a nte s d e
fe char.
A l im peza é f a cílim a p or c ausa d a c lie nte la i n exis te nte .
O l u gar é s ile ncio so .
CO NTR A S
Min has r o up as f ic am c o m c heir o d e c hili.
Meno r c arg a h o rá ria = s a lá rio b aix o .
Não v ejo B o.
O l u gar é s ile ncio so d em ais .
Bo e stá e m to da p arte . C om o s lá b io s v erm elh o s d e s e m pre . N o q uin to te m po, s in to s e us o lh o s m e
s e guin d o c o m o u m a s o m bra . À s v eze s m e v ejo v agand o p elo s c o rre d ore s, s e m te r p le na c o nsc iê ncia d o
q ue e sto u f a ze nd o a té p erc eb er s u a p re se nça.
Mas não é só is so . M in ha cab eça in te ir a se v olto u co ntr a m im . T oda v ez q ue p is c o , só co nsig o
e nxerg ar d efe ito s. M eu c o rp o v ir o u u m d aq uele s e sp elh o s d e p arq ue d e d iv ers õ es. O s q uad ris s ã o m uito
l a rg o s. A s c o xas s ã o m uito g ro ssa s. E a c ab eça é m uito p eq uena e m r e la ção a o r e sto d o c o nju nto . A té o
c o m eço d o v erã o , e u m e s e nti a to ta lm ente à v onta d e n o m eu c o rp o. A té m esm o o rg ulh o sa d ele .
Mas a í, B o a co nte ceu. D esd e a p rim eir a v ez q ue n ó s n o s b eija m os n a c am in ho nete d ele , fo i c o m o s e
e u d esm oro nasse . A lg um a c o is a n o c o nta to d a s u a p ele c o m a m in ha fe z a flo ra re m to das e ssa s d úv id as
q ue e u n em s a b ia q ue ti n ha.
E e u a chav a q ue, q uand o e le s e a fa sta sse , e sse s s e nti m ento s p assa ria m . M as e le s c o nti n uam fir m es e
f o rte s, e o m áxim o q ue p osso f a ze r é te nta r i g no rá -lo s.
Peço lic ença à S rta . R ub io p ara ir a o b anheir o . N ão p or n ecessid ad e, m as p orq ue p re cis o s a ir. O
q uin to te m po s e to rn o u u m v erd ad eir o i n fe rn o , e o v olu m e n a m in ha c ab eça j á e stá n o m áxim o.
Deix o q ue o c heir o h íb rid o d e m eta l e s u o r d ê u m b om c ho que n o s m eus s e nti d os e nq uanto p asso p elo s
c o rre d ore s e m d ir e ção a o b anheir o m ais p ró xim o.
Esto u j o gand o á gua n o r o sto , q uand o a p orta d e v aiv ém s e e sc ancara e u m a v oz p erg unta :
— T em a lg uém a í?
— H um , te m . — P uxo u m a f o lh a d e p ap el- to alh a d o r o lo .
— W illo w dean? — B o m anté m a p orta a b erta e d á u m a o lh ad a n o c o rre d or. — T em m ais a lg uém ?
— T á b rin cand o? É o b anheir o f e m in in o !
— P re cis o c o nv ers a r c o m v ocê. — E le e ntr a .
— P ode te r g ente a q ui.
Ele a b ana a c ab eça, o s c ab elo s c asta nho s b ala nçand o.
— A p esso a j á te ria d ito a lg um a c o is a .

— V ocê n ão p ode f ic ar a q ui.
— M e d á s ó c in co m in uto s.
Solto u m s u sp ir o p esa d o e m e e nco sto à p orta , p re p ara d a p ara b lo quear q ualq uer g aro ta q ue te nte
entr a r.
— O q ue é ?
— V ocê f o i e m bora . — E le c ru za o s b ra ço s e m anté m a s p ern as b em a fa sta d as. — Q ue f o i q ue e u f iz ?
Desfa ço o r a b o d e c av alo p ara d ar u m a a re ja d a n o s c ab elo s.
— E stá q uere nd o g anhar u m b eijo , é ? — p erg unta e le .
— C om o a ssim ? C la ro q ue n ão . P or q ue p erg unto u i s so ?
— E ntã o , p re nd e o c ab elo .
Boquia b erta , o lh o p ara B o, e sp era nd o q ue d ig a m ais a lg um a c o is a .
Ele n ão d esv ia o s o lh o s.
— E sto u f a la nd o s é rio .
Jo go o s c ab elo s p ara f r e nte e o s p re nd o n um r a b o d e c av alo , p ara q ue e le n ão p ossa v er o r u b or q ue s e
esp alh a p ela s m in has b ochechas e d esc e p ara o p esc o ço . C om o s d ente s, p uxo o e lá sti c o d o p uls o e to rn o
a l e v anta r a c ab eça, e sp era nd o q ue a v erm elh id ão te nha p assa d o. O u q ue ta lv ez e le p ense q ue é p or e u te r
ab aix ad o a c ab eça.
— O lh a, v ocê e stá n um a d as m in has a ula s. A s c o is a s n ão d era m c erto e ntr e n ó s. M as e u n ão p osso
tr a b alh ar
e e stu d ar c o m v ocê — d ig o .
— A s c o is a s n ão d era m c erto ? M as f o i v ocê q uem te rm in o u c o m tu d o. E u n em ti v e e sc o lh a.
— T ev e, s im . V ocê p asso u o v erã o in te ir o fa ze nd o e sc o lh as. —
E e u ta m bém
. — O lh a, p ra m im n ão
dá m ais . T á? N ão d á m ais .
Ele d is c o rd a c o m a c ab eça, m as i s so n ão o i m ped e d e i r e m bora .
Lav o a s m ão s u m a v ez a tr á s d a o utr a , te nta nd o s ile ncia r o v oze rio n a c ab eça.
A p orta d o r e se rv ad o p ara d efic ie nte s s e a b re , e m eu c o ra ção d á u m p ulo . H annah P ere z, c o m s u a b oca
cheia d e d ente s e no rm es. S eus c o tu rn o s s a em b ate nd o n o s l a d rilh o s a té e la c hegar a o m eu l a d o. E nq uanto
me o bse rv a n o e sp elh o , e ste nd e o b ra ço e a b re a to rn eir a .
Eu d ev eria f ic ar c o m m ed o d e q ue H annah c o nte a a lg uém s o bre m im e B o. M as a tr is te v erd ad e é q ue
nin guém a cre d ita ria n um a g aro ta c o m o H annah P ere z. O q ue n ão m e im ped e d e m e se nti r to ta lm ente
exp osta .
Saio s e m s e car a s m ão s, e sfr e gand o-a s n a c alç a je ans. J á n o c o rre d or, re sp ir o fu nd o v ária s v eze s,
co m o s e e sti v esse s u fo cand o.

VIN TE E D O IS
— N ão . N ão . N ão . — E nco sto a c ab eça n o v ola nte e te nto d ar a p arti d a m ais u m a v ez.
— P eeeeegaaaa! — E nd ir e ito a s c o sta s e d ou u m ta p a n o v ola nte , m as a ú nic a re sp osta d a a d orá v el
J o le ne é u m a b uzin ad a f r a q uin ha.
Ela n ão q uer p egar. M in ha f ilh o ta e stá c o m a b ate ria a rria d a. É te rç a d e m anhã, e o u niv ers o m e o deia .
Vejo m am ãe a tr a v essa r o ja rd im e p assa r p elo s e u c arro , s e gura nd o a b ols a e a m arm ita . E la b ate n a
m in ha j a nela c o m a d ura u nha d e a crílic o d o i n d ic ad or. U m a v ez. D uas.
Com o n ão m e m ovo u m c entí m etr o , e la e sc ancara a p orta .
— V em . E u te d ou u m a c aro na a té a e sc o la .
Enco sto a c ab eça n o d esc anso e s o lto u m s u sp ir o to ta lm ente j u sti fic áv el.
— V ocê e stá e str e ssa d a, n ão e stá ? — p erg unta e la s e m o lh ar p ara tr á s, v olta nd o a c ru za r o j a rd im e m
d ir e ção a o s e u c arro . — V ou lig ar p ara o B ru ce e p ed ir q ue d ê u m a o lh ad a n o c arro , m as, a té lá , e sse s
s u sp ir o s d e a lm a s o fr e d ora n ão v ão a ju d ar e m n ad a.
No perc urs o até a esc o la , m am ãe sin to niz a ora um a esta ção que só to ca fla sh b acks, ora um a
e v angélic a. N ão so m os m uito re lig io sa s, m as ir à ig re ja fa z p arte d a v id a d ela . N ão m e p are ce se r
e xata m ente u m a m anife sta ção d e r e lig io sid ad e e s im u m a f o rm a d e e xp re ssã o s o cia l.
Na e sc o la , e la m e d eix a n a e ntr a d a, o nd e f ic am o s a lu no s a té o n o no a no e o s d em ais p obre s c o ita d os
q ue n ão tê m o u e stã o s e m c arro .
— E lle n p ode te d ar u m a c aro na n a v olta ? T enho u m a r e uniã o c o m o c o m itê .
— P ode d eix ar, e u m e v ir o .
Já e sto u n a m eta d e d o c am in ho q uand o e sc uto :
— D um plin ’! D um plin ’! V ocê e sq ueceu o c elu la r!
Meu co rp o in te ir o se re te sa co m o um cab o de vasso ura . A lg uns garo to s esp in hento s caem na
g arg alh ad a. O a p elid o q ue m am ãe m e d eu é ... e nfim . N ão m e l e m bro d e n enhum a o casiã o e m q ue e la n ão
t e nha m e c ham ad o d e D um plin ’. N ão q ue e le m e in co m ode, n em p enso n is so . M as e la n unca m e c ham a
a ssim fo ra d e c asa — p or m oti v os ó bvio s. A fin al, q uem g o sta ria d e s e r c ham ad a d e b olin ha d e q ueijo ,
r is o le , a lm ônd ega, c o xin ha o u p aste l e m p úb lic o ?
Volto d ep re ssa a té o c arro , e e la m e e ntr e ga o c elu la r.
— P or f a v or, n ão m e c ham e a ssim f o ra d e c asa , tá ?
Ela s o rri.
— É u m a p elid o c arin ho so , s ó i s so . E a í, p ode j a nta r s o zin ha h o je ?
Faço q ue s im .
— É poca d e c o ncurs o ... — a cre sc enta e la , c o m o u m a e xp lic ação .
Pego o c elu la r e c am in ho d ep re ssa p ela c alç ad a. P erto d a e ntr a d a, e nco sta d o a u m a c o lu na, e stá
P atr ic k T ho m as. E le s o rri, m as d e d esp re zo . G osta ria d e s e r in v is ív el. M as e le m e v ê. E , q ualq uer q ue
s e ja a d ecis ã o q ue a cab ou d e to m ar a m eu r e sp eito , é i r re v ogáv el.
Dep ois d o s e gund o te m po, M itc h m e s e gue a té o c o rre d or.
— E u te m and ei c in co m ensa gens o nte m . P ense i q ue ta lv ez a g ente p ud esse d ar u m a
s a íd a n o d om in go . P egar u m c in em in ha, s e i l á . A té p re fe rir ia q ue f o sse n o s á b ad o, m as o té cnic o q uer q ue
a g ente v á a ssis ti r a u m v íd eo p ara a p arti d a d a s e m ana q ue v em .
Conti n uo a nd and o. E le s e gura a m in ha m ão , m e o brig and o a p ara r.
— T á n am ora nd o, M itc h? — p erg unta u m g aro to d o n o no a no , c o m a s m ão s e m v olta d a b oca.
— N ós n ão e sta m os n am ora nd o! — g rito .
Mitc h c o ra a té a r a iz d os c ab elo s.
Arra nco a m ão e s ig o n a d ir e ção o posta . E sto u m e s e nti n d o u m s e r h um ano h o rrív el. M as h o je n ão é o
m eu d ia , p orta nto e u n ão te nho q ue d ar c o rd a a e le f in gin d o q ue p odem os s e r m ais d o q ue a m ig o s.
Ain d a a ssim , e u l h e d ev o u m p ed id o d e d esc ulp as.
— W ill! — c ham a e le à s m in has c o sta s.
Mas n ão m e v ir o . Q uand o e sto u c o nto rn and o u m a p are d e, e sc uto :
— E i! D um plin ’! — P atr ic k T ho m as a rra sta c ad a s íla b a d o b end ito a p elid o. A bre u m s o rris o e a p onta
p or cim a d a m in ha cab eça. — A í M itc h, m eu cam ara d a! F in alm ente enco ntr o u um a m ulh er d o se u

ta m anho .
Já fu i p ro vocad a o b asta nte n a v id a p ara sa b er q ue h á v ária s m aneir a s d e re agir a u m b ully . S ó
pre cis e i c ho ra r u m a v ez, n o s e gund o a no , p ara c o m pre end er q ue a s lá grim as s ó s e rv em p ara e xcita r a
vio lê ncia d essa s p esso as.
Lucy s e m pre m e d is se p ara i g no ra r o s b ullie s. Q ue e le s s ó q uere m a te nção , e q ue, s e v ocê n ão p assa r
re cib o, ti r a to do o g ás d ele s. A cho q ue, n a m aio ria d os c aso s, a té é v erd ad e. M as P atr ic k T ho m as é u m
desse s im becis q ue n ão p re cis a m d e u m a ra zã o p ara c o nti n uar fa la nd o. E le é a p aix o nad o p elo s o m d a
pró pria v oz.
Contu d o, se u ro sto p are ce um ta nto cho cad o q uand o ele m e v ê av ançar d elib era d am ente na su a
dir e ção . L em bro o s g ru nhid os q ue s o lto u a o la d o d o c arro d e M illie M ic halc huk. E c o m o e le in v ento u
que a s b ota s o rto péd ic as d e A mand a L um bard a d eix av am p are cid a c o m o F ra nkenste in . O p io r é q ue
nin guém te nta s e d efe nd er d e P atr ic k T ho m as. N em m esm o H annah P ere z, q ue é m ais c asc a-g ro ssa d o q ue
um lu ta d or d e M MA. O c ara b ota u m a p elid o n a p esso a e o tr o ço p ega. M as n ão v ou s e r c ham ad a d e
Dum plin ’ p or e le . A h, n ão v ou m esm o!
Patr ic k é p ego to ta lm ente d e su rp re sa q uand o acerto um a jo elh ad a v io le nta nas su as b ola s. S ua
exp re ssã o s e tr a nsfo rm a, to do o s a ngue fu gin d o d o r o sto p ara o s u l d o c o rp o. E le s o lta u m u iv o d e d or,
mas o s o m é m ais p are cid o c o m o g anid o d e u m c acho rrin ho . L ev o a s m ão s à b oca.
Esto u tã o c ho cad a q uanto e le . J á ti n ha i m agin ad o e ssa c ena: e u i n d o a té o i n fe liz , b ra nd in d o o d ed o n a
cara d ele e d iz e nd o tu d o o q ue p ensa v a. M as a í m eu c o rp o a ssu m ia o c o ntr o le e u m m ecanis m o d e d efe sa
prim iti v o d ecre ta v a:
Não v a m os a poia r e ssa i n ic ia tiv a .
Mitc h m e p uxa p elo s o m bro s. O s p ro fe sso re s lo ta m a
cen a d o c rim e
, e so u e m purra d a n a d ir e ção
oposta .
Is so p are ce n ão s e r n ad a b om .

VIN TE E T R ÊS
Mam ãe fic a p ê d a v id a, lív id a. E m orta d e v erg o nha. E m uita s o utr a s c o is a s ta m bém .
M as j á d esis ti d e p re sta r a te nção .
Seus d ed os a p erta m o v ola nte c o m ta nta f o rç a q ue é d e a d m ir a r q ue a s u nhas p osti ç as n ão s a lte m f o ra .
D ep ois d e s a ir d a s a la d o S r. W ils o n, e la f o i d esa b ala d a p ara o e sta cio nam ento d os v is ita nte s. E u ti v e a té
q ue a cele ra r p ara a co m panhar s e us p asso s.
Volta m os para casa em silê ncio . E la nem re d uz a velo cid ad e quand o vir a no ja rd im e fr e ia a
c entí m etr o s d a c erc a.
Ain d a n em d eslig o u o m oto r, e e u já a b ri a p orta e e sto u in d o p ara o s fu nd os. F echo a p orta d e v id ro
a o e ntr a r, e m bora e la s ó e ste ja a lg uns p asso s a tr á s d e m im .
Desa b o n o s o fá e s ó s e p assa m a lg uns s e gund os a té R io t s e a nin har n o m eu c o lo .
— E stá d e c asti g o .
Mam ãe n unca m e p ôs d e c asti g o . N unca. N em b ate u e m m im . N ad a. N ão s o u n enhum a njo , m as n unca
f iz n ad a q ue m ere cesse ta l p uniç ão .
Pego R io t e o c o lo co n a a lm ofa d a a o la d o a nte s d e m e le v anta r. N ão q uero q ue e le fiq ue n o fo go -
c ru za d o d a c ena q ue e stá p re ste s a s e d ese nro la r.
— P or q uê? — M in ha v oz s o a a lta d em ais n a c asa d ese rta . — S ó p orq ue r e agi q uand o u m c ara m e
c ham ou d aq uele a p elid o i n su p ortá v el q ue v ocê m e o brig o u a o uv ir a v id a i n te ir a ?
Ela a p oia a s m ão s n o s q uad ris e n ega c o m a c ab eça. N oto a lg uns fio s g ris a lh o s n as tê m pora s q ue e u
n unca ti n ha v is to a nte s.
— V ocê e stá f a ze nd o te m pesta d e e m c o po d ’á gua.
— T alv ez v ocê n ão te nha n o ta d o, m ãe, m as a q uestã o v ai m uito a lé m d aq uele a p elid o id io ta . V ocê
n unca v ai a ssu m ir is so e d iz e r c o m to das a s le tr a s, m as s e i q ue n ão s u p orta q ue a s u a filh a te nha e ssa
a p arê ncia . — M eus b ra ço s s e a gita m , f r e néti c o s.
— D o q ue v ocê e stá f a la nd o?
— N ão s e fa ça d e d ese nte nd id a. E u v ejo , to da v ez q ue v ocê lig a a te v ê e m a lg um p ro gra m a s o bre
g aro ta s p erd end o p eso , o u m e f a la d e a lg um a a m ig a q ue e m agre ceu h o rro re s p orq ue f e z a ú lti m a d ie ta d a
m oda, o u q uand o f a z u m a l is ta c o m o s i te ns d a d esp ensa a o c hegar e m c asa , p ara te r c erte za d e q ue e u n ão
m e e m pantu rre i c o m e le s.
Seu q ueix o tr e m e, e a p ossib ilid ad e d e e la c ho ra r n esse e xato m om ento m e d eix a f u rio sa .
— E u s ó q uero q ue v ocê s e ja f e liz .
— E u
so u
f e liz — d ig o , p ro nuncia nd o c ad a s íla b a c o m a m áxim a c la re za . N ão s e i o q uanto d e v erd ad e
h á n esta d ecla ra ção , m as n ão p osso i m agin ar d e q ue m odo u m a p erd a d e c in co q uilo s, o u m esm o d e v in te
e c in co , p oderia a m eniz a r a sa ud ad e b ru ta l q ue sin to d e L ucy, o u a c o nfu sã o e m re la ção a B o, o u a
d is tâ ncia c ad a v ez m aio r e ntr e m im e E l.
— Is so é o q ue v ocê p ensa p orq ue a in d a n ão c o nhece o m und o. V ocê e stá p erd end o ta nto ! — E la d á
u m p asso n a m in ha d ir e ção . — R ap aze s, n am oro s... E sse ti p o d e c o is a .
Passo a s m ão s n o r o sto .
— V ocê s ó p ode e sta r b rin cand o. E xtr a , e xtr a ! U m h o m em n ão v ai r e so lv er o s m eus p ro ble m as.
— E u s ó ... — E la s e c ala .
— M as e u q uero n am ora r s im , m ãe. Q uero te r n am ora d os. M ere ço is so . M esm o q ue v ocê a che q ue
n ão . — D ese jo q ue i s so s e ja tã o v erd ad eir o q uanto s o a.
Ela l e v anta a s m ão s.
— V ocê e stá fa ze nd o o q ue a L u fa zia q uand o é ra m os m enin as. E stá d is to rc end o to ta lm ente o s e nti d o
d as m in has p ala v ra s.
Bala nço a c ab eça s e m a m eno r h esita ção .
— N ão , m ãe. A ú nic a c o is a q ue L ucy f a zia e ra m ostr a r a v ocê c o m o a s u a v is ã o d e m und o é r id íc ula .
— I s so n ão te m n ad a a v er c o m L u, e stá b em ? E la m orre u, e f o i g ra ças a o m odo c o m o v iv eu. G osta ria
q ue v ocê n ão a i d ola tr a sse ta nto . — S eus o lh o s s e e nchem d e l á grim as q ue n ão c hegam a s e d erra m ar. —
E la a in d a e sta ria a q ui, s e ti v esse p erd id o p eso .
Meu c o rp o é o g ra nd e v ilã o d a h is tó ria . É a ssim q ue e la o v ê. U m a p ris ã o q ue e ncarc era a p arte
m elh o r e m ais m agra d e m im . M as e stá r e d ond am ente e nganad a. O c o rp o d e L ucy n unca f o i u m o bstá culo

para a su a fe lic id ad e. P or m ais q ue e u se m pre v á a m ar L ucy, fo i d ecis ã o e xclu siv a d ela se m ante r
tr a ncad a n esta c asa .
— E u ta m bém e ra g ra nd e. V ocê s a b e d is so . L u e e u é ra m os.
— E u j á o uv i tu d o i s so , tá ? J á o uv i to das e ssa s h is tó ria s d e c o m o v ocê p erd eu p eso a nte s d e c o m eçar
o e nsin o m éd io . P ara b éns! E ntr o u n um c o ncurs o d e b ele za d e u m a c id ad ezin ha d o i n te rio r e v enceu. I s so
se to rn o u lite ra lm ente a re aliz a ção q ue co ro ou a su a exis tê ncia . D ane-s e a fa culd ad e, d anem -s e o s
em pre go s q ue n ão e xig ir ia m q ue v ocê v iv a lim pand o o r a b o d e g ente v elh a. D ane-s e tu d o is so . P orq ue
você e m agre ceu o b asta nte p ra g anhar u m a p orc aria d e u m a c o ro a d e s tr a ss! D ev e e sta r m uito o rg ulh o sa
de s i!
Um a l á grim a e sc o rre p elo s e u r o sto .
— P ois e u d ir ia q ue e ssa c o ro a é m uito m ais d o q ue v ocê ja m ais re aliz o u n a v id a. — E la s e ca a
lá grim a.
— L ucy f o i m uito m ais m in ha m ãe d o q ue v ocê j a m ais s e rá .
Seus l á b io s s e a p erta m .
— V ocê n ão p ode i r tr a b alh ar. N em s a ir. A té o f im d a s u sp ensã o . V ou c hegar à s s e is .
Sub o p ara o q uarto e R io t m e s e gue r e nte n o s c alc anhare s. D eito e nro sc ad a n a c am a e f ic o o uv in d o o
so m d o c elu la r q ue v ib ra n a e sc riv anin ha, e nq uanto re ceb o u m a m ensa gem a tr á s d a o utr a . Im agin o q ue
se ja m to das d a E l. P ego a B ola 8 M ágic a n a m esa d e c ab eceir a , o o rá culo q ue c o nté m a s r e sp osta s p ara
to das a s p erg unta s q ue n ão c hego a f a ze r, e a p erto -a c o m f o rç a c o ntr a o p eito .

VIN TE E Q UATR O
Passo o d ia i n te ir o n o q uarto . O e ncanam ento d ecré p ito m e a v is a q ue m am ãe j á e stá d e
v olta d o tr a b alh o , la v and o a lo uça, e d ep ois a s tá b uas d o a sso alh o a nuncia m q ue v em s u b in d o a e sc ad a.
A nte s d e s e tr a ncar n o q uarto , s u a s o m bra p ara d ia nte d o m eu, e sc ure cend o a f r e sta e ntr e a p orta f e chad a
e o c hão .
Rio t e sti c a a s p ata s e e m purra m eu p eito , a nte s d e p ula r d a b eir a d a c am a e s e e sfr e gar n a p orta . C om o
n ão m e m ovo, e le c o m eça a m ia r, a v is a nd o q ue a s u a p aciê ncia c o m ig o s e e sg o to u.
Entr e ab ro a p orta e d eix o q ue s a ia , e nq uanto a cend o a l u z.
No e sp elh o , v ejo u m a v ers ã o d e m im m esm a c o m o s o m bro s c urv os e o rím el b orra d o. P ego u m a
c aneta n a c ô m oda e e sc re v o u m le m bre te n o b ra ço p ara a v is a r A le ja nd ro q ue n ão v ou tr a b alh ar n o s
p ró xim os d ois d ia s. A j u lg ar p elo s p rim eir o s, n ão a cho q ue a m in ha a usê ncia s e rá u m g ra nd e p ro ble m a.
Tom and o c uid ad o p ara n ão fa ze r b aru lh o , d esç o a e sc ad a n o e sc uro e to m o u m b om c o po d ’á gua
g ela d a e m tr ê s g o le s. P are ce u m a b obagem , m as m am ãe m e c o nd ic io no u a s e nti r e ssa n ecessid ad e to da
v ez q ue c ho ro . E ra o r e m éd io q ue s e m pre m e r e ceita v a.
Aca lm e-s e e to m e u m c o po d ’á gua, D um plin ’.
C om o s e e u p re cis a sse r e ab aste cer o p oço d e l á grim as a nte s q ue s e casse .
No q uarto , a B ola 8 M ágic a fic o u e m c im a d a c am a, o nd e a d eix ei. O c elu la r v ib ra , e ntã o o lh o a s
m ensa gens.
ELLE N : A h, m eu D eus. V ocê tá b em ?
ELLE N : J á d ev o te r te l ig ad o u m as o ito v eze s, e v ocê s a b e c o m o d ete sto f a la r n o te le fo ne. M E L IG A.
MANDA U M T O RPE D O. S IN AIS D E F U M AÇA . M EN SA GEM E M C Ó DIG O M ORSE .
ELLE N : É v erd ad e a q uele l a nce c o m o P atr ic k T ho m as? M and ei o T im m ata r o d esg ra çad o.
ELLE N : E le d is se q ue ta lv ez f a ça i s so d ep ois d o j a nta r.
ELLE N : D ro ga. A go ra e sto u m e b orra nd o d e m ed o.
Esto u b em ,
d ig ito .
Foi s ó ...
Paro e a p erto a d ro ga d o b otã o d e C ham ar, p orq ue n o m om ento s ó q uero a m in ha m elh o r a m ig a. O
t o que n em c hega a s o ar a té o f im , p ois e la a te nd e c o rre nd o.
— Q ue m erd a. A h, m eu D eus. Q ue m erd a.
— O i — d ig o , a v oz r o uca c o ntr a o f o ne.
— V ocê e stá b em ? O q ue a co nte ceu?
Susp ir o n o c elu la r, e c o m o é b om n ão l e v ar u m e sp orro p or c ausa d is so . E ntã o , c o nto tu d o a e la . Q ue
m am ãe m e c ham ou d e D um plin ’ n o e sta cio nam ento n a f r e nte d a e sc o la , d ia nte d e to dos o s a lu no s d o n o no
a no e d e P atr ic k T ho m as, q ue e sp era v am a a ula c o m eçar. C onto s o bre o in cid ente n o c o rre d or, e c o m o
n unca a lg uém ti n ha fe ito c o m q ue e u m e s e nti s se tã o p eq uena p or s e r tã o g ra nd e. E l s o lta m il p ala v rõ es,
m il p ala v ra s c arin ho sa s e f a z tu d o q ue m e l e v a a p ensa r q ue o te le fo nem a f o i a d ecis ã o c erta .
Ela s o lta u m d esa fo ro s o bre “ o s m erd in has d o n o no a no c o m a q uele s p in to s m in úsc ulo s” , e c o nta q ue
P atr ic k T ho m as le v ou p au e m ta nto s te ste s d e d ir e ção q ue a go ra s ó p ode te nta r d e n o vo q uand o fiz e r
d ezo ito a no s.
Conto a e la s o bre a b rig a q ue ti v e c o m a m am ãe.
— E e sto u su sp ensa p elo re sto d a se m ana. F eliz m ente , is so v ai d ar a o p esso al n a e sc o la te m po
b asta nte p ara e sq uecer e sse b arra co l a m entá v el. — A te le v is ã o d a m am ãe s e s ile ncia b ru sc am ente . — E
t a m bém e sto u d e c asti g o .
— N ossa . P uxa, fo i o p io r d ia d a s u a v id a, h ein ? M as a b oa n o tí c ia é q ue, já q ue fo i o p io r, o d e
a m anhã s ó p ode s e r m elh o r. M esm o q ue s ó u m p ouq uin ho .
Dou u m a r is a d a. S in to q ue a s c o is a s e stã o m elh o ra nd o.
— A manhã... v am os d esc o brir. — U m b ocejo m e s o be d o fu nd o d o p eito . — N ão e nte nd o p or q ue
c ho ra r d eix a a g ente tã o c ansa d a.
— D ev e s e r a a d re nalin a, o u a lg o a ssim .
— B oa.
— O lh a, e u s e i q ue p ro vav elm ente v ocê n ão q uer c o nv ers a r s o bre is so a go ra , m as v ocê n ão m e d eu
n enhum d eta lh e s o bre o s e u e nco ntr o .
— P ois é , n ão ti n ha m uita c o is a p ra c o nta r. F oi e xtr e m am ente ... b anal.
— A h, a m ig a. E u e sta v a c heia d e e sp era nças e m r e la ção a o M itc h.

— A g ente s e f a la a m anhã.
— T e a d oro , v iu ? O uv e u m p ouco d e D olly . E la v ai f a ze r v ocê s e s e nti r m elh o r.

VIN TE E C IN CO
Passo o s d ia s d a s u sp ensã o d e b obeir a n o s o fá . D ep ois d a a ula , E lle n v em m e tr a ze r o
d ev er d e c asa a nte s q ue m am ãe c hegue. F ic am os a ssis ti n d o à te v ê e m s ilê ncio e , e m bora e u e ste ja l o uca
p ara p erg unta r s e a lg uém f a lo u s o bre m im , f ic o n a m in ha. É s e m pre o T im q uem a tr a z e v em b usc ar, m as
n unca e ntr a . E u j á g o sta v a d ele , m as a go ra g o sto m ais a in d a p or n ão s e c o nv id ar e m e d eix ar p assa r e ssa s
h o ra s a s ó s c o m a E l.
No c o m eço , m am ãe e e u te m os h o rá rio s d ife re nte s, e à n o ite é c o m o s e a lg uém d iv id is se a c asa c o m
c o rd ões d e i s o la m ento . Q uand o s a io d o q uarto , e la s e m anté m a d is tâ ncia e , q uand o é e la q uem s a i, e u m e
t r a nco n o m eu. M as, p ouco a p ouco , n o sso s c am in ho s c o m eçam a s e a p ro xim ar, a té q ue, n a m anhã d e
s á b ad o, e la a v is a :
— H oje te nho u m a r e uniã o d e p la neja m ento q ue v ai d ura r o d ia i n te ir o . E sta m os n o s p re p ara nd o p ara
a a b ertu ra d as i n sc riç õ es. T em s a la d a d e a tu m n a g ela d eir a .
Não é u m a tr é gua, m as, p elo m eno s, s e rv e p ara q ueb ra r o g elo e ntr e n ó s.
Mitc h m and a a lg um as m ensa gens, p ed in d o d esc ulp as p ela c ena q ue p ro voco u e d iz e nd o q ue o P atr ic k
é u m b ocud o. R esp ond o q ue p re fir o n ão fa la r so bre o a ssu nto , m as se i q ue so u e u q uem d ev eria se
d esc ulp ar.
El p assa o s á b ad o i n te ir o tr a b alh and o e v ai a u m a f e sta d ep ois , p or i s so f ic o s o zin ha. J á e sto u h á ta nto
t e m po p re sa e m c asa , q ue c hego a te r a i m pre ssã o d e q ue o p ap el d e p are d e e stá d erre te nd o.
Dete sto o f a to d e n ão p assa re m n ad a d e b om n a te v ê n as ta rd es d e s á b ad o. É c o m o s e a té a s e m is so ra s
e sti v esse m te nta nd o f a ze r c o m q ue e u m exa a b und a e v á c uid ar d a v id a. A cho q ue e sse p esso al q ue f a z a
p ro gra m ação n unca d ev e te r f ic ad o d e c asti g o n um f im d e s e m ana.
Talv ez s e ja o té d io , m as o q uarto d e L ucy m e c ham a c o m o u m a s e re ia .
A c am a e stá fe ita e im pecáv el, c o m a c o lc ha d e p atc hw ork m usg o e b ege q ue v ovó fe z d obra d a a o s
p és, e o f e rro d e p assa r d e m am ãe n o c anto .
Na m esa d e c ab eceir a d e L ucy, e nco ntr o m ais re co rte s d e jo rn ais , m as e sse s sã o q uase to dos d e
a rti g o s s o bre a m am ãe. E la v iv e a p are cend o n o
Clo ver C ity T rib une
. A cho a té q ue já n am oro u o e d ito r
d ura nte u m te m po, m as o c ara a cab ou s e c asa nd o c o m a d ona d a l a v and eria .
A g ro ssa p ilh a d e re co rte s c o nté m d eze nas d e fo to s a m are la d as d e m am ãe e nv erg and o a c o ro a e o
v esti d o d e v enced ora . E p osa nd o c o m e le s to dos o s a no s, a o la d o d e c ad a M is s J o vem F lo r d o T exas.
V asc ulh o m ais f u nd o n a g av eta e e nco ntr o u m s a co e nv elh ecid o l o ta d o d e d ocum ento s, g ig ante . C ontr a to s,
p anfle to s, c o nta s. A té q ue m e d ep aro c o m u m f o rm ulá rio d e i n sc riç ão d o c o ncurs o , to ta lm ente e m b ra nco .
D ata d o d e 1 994, tr ê s a no s a nte s d a v itó ria d a m am ãe. E la e ra m uito j o vem n a é p oca p ara p arti c ip ar. M as
n ão p ode s e r e sse o m oti v o. L ucy a chav a e sse c o ncurs o o f im d a p ic ad a. O u, p elo m eno s, e u p ensa v a q ue
a chasse .
Min ha ti a n ão e ra u m a m ulh er tí m id a, m as n ão c o nsig o im agin á-la s e in sc re v end o n o c o ncurs o , n em
m esm o n a o casiã o e m q ue e ste v e m ais m agra . O f o rm ulá rio e m b ra nco te m e sse a r d e p ro m essa v azia , d e
a lg o q ue p oderia te r s id o e n ão f o i. O bse rv o o p ap el e i m agin o s u a l e tr a a li. O s c am pos s ã o o s d e p ra xe:
n o m e, d ata d e n asc im ento e e nd ere ço . M as h á o utr o s q ue m e d ão c ala fr io s, c o m o a ltu ra , p eso , c o r d os
c ab elo s e d os o lh o s, p ro je to s p ro fis sio nais e ta le nto s.
Tento m onta r m enta lm ente a s p eças d o q ueb ra -c ab eça, m as é i n úti l. F alta m a lg um as.
O ú nic o o bje to q ue r e sto u n essa g av eta d e i te ns p esso ais é u m a c aix a d e v elu d o v erm elh o c o nte nd o u m
e nfe ite d e N ata l: u m g lo bo b ra nco ir id esc ente c o m u m b eijo d e b ato m a o re d or d a c ir c unfe rê ncia e a
a ssin atu ra d a D olly e m d oura d o. U m s u v enir d e D olly w ood — u m l u gar q ue L ucy s e m pre q uis v is ita r. A
m ãe d a E l g anho u d uas p assa gens d e a v iã o n o e m pre go , e im ed ia ta m ente o fe re ceu u m a a L ucy. A s d uas
i r ia m p ara D olly w ood, c o m o s e m pre ti n ham s o nhad o.
Fiz e ra m m il p la no s. P esq uis a ra m h o té is e c arro p ara a lu gar. P assa ra m tr ê s h o ra s n a e str a d a i n d o a té o
a ero porto m ais p ró xim o, s ó p ara d esc o brir e m q ue L ucy te ria q ue c o m pra r m ais u m a p assa gem , j á q ue n ão
c ab eria n um a p oltr o na s ó . E la c o nto u q ue a a te nd ente d a c o m panhia a ére a f o i e xtr e m am ente g enti l, m as s e
m ostr o u ir re d utí v el. N o fim , L ucy fic o u tã o e nv erg o nhad a q ue p re fe riu v olta r p ara c asa a o cup ar d uas
p oltr o nas n o a v iã o . N a v olta , a S ra . D ry v er tr o uxe e sse e nfe ite p ara e la . D á p ara v er q ue c usto u c aro ,
p orq ue te m u m a f ita d e v elu d o v erm elh o e m v ez d e u m g anchin ho d e m eta l.
Me a rra sto d e v olta p ara o q uarto , l e v and o o v elh o f o rm ulá rio d e i n sc riç ão e o e nfe ite . P asso o r e sto

da ta rd e e stu d and o o p rim eir o , e q ual n ão é a m in ha s u rp re sa a o d esc o brir q ue a s ú nic as e xig ência s s ã o
que a c and id ata te nha e ntr e q uin ze e d ezo ito a no s e u m a a uto riz a ção d os p ais . D ia nte d os m il e u m
re q uis ito s q ue e u ti n ha im agin ad o, m al c o nsig o a cre d ita r q ue s e ja tã o s im ple s a ssim p arti c ip ar d e u m
co ncurs o , e q uanta s g aro ta s p odem s e i n sc re v er.
Um a i d eia o bsc ena m e p assa p ela c ab eça e , a nte s q ue g anhe f o rç a, v ou l o go e sc o nd end o o f o rm ulá rio
na g av eta d e b aix o d a c ô m oda.
A v oz d a m am ãe s e e sp alh a p ela c asa q uand o e la e ntr a p ela p orta d os f u nd os.
— N ão c re io q ue e la e ste ja e m c o nd iç õ es m enta is d e s e r u m m em bro a ti v o d o c o m itê . S in to m uito ,
mas a n o ssa c id ad e n ão e stá p ro nta p ara u m n úm ero d e a b ertu ra a o s o m d e B eyo ncé. — N ão c o nsig o
deix ar d e r ir d a s u a p ro núncia , “ B eio nse i” . — E m bora s e ja u m a d as m úsic as m ais l ig ht... o u, p elo m eno s,
é o q ue e la d iz ... n ão v ou c o rre r e sse r is c o .
Desp enco n a c am a. R io t e ntr a n o q uarto e s e e sp arra m a à m in ha fr e nte , a té e u fa ze r fe sti n ha n o s e u
queix o .
— B em , p ro nto s o u n ão , a s i n sc riç õ es s e rã o a b erta s e sta s e m ana — d iz m am ãe.
Pego a B ola 8 M ágic a n a m esa d e c ab eceir a e d ou u m a b oa s a cud id a n ela .
To dos o s s in ais i n dic a m q ue s im .

VIN TE E S E IS
Na m anhã d e d om in go , u m a tr e m end a r e ssa ca e m ocio nal m e p ega d e je ito . T om ei u m a
d ecis ã o n a n o ite p assa d a — u m a d ecis ã o p ra lá d e e stú p id a. D ig o a m im m esm a q ue p osso d esis ti r a
q ualq uer m om ento , p orq ue n in guém a lé m d e m im e stá s a b end o. S e n a h o ra H e u p erd er a c o ra gem , s e re i a
ú nic a te ste m unha.
É m ais o u m eno s c o m o q uand o a lg uém d eix a c air a b and eja c o m o a lm oço n a e sc o la e v ocê é a ú nic a
q ue n o ta . N in guém v ai s a b er s e n ão f o r l á a ju d ar. M as v ocê v ai.
Passo o d ia i n te ir o a nd and o d e u m l a d o p ara o o utr o , s e m p re sta r a m eno r a te nção a o f a to d e q ue h o je
m am ãe e e u a té f o m os g enti s u m a c o m a o utr a .
Dep ois d o j a nta r, e u m e tr a nco n o q uarto p ara l e r a lg uns l iv ro s d e l e itu ra o brig ató ria d a e sc o la . M as o
q ue a cab o m esm o fa ze nd o é n am ora r o b end ito fo rm ulá rio . N ão p osso im agin ar q ue te nha m ud ad o m uito
d esd e 1 994. E u c o m u m v esti d o d e m angas b ufa nte s e sa ia ro dad a, a v ançand o p elo p alc o e m p asso s
a lti v os c o m o s e f o sse a d ona d o p ed aço , é u m a i d eia g ro te sc a.
Há m uita s c o is a s q ue L ucy n unca f e z. N ão p orq ue n ão p ud esse , m as p orq ue e sta v a c o nv encid a d e q ue
n ão p oderia , e n in guém c o nse guiu ti r a r e ssa i d eia d a s u a c ab eça. N ão v ou m enti r p ara m im m esm a e d iz e r
q ue e la e sb anja v a s a úd e n o s ú lti m os a no s, m as e ssa é u m a r a zã o i n aceitá v el p ara te r s e p riv ad o d e f a ze r
a s c o is a s q ue m ais q ueria . E e u n em a o m eno s s in to ta nta v onta d e a ssim d e p arti c ip ar d o c o ncurs o . M as é
q ue, m esm o q ue e la s e nti s se , n ão te ria p arti c ip ad o.
Pego o te le fo ne e a p erto o b otã o d e c ham ar.
— O i! S ua s u sp ensã o j á e stá q uase a cab and o — r e le m bra E l.
— P re cis o te c o nta r u m a c o is a .
— D ig a.
Eu até p oderia m ud ar d e id eia e d iz e r “d eix a p ra lá ”. O u co nta r so bre B o e co m o não co nsig o
e sq uecê-lo to ta lm ente . M esm o a go ra , c o m tu d o q ue e stá a co nte cend o n a m in ha v id a. M as, e m v ez d is so ,
a nuncio :
— V ou p arti c ip ar d o C oncurs o M is s J o vem F lo r d o T exas d e C lo ver C ity .
A lin ha fic a em silê ncio por um se gund o quase lo ngo dem ais para m e deix ar te nta d a a diz e r:
“ B rin cad eir in ha!”
— Q ue. I d eia . G enia l.
— V ocê n ão a cha q ue e u e nlo uq ueci?
— B om , d oid a d e p ed ra v ocê j á é , m as i s so v ai s e r o m áxim o.
— N ão s e i, n ão .
— V ocê c o nto u p ra s u a m ãe?
Esfr e go a te sta .
— C ara m ba. N ão . A in d a n ão p ense i n a l o gís ti c a d a c o is a . E u s ó s e i q ue q uero p arti c ip ar d o c o ncurs o .
N ão q ue v á p oder e sc o nd er i s so d ela .
— E la v ai p ir a r.
— C la ro , s e m pre te v e v erg o nha d e m im . P or q ue n ão d ar a e la u m b om m oti v o?
Elle n n ão d iz q ue e sto u e rra d a, m esm o q ue s e ja o q ue p ensa .
— P re cis a m os b ola r u m p la no . O q ue v ocê v ai f a ze r a m anhã?
— T ra b alh ar, m as não acho q ue A le ja nd ro se im porta ria se v ocê ap are cesse p ra b ate r um p ap o
c o m ig o .
— T ud o b em . E u e v ocê. A manhã à n o ite .
Deslig o e g uard o o v elh o f o rm ulá rio . A go ra q ue j á c o nte i a E lle n, e la n ão v ai m e d eix ar v olta r a tr á s.
Tento d orm ir, m as n em m esm o a D olly c o nse gue a calm ar m eus n erv os.

VIN TE E S E TE
Elle n e T im v êm m e b usc ar e m c asa d e m anhã p ara e u n ão te r q ue e nfr e nta r a g ale ra n a
e ntr a d a, p ois a go ra m e to rn ei o fic ia lm ente a i n im ig a p úb lic a n úm ero u m d e P atr ic k T ho m as.
Mas, s a lv o p or u m o u o utr o c o ch ic ho , e nco ntr o a s c o is a s r e la ti v am ente c alm as n a e sc o la . T odo m und o
p are ce j á te r e sq uecid o o u p osto d e l a d o o q ue r o lo u n a s e m ana p assa d a.
Pelo m eno s, é o q ue p enso a té a h o ra d o a lm oço . A s p esso as se re únem e m g ru p os, o s c elu la re s
p assa nd o d e m ão e m m ão . A m aio ria e stá r in d o. A lg uns b ala nçam a c ab eça, c o m a r d e n o jo . N a fila d a
c anti n a, o lh o p or c im a d o o m bro d e u m a g aro ta . E la s e v ir a p ara m im , c o m v oz d e r is o , e p erg unta :
— J á d eu u m a o lh ad a n is so ? — O b ra ço e stá e ste nd id o, e xib in d o a te la d e u m c elu la r a c entí m etr o s d o
m eu n ariz .
Hannah P ere z. S ua fo to e sc o la r e stá a o la d o d a im agem d e u m c av alo , a g engiv ona c heia d e d ente s
g ig ante s b em à v is ta . Ig ualz in ha à d e H annah. S ó q ue o s d ela s ã o a in d a m ais to rto s. A le gend a d a fo to é
H aaaaaA AAaaannah
. C hego a o uv ir n a c ab eça a v oz r e lin chad a d o P atr ic k C ére b ro d e T iti c a.
— N ão te m a m eno r g ra ça — d is p aro à q ueim a-ro up a.
Na m esm a h o ra , a g aro ta r e ti r a o c elu la r d a m in ha f r e nte , a p erta nd o-o c o ntr a o p eito , o r o sto c o ntr a íd o
d e p erp le xid ad e.
— H um . T ud o b em .
Sei m uito p ouco s o bre H annah, a n ão s e r q ue é u m a g aro ta c ala d ona e c ab eça-d ura . Q uand o é ra m os d o
t e rc eir o a no , u m d ia , n a a ula d e a rte s, e stá v am os c o lo rin d o a q uele s p eru s q ue a s c ria nças d ese nham
c o nto rn and o a m ão c o m o l á p is , p ara o D ia d e A ção d e G ra ças. E u n ão ti n ha o uv id o H annah d ar u m p io o
a no i n te ir o , m as a í p eguei o p ilô q ue e sta v a n a s u a f r e nte — e q ue e la n em p are cia e sta r u sa nd o — , e e la
d eu u m ta p a n a m in ha m ão , g rita nd o q ue e u d ev eria te r p ed id o l ic ença. A ú nic a o utr a l e m bra nça q ue te nho
d ela é d o q uin to a no , q uand o e la p erd eu a p aciê ncia c o m u m a p ro fe sso ra q ue n ão p ara v a d e c ham á-la d e
a fr o -a m e
nic a na
. O q ue f o i p erfe ita m ente c o m pre ensív el, j á q ue e la é d om in ic ana.
Quand o e sto u a c am in ho d a a ula s e guin te , o uço c o m entá rio s d o ti p o “ Q ue h o rro r” , “ D esc ulp e, m as e la
é h ed io nd a” e “ P or q ue n ão u sa a p are lh o ?”.
Esse ú lti m o é o p ensa m ento q ue p assa o r e sto d o d ia n a m in ha c ab eça, p ois H annah n ão d ev eria s e r
o brig ad a a u sa r a p are lh o . T alv ez e la n ão p ossa p agar p or u m , o u te nha m ed o d e u sa r. S eja c o m o f o r, e la
n ão d ev eria s e r o brig ad a a e ntu p ir a b oca d e m eta l s ó p ara a lg uns i m becis a d eix are m e m p az.
No q uin to te m po, B o c ru za o s b ra ço s c o m fo rç a s o bre o p eito . E stá c o m u m h em ato m a n o r o sto e a
c asc a d e u m c o rte c ic atr iz a nd o n o c anto d o lá b io . Q uero s a b er o q ue a co nte ceu. C om q uem e le a nd ou
b rig and o.
Mas i s so n ão é d a s u a c o nta ,
r e le m bro a m im m esm a.
Quand o e le m e v ê, a te sta s e e nru ga e o s lá b io s s e fr a nze m ta nto q ue c hegam a r o m per a c asc a. E le
p uxa a m anga d o a gasa lh o s o bre a m ão e l im pa a b oca.
Dep ois d a a ula , e nco ntr o E lle n n o e sta cio nam ento .
— V ocê v iu a m onta gem c o m a f o to d a H annah?
Faço q ue s im .
— E la d ev e te r f ic ad o u m a f e ra q uand o d esc o briu . A lg uém s a b e q uem f e z a q uilo ?
— T im d is se q ue fo ra m u ns c ara s d a e q uip e d e g o lfe , m as q ue n ão v ai d ar e m n ad a já q ue n in guém
p ode p ro var e n ão a co nte ceu n a e sc o la .
— Q ue p alh açad a.
Tim e E l m e d ão u m a c aro na p ara c asa e f ic am e sp era nd o e nq uanto v is to a c am is a d o C hili B ow l. E le s
m e d eix am n o tr a b alh o , e E lle n p ro m ete v olta r m ais ta rd e c o m o c arro d a m ãe p ara m e b usc ar.
E e u m e p re p aro p ara e nfr e nta r A le ja nd ro . E le s ó p ode e sta r fu rio so p or e u te r fa lta d o d ia s s e guid os
a o tr a b alh o , m as, q uand o e ntr o , e le s e l im ita a p erg unta r:
— V ocê n ão e stá m ais d e c asti g o , e stá ?
Faço q ue n ão .
— Ó ti m o. P orq ue e u n ão c o m pro b rig a c o m a m ãe d e n in guém . P orta nto , s e e sti v er m enti n d o, p ode
v olta r p ara c asa .
— N ão e sto u — a fir m o. — E sto u to ta lm ente l ib era d a.

Por v olta d as s e te , E lle n e ntr a n o C hili B ow l.
— D esc ulp e, m in ha m ãe d is se q ue e u s ó p oderia u sa r o c arro s e j a nta sse e m c asa .
— N ão te m p ro ble m a.
Ela s e s e nta n a o utr a p onta d o b alc ão e c o chic ha:
— E ste lu gar c heir a a c eb ola e c ecê. A in d a n ão e nte nd o p or q ue v ocê tr o co u o H arp y’s p or e ste
muq uifo .
— O s a lá rio é m elh o r — m in to , e nq uanto m e in clin o p ara fr e nte , p ra ti c am ente e ste nd end o a p arte
su p erio r d o c o rp o n o b alc ão . — P or q uanto v ocê a cha q ue e u d esc o lo u m v esti d o d e b aile ? A quele
co ncurs o n ão v ai s a ir b ara to .
Ela d á d e o m bro s.
— U ns d uze nto s p aus, d e r e p ente . V ocê ta m bém p ode p ro cura r n um b re chó .
Os m ensa geir o s do vento acim a da porta co m eçam a ti lin ta r. E u m e le v anto , pega to ta lm ente
desp re v enid a p ela p ers p ecti v a d e u m c lie nte . E lle n n ão s e m ove u m m ilím etr o .
Millie M ic halc huk a cena p ara n ó s a o e ntr a r. E la so rri p ara m im , e , n a m esm a h o ra , a c ulp a p elo
pensa m ento m ald oso q ue s e u p eso s e m pre m e i n sp ir o u a fu nd a m eu a str a l c o m o u m a â nco ra .
— O i, M illie . — E lle n a c um prim enta c o m u m b re v e a ceno .
— E e ntã o , e m q ue p osso a ju d ar? — p erg unto .
Ela p õe a s c hav es n o b alc ão , e v ejo q ue h á, p elo m eno s, v in te e se is e lo s n o c hav eir o c o m d uas
chav es.
— U m a p orç ão d e c hili d a c asa . — E la f a z u m a p ausa . — E u ns c re am c ra ckers . P ra v ia gem .
— T á n a m ão .
Dep ois d e p agar, M illie p ega a lg uns p ote s p lá sti c o s n o b alc ão d e c o nd im ento s, e nq uanto ti r o o c hili d a
panela .
— E ntã o — c o m eça E lle n — , a ta xa d e i n sc riç ão n ão p ode s e r m ais d e d uze nto s d óla re s, c erto ?
— A cho q ue sim . T enho q uin hento s e se sse nta e o ito n a p oup ança, p orta nto , se to das a s d esp esa s
ju nta s p assa re m d is so , v ou te r q ue a rra nja r m ais u m e m pre go . — P re ssio no a ta m pa n o p ote d a M illie . —
Pro nti n ho !
Seus o lh o s p asse ia m e ntr e a E l e e u a nte s d e e la p egar o c hili e d eix ar a l o ja .
El f ic a v end o M illie s a ir d o e sta cio nam ento .
— I s so f o i m eio e sq uis ito .
— F oi, s im — c o nco rd o. — M as e la é e sq uis ito na m esm o.
Passa m os a n o ite c o nv ers a nd o e , q uand o A le ja nd ro s a i d o e sc ritó rio , E lle n d esc e d o b alc ão e fin ge
se r u m a c lie nte . E le fa z o re la tó rio d e fe cham ento d o c aix a e , q uand o e stá v olta nd o p ara o e sc ritó rio ,
ped e, s e m s e v ir a r:
— D iz p ra s u a a m ig a q ue e sta m os p re cis a nd o d e a te nd ente s!

VIN TE E O IT O
Entr o n a e sc o la c o rre nd o, a c ab eça c o berta c o m a m ochila p ara m e p ro te ger d a c huv a.
D ou u m a p ara d a r á p id a p ara e sfr e gar o s p és n o c ap acho .
— W ill? — M illie e stá a lg uns p asso s a o la d o, e nco sta d a n o s a rm ário s, u sa nd o u m a le ggin g flo rid a
c o m u m a tú nic a c o m bin and o.
Vou a té e la p ara n ão f ic ar n o c am in ho d os a lu no s q ue e ntr a m .
— O i! E a í, o q ue m e c o nta d e n o vo, M illie ?
Ela p uxa a s a lç as d a m ochila , q ue a fu nd am n o s s e us o m bro s.
— E u o uv i v ocê c o nv ers a nd o o nte m c o m a E lle n. S obre o c o ncurs o .
Sou p ega to ta lm ente d e s u rp re sa .
— S im , n ó s...
Ela s e i n clin a p ara m im e s u ssu rra :
— V ocê v ai p arti c ip ar, n ão v ai?
— E u... B om ... V ou, s im .
Um la rg o s o rris o s e a b re , e m purra nd o s u as b ochechas p ara c im a e p ara o s la d os. E la b ate p alm as
c o m o s e e u ti v esse f e ito a lg um ti p o d e tr u q ue.
Eu m e v ir o p ara e la , d and o a s c o sta s a o f lu xo d e e stu d ante s.
— P re sta a te nção . I s so n ão é n enhum g ra nd e s e gre d o, m as ta m bém n ão q uero q ue c aia n o s o uv id os d e
t o do m und o, e nte nd eu?
— C la ro , c o m c erte za . E nte nd id ís sim o.
Alg um a c o is a n o s e u s o rris o m e d eix a n erv osa .
— O brig ad a.
Quand o m e e nco ntr o c o m E l h o ra s m ais ta rd e, c o nto s o bre o e str a nho d iá lo go c o m M illie .
Ela m e s e gura p elo s o m bro s e s e i n clin a p ara m im .
— W ill, v ocê é a i n sp ir a ção d essa m enin a.
Bala nço a c ab eça c o m v eem ência .
— N ão s o u, n ão .
— A h, m eu D eus, v ocê te m u m f ã -c lu b e!
— A h, s a i p ra l á . — U m g rã o zin ho d e m im s e e nche d e o rg ulh o .
A c huv a fa z c o m q ue a p are çam a lg uns c lie nte s a fim d e s a b ore ar u m c hili. É o m aio r
movim ento q ue já v i n o re sta ura nte a té h o je . S ir v o u m b ow l a tr á s d o o utr o , e , s e m
l e v anta r o s o lh o s p ara v er q uem é o p ró xim o n a f ila , v ou l o go p erg unta nd o:
— G osta ria d e e xp erim enta r o n o vo c hili d e f e ijã o b ra nco ?
— A h, s im . U m p ote , u m a ti g ela , u m b ow l, o q ue f o r. — A quela v oz.
Não l e v anto o s o lh o s.
— O q ue v ocê q uer, B o?
— C om er c hili. E ste é u m r e sta ura nte e sp ecia liz a d o e m c hili, n ão é ?
Mil p ala v ra s b orb ulh am n o m eu p eito , m as n enhum a é a d eq uad a, n enhum a d iz e xata m ente o q ue e u
q uero . P orq ue a v erd ad e é q ue n ão s e i o q ue e u q uero .
— D ese ja m ais a lg um a c o is a ?
Ele m ord e o lá b io in fe rio r. Q ue d esa p are ce s o b o s d ente s. A doro e sse s d ente s. S ão p erfe ito s, m eno s
o s d ois d a f r e nte , q ue s ã o tr e p ad os. M as s ó u m p ouq uin ho . É c o m o s e o u niv ers o ti v esse d ecid id o q ue e le
h av ia f ic ad o p erfe ito d em ais e q ue p re cis a v a d e a lg um d efe iti n ho p ara c o m pensa r.
— N ão — r e sp ond e B o.
Fic o o lh and o e nq uanto e le a tr a v essa a r u a c o m a ti g ela d e c hili p ara v ia gem . E le ti r a o b oné d o b ols o
t r a se ir o e o c o lo ca, a nte s d e e ntr a r c o rre nd o n o H arp y’s .
Nos d ois d ia s s e guin te s, a b ro a b oca p elo m eno s u m a d úzia d e v eze s p ara c o nta r a m am ãe q ue v ou
p arti c ip ar d o c o ncurs o . M as n ão c o nsig o . N ão p osso te r e ssa c o nv ers a c o m e la . É c o m o s e a in d a ti v esse
u m a p onti n ha d e e sp era nça d e q ue n o d ia e m q ue f o r f a ze r a i n sc riç ão e la d ê u m g rito d e a le gria . Q ue d ig a
q ue se m pre so nho u que eu parti c ip asse e se guis se su a carre ir a de m is s. M as que não queria m e
p re ssio nar, p orq ue a chav a q ue e u d ev eria d esc o brir o m eu p ró prio c am in ho .

É u m s o nho d o q ual n ão q uero a co rd ar.

VIN TE E N O VE
Eu se m pre so ub e q ue o c o ncurs o e ra u m a p arte g ig ante sc a d a v id a d a m am ãe, m as
n unca s a iu d e s e gund o p la no p ara m im . Q uand o e u e ra p eq uena e e la p re cis a v a c o m pare cer a a lg um a
r e uniã o o u e nsa io , g era lm ente e u fic av a e m c asa c o m L ucy, o u e ntã o ia p ara a c asa d a E l. O c o ncurs o e
t u d o q ue e le i n clu ía e ra m te rritó rio e xclu siv o d a m am ãe.
As i n sc riç õ es e stã o r o la nd o n o C entr o d a c id ad e, m ais p re cis a m ente n o C entr o C om unitá rio d e C lo ver
C ity . L ogo e m f r e nte h á u m a p ra cin ha p ito re sc a c o m u m c o re to . O q uarte ir ã o s e m pre c heir a a f r a ngo f r ito ,
g ra ças a o F re nchy’s F rie d ’n ’ S uch, o r e sta ura nte q ue p õe to dos o s c o nco rre nte s n o c hin elo .
El e e u n o s s e nta m os n um b anco , e nq uanto c o nto a s n o ta s d os d uze nto s d óla re s d a ta xa d e i n sc riç ão .
— P or a caso v ocê n ão p ed iu à s u a m ãe p ara a ssin ar o f o rm ulá rio , p ed iu ? — p erg unta e la .
— N ão . — M eno re s d e id ad e s ó p odem p arti c ip ar d o c o ncurs o c o m a a uto riz a ção d os p ais . E , n o
m om ento , o m eu m aio r m ed o é q ue m am ãe d ig a n ão . N a f r e nte d aq uela s m il p esso as.
De l á d o o utr o l a d o d a p ra ça, v em u m a g aro ta b aix in ha e g o rd ucha a gita nd o o s b ra ço s f r e neti c am ente .
— E l... — F ra nzo o s o lh o s. — N ão é a ...?
Elle n l e v anta o r o sto . E s e u q ueix o c ai.
— A h, q ue b om q ue v ocê a in d a n ão e ntr o u! — g rita M illie . — T im in g p erfe ito !
— E la te a d ora — d iz E l. — É fa sc in ad a p or v ocê. — E la s e le v anta e fa z s o m bra a o s o lh o s c o m a
m ão . — A quela a o l a d o é ... A mand a L um bard ?
Faço q ue s im .
— N ós ta m bém v am os n o s i n sc re v er — d ecla ra M illie .
— V ai d em ora r m uito ? — p erg unta A mand a. — M in ha m ãe v ai m e m ata r s e e u m e a tr a sa r p ra p egar o
m eu i r m ão .
Olh o p ara E lle n. E la d á d e o m bro s.
Millie p õe a s m ão s n o s q uad ris .
— E u e nte nd i q ue v ocê n ão q uer q ue a s u a p arti c ip ação s e to rn e u m a co nte cim ento , W ill. E , p ara s e r
h o nesta , e u n em m esm o s e i q uais s ã o s e us m oti v os p esso ais p ara p arti c ip ar. M as v ocê v ai p arti c ip ar. E é
i s so q ue i m porta . Q uero f a ze r p arte d is so . N ós d uas q uere m os.
— E la m e o brig o u a v ir — r e sm unga A mand a.
Millie r e v ir a o s o lh o s.
— E u te nte i c o nv encer a H annah P ere z a p arti c ip ar ta m bém , m as e la n ão q uis .
— A liá s — c o m eça A mand a — , e la te m and ou e nfia r u m a f a ix a d e m is s n o s e u r a b o g o rd o.
Eu ti n ha d ito a M illie q ue q ueria q ue i s so f ic asse e ntr e n ó s, m as, c o m e ssa s d uas, f o i o m esm o q ue p ôr
u m a núncio n a p rim eir a p ágin a d o
Clo ver C ity T rib une
. N ão v ou fa ze r is so p ara m e to rn ar u m a e sp écie
d e J o ana D ’A rc d as G ord as. V ou f a ze r i s so p or L ucy. E p or m im . E sto u p ro nta p ara v olta r a s e r a g aro ta
q ue e u e ra a nte s d e c o nhecer o B o. P arti c ip are i d esse c o ncurs o p orq ue n ão h á q ualq uer m oti v o p ara n ão
f a ze r i s so . V ou e m f r e nte p orq ue q uero c ru za r a f r o nte ir a q ue m e s e p ara d o r e sto d o m und o. N ão p ara m e
t o rn ar a s a lv ad ora d e a lg uém .
— N ão é u m a b oa i d eia — d ig o , b ala nçand o a c ab eça.
— A s m elh o re s c o is a s n a m in ha v id a n unca c o m eçam c o m u m a b oa i d eia — d ecla ra M illie .
— M illie , a s p esso as s ã o m uito c ru éis — r e sp ond o. — E u s e i d is so . E te nho c erte za d e q ue A mand a
t a m bém s a b e.
Amand a c o nco rd a.

Hate rs g onna h ate
.
— E p arti c ip ar d esse co ncurs o é co m o co la r um carta z gig ante no tr a se ir o co m o s d iz e re s M E
C H UTA . V ocê n ão p re cis a d a m in ha p erm is sã o , m as n ão q uero s e r r e sp onsá v el p elo q ue v ai f a ze r.
Os o m bro s d e M illie s e c urv am d e d esâ nim o.
Elle n e sc av a a te rra c o m o d ed ão d o p é.
— E la s d ev em p arti c ip ar. S e M illie e A mand a q uere m e ntr a r n o c o ncurs o c o m v ocê, e ntã o é o q ue
d ev em f a ze r.
Viv a l a r e vo lu ció n
, e c o is a e ta l.
— N ão — i n sis to . — V ocês d ev em é i r p ara c asa .
Amand a d á d e o m bro s e c o m eça a se a fa sta r, m as M illie n ão a rre d a p é d a c alç ad a, n um p ed id o
s ile ncio so .

Elle n s e gura a m in ha m ão e a a p erta c o m f o rç a.
Susp ir o .
— A ta xa d e i n sc riç ão p ara
la r e vo lu ció n
c usta d uze nta s p ra ta s.
A b aru lh eir a n o s a lã o d o C entr o C om unitá rio é i g ual à q ue r e in a n o g in ásio d a e sc o la
dura nte a aula de ed ucação fís ic a das m enin as. C onv ers a s em to m estr id ente
re v erb era m n o te to , e co and o e s e m ulti p lic and o, a té a s v oze s d e v in te g aro ta s s e tr a nsfo rm are m n o s g rito s
de c em .
Gru p in ho s s e s e nta m e m v olta d e m esa s r e d ond as c o m to alh as, a s m esm as q ue m am ãe p asso u a fe rro
na s a la o nte m à n o ite . A s “ herd eir a s” , c o m a s m ães e a s ir m ãs q ue já fo ra m c o ro ad as. A s a tl e ta s, q ue
estã o te nta nd o i n cre m enta r o c urríc ulo p ara i m pre ssio nar a s u niv ers id ad es. A m esa d as c heerle ad ers e d a
to rc id a o rg aniz a d a, q ue a b rig a q ualq uer g aro ta q ue fa ça a lg o n um jo go d e fu te b ol a m eric ano q ue n ão
in clu a u m a b ola . E , n atu ra lm ente , a s a lu nas d o c urs o d e te atr o e a s d o c o ra l. T odas e stã o d e v esti d o.
Aquele s m odelo s c hiq ues q ue a g ente u sa n a P ásc o a, d e s a ia r o dad a. P re cio so s v esti d in ho s f lo rid os c o m
card ig ãs c o m bin and o. E nq uanto n ó s e sta m os n a b ase d o j e ans e d a c am is e ta .
Olh o p ara A mand a e M illie e te nto l h es d ar u m s o rris o e nco ra ja d or q ue n ão d ig a “ N ão s e i o q ue e sto u
fa ze nd o, e sto u m e s e nti n d o n ua”.
El a p erta a m in ha m ão .
— V am os l á .
Passa m os p elo la b ir in to d e m esa s e , q uand o c hegam os à fr e nte , o s ilê ncio c o m eça a s e e sp alh ar p elo
sa lã o , a té a s v oze s n ão p assa re m d e u m m urm úrio a b afa d o d e p erg unta s.
Senta d as à m esa d e in sc riç õ es estã o d uas ex-ra in has, Ju d ith C la w so n e M allo ry B uckle y. S ó as
venced ora s s ã o c o nv id ad as a s e to rn ar m em bro s d o c o m itê o rg aniz a d or. J u d ith é , n o m ín im o, v in te a no s
mais v elh a d o q ue M allo ry , m as a s d uas tê m o m esm o s o rris o b ra nco , tã o c in ti la nte q uanto o s b ro ches e m
fo rm ato d e c o ro a q ue u sa m n o s c ard ig ãs.
— O lá . V im m e i n sc re v er.
As d uas m e d ão u m so rris o fo rç ad o. Ju d ith c o chic ha n o o uv id o d e M allo ry , e e ntã o se le v anta e
perg unta :
— P erd ão , c o m o d is se ?
Ju d ith e xam in a m eu f o rm ulá rio .
— S eu ta le nto p re cis a s e r a p ro vad o a té a p rim eir a s e m ana d e n o vem bro .
— C la ro . S em p ro ble m as.
Seus o lh o s p ula m d o f o rm ulá rio p ara m im , e nq uanto e la l ê m eu p eso e a ltu ra .
— V ou p re cis a r d a a ssin atu ra d a s u a m ãe, q uerid a.
— W illo w dean. — C om o s e ti v ésse m os c o m bin ad o, m am ãe s e gura m eu b ra ço n o e xato in sta nte e m
que M allo ry p assa a p re ssa d a p or e la p ara r e cup era r s e u p osto .
Mam ãe m e p uxa p ara o l a d o e a tr a v essa m os u m a s é rie d e p orta s d e v id ro . V ejo p or tr á s d ela s A mand a
e M illie e ntr e gand o o s f o rm ulá rio s. T enho o i m puls o d e v olta r p ara l h es d ar u m a f o rç a, c o m o s e d e c erto
modo a s ti v esse a b and onad o.
Elle n, q ue e stá a tr á s d as d uas, l e v anta o p ole gar p ara m im .
— O q ue p ensa q ue e stá f a ze nd o? — A v oz d e m am ãe é u m s u ssu rro r ís p id o.
End ir e ito a c o lu na, f in cand o o s p unho s n o s q uad ris .
— E sto u m e i n sc re v end o.
— E sse c o ncurs o n ão é u m a p ia d a.
— E stá m e v end o r ir ?
— E q uem s ã o a q uela s m oças c o m v ocê?
— M in has a m ig as. E e la s ta m bém q uere m p arti c ip ar.
— Is so é a lg um ti p o d e m ano bra p ara c ham ar a te nção ? E stá te nta nd o s e v in gar d e m im p or a lg um
moti v o? — S ua v oz s e e rg ue a c ad a p ala v ra e , e m bora e u n ão te nha a m eno r i n te nção d e a b aix ar o r o sto ,
sin to q ue o s o lh o s d e to dos n a s a la d e i n sc riç õ es e stã o f ix o s e m n ó s.
— A h, e ntã o s ã o e ssa s a s p erg unta s q ue v ocê fa z à s c o nco rre nte s? E ngra çad o, n ão v i n enhum a n o
fo rm ulá rio .
Ela a p onta u m a i m pecáv el u nha r o sa p ero la d a p ara o m eu r o sto .
— N ão fa ça is so . N ão a rra ste e ssa s p obre s m enin as p ara o s n o sso s p ro ble m as. E sse c o ncurs o n ão é
um a p ia d a p ra v ocê u sa r c o m o u m c asti g o c o ntr a m im .
— E p or q ue te ria q ue se r? P or q ue te m q ue c hegar a e ssa c o nclu sã o , m ãe? P or q ue n ão p osso

parti c ip ar s e m q ue v ocê e ncare i s so c o m o u m a p ia d a o u u m a v in gança?
Ela c ru za o s b ra ço s, o s l á b io s f r a nzid os n um n ó a p erta d o.
— V ocê n ão p ode s e i n sc re v er, a m eno s q ue e u a ssin e a a uto riz a ção .
Eu s a b ia q ue e sse m om ento e ra i n ev itá v el.
— E p or q ue n ão a ssin aria ?
Sua v oz s e s u av iz a .
— A lé m d o f a to d e e u n ão te r c erte za d e q ue a s s u as i n te nçõ es s ã o h o nesta s? — E la l a m be o p ole gar e
esfr e ga um ponto na blu sa acim a do m eu peito . — N ão quero que você passe por um a te rrív el
hum ilh ação .
Abro a b oca, p re ste s a r e b ate r.
— E n em te m o d ir e ito d e s u b m ete r a q uela s m enin as a i s so . E la s v ão s e r r id ic ula riz a d as, D um plin ’. —
O a p elid o é u m a n av alh ad a f u nd a n a m in ha c arn e, d e u m j e ito c o m o n unca s e nti a nte s.
Há m uita s c o is a s q ue e u p oderia r e sp ond er, m as r e so lv o i r d ir e to a o p onto .
— M ãe. — M in ha b oca e stá s e ca. — S e n ão a ssin ar e ste fo rm ulá rio , v ai s e r c o m o s e e sti v esse m e
diz e nd o q ue a cha q ue e u n ão te nho v alo r. Q ue c ad a g aro ta n o s a lã o é m ais b onita e d ig na d e v encer d o
que e u. É e ssa q ue v ai s e r a s u a m ensa gem .
Faz-s e u m l o ngo s ilê ncio e ntr e n ó s.
Mam ãe n unca m e e nco ra jo u a p arti c ip ar d o c o ncurs o . A in d a m e le m bro d o d ia e m q ue e u e sta v a
se nta d a n a c o zin ha c o m E l, n o v erã o a nte s d o p rim eir o a no d o e nsin o m éd io , d eco ra nd o n o ssa s a gend as
no vas, ig uaiz in has, q uand o d ei u m p ulo n o q uarto p ara p egar m ais p ilô s. Q uand o v olte i, p are i e ntr e a s
so m bra s d o c o rre d or a o o uv ir m am ãe d iz e r: “ V ocê p ode p ensa r e m p arti c ip ar d o c o ncurs o q uand o fiz e r
quin ze a no s, q uerid a.” E l r e sp ond eu q ue n ão e sta v a i n te re ssa d a, e e sp ere i m ais a lg uns s e gund os a nte s d e
volta r a m e s e nta r à m esa . A quele d ia r e p re se nto u p ara m im a c o nsc ie nti z a ção d e q ue a v is ã o d e m und o
su ste nta d a p or n o sso s p ais n ão s e rv e p ara n ó s.
Fic o o lh and o p ara m am ãe, e sp era nd o q ue e ntr e gue o s p onto s.
— T ud o b em — c o nco rd a e la , a p ós u m l o ngo m om ento . — M as n ão s e a tr e v a a e sp era r u m tr a ta m ento
esp ecia l, o u q ualq uer m ord om ia .
É c o m o s o lh o s a rre gala d os q ue E l n o s v ê p assa r p ela p orta . L eio a p erg unta q ue m e fa z p or m ím ic a
la b ia l.
Bala nço a c ab eça u m a ú nic a v ez.
Mam ãe p assa p or m im e m d ir e ção à m esa e a ssin a o f o rm ulá rio .

TR IN TA
Sento a u m a d as m esa s c o m E lle n, M illie e A mand a, e nq uanto m am ãe, d ia nte d a m esa
d e i n sc riç ão , b ate p alm as, s ile ncia nd o o s a lã o .
— B em -v in d as, m in has a m ig as. — E la p ig arre ia . — V ocês e stã o p re ste s a e m barc ar n um a j o rn ad a q ue
m uita s j á tr ilh ara m n o p assa d o e o utr a s ta nta s tr ilh arã o n o f u tu ro . O c o ncurs o M is s J o vem F lo r d o T exas
d e C lo v...
A p orta p esa d a n o s f u nd os d o s a lã o s e a b re c o m u m r a ngid o, e to das a s c ab eças s e v ir a m , i n clu siv e a
m in ha.
— C heguei m uito ta rd e p ara m e in sc re v er? — p erg unta H annah P ere z, c o m a v oz m ais n atu ra l d o
m und o.
Meu q ueix o d esp enca. J u nto c o m o s d e to das a s m ulh ere s n o s a lã o .
Segura nd o u m a p ra ncheta , a e x-m is s m ais j o vem d a m esa d e i n sc riç õ es v ai a p re ssa d a a té H annah. D á
u m a o lh ad a n o f o rm ulá rio e p ed e q ue e la s e s e nte .
Hannah s e s e nta s o zin ha a u m a m esa v azia .
Min ha m ãe to rn a a p ig arre ar.
— U m , d ois , tr ê s. S ua a te nção , p or f a v or. — E la h esita p or u m m om ento . — C om o e u e sta v a d iz e nd o,
o c o ncurs o M is s Jo vem F lo r d o T exas é u m a e sti m ad a tr a d iç ão d a n o ssa c id ad e, c o m u m a h is tó ria
r iq uís sim a. A s v enced ora s s e to rn ara m e m pre sá ria s, m éd ic as, m ães e e sp osa s a m ad as. T em os a té m esm o
u m a p re fe ita e ntr e n ó s. — E m s e guid a, e la e xp lic a a s o rig ens d o c o ncurs o , e c o m o f o i s u sp enso d ura nte a
S egund a G uerra M und ia l e n o a no d o a ssa ssin ato d e K enned y.
Nunca ti n ha v is to m am ãe n o c o m and o d e u m s a lã o c o m o a go ra . E stá c o m a c o lu na e re ta , f a la nd o c o m a
v oz p ro je ta d a. E la e stá n o s e u h ab ita t. M as a cho q ue o q ue m ais m e s u rp re end e é o fa to d e to do m und o
p are cer c ati v ad o. I n clu siv e n a m in ha m esa . A qui, n o s e u r e in o , e la n ão é a m in ha m ãe. A qui, e la é R osie
D ic kso n, a M is s J o vem F lo r d o T exas d e C lo ver C ity d e 1 997. A qui, e la é u m a r a in ha.
To dos s a údem S ua
M aje sta de.
— S e v ocês a in d a n ão d ecla ra ra m s e us ta le nto s, d ev em fa zê -lo a té a p rim eir a s e m ana d e n o vem bro .
N ão s e e sq ueçam : o c o m itê d ev erá ju lg á-lo s a p ro pria d os. P orta nto , n ad a d e e xib iç õ es d e s e nsu alid ad e,
e nte nd id o? V ocês ta m bém v ão p re cis a r q ue o s tr a je s d e g ala , d e b anho e d e ta le nto s e ja m a p ro vad os a té a
q uarta -fe ir a a nte rio r a o c o ncurs o .
Ela a guard a a té q ue a lg um as p esso as b ala ncem a c ab eça n a p la te ia .
— M uito b em . G osta ria d e lh es ap re se nta r m in has co la b ora d ora s este ano . E sta é a S ra . Ju d ith
C la w so n, q ue fo i a v enced ora d o c o ncurs o e m 1 979. — A m ulh er m ais v elh a se le v anta e fa z u m a
r e v erê ncia . — E e sta a q ui é a S ra . M allo ry B uckle y, q ue c o nq uis to u o tí tu lo e m 2 008. — E la s e c ala e
r e ceb e ap la uso s dis c re to s. — O que ela s ap ro vare m , se rá co m o se eu m esm a ap ro vasse . O que
d esa p ro vare m , s e rá c o m o s e e u m esm a d esa p ro vasse .
As d uas p erc o rre m o s a lã o , d is tr ib uin d o p asta s r o sa -c ho que c o m o lo go ti p o d oura d o d o
Octo gésim o
P rim eir o C oncu rso A nual M is s J o vem F lo r d o T exa s d e C lo ver C ity
i m pre sso n a c ap a.
— O bse rv em à s u a v olta p or u m m om ento . — E la e sp era , e nq uanto tr o cam os o lh are s c erim onio so s. —
E m a lg um l u gar d o s a lã o , e stá a p ró xim a v enced ora . A m á n o tí c ia é q ue a p enas u m a j o vem u sa rá a c o ro a.
A b oa n o tí c ia é q ue e la e stá a q ui e ntr e n ó s. V ocês d ev em te r n o ta d o q ue e ste é o o cto gésim o p rim eir o
a niv ers á rio d o c o ncurs o . T em os s u rp re sa s m ara v ilh o sa s p ara v ocês, in clu siv e u m n úm ero d e a b ertu ra
l in d am ente c o re o gra fa d o...
— N in guém f a lo u q ue i a te r d ança — m urm ura A mand a.
— ... e a p ro m essa d e f o to s n a p rim eir a p ágin a d o
Clo ver C ity T rib une
.
Mallo ry (e la é tã o jo vem que não co nsig o cham á-la de S ra . B uckle y) co nto rn a a no ssa m esa ,
e ntr e gand o u m a p asta a c ad a u m a d e n ó s. I n clu siv e a E l.
— A h — s u ssu rro . — E la n ão v ai p arti c ip ar d o c o ncurs o . S ó v eio a q ui p ara n o s d ar a p oio m ora l.
Mallo ry , c o m s e u c ab elo c asta nho -a v erm elh ad o d e m il c achin ho s, s o rri p ara m im c o m o s e e u ti v esse
f a la d o g re go e i n sis te e m e ntr e gar u m a p asta a E l.
— E lle n — s u ssu rro .
Ela s e v ir a n a c ad eir a e a b re a p asta , f o lh eand o a s p ágin as.
— D ig a.

Mam ãe a in d a e stá s o lta nd o o v erb o, p or i s so m e i n clin o p ara E l e d ig o :
— I s so f o i m eio e sq uis ito , n ão f o i?
— O q uê?
— O q ue a M allo ry f e z.
— P or q ue f o i e sq uis ito ? — s u ssu rra e la , a in d a f o lh eand o a s p ágin as.
Sin to m eus o lh o s s e a rre gala re m .
— V ocê s e i n sc re v eu n o c o ncurs o ?!?
— N ão f o i p ara i s so q ue v ie m os a q ui?
— O brig ad a, se nho ra s — d iz m am ãe, a v oz lím pid a c o m o u m c ris ta l. — F iq uem à v onta d e p ara
co nhecere m u m as a s o utr a s. N ão s e e sq ueçam : s ó d ep end e d e v ocês f a ze re m j u s à e xp re ssã o
co m petiç ã o
am ig ável
. S erv ir e m os u m la nche n aq uela m esa d os fu nd os, c uja g ra nd e e str e la , n atu ra lm ente , é o m eu
fa m oso c há g ela d o.
Apla uso s e co am n o s m eus o uv id os.
— V ocê n ão p ode p arti c ip ar d o c o ncurs o . I s so n ão f a zia p arte d o p la no .
Todos a o m eu r e d or s e d ir ig em a o s f u nd os d o s a lã o .
— C om o a ssim ? — E la n ão e stá m ais s u ssu rra nd o. — N ós n ão c o nv ers a m os s o bre o utr a c o is a h á
dia s.
— V ocê n ão p ode e sta r f a la nd o s é rio .
— P or q ue n ão ? P or q ue i s so é u m p ro ble m a tã o g ra v e a ssim ?
— P orq ue... v ocê p oderia v encer. N ós n ão e sta m os a q ui p ara v encer. N ão é e sse o n o sso o bje ti v o. —
Perc eb o c o m o e ssa r e sp osta s o a r id íc ula .
— V ocê s ó p ode e sta r d e s a canagem c o m ig o .
Não s e i o q ue d iz e r. N ão h á o q ue d iz e r.
— V ocê l e v ou e m c o nsid era ção o f a to d e q ue e sto u m e s e nti n d o tã o d eslo cad a a q ui q uanto v ocê?
— V ocê te m q ue s a ir d o c o ncurs o , E l. P or m im , v ocê te m q ue s a ir. M e d eix a te r p elo m eno s i s so .
— O q uê? D eix ar v ocê te r o q uê? V ocê n ão p ode e sc o lh er q uem s e ju nta à
re vo lu ció n
. — E la fa z
asp as n o a r a o d iz e r
re vo lu ció n
.
Perc eb o a ló gic a d e s u as p ala v ra s. E r e co nheço a v erd ad e d ela s. M as, s e E l p arti c ip ar d o c o ncurs o ,
ela p oderá v encer. E , s e v encer, v ai e str a gar tu d o.
Ain d a m e le m bro d aq uela n o ite , h á d ois a no s, e m q ue e stá v am os s e nta d as à m esa d a c o zin ha e fin gi
não te r o uv id o m am ãe in centi v and o-a a s e in sc re v er. Is so n ão d ev eria te r fe ito d ife re nça p ara m im , m as
fe z. F oi u m m om ento q ue e nte rre i m uito f u nd o n a m em ória , e a go ra e ra a ú nic a c o is a q ue e u v ia . C om o u m
cír c ulo se fe chand o. E la e ra m in ha m ãe. M orá v am os so b o m esm o te to , e , d ura nte to do e sse te m po,
ja m ais e ste nd era o c o nv ite a m im .
Entã o , p enso q ue te nho o d ir e ito d e s e r e go ís ta . Q ue m ere ço f a ze r a lg o p or m im m esm a.
— V ocê j á te m tu d o — te nto a rg um enta r. P ais p erfe ito s. U m e m pre go p erfe ito . U m n am ora d o p erfe ito .
— P oxa E l, d eix a e u f ic ar, p elo m eno s, c o m o c o ncurs o .
El f a z q ue n ão c o m a c ab eça.
— N ão é j u sto . V ocê n ão p ode m e i m por i s so . T alv ez C allie te nh a r a zã o , W ill. T alv ez a n o ssa a m iz a d e
te nha m esm o fic ad o n o p assa d o. T alv ez e ste ja m os e m pata nd o a v id a u m a d a o utr a . E u p erc o u m m ilh ão
de c o is a s p or s u a c ausa . N em a cre d ito q ue v ocê p ossa s e q uer p ensa r e m m e p ed ir p ara n ão m e i n sc re v er.
Toda a tr is te za e a a m arg ura q ue s e nti n o s ú lti m os m ese s c ulm in am n um ú nic o e v io le nto a cesso d e
ra iv a.
Em pata ndo a v id a u m a d a o utr a ?
— C allie ? É m esm o? N ão a cre d ito q ue v ocê fa la c o m e la s o bre n ó s. D esc ulp e s e n ão p osso s e r u m a
am ig a le v ia na p ra v ocê, d essa s q ue s ó fic am p or p erto e d iz e m o q uanto v ocê é im pecáv el. A nd a, d iz
lo go o q ue e stá p ensa nd o. N ós n ão e m pata m os a v id a u m a d a o utr a . S ou
eu
q ue e m pato
a s u a v id a
, n ão é ?
Ela n ão r e sp ond e.
— N ão s o u s u a d is c íp ula , n em f ic o d o s e u l a d o p ra v ocê p are cer m ais m agra . — D ou u m p asso n a s u a
dir e ção . — E sse c o ncurs o é p ara m im , E l. E sto u f a ze nd o i s so p or m im m esm a.
Seu r o sto f ic a v erm elh o d e r a iv a.
— V ocê é u m lix o c o m o a m ig a, W ill, e já e sto u c heia d e p erd er m eu te m po. N ão v ou s a ir, e p onto
fin al. — D ito i s so , e la v ai e m bora .

TR IN TA E U M
Na s e gund a, E lle n m e i g no ro u. E e u m ere ci. J á e sp era v a q ue e la m e d esse u m g elo . N ós
d uas te m os p av io c urto , m as e la e stá s e m pre d is p osta a p erd oar. É u m a c o is a q ue a p re nd i a d ar c o m o
c erta . M as a í c hego u o fim d e s e m ana, e e la n ão m e m and ou n enhum a m ensa gem . N a te rç a, n em T im m e
c um prim ento u. E f o i e ntã o q ue a m in ha a nsie d ad e s e tr a nsfo rm ou e m p ânic o to ta l.
Hoje , n ão p osso d eix ar d e fa la r c o m e la . N ão s e i q ual d e n ó s e stá c erta e q ual e stá e rra d a, m as n ão
e sto u p ro nta p ara e nfr e nta r o c o ncurs o s e m e la . T ento e sc o rá -la n o c o rre d or, d ep ois d o s e gund o te m po. E
d ig o a m im m esm a q ue tu d o v ai fic ar b em . Q ue n ó s s o m os c o m o u m c asa l d e v elh in ho s q ue d e r e p ente
n em l e m bra m m ais p or q ue b rig ara m .
— O i, E lle n! O i!
Ela p ara e s e v ir a . S ua p ostu ra é d efe nsiv a e d is ta nte .
— Q ue ta le nto v ocê a cha q ue e u p osso e xib ir n o c o ncurs o ? — p erg unto , te nta nd o fin gir q ue n ad a
a co nte ceu.
Ela a b re a b oca, e m eu c o ra ção f ic a a o s p ulo s e nq uanto e sp ero s u a r e sp osta . M as e la a p enas b ala nça a
c ab eça e s e a fa sta .
Callie p assa p or m im e m e d á u m o lh ar d e n o jo , a nte s d e c o rre r a tr á s d a m in ha m elh o r a m ig a.
— E l- b ell!
As lá grim as se acum ula m no s m eus o lh o s o d ia in te ir o , esp era nd o q ue as co m porta s d a re p re sa
r e b ente m . V ou e m bora d a e sc o la o m ais r á p id o p ossív el. M am ãe r e so lv eu p erm iti r q ue e u v á e v olte n o
c arro d ela , d esd e q ue a nte s a d eix e n o tr a b alh o . N o in sta nte e m q ue s a io d o e sta cio nam ento , lib erto a s
l á grim as. Q ue e sc o rre m p elo r o sto . G ra nd es, g ro ssa s, p esa d as. C om o f u rio so s p in go s d e c huv a f u sti g and o
o p ara -b ris a .
Ela d ev eria c o m pre end er. L ogo e la d ev eria c o m pre end er. P aro n um s in al v erm elh o e fe cho o s o lh o s
p or u m m om ento , m as, q uand o fa ço is so , a ú nic a c o is a e m q ue c o nsig o p ensa r é n aq uele d ia , q uand o
e stá v am os c o m q uato rz e a no s. S ei q ue é e go ís ta , s e i q ue é e rra d o. M as e u n ão s o u p erfe ita , n em e la .
Q uand o a g ente g o sta m uito d e a lg uém te m q ue a ceita r o s d efe ito s d a p esso a. F aze r s a crifíc io s p elo s e u
b em -e sta r e m ocio nal. E e u p re cis o d ela p ara m ante r o m eu. P re cis o q ue e la s a crifiq ue s e us p la no s p or
m im .
Um a b uzin a b erra à s m in has c o sta s, le m bra nd o q ue e sto u a o v ola nte d e u m a g erin go nça d e m eta l q ue
p esa m ais d e u m a to nela d a.
Em c asa , e sta cio no n a p orta d a g ara gem . T enho d uas h o ra s p ara m ata r, a nte s d e te r q ue ir b usc ar
m am ãe.
Vir o o e sp elh o r e tr o vis o r p ara m im e s e co o s o lh o s b ate nd o n ele s c o m a s p onta s d os d ed os.
Use a s
p onta s d os d ed os
, e nsin o u m am ãe.
Seca r c o m a s m ãos s ó s e rv e p ara d eix á -lo s a in da m ais i n ch ados.
Saio d o c arro e p aro b ru sc am ente , c o m a m ão n a m açaneta .
— O q ue e stá f a ze nd o a q ui?
Mitc h e stá p ara d o n a ju nção d o ja rd im c o m o a sfa lto . A s p ern as d o je ans e stã o e nfia d as d e q ualq uer
j e ito n as b ota s, e o b oné d e b eis e b ol s u rra d o e xib e v ária s m anchas d e s u o r.
— E u te v i c ho ra nd o.
Bato a p orta d o c arro .
— E a í r e so lv eu m e s e guir ?
Seu r o sto f ic a v erm elh o .
— S ó p ara v er s e v ocê e sta v a b em . N ão p ara te e sp io nar.
— T á. — P asso a m ochila p ara o o m bro . — E sto u b em . — D e r e p ente m e d ou c o nta d e q ue, ti r a nd o
o s c um prim ento s, n ão c hegam os a n o s f a la r d ir e ito d esd e a q uele p esa d elo n o c o rre d or. E sto u l h e d ev end o
u m p ed id o d e d esc ulp as. — V ocê n ão d ev eria e sta r tr e in and o?
Ele d á d e o m bro s.
— V am os e ntr a r — d ig o .
Ele m e s e gue p elo q uin ta l, e e u o c o nv id o a s e s e nta r n um a d as c ad eir a s d e m eta l e nfe rru ja d as.
— A ceita u m c o po d e c há g ela d o d e p êsse go ?
Ele ti r a o b oné, d eix and o à m ostr a o s c ab elo s d esg re nhad os, e s e ca o s u o r d a te sta c o m o a nte b ra ço .
— A ceito , o brig ad o.

Na c o zin ha, s o lto a m ochila n a m esa e s ir v o d ois c o pos. E sta m os n aq uela é p oca e str a nha d o a no e m
que p assa m os p or to das a s e sta çõ es a o lo ngo d o d ia . A cho q ue a m aio ria d as p esso as c ham a e sta d e
“o uto no ”, m as a q ui n o S ul o q ue te m os é u m a r e b eld e c o m bin ação d e p rim av era -v erã o -o uto no -in v ern o .
Mesm o a ssim , o c há g ela d o é u m a d elíc ia s e rv id a o a no i n te ir o .
Sento -m e d ia nte d e M itc h e l h e e ntr e go u m d os c o pos.
— F eito p ela m in ha m ãe — i n fo rm o. — R eceita d a v ovó.
— O brig ad o.
Fic am os b eb eric and o o c há p or a lg uns m om ento s.
— M e desc ulp e por aq uele dia no co rre d or — peço . — Q uand o alg uém dis se que está v am os
nam ora nd o.
— T ud o b em . — E le m assa geia a n uca. A cho q ue to da m ulh er te m u m a q ued in ha p or a lg um a p arte d o
co rp o m asc ulin o . A d e E l s ã o a s m ão s. A m in ha é n o l im ite e ntr e o s c ab elo s e a n uca. A doro a s e nsa ção
de p assa r o s d ed os n aq uele s f io s e sp eta d os d o c ara . E q uand o d ig o “ cara ”, e sto u m e r e fe rin d o a B o, c o m
a c o rre nti n ha f in a d e p ra ta a p are cend o a cim a d a g o la d a c am is e ta . P orq ue e le é o ú nic o c ara n o m und o.
Só q ue, ta lv ez, n ão p re cis e m ais s e r.
— N ão s e i p or q ue a s p esso as tê m q ue te r e nco ntr o s — o bse rv a M itc h. — S e a g ente c ham asse d e
“d ar um a sa íd a” ou alg o assim , não hav eria ta nta pre ssã o . M as um enco ntr o , m in ha no ssa , é um
verd ad eir o e v ento , e a g ente te m q ue f ic ar à a ltu ra .
— É v erd ad e. — D eix and o d e la d o o n o sso , q ue fo i p éssim o, p erc eb o u m a c ara cte rís ti c a m uito
co nfo rta nte em M itc h: ele pare ce se r do ti p o que a gente não te m que ped ir para fic ar, porq ue
pro vav elm ente nunca ir á em bora . E u m e ab aix o p ara co lh er um a flo r no cante ir o d a m am ãe e fic o
to rc end o-a e ntr e o s d ed os a té a m ole cer.
— E u m e i n sc re v i n o c o ncurs o M is s J o vem F lo r d o T exas.
— P ois s a b e d e u m a c o is a ? S e v ocê c o nse guir s o rrir, é c ap az d e v encer a q uele tr o ço .
Dou u m ta p a n o s e u o m bro .
— V ocê n ão a cha e str a nho ?
— Q ue v ocê te nha s e i n sc rito ? — E le a b re u m s o rris o r e la xad o. — P or q ue a charia ?
— S ei l á . N ão f a ço m uito o ti p o d e u m a m is s.
— B om , o c o ncurs o e m s i n ão m e p are ce s e r a s u a p ra ia , m as, s e q uer s a b er a m in ha o pin iã o , v ocê te m
to dos o s r e q uis ito s p ara b rilh ar.
Sin to m eu r o sto p egar f o go .
— O brig ad a.
— Q uero q ue s e ja m os a m ig o s — d iz e le .
Pre cis o d e u m a m ig o . D ese sp era d am ente .
— E u ta m bém — r e sp ond o, e m e l e v anto .
Ele a rre m ata o r e sto d o c há e ta m bém s e l e v anta , e nfia nd o a s m ão s n o s b ols o s.
— T enho q ue i r p ara o tr e in o .
— S áb ad o é m eu d ia d e f o lg a. V am os d ar u m a s a íd a?
— L am ento q ue a lg um a c o is a te nha f e ito v ocê c ho ra r — d iz e le .
Eu f ic o e sp era nd o q ue p erg unte o q ue a co nte ceu, m as e le n ão o f a z, e a cho m uito g enti l d a s u a p arte .

TR IN TA E D O IS
Amand a, H annah e eu no s se nta m os num re se rv ad o ap erta d ís sim o no s fu nd os do
F re nchy’s , e nq uanto M illie o cup a u m a c ad eir a à c ab eceir a d a m esa . Q uand o f o m os n o s s e nta r, M illie d eu
u m a o lh ad a n o r e se rv ad o e d is se :
— P are ce b em a p erta d o p ra g ente , h ein ?
Os lá b io s d a g arç o nete s e fr a nzir a m n um a e xp re ssã o d e “ p ud era ”, m as M illie n ão d eu a m ín im a e
p ed iu u m a c ad eir a . É o ti p o d e c o is a q ue te ria fe ito c o m q ue L ucy p ara sse d e fr e q uenta r o r e sta ura nte ,
m as M illie p are ce n ão s e i m porta r.
Dep ois d e f a ze rm os o s p ed id os, p erg unto :
— E a í, j á p ensa ra m n o s ta le nto s q ue v ão a p re se nta r?
— A cho q ue q uero fa ze r a lg um a c o is a re la cio nad a c o m fu te b ol — d iz A mand a. — E m baix ad in has,
p or e xem plo . — E b ala nça a s p ern as c o m ta nta fo rç a q ue a m esa in te ir a tr e p id a. E la é d esse ti p o d e
p esso a q ue n ão c o nse gue f ic ar q uie ta .
— Você jo ga fu te b ol? — perg unto , enq uanto M illie ap oia os co to velo s na m esa . N unca ti n ha
i m agin ad o q ue a lg uém c o m o A mand a, c o m u m a p ern a m ais c urta q ue a o utr a , p ud esse p ra ti c ar e sp orte s.
— B om , e u n ão e sto u n a s e le ção d a e sc o la . M as b ato u m a b ola c o m m eus i r m ão s d e v ez e m q uand o.
Millie l h e d á u m s o rris o e nco ra ja d or.
— N ão v ejo p or q ue v ocê n ão p oderia f a ze r i s so . L em bro q ue a lg uns a no s a tr á s a i r m ã m ais v elh a d a
L acey S and ers f e z u m a d em onstr a ção d e p rim eir o s-s o co rro s.
Hannah s e r e co sta n a c ad eir a , d e b ra ço s c ru za d os. S eus c acho s e stã o m uito c o m prid os e c aem s o bre
o s o lh o s, d e m odo q ue e la é u m a c ab ele ir a c o m u m a b oca. U m a v erd ad eir a p eru ca f a la nte .
— T alv ez e u d ev esse v esti r u m a f a nta sia d e c av alo e f ic ar tr o ta nd o p elo p alc o d ura nte c in co m in uto s.
Millie s e v ir a p ara m im , m orta d e c o nstr a ngim ento , m eno s p elo s o rris o .
— E v ocê, W ill?
— S ei lá . — A band onei o c urs o d e b alé , n ão ti v e a ula s d e v io lin o n em p ra ti q uei q ualq uer e sp orte
“ fo rm alm ente ”. M eus ta le nto s co nsis te m em v er te le v is ã o , se r a m elh o r am ig a d e E lle n, su sp ir a r e
c o nhecer a s le tr a s d e to das a s m úsic as d a D olly P arto n. — M as n ó s ta m bém p re cis a m os r e so lv er o utr a s
c o is a s, c o m o o s v esti d os e tu d o q ue r o la a nte s d a e ntr e v is ta .
— N ão v ou g asta r m ais d in heir o c o m e ssa m erd a — d ecla ra H annah. — V ou d e c alç a je ans, s e fo r
p re cis o .
— E s e a g ente f iz e sse u m v esti d o p ra v ocê? — s u gere M illie , a v oz tã o a gud a q ue q uase f a lh a.
Hannah n ão r e sp ond e. A cho d ifíc il o lh ar p ara e la s e m m e p erg unta r o q uanto o uv iu d a m in ha c o nv ers a
c o m B o n o b anheir o d a e sc o la n aq uele d ia . N ão tr o cam os m ais d o q ue a lg um as p ala v ra s, m as e la fic o u
c o nhecend o u m s e gre d o m eu tã o g ra nd e q ue n ão c o nte i n em m esm o à m in ha m elh o r a m ig a.
— E a í, o q ue p re cis a m os s a b er? — p erg unta A mand a, m asti g and o u m a m echa d e c ab elo s. — T ip o, d a
ú lti m a v ez a s m enin as e sta v am to das p ro duzid as e a g ente f ic o u c o m c ara d e i d io ta . A h o ra d as a m ad ora s.
— B om — r e sp ond o — , te m o s tr a je s, o ta le nto e a e ntr e v is ta . N ão m uito m ais d o q ue i s so . O o bje ti v o
é s u b ir n aq uele p alc o e n ão c air d e c ara n o c hão n em d eix ar q ue p erc eb am q ue o s c ílio s p osti ç o s e stã o
q uase f u ra nd o o s o lh o s. A h, e o s tr a je s d e b anho . A g ente te m q ue e sc o lh er u m ta m bém .
Millie r ó i a p ele e m v olta d a u nha d o p ole gar.
Hannah c ru za o s b ra ço s e e sp arra m a o c o rp o to do, to m and o c ad a v ez m ais e sp aço d e A mand a n o
r e se rv ad o.
— E sta m os f o did as e m al p agas. É s u a m ãe q ue d ir ig e o c o ncurs o e v ocê n ão s a b e m ais n ad a?
— N ão s o u n enhum a ti e te d as m is se s, tá ? N unca d ei a m ín im a p ra e sse tr o ço ... a té a s e m ana p assa d a.
D esc ulp e s e é u m a c o is a q ue v ocê a cha q ue n ão te m c o nd iç õ es d e fa ze r, m as a go ra é ta rd e d em ais , m eu
b em .
Millie f a z u m b aru lh ão c o m o c anud o a o te rm in ar d e to m ar o r e fr ig era nte .
— H um ... W ill, s e n ão s e i m porta , te nho a lg um as c o is a s a a cre sc enta r. — E la p õe o c o po n a m esa e s e
e nd ir e ita . — U m co ncurs o não é só um a exib iç ão d e v esti d os e ta le nto s. É p re se nça d e p alc o . E
a uto co nfia nça. M uita s v enced ora s s e d esta cam e m o utr a s á re as d ep ois . C om o a S rta . H aze l, p or e xem plo
— e la s e r e fe re à l o cuto ra d a n o ssa r á d io l o cal — , o u a D ra . S anto s. É u m c o nju nto d e a tr ib uto s.
E s ó e ntã o a f ic ha c ai. M illie l e v a a m aio r f é n esse c o ncurs o . N ão é u m a p ia d a p ara e la . É u m i d eal d e

vid a.
— N enhum a d e n ó s é a c o nco rre nte p erfe ita — p ro sse gue e la . — A cho q ue e m r e la ção a is so to das
nó s c o nco rd am os. O s e gre d o é e xp lo ra r n o sso s p onto s fo rte s. S em q uere r m e g ab ar, a cho q ue a m in ha
entr e v is ta já e stá n o p ap o. A mand a, q uand o p use r a s b ota s o rto péd ic as, s u as e m baix ad in has v ão d eix ar
to do m und o d e q ueix o c aíd o.
Quase p re nd o a r e sp ir a ção , e sp era nd o q ue e la c hegue a m im c o m a lg um a i d eia b rilh ante .
— H annah, n ão m e le v e a m al, m as e u já te v i d e m aiô , e v ocê e stá p odend o, g aro ta . — O c anto d o
lá b io d e H annah tr e m e, e , j u ro p or D eus, s e M illie c o nse guir f a ze r e la s o rrir, i s so n ão s e rá m eno s d o q ue
um m ila gre . — E nfim , co m o já fo i dito na ap re se nta ção , é o octo gésim o prim eir o aniv ers á rio do
co ncurs o ...
— E sp era a í. Q ual é
o m eu
p onto f o rte ? — p erg unto .
Ela s o rri.
— S ua a uto co nfia nça, c la ro .
Saio to ta lm ente d o a r. C om o e la p ode v er a lg o q ue n ão s in to ? E d e q ue a d ia nta a gir d e u m m odo
co nfia nte , s e e u n ão s o u? N unca p ense i q ue m e im porta sse c o m o q ue v ia n o e sp elh o . M as B o e str a go u
is so . E d ev eria s e r m ais f á cil g o sta rm os d e n ó s m esm os q uand o o utr a p esso a g o sta .
Mas i s so n ão p ode s e r v erd ad e. P or m ais q ue e u te nte m e c o nv encer d e q ue a g o rd ura e a s e str ia s n ão
im porta m , e la s i m porta m , s im . M esm o q ue B o, p or q ualq uer m oti v o, n ão d ê a m ín im a, e u d ou.
Por o utr o l a d o, te m d ia s e m q ue n ão e sto u n em a í p ara n ad a d is so e m e s in to to ta lm ente c o nfo rtá v el n o
meu c o rp o. C om o p osso s e r e ssa s d uas p esso as a o m esm o te m po?
— T em m ais a lg um a c o is a a a cre sc enta r, W ill? — p erg unta M illie .
Pis c o u m a v ez. D uas.
— Ã -ã . N ão , a cho q ue n ão .
Hannah s a i d o r e se rv ad o.
— F ui.
Amand a f ic a c hup and o o c anud in ho a té o r e fr ig era nte f a ze r b olh as b aru lh enta s n o f u nd o d o c o po.
Eu m e v ir o e c ham o H annah.
— O q ue te f e z m ud ar d e i d eia ? Q uand o M illie te c o nv id ou, v ocê r e cuso u, n ão f o i?
Ela s e v ir a p ara m im .
— J á s o u c ham ad a d e b iz a rra to dos o s d ia s m esm o. P osso m uito b em e xib ir a m in ha b iz a rric e e m
púb lic o .
— Q ue d ose
ca va la r
d e s a rc asm o — m urm ura A mand a, q uand o H annah j á e stá a u m a b oa d is tâ ncia .
Millie l h e d á u m p onta p é d eb aix o d a m esa .
— I s so n ão f o i n ad a s im páti c o .
— E p or a caso e la é ? — r e b ate A mand a.

TR IN TA E T R ÊS
Dessa v ez d ig o a M itc h q ue p od em os n o s e nco ntr a r n a s u a c asa . E le m e c o nv id a p ara
a ssis ti r a u ns f ilm es, e e u p re su m o q ue s e us p ais v ão p assa r a n o ite f o ra .
Quand o a p orta d a s a la s e a b re , e nco ntr o a v ers ã o fe m in in a d e M itc h u sa nd o u m a c am is e ta a m are lo -
c la ra c o m g ati n ho s r o la nd o e ntr e fio s d e lã . A m ulh er q ue s ó p ode s e r a m ãe d e M itc h jo ga u m p ano d e
p ra to s o bre o o m bro e m e d á u m a b ra ço .
— P ala v ra d e h o nra ! — e xcla m a. — M itc h d is se q ue v ocê e ra b onita , m as n ão q ue e ra lin d a. — E la
m e s o lta p or u m s e gund in ho a nte s d e s e gura r m eu r o sto e m e p uxar p orta a d entr o .
A e ntr a d a d a c asa v ir a u m g arg alo d e g arra fa . A perta d a e c o ngesti o nad a. M as s u a m ãe n ão s e a fa sta .
— V am os d ar u m a o lh ad a n esse ro sto . — E la p assa o s p ole gare s p ela s m in has b ochechas c o m o s e
e sti v esse s e cand o l á grim as.
— M ãe!
Ela d á u m p asso a tr á s e v ejo M itc h n o e str e ito c o rre d or, o r o sto e sc arla te .
— O i.
— O i, W ill. — M itc h p ig arre ia . — H um , m ãe, n ó s v am os p ara o m eu q uarto .
A m ãe f a z q ue s im .
— D eix em a p orta a b erta .
— M ãe, n ó s n ão v am os f a ze r n ad a d em ais ! — M itc h a cena p ara q ue e u o s ig a p ela e sc ad a.
— P elo E sp ír ito S anto ! — e xcla m a e la a tr á s d e n ó s.
Pend ura d as n as c o lu nas d a c am a d e M itc h e stã o a s b ra çad eir a s c o m
mum s
te xano s e m m in ia tu ra q ue
s u a m ãe u so u n o H om eco m in g d o p rim eir o e d o s e gund o a no s d o e nsin o m éd io . O s
mum s
s ã o u m a d essa s
c o is a s tã o e sp ecific am ente s u lis ta s, q ue e u o s a d oro e o deio . O s m elh o re s s ã o o s f e ito s e m c asa , d aq uele s
g ig ante sc o s, n um f u nd o d e c arto lin a, c o m l o ngas c o rre nte s d e f ita s p end ura d as. C om o s ã o e nfe ite s p ara o
H om eco m in g, sã o co nfe ccio nad os em co re s esc o la re s, e gera lm ente as fita s tê m le tr a s d e p urp urin a
f o rm and o a s m ais v aria d as p ala v ra s, c o m o s e u n o m e e o d o n am ora d o, o u o d a m asc o te d a e sc o la . N o
p assa d o, a s g aro ta s o s p re nd ia m n a b lu sa , m as, c o m o a co nte ce c o m q uase tu d o n o T exas, e le s fo ra m
f ic and o cad a v ez m aio re s. H oje em d ia , sã o tã o p esa d os q ue só p odem se r usa d os p end ura d os no
p esc o ço . E o s ra p aze s — p rin cip alm ente o s jo gad ore s d e fu te b ol am eric ano , co m o M itc h — usa m
v ers õ es e m m in ia tu ra n as b ra çad eir a s. É tu d o b em r id íc ulo , m as d e u m r id íc ulo a ssim b em a o e sti lo d a
D olly .
As p are d es d o q uarto e xib em u m m onte d e p ôste re s d e v id eo gam es, m as u m e m p arti c ula r s e d esta ca
a o s m eus o lh o s. O to rs o d e u m a g aro ta o cup a a m aio r p arte . E la s e gura u m a m etr a lh ad ora , c o m u m a h o rd a
d e z u m bis à s c o sta s. C ola d o p or c im a d o q ue q uer q ue e ste ja u sa nd o, h á u m v esti d o d e p ap el p ard o a té o s
j o elh o s. A ponto o p ôste r.
— O q ue a co nte ceu a li?
— A rg h, f o i a m in ha m ãe. É o m eu g am e f a v orito , o u p elo m eno s e ra a nte s d e l a nçare m a s e q uência , e
e la s e m pre d ete sto u o p ôste r. — E le le v anta o v esti d o d e p ap el, re v ela nd o u m a re gata d eco ta d a e u m
s h o rti n ho v erd e-a ze ito na tã o m in úsc ulo q ue p oderia se p assa r p or u m a c alc in ha. — E la n ão a cho u a
m eno r g ra ça d e e u te r u m a g aro ta s e m in ua n o q uarto . M esm o q ue s e ja e m 2 D . E d is so e la n ão a b re m ão .
T oda v ez q ue e u a rra nco o v esti d o, e la c o la u m n o vo.
— P or q ue v ocê n ão ti r a o p ôste r d e u m a v ez?
Ele s e s e nta n a b eir a d a c am a.
— S ei l á . G osto d o g am e. N ão l ig o m uito p ara a g aro ta n ua.
— C om o a ssim ?
Ele a gita a s m ão s, c o m o s e te nta sse a p agar o q ue d is se .
— N ão é q ue e u n ão g o ste d e g aro ta s n uas. Q uer d iz e r, e u n ão s a io p or a í a tr á s d e g aro ta s n uas. E u...
— e le r e sp ir a f u nd o — ... q uis d iz e r q ue j o go e sse g am e p orq ue a p ro ta go nis ta é f o dona. N ão p orq ue e stá
c o m a b und a d e f o ra . — A s tr ê s ú lti m as p ala v ra s s ã o s u ssu rra d as.
— E ntã o , tá — m urm uro . P uxo a c ad eir a e m f r e nte à e sc riv anin ha e m e s e nto , p orq ue p ega m al s e nta r
n a c am a d e u m r a p az.
— E a í, q uer f ic ar a q ui e v er u m f ilm e, o u o q uê? T am bém p odem os s a ir. I m agin ei q ue s e ria m elh o r a
g ente p egar l e v e.

— U m f ilm e p are ce b oa i d eia .
— T ud o b em . M ara v ilh a. P odem os a ssis ti r a u m a q ui n o m eu n o te b ook. O u n a s a la .
— A qui tá l e gal. O u n a s a la .
— P odem os s e nta r a q ui n a c am a, o u e u p osso s e nta r n o c hão e v ocê s e nta n o ...
Sento a o s e u l a d o n a c am a.
— T ra nq uilo . — E sto u tã o a co stu m ad a a s e r e u a n erv osa , a q ue p re cis a r e sp ir a r fu nd o, q ue é q uase
um a lív io n ão m e s e nti r c o m o s e fo sse c air d e u m p enhasc o a q ualq uer m om ento . — N ão te m p ro ble m a
alg um . S enta r n a s u a c am a n ão v ai m e d eix ar g rá v id a.
— V ocê d ev eria d iz e r i s so p ra m in ha m ãe.
Dou u m a r is a d a.
— B em , p elo m eno s n ó s d eix am os a p orta a b erta p ara o E sp ír ito S anto .
Ele r e d uz a s lu ze s d o q uarto e p ega o n o te b ook, q ue c o lo ca s o bre u m a p ilh a d e tr a v esse ir o s à n o ssa
fr e nte .
— N ão s e i s e v ocê g o sta , m as e le s fiz e ra m u m film e b ase ad o n aq uele v id eo gam e, o u a g ente p ode
alu gar a lg um a c o is a o n-lin e.
— E sto u m eio c urio sa p ara v er s o bre o q ue é o f ilm e d os z u m bis .
Nós n o s re co sta m os, ilu m in ad os p elo b rilh o d o n o te b ook. O film e é e xata m ente c o m o o p ôste r d o
vid eo gam e a nuncia , s ó q ue a p ro ta go nis ta n ão u sa u m v esti d o d e p ap el p ard o. D á p ara n o ta r q ue M itc h j á
assis ti u e sse tr o ço c ente nas d e v eze s. S eus l á b io s s e m ovem j u nto c o m o s a to re s q uand o e le s d iz e m s u as
fa la s fa v orita s. E le ri alg uns se gund os ante s de cad a pia d a e fa z um a care ta ante s de cad a cena
assu sta d ora ; c o m o n unca f u i m uito f ã d e f ilm es d e te rro r, f ic o g ra ta p ela a d vertê ncia .
Quase p erc o a m aio r p arte d o fin al, p orq ue, e m v ez d o film e, m eus o lh o s s e fix am n a m ão d e M itc h,
que r a ste ja e m d ir e ção à m in ha.
Eu d ev eria a fa stá -la .
Seu d ed o m in d in ho r o ça n o m eu.
De r e p ente , o n o te b ook e xp lo de.
Quer d iz e r, o q ue e xp lo de é o h o sp ita l c heio d e zu m bis n o film e, m as, c o m o n ão e sto u p re sta nd o
ate nção , l e v o u m s u sto tã o h o rrív el q ue s o lto u m g rito .
— P elo M enin o J e su s, a q ue ti p o d e to rtu ra e stá s u b m ete nd o a m enin a?!? — g rita a m ãe d e M itc h.
— F in al D ea th 3 !
— g rita d e v olta M itc h.
— E u e sto u b em , s e nho ra ! — g rito e u p ara e la .
Passa m o s c ré d ito s, d eix and o o q uarto b em e sc uro .
— T á c o m f o m e? — p erg unta e le .
Esto u m orta d e f o m e.
— E u c o m eria a lg um a c o is a .
— T em u m q uio sq ue d e ta co s n a e sq uin a c o m a D aw so n. A g ente p ode d ar u m p ulo lá e c urti r u m
pouco a nte s d e v ocê i r p ara c asa .
Sig o M itc h até a co zin ha, ond e su a m ãe está dig ita nd o o valo r de um re cib o num a daq uela s
calc ula d ora s v elh as, c o m b obin a.
— E stã o c o m f o m e, c ria nças?
— N a v erd ad e, a cho q ue v am os d ar u m p ulin ho n o T aki’s T aco s, a q ui n a e sq uin a.
Ela ti r a o s ó culo s d e l e itu ra , q ue f ic am p end ura d os n o p esc o ço , q uic and o n o s g ati n ho s e n o velo s d e l ã
da b lu sa .
— O ra , m as p or q ue fa ria m is so q uand o fu i a o m erc ad o h o je d e m anhã? V ou p re p ara r u ns s a nd uíc hes
de s a la m in ho . E ta m bém s o bro u u m p ouco d o e nso pad o d e fr a ngo c o m e sp aguete . — E la s e v ir a p ara
mim . — M odésti a à p arte , o m eu e nso pad in ho c o m e sp aguete é d e c o m er r e za nd o.
— N ós q uere m os s a ir u m p ouco , m ãe. P or q ue o d ra m a?
— P orq ue é u m d esp erd íc io , s ó is so . — E la to rn a a p ôr o s ó culo s. — M as, o k, é n o ite d e s á b ad o.
Este ja e m c asa a nte s d a m eia -n o ite .
O q uio sq ue d os ta co s fic a n um v elh o e sta cio nam ento . E rv as d anin has c re sc em p or
entr e a s r a chad ura s n o a sfa lto , c o m o u m le m bre te d e q ue o fo rte a q ui s ã o m esm o o s
ta co s e não o pais a gis m o. A o la d o do quio sq ue há um co nju nto de brin q ued os de pla ygro und
enfe rru ja d os, q ue p are cem te r s id o ti r a d os d e u m p arq ue u rb ano e a b and onad os n esse e sta cio nam ento .
Senta m os num b anco à b eir a d o cír c ulo d e lu z la nçad o p elo T aki’s , te nta nd o no s afa sta r o m áxim o
possív el d os m osq uito s.

Dep ois d e c o m erm os, d am os u m a v olta p elo s b rin q ued os. S ento n um b ala nço , M itc h e m o utr o . A s
co rre nte s g em em s o b o s e u p eso .
— O s ta co s e sta v am u m a d elíc ia — d ig o .
Ele f a z q ue s im .
— G osto u d o f ilm e?
— F oi... b em s a ngre nto . M as e u g o ste i.
— V ocê s e i n sc re v eu m esm o n o c o ncurs o M is s J o vem F lo r d o T exas?
— M e i n sc re v i. E sto u m orta d e m ed o. P re cis o d em onstr a r a lg um ta le nto , e n ão te nho n enhum .
Recuo n o b ala nço e d eix o q ue o i m puls o m e e m purre p ara f r e nte , e ste nd end o a s p ern as.
— S em c o nta r q ue v ária s o utr a s g aro ta s a cab ara m e ntr a nd o s ó p or m in ha c ausa . É c o m o s e e u d ev esse
lid era r o g ru p o. M as n em m esm o s e i o q ue e u e sto u f a ze nd o. E m e s in to r e sp onsá v el p or e la s, e nte nd e?
Mitc h f ic a a tr á s d e m im e m e e m purra c o m g enti le za to da v ez q ue o b ala nço v olta .
— T alv ez, s e v ocê s e d er a o tr a b alh o d e te nta r e nte nd er s e us p ró prio s m oti v os, p ossa a ju d ar s u as
am ig as a e nte nd ere m o s d ela s.
Ele c o nti n ua m e e m purra nd o e nq uanto a ssim ilo a i d eia .
— O lh a s ó , M itc h...
— S im ?
— V ocê é c ra q ue n o f u te b ol a m eric ano , n ão é ?
— É o q ue d iz e m .
— A posto q ue v ai d esc o la r u m a b ols a d e e stu d os e m a lg um a f a culd ad e b em l o nge d aq ui.
Pela p rim eir a v ez, M itc h n ão r e sp ond e.
— Q ue f o i? — p erg unto . — N ão a cha q ue v ai?
— S ei l á . A cho q ue s im . — E le p ara d e m e e m purra r e s e s e nta d e n o vo n o b ala nço a o m eu l a d o, m as
na d ir e ção o posta . — E u nunca go sto d o q ue d ev eria go sta r. S ei q ue so u b om d e b ola . M as essa
te m pora d a e stá p are cend o m ais u m a o brig ação q ue e u te nho q ue a tu ra r.
Acho d ifíc il e nte nd er is so . A id eia d e q ue a p esso a p ossa s e r m uito b oa n um a c o is a e m esm o a ssim
não g o ste d ela .
— Q uand o s e é u m h o m em v iv end o n um a c id ad e d essa s, a s p esso as e sp era m m il c o is a s d a g ente . V ocê
te m q ue jo gar fu te b ol a m eric ano , c açar e p esc ar. N a in fâ ncia , e u n ão ti n ha m uito s a m ig o s, m as c o nta v a
co m o P atr ic k. N ós í a m os c açar n o s f in s d e s e m ana c o m o s n o sso s p ais .
— V ocê c aça? — p erg unto . N ão d ev eria fic ar s u rp re sa . M ilh are s d e p esso as c açam p or a q ui. É u m
no jo , m as n ão s o u v egeta ria na, p or i s so n ão te nho m ora l p ara f a la r.
— B om , m ais o u m eno s — r e sp ond e e le . — E u p arti c ip o d e c açad as d esd e p eq ueno . Q uand o s a ía c o m
meu pai, ele m e deix av a to m ar m eia la ta de cerv eja enq uanto nó s esp erá v am os que o anim al da
te m pora d a a p are cesse , q ualq uer q ue f o sse . M as, s e m pre q ue c hegav a a h o ra d e a ti r a r, e u e rra v a. D ura nte
um te m po, d is se a e le q ue e u e ra r u im d e m ir a . O v elh o f ic av a f u rio so c o m ig o . E u s e m pre e rra v a o a lv o.
Por p ouco s c entí m etr o s. A té q ue e le c o m eço u a p erc eb er q ue e ra d e p ro pósito .
Sin to u m a o nd a d e c arin ho p or M itc h m e e ncher o c o ra ção . T alv ez s e ja m a s c o is a s s o bre a s q uais n ão
quere m os c o nv ers a r q ue a s p esso as m ais q uere m o uv ir.
— E stá v am os n a s é ti m a s é rie , e o v elh o fa ze nd o a m aio r p re ssã o e m c im a d e m im . P atr ic k e o p ai
ta m bém e sta v am l á . E ra a te m pora d a d os c erv os. E u a certe i u m . — E le s e c ala . — F oi p or a cid ente . E ra
um m acho e no rm e, c o m u m p orte a lti v o. M eu p ai m e d eu u m ta p a n as c o sta s. M as le m bro q ue e u e sta v a
me s e nti n d o c o m o s e e sti v esse s u fo cand o.
— S in to m uito . — E ssa s p ala v ra s p are cem tã o i n ad eq uad as. C om o s e m pre s o am q uand o a lg uém a s d iz
em r e la ção a L ucy.
Ele s e le v anta e p uxa a s c o rre nte s d o m eu b ala nço p ara tr á s. S in to -o s o lta r u m lo ngo s u sp ir o n o m eu
pesc o ço .
— S ei q ue h o m em n ão c ho ra , m as e u c ho re i m uito n aq uela n o ite . E a cho q ue fo i a í q ue c heguei à
se guin te c o nclu sã o : fa ze r b em u m a c o is a n ão s ig nific a q ue s e te nha a o brig ação d e fa zê -la . S ó p orq ue é
fá cil n ão q uer d iz e r q ue s e ja c erto . — E le s o lta a s c o rre nte s e m eus p és to cam a s e str e la s.
Essa n o ite , e u s o nho q ue e sto u d entr o d o v id eo gam e d e M itc h, u sa nd o u m s h o rti n ho
min úsc ulo e u m a r e gata e sfa rra p ad a. M eu c o rp o n ão é n enhum P ho to sh o p i d eal d e m im
mesm a. A s c o xas c o nti n uam g ro ssa s, c heia s d e c elu lite , e o s p neus n a c in tu ra s e d erra m am s o bre o c ó s d o
sh o rt. M eus c ab elo s o nd ula d os e c asta nho -c la ro s e stã o n um d aq uele s p ente ad os d e c achin ho s d a D olly d o
passa d o. C om o a p ro ta go nis ta d o g am e d e M itc h, e sto u a rm ad a a té o s d ente s, c o m m uniç ão e f a cas p re sa s

às c o sta s e à s c o xas, a lé m d e u m a b azu ca e nco sta d a n o o m bro . S ou f o dona. U m a g o rd a f o dona.
Corro p ara d entr o d e u m c entr o c ív ic o a b and onad o. A p orta d e v aiv ém b ate e m m ese s d e e sc o m bro s
acum ula d os q uand o e ntr o . N o c o m eço e la s a v ançam le nta m ente , m as e ntã o c o m eçam a s e m ulti p lic ar.
Mis se s z u m bis . P or to da p arte .
Esp ero a té q ue c heguem q uase p erto d em ais a nte s d e d is p ara r a b azu ca. P ro nto . P artí c ula s v oam . E u
me a b aix o . E stã o m orta s. D essa v ez, e stã o m orta s m esm o.
Mas a in d a r e sto u u m a. Q ue e stá f ic and o g ris a lh a, v esti d a p ara o m elh o r d ia d a s u a v id a, c o m u m l o ngo
de g ala v erm elh o e r a sg ad o. S ua c o ro a e stá a m assa d a e q ueb ra d a, e a f a ix a é v elh a d em ais p ara s e l e r o
que d iz . E la a v ança n a m in ha d ir e ção , a rra sta nd o u m d os p és p elo c hão d e m árm ore .
Recarre go a b azu ca.

TR IN TA E Q UATR O
Há a lg um as c o is a s — c o m o a p arte e m q ue a s m is se s s e e xib em d e m aiô — e m q ue
n em c heguei a p ensa r a nte s d e m e i n sc re v er n o c o ncurs o . M as p ara o q ue e u n ão m e p re p are i m esm o f o i o
n úm ero d e d ança e m g ru p o.
Eu, M illie , A mand a e H annah e sta m os s e nta d as e m fila , e nco sta d as à p are d e d os fu nd os d o D ance
L oco m oti v e, o ú nic o e stú d io d e d ança q ue h á e m C lo ver C ity . S ei q ue i s so n ão p are ce f á cil, m as ta m bém
n ão p ode s e r m uito m ais d ifíc il d o q ue f ic ar a nd and o e m c ír c ulo s c o re o gra fa d os.
Min ha m ãe e stá u sa nd o u m a s a ia c o m prid a, u m c o lla nt m eio a p erta d o d em ais , u m a m eia -c alç a c o r d a
p ele su p erc in ti la nte e sa p ato s d e d ança p re to s. A o se u la d o e stã o a S ra . C la w so n, c o m u m jo ggin g
t u rq uesa q ue fa z u m b aru lh in ho to da v ez q ue e la re sp ir a , e M allo ry B uckle y, c o m u m a c alç a d e io ga
b ra nca e um su ti ã esp orti v o ro sa -b eb ê. P ego m am ãe olh and o para M allo ry vária s veze s co m um a
p onti n ha m in úsc ula d e d esp re zo e e xtr a io u m p erv ers o p ra ze r d is so .
Todo m und o é sa ra d o, bro nze ad o, co m cab elo s oxig enad os, e veste co nju nti n ho s de gin ásti c a.
E nq uanto e u e sto u u sa nd o a m esm a c alç a d e p ija m a c o m q ue d orm i n a n o ite p assa d a. A mand a, d e s h o rt d e
f u te b ol, e M illie , c o m s e u c o nju nto d e ly cra , e stã o u m p ouco m ais p re p ara d as, m as é H annah q uem n o s
d esb anca, to da d e p re to c o m u m b la ck j e ans e u m a T -s h ir t.
— V am os n o s a lo ngar, m enin as. — M am ãe s e s e nta à n o ssa f r e nte , d e c o sta s p ara o e sp elh o . C ad a u m a
d e n ó s f ic a n a s u a p osiç ão f a v orita . I n clu siv e a S ra . C la w so n, q ue e stá d e p é f a ze nd o M oin ho s d e V ento .
E stá o fe gante , c o m o r o sto v erm elh o , e nq uanto c o nta q uanta s v eze s r e sp ir a a c ad a r o ta ção . C om o q ue p or
u m m ila gre , s e u p erm anente n ão s e m ove u m m ilím etr o .
Mam ãe e stá s e nta d a c o m a s s o la s d os p és s e to cand o, n a p ostu ra d a b orb ole ta .
— O te m a d este a no é : “ T exas: S om os o u N ão S om os o s B ão ?”
— É ... — m urm ura H annah — , a g ra m áti c a d os
ca ip ir a
— d iz a p ala v ra i m ita nd o s o ta q ue d e j e ca.
Amand a r i, e M illie d á u m c hute n a s u a c anela c o m o p ezin ho m in úsc ulo c alç ad o c o m u m K ed s.
Tento a lc ançar o s d ed os d os p és, m as a b arrig a e o s p eito s f ic am e ntr e m im e a s c o xas.
— N o fim d o e nsa io , c ad a u m a d e v ocês s o rte ará a lg um te m a r e la cio nad o a o T exas, p ara q ue p ossa
p la neja r o tr a je d o n úm ero d e a b ertu ra . P ed e-s e a to das a s c and id ata s q ue u se m u m a s a ia je ans, u m a
c am is a x ad re z e u m p ar d e b ota s d e c aub ói. T ir a nd o i s so , v ocês tê m p le na l ib erd ad e p ara c ria re m o q ue
q uis e re m e m h o m enagem a o te m a. P or e xem plo , q uem s o rte ar a flo r s ím bolo d o T exas, p oderá u sa r u m
a rra njo d e lu p in o s a zu is n a c ab eça. E ssa é u m a o portu nid ad e p ara o s ju ra d os te re m u m a m ostr a d a s u a
p ers o nalid ad e e v ere m s e v ocês d ese m penham b em a ta re fa d esig nad a. A pro veite m , m enin as.
Elle n e stá se nta d a n a file ir a d a fr e nte c o m C allie , q ue, n atu ra lm ente , v ai p arti c ip ar d o c o ncurs o .
A mbas u sa m c o nju nti n ho s d e g in ásti c a c o m u m c ham ati v o l o go ti p o d a S w eet 1 6. N ão n o s f a la m os h á d uas
l o ngas s e m anas. A ú lti m a v ez q ue p asse i ta nto te m po a ssim s e m fa la r c o m E lle n fo i q uand o o s p ais d ela
a lu gara m u m tr a ile r e a l e v ara m p ara p asse ar p ela C osta O este . E sc re v i u m a c arta p ara e la to dos o s d ia s
e m q ue e ste v e a use nte , e , q uand o v olto u, n o ssa s m ães d eix ara m q ue e la d orm is se l á e m c asa d ura nte d uas
n o ite s s e guid as.
Mas a go ra é m uito p io r. P ois e la e stá b em a q ui, d o o utr o l a d o d o s a lã o , e , s e e u c ham á-la , e la n ão v ai
r e sp ond er. J á q uase f u i m e d esc ulp ar m il v eze s, m as, a go ra , d eix ei p assa r te m po d em ais . E u m a p arte d e
m im a in d a a cha — o u m elh o r, te m c erte za — q ue e u te nho r a zã o .
Lev anta m os p ara a p re nd er a c o re o gra fia . M illie s e i n clin a, f ic and o n a p onta d os p és, e d iz :
— V ocê d ev eria f a la r c o m e la .
— D o q ue e stá f a la nd o?
Ela p uxa a s m angas d o a gasa lh o .
— D e E lle n.
— T odo m und o f a ze nd o o s p asso s d a q uad rilh a! — M in ha m ãe e rg ue a v oz p ara s e r o uv id a e m m eio à
m úsic a c o untr y . — C in co p ara a e sq uerd a. C in co p ara a d ir e ita . B ekah! — c ham a e la . — V em c á p ara a s
m enin as a d m ir a re m a s u a té cnic a.
Bekah f ic a v erm elh a, m as o bed ece a m am ãe. S ó d e o lh ar p ara e la j á f ic o i r rita d a, e n ão te nho n enhum
b om m oti v o p ara i s so . E la é p erfe ita e m tu d o. E ta m bém é b onita . E h um ild e.
Passo a h o ra s e guin te tr o peçand o n o s p és, te nta nd o a co m panhar o s m il e u m p asso s e v olta s, e nq uanto
e ntr a m os e s a ím os d os tú neis d a q uad rilh a. P ego m am ãe m e o lh and o n o e sp elh o q uand o tr o peço n o s a lto

pla ta fo rm a d e A mand a e c aio d e b und a n o p is o d e m ad eir a . N o f im , m am ãe ti n ha r a zã o d e c ham ar B ekah
para f ic ar n a f r e nte , p orq ue e la s a b e o q ue e stá f a ze nd o.
Term in a o e nsa io e e sto u s u and o e m l u gare s q ue e u n em s a b ia q ue s u av am .
Millie e stá c o m u m a e xp re ssã o e nlo uq uecid a n o r o sto e u m l a rg o a nel d e s u o r e m v olta d o p esc o ço .
— F oi o m áxim o — d ecla ra . — Q ue p onto tu rís ti c o v ocê s o rte o u?
Mostr o o p ap elz in ho q ue r e ti r e i d a u rn a.
— C ad illa c R anch. — U m l u gar q ue s ó v i e m f o to s. U m a c o is a q ue s e p re cis a e nte nd er s o bre o T exas
é q ue e le é s im ple sm ente e no rm e. C onheço m il p esso as q ue n unca s e q uer c hegara m a s a ir d o E sta d o. J á
até o uv i d iz e r q ue, d ep end end o d o p onto d e p arti d a, é p ossív el d ir ig ir d ura nte u m d ia i n te ir o s e m s a ir d o
Texas.
— E v ocê?
Ela a b re u m s o rris o .
— T ir e i T he S to ckyard s. O b air ro h is tó ric o e m F ort W orth . — S ó M illie m esm o p ara tr a nsfo rm ar u m
merc ad o de agro pecuária num a jo ia dig na de um co ncurs o . S e o oti m is m o da m in ha am ig a fo sse
co nta gia nte , e u a té s e ria c ap az d e a p osta r q ue v ou v encer e sse tr o ço .

TR IN TA E C IN CO
Ouv i d iz e r q ue n as e sc o la s m aio re s o s b aile s n ão a nd am m ais c o m e ssa b ola to da.
A cho q ue é p orq ue tê m a lu no s d em ais . S ó q ue, p ara m in ha f a lta d e s o rte , n a C lo ver C ity H ig h e le s a in d a
b om bam . E , ti r a nd o o s b aile s d e f o rm atu ra , o m ais b ad ala d o d a c id ad e é o d a M aria C eb ola . C om o u m a
m oça n ão p ode s im ple sm ente c o nv id ar u m r a p az p ara s a ir c o m o s e fo sse u m a c o is a n o rm al, a s g aro ta s
n ão p oup ara m e sfo rç o s p ara q ue se u c o nv ite p ara o B aile d a M aria C eb ola fo sse o m ais e la b ora d o
p ossív el.
Até q ue, h á tr ê s a no s, M acy P alm er re in v ento u a ro da a o c o nv id ar o n am ora d o S im on p ara o b aile
u sa nd o c o m o te m a o s “ D oze D ia s d o N ata l” .
* Eu n ão e sto u
*
Refe rê ncia a u m a c éle bre c anção n ata lin a in gle sa q ue e num era v ário s p re se nte s d ados p or u m r a paz à s u a a m ada, e ntr e 2 5 d e d eze m bro e 5
d e ja neir o . ( N . T .)
b rin cand o: to das a s m anhãs o g aro to c hegav a à e sc o la e d av a d e c ara c o m a lg um d os ite ns, q ue p odia m
s e r a s tr ê s g alin has o u o s d oze ta m borile ir o s. E e le s já e ra m n am ora d os! N ão ia s u sp eita r q ue e la fo sse
c o nv id ar o utr o c ara . (S ó p ara d eix ar re gis tr a d o: o s d ois se fo rm ara m . E la e sta v a g rá v id a d e q uatr o
m ese s, e e le c o m u m p é f o ra d e C lo ver C ity , g ra ças a u m a b ols a d e e stu d os q ue d esc o lo u p or s e r f e ra n o
g o lfe .)
Dep ois d is so , d eix o u d e s e r a ceitá v el c o nv id ar u m r a p az p ara i r a o B aile d a M aria C eb ola o fe re cend o
u m pote de bis c o ito s case ir o s ou usa nd o um a blu sa co m o núm ero da cam is a do ti m e de fu te b ol
a m eric ano d ele . A go ra , n ão s ó v ocê te m q ue to m ar m uita c o ra gem p ara c o nv id ar o c ara , c o m o a in d a p or
c im a p re cis a f a ze r i s so e m g ra nd e e sti lo .
O p rim eir o a no n ão fo i tã o m au a ssim , p ois E lle n a in d a n ão ti n ha c o m eçad o a n am ora r T im . N o a no
p assa d o, d ei a d esc ulp a d e q ue e sta v a d oente . M as, e ste a no , d ep ois d e tu d o o q ue a co nte ceu, n ão e sto u
v end o o s b anners e o s c arta ze s a nuncia nd o a v end a d os i n gre sso s.
Após p assa r c in co h o ra s tr a nsita nd o p or u m c am po m in ad o d e c o nv ite s p ara ir a o B aile d a M aria
C eb ola — in clu siv e u m a p ir â m id e d e c heerle ad ers n a h o ra d o a lm oço — , a in d a te nho u m a h o ra liv re .
S ento -m e à c arte ir a a o l a d o d e A mand a.
Ela l e v anta o r o sto d o c elu la r.
— E e ntã o , c o nv id ou a lg uém ?
— N ão . E v ocê?
— N egati v o. A cho q ue v ou d eix ar o s c o nv ite s s e re m f e ito s e f a ze r u m a tr ia gem e ntr e o s q ue s o bra re m
a m anhã. E u p re fe rir ia n ão m e d ar a e sse tr a b alh o , m as n ó s te m os m esm o q ue c o nv id ar u m r a p az p ara n o s
a co m panhar a o c o ncurs o . D esse j e ito , m ato d ois c o elh o s c o m u m a c aja d ad a s ó .
Seguro o ro sto e ntr e a s m ão s e so lto u m g em id o. T in ha m e e sq uecid o d os a co m panhante s. M in ha
c arte ir a tr e p id a c o m o s e ti v esse l e v ad o u m c hute . V ir o a c ab eça n a h o ra e v ejo B o a nd and o a té a c arte ir a
d ele n o s f u nd os d a s a la .
Sin to u m p ra ze r se cre to a o v ê-lo a ssim , c o m a s ro up as q ue e sc o lh e a d ed o n o a rm ário to das a s
m anhãs. E m e p erg unto s e e le f a z i s so d e c aso p ensa d o o u p ega a p rim eir a q ue a m ão a lc ança, n o e sc uro .
F eito u m zu m bi. O u ta lv ez e le se le v ante b em c ed in ho e sa ia p ara d ar u m a c o rrid a, o u c o m a o vos
m exid os, o u a lg um a d essa s c o is a s q ue a s p esso as f a ze m p ela s m anhãs.
Ou t a lv ez n ão s e ja m ais d a s u a c o nta ,
d ig o a m im m esm a.
— M illie c o nv id ou M alik . D o jo rn al — c o nta A mand a. — E le é a té c harm oso , se v ocê d er u m
d esc o nto p ara a s s o bra ncelh as j u nta s. O u s e a char q ue u m a s o bra ncelh a e m v ez d e d uas é c harm oso .
Vir o o ro sto p ara e la , g ra ta p ela d is tr a ção , m as d e re p ente s o u a ti n gid a p ela c o nsc iê ncia d a e xata
p osiç ão e m q ue e sto u s e nta d a. T alv ez, s e e u m e e m perti g ar u m p ouco m ais , a s g o rd urin has n as c o sta s
d esa p are çam .
— E c o m o e la f e z i s so ?
Amand a c o m eça a r ir.
— E la c anto u p ara e le . T ocand o u kule le .
Fic o m orta d e v erg o nha p ela g aro ta . P ro vav elm ente , to do m und o c aiu n a g arg alh ad a.
— E d ep ois ? — s u ssu rro .
— O ra , e le a ceito u — d iz A mand a, e m to m d e
“D ããã, p or q ue e le n ão a ceita ria ?”
.
— E sp era a í. S ério ?

— E ta m bém v ai a co m panhá-la n o c o ncurs o . F oi tã o f o fo . E e le a té d eu u m b eijo n o r o sto d ela . F oi a
co is a m ais o usa d a q ue e u j á ti n ha v is to .
A a ula c o nti n ua se a rra sta nd o, e e u m e p erg unto o q uanto so u id io ta p or e sp era r q ue M illie fo sse
hum ilh ad a. S e e la a nte s ti v esse p ed id o a m in ha o pin iã o , e u te ria d ito q ue a i d eia e ra f o fa , m as te ria f e ito
o p ossív el p ara q ue n ão a p use sse e m p rá ti c a. N ão p or a char q ue e la n ão m ere ce ir a o b aile e te r u m
aco m panhante , e s im p or n ão q uere r q ue s e ja a lv o d e d eb oche. N unca d ese ja ria u m a e xp eriê ncia d essa s
para n in guém . E , m esm o a ssim , M illie j á p asso u p or i s so . E la j á s e rv iu d e e xem plo d e i n fin ita s p ia d as.
Mas l á e stá a g aro ta , to ta lm ente n a d ela , s e m d ar a m ín im a p ara o q ue o s o utr o s v ão p ensa r.
Quase m e d ói s a b er q ue e la e stá s e a v entu ra nd o d e u m a m aneir a tã o c o ra jo sa . É c o m o v er u m a v elh a
am ig a d e q uem v ocê s e a fa sto u e s e l e m bra r d e to das a s e xp eriê ncia s q ue c o m parti lh ara m .
A a ula a cab a e s o u e m purra d a p ela p orta p or u m a e nxurra d a d e a lu no s. P osso o uv ir B o c o nv ers a nd o
co m J o sé H erre ra s o bre tr ig o no m etr ia e d ep ois s o bre u m a f e sta .
No c o rre d or, u m a p are d e d e g aro ta s n o s d eté m . E stã o d e m ão s d ad as, c o m o n um a p arti d a d e R ed
Rover.
*
* Jo go e m q ue o s p artic ip ante s d e u m tim e d evem fic ar d e m ãos d adas (c om o u m c ord ão d e is o la m ento ), e nquanto u m p artic ip ante d o tim e
advers á rio te nta r o m per o c ord ão. ( N .T .)
— D esc ulp e p elo a tr a so — d iz u m a d ela s.
— S ó v ai d em ora r u m m in uto — a cre sc enta o utr a .
Bekah C otte r e stá a tr á s d a g ale ra , u sa nd o u m s h o rti n ho j e ans, s a p ati lh as d oura d as e u m a T -s h ir t b ra nca
vário s n úm ero s a cim a d o s e u, c o m u m n o zin ho a m arra d o à s c o sta s. O s d iz e re s e m s ilk sc re en s ã o :
Vem a o
Baile d a M aria C eb ola c o m ig o...
E la g ir a u m b astã o e ntr e o s d ed os, e sp era nd o q ue o p esso al s e a q uie te .
Amand a e stá a tr á s d e m im , f le xio nand o o s d ed os d os p és.
— S ó d e o lh ar p ara e sse s h o rt m in ha c alc in ha j á e ntr a n a b und a.
Bekah r e sp ir a f u nd o e , s e m a nuncia r, g ir a o b astã o n o a r, a ti r a nd o-o s o bre o o m bro p ara a p anhá-lo e m
se guid a, e nq uanto fa z u m a g in ásti c a tã o b ru sc a e rá p id a q ue m al d á p ara a co m panhar. É o m áxim o, e ,
ain d a a ssim , n em u m d écim o tã o c o m plic ad o c o m o o q ue j á a v i f a ze r n as p arti d as d e f u te b ol a m eric ano .
Seu ta le nto v ai a rra sa r n o c o ncurs o .
Ela l a nça o b astã o p ara o a lto e f a z o m esm o ti p o d e r o ta ção d oid a, e e ntã o p ousa d e c o sta s e p ega o
bastã o n o in sta nte e m q ue e le s e e nco ntr a p re ste s a c air n o c hão . Q uand o s e u tr a se ir o e stá e m p le no a r,
fic a c la ro q uem e la v ai c o nv id ar p ara o b aile . E m c ad a u m d os b ols o s d o s h o rti n ho j e ans e stã o a s l e tr a s
B
e
O e m g litte r.
Os c o le gas d a a ula d e h is tó ria o e m purra m a té a f r e nte d as g aro ta s. E le s o rri, e m al te nho c o ra gem d e
olh ar q uand o B ekah s e gura s u a m ão . B o d á u m a o lh ad a p ara o la d o, e e u s e i q ue m e v ê. M as n ão h á
te m po p ara d ecis ã o o u p ensa m ento . E le c o nco rd a. E a go ra e le s s ã o B ekah e B o. B o e B ekah.
Em purro A mand a d a m in ha f r e nte e v ou a b rin d o c am in ho p or e ntr e o tr á fe go d e a lu no s q ue s e d ir ig em
ao e sta cio nam ento . C om o s o lh o s f ix o s n o c hão , o bse rv o o m ar d e p és a té e nco ntr a r u m b anheir o . F ic o d e
jo elh o s e r e v ir o a m ochila , p ro cura nd o u m a c o is a . O c elu la r? U m a g ra nad a?
No fu nd o d a m ochila , e nco ntr o u m m arc ad or p erm anente . R eti r o a ta m pa, m e v ir o p ara o e sp elh o e ,
co m o a p esso a to ta lm ente s ã q ue e u s o u, c o m eço a e sc re v er n a m in ha p ró pria te sta .
Eu n ão h av ia r e fle ti d o s o bre a lo gís ti c a d e ir d o p onto A a o p onto B e nq uanto e sta v a
esc re v end o n a te sta . S ó d ep ois d e m e o lh ar n o e sp elh o é q ue m e d ou c o nta d e q ue
ago ra n ão te m m ais v olta . M esm o q ue e u q ueir a , a cho q ue é c ham ad o d e m arc ad or p erm anente p or u m a
ra zã o .
And and o a té o e sta cio nam ento o m ais d ep re ssa p ossív el, jo go o s c ab elo s p or c im a d o r o sto , c o m o o
Prim o C ois a d a F am ília A ddam s, c o nfia nd o n a v is ã o q ue m e r e sta p or e ntr e o s f io s e r e za nd o a o M enin o
Je su s p ara n ão s e r a tr o pela d a.
E l á e stá e le . C am in hand o a té o s e u c arro .
— M itc h! — g rito . — M itc h!
Essa f o i u m a p éssim a i d eia . A liá s, a cho q ue é s e guro d iz e r q ue to das a s m in has i d eia s s ã o p éssim as.
Ele s e v ir a .
— W ill? — S eu r o sto s e c o ntr a i, d eix and o tr a nsp are cer a p re o cup ação . — A co nte ceu a lg um a c o is a ?
Você e stá b em ?
Quand o c hego a a lg uns p asso s d ele , j o go o s c ab elo s p ara tr á s, d eix and o q ue v eja m eu r o sto .
Sua p re o cup ação s e tr a nsfo rm a e m p erp le xid ad e.

a lo beC a ir a M o n s o m aV
— M erd a — m urm uro . — E sc re v i n a f r e nte d o e sp elh o .

Ele a b aix a o s o lh o s, te nta nd o e sc o nd er o s o rris o d e m im , e nq uanto e sc av a o c asc alh o c o m o d ed ão d o
pé.
— E e ntã o , to pa? — p erg unto . — I r c o m ig o a o B aile d a M aria C eb ola ?
— N ão s e i. — S uas b ochechas s e in fla m . E le fic a a liv ia d o p or e u n ão te r e sq uecid o d o a niv ers á rio
dele . S ou u m s e r d esp re zív el. — V ocê v ai d e v esti d o?
— T opa i r ?
Ele e nfia a s m ão s n o s b ols o s.
— T á, e u v ou c o m v ocê. — E le e ste nd e a m ão e e sfr e ga m in ha te sta c o m o p ole gar. — Is so é
perm anente , n ão é ?
— P ara s e m pre — r e sp ond o.
Seus o lh o s s e i lu m in am .
Dev eria te r a cre sc enta d o: “ C om o a m ig o .”
To pa ir c o m ig o a o B aile d a M aria C eb ola c o m o a m ig o?
Mas a go ra é ta rd e d em ais . N ão v ou e str a gar a d iv ers ã o d ele , e m bora s in ta m ed o d e te r a gid o p ensa nd o s ó
em m im .

TR IN TA E S E IS
É n o ite d e s e xta e e sto u e sp arra m ad a n o s o fá , a ssis ti n d o a u m p ro gra m a d e e ntr e v is ta s
q ue g ra v ei, s o bre g êm eas q ue a le gam s e c o m unic ar te le p ati c am ente .
Mam ãe e stá n a c o zin ha ti n gin d o u m a to alh a p ara a m esa d o j ú ri.
O a p re se nta d or d á à s g êm eas u m a e sp écie d e te ste , c o m c arta s d e b ara lh o , fo rm ula nd o p erg unta s q ue
e la s d ev eria m s e r c ap aze s d e r e sp ond er, g ra ças à s s u as “ hab ilid ad es” . A p rim eir a a certa s ó c in q uenta p or
c ento e c ulp a a d ife re nça d e f u so h o rá rio e o j e t l a g c ausa d o p or v oar d a L ouis ia na p ara N ova Y ork .
Quand o o p ro gra m a e ntr a n o s c o m erc ia is , m am ãe s e s e nta n o s o fá d e d ois a sse nto s e d esa m arra o
a v enta l d o p esc o ço .
— U fa ! — e xcla m a. — V ou d eix ar a q uilo d e m olh o p or u m te m po. — P ega o c o ntr o le r e m oto e p õe a
t e v ê n o m ute .
— E sp era a í — d ig o . — D á u m p ause . N ão q uero d esc o brir o q ue v ai a co nte cer p or a cid ente .
Ela m exe n o c o ntr o le p or u m m om ento a nte s d e d ev olv ê-lo p ara q ue e u a p erte o p ause .
— V am os c o nv ers a r u m p ouq uin ho .
O p ap o d ev e s e r s o bre o c o ncurs o e c o m o n ão o e sto u le v and o m uito a s é rio . O u c o m o e la a cha q ue
v ou a cab ar s o fr e nd o u m a h um ilh ação .
— D esd e q ue L ucy f a le ceu, n ão r e ceb em os m ais a p ensã o d ela .
Territó rio to ta lm ente d ife re nte d o q ue e u e sp era v a.
— E o v alo r d o s e guro d e v id a n ão fo i m uito a lto , m as b asto u p ara n o s s u ste nta r d ura nte o s ú lti m os
m ese s.
End ir e ito a s c o sta s. M in ha v is ã o d em ora u m i n sta nte a s e a ju sta r.
— N ós v am os v end er a c asa ?
— N ão , n ão . N ad a d is so . E m a lg uns a no s te rm in am os d e p agar. C re io q ue p osso a guenta r a s p onta s a té
l á . N ão q uero q ue s e p re o cup e c o m i s so .
— T á...
— M as n ão te nho c o nd iç õ es d e a rc ar c o m o c o nse rto d o s e u c arro .
É is so . S in to u m d esâ nim o m orta l. S ei q ue é u m a id io ti c e m e p re o cup ar c o m u m a b obagem c o m o u m
c arro quand o obvia m ente te m os outr a s co is a s para pensa r, co m o co m id a, lu z, gás... A in d a m ais
c o nsid era nd o q ue, e m te se , n ão p re cis a m os d ele . M as a q uela l a ti n ha v elh a v erm elh a é a m in ha l ib erd ad e
s o bre r o das. C lo ver C ity v ai f ic ar p are cend o a in d a m eno r e m ais i s o la d a s e m a m in ha J o le ne.
— D esc ulp e, q uerid a.
— Q uanto v ai c usta r?
— P or v olta d e tr ê s m il d óla re s.
Faço q ue s im . I s so é , n o m ín im o, u m a no d e tr a b alh o n o C hili B ow l.
— T alv ez, s e a g ente f iz e sse u m c o fr in ho ...? P oderia p ôr o s tr o cad in ho s d o d ia n ele ...
Torn o a m e r e co sta r e a p erto o p la y n a te v ê. S e f o sse u m a f ilh a m elh o r, e u r e sp ond eria q ue e stá b em ,
q ue c o m pre end o. P osso n ão s e r a f ilh a q ue e la e sp era v a, m as e la n unca m e d eix a n a m ão .
As p rim as e stã o d e v olta . P esso as n a p la te ia rie m b aix in ho e nq uanto e la s o bvia m ente e rra m u m a
p erg unta a tr á s d a o utr a .
Mam ãe s e l e v anta e to rn a a a m arra r o a v enta l n o p esc o ço .
Ante s d e i r p ara a c am a, s e nto à e sc riv anin ha d o q uarto , c o m R io t e nro sc ad o n o c o lo .
Quase to dos o s m eus e -m ails s ã o s p am s, m as, s o te rra d o p or b aix o d ele s, e nco ntr o u m
e nv ia d o d o e -m ail d e L ucy.
Meu e stô m ago s e e nro la c o m o u m a e sp ir a l. C lic o .
Mas é s p am . U m a p orc aria q ualq uer s o bre ta xas d e j u ro s.
Eu m e re co sto na cad eir a e esv azio o s p ulm ões. S e esto u re ceb end o sp am s d o e-m ail d a m in ha
f a le cid a ti a , e ntã o ta lv ez o utr a s p esso as ta m bém e ste ja m .
Saio da min ha co nta . Tento vária s veze s, até que fin alm ente ad iv in ho a se nha de Lucy.
D UM BBLO ND E9.
U m a d as s u as m úsic as fa v orita s d a D olly e s e u n úm ero d a s o rte . J á e sto u p re ste s a
f e char a c o nta , m as m e d is tr a io c o m a s m ensa gens a cum ula d as d ura nte m ese s. A c aix a d e e ntr a d a e stá
l o ta d a d e e-m ails não lid os, num v erd ad eir o le m bre te d e q ue so m os se re s p assa geir o s num m und o

perm anente .
Clic o e m a lg um as. N ão v ejo n ad a q ue c ham e a a te nção , a té a q uin ta p ágin a. N o e sp aço d o a ssu nto ,
to po c o m u m a d iz e nd o: N OIT E D A D OLLY P A RTO N!

TR IN TA E S E TE
As e str e la s d e c arto lin a e a s fa ix as d e p ap el c re p om p end ura d as d o te to n ão b asta m
p ara m e fa ze r ig no ra r o c heir o d e su o r e e sq uecer q ue n ó s e sta m os n o g in ásio . A m úsic a e co a p ela s
p are d es, l e m bra nd o a to dos q ue e ste l u gar n ão f o i c o nstr u íd o p ensa nd o-s e n a a cústi c a.
— F ic o u m uito l e gal — g rita M itc h n o m eu o uv id o.
— É ... F ic o u, s im . — S ó q ue n ão . D ev e h av er u m as q uin ze p esso as d ançand o, e nq uanto a s d em ais s e
e sp alh am p ela a rq uib ancad a. H á u m a e str a nha te nsã o h o rm onal n o a r q ue e u n unca ti n ha n o ta d o. T alv ez
p orq ue o s a lu no s e ste ja m s e p egand o e m p úb lic o à v onta d e, d e u m je ito q ue ja m ais s e ria to le ra d o n o
h o rá rio n o rm al d as a ula s.
Elle n e stá n a a rq uib ancad a a o l a d o d e C allie e d o n am ora d o. T im e stá c o m o b ra ço e m v olta d o o m bro
d e E l, a c ab eça tã o i n clin ad a p ara tr á s q ue a cho q ue é c ap az d e e sta r c o chila nd o. O n am ora d o d e C allie é
s u p era te ncio so e f ic a p assa nd o a m ão n a c o xa d a g aro ta d e u m j e ito s a fa d o q ue m e d á c ala fr io s, e nq uanto
e la e E l tr o cam s u ssu rro s, c o m parti lh and o s e gre d os, c o m c erte za .
Pego C allie a p onta nd o p ara m im , e m e v ir o .
— V ou d ar u m p ulin ho n o b anheir o .
Os l á b io s d e M itc h f o rm am u m a p erg unta , m as e le s e l im ita a f a ze r q ue s im .
No b anheir o , a b ro a to rn eir a a o m áxim o e d eix o q ue a á gua q uente m e e sc o rra p ela s m ão s a té f ic are m
v erm elh as. É h o rrív el n ão p oder i r a té l á e d iz e r a E l q ue p ap el r id íc ulo e u f iz a o c o nv id ar M itc h p ara o
b aile . E ssa d is tâ ncia e ntr e n ó s c o m eço u h á m ese s. S ei d is so . M as ta lv ez e la n ão s a ib a. T alv ez a p esso a
s ó n o te q uand o é e la q ue e stá s e nd o d eix ad a p ara tr á s. E u d ev eria te r s e gura d o m in ha l ín gua c o m prid a e
m anti d o o c o ncurs o e m s e gre d o, m as a i n sc riç ão d e E lle n m e f e z s e nti r c o m o s e o ti m e a d vers á rio ti v esse
v encid o.
— P osso te d ar u m c o nse lh o ?
End ir e ito a s c o sta s, o c ére b ro v olta nd o d a v ia gem .
— O i, C allie .
Ela m e o bse rv a n o r e fle xo d o e sp elh o .
— E u s e i q ue a E l fo i m uito le gal c o nti g o d esd e q ue v ocês e ra m p eq uenas. M as d iz e r a e la q ue n ão
p oderia e ntr a r n o c o ncurs o f o i m uita s a canagem .
Esto u m e s e nti n d o n ua. C om o s e , d e a lg um m odo, e m m eio a to da à s u a r a iv a, E l p ud esse te r r e v ela d o
c ad a u m d os m eus s e gre d os e i n se gura nças.
— E sc uta a q ui, C allie , n ão te c o nheço , e n em te nho q ue c o nhecer m uito p ara s a b er q ue n ão g o sto d e
v ocê. P orta nto , c ai f o ra e v ai c uid ar d a s u a v id a.
— T ud o b em . — E la le v anta a s m ão s. — S ab e, e la e stá m esm o m elh o r s e m v ocê. P elo m eno s a go ra
v ocê n ão e stá p or p erto p ara a rra sta r a E l- b ell p ra b aix o . — E la d á m eia -v olta , m as to rn a a s e v ir a r d e
r e p ente e a cre sc enta : — E s a b e d o q ue m ais ? S e v ocê f iz e sse u m m ín im o e sfo rç o p ara s e c uid ar, f ic aria
s u rp re sa d e v er a d ife re nça e no rm e q ue f a ria . E e u n em e sto u s e nd o g ro sse ir a , s ó h o nesta . — A je ita nd o o
d eco te d o v esti d o, e la to rn a a a rru m ar o s p eito s n o s u ti ã . — A p ro pósito , a o c o ntr á rio d o q ue v ocê e s u as
a m ig as p ossa m p ensa r, e sse c o ncurs o n ão é n enhum a a ti v id ad e e xtr a curric ula r b enefic ente o nd e v ocê
r e ceb e n o ta d ez p elo e m penho . — C allie s e a fa sta . A in d a b em , p orq ue e sto u a d ois p asso s d e q ueb ra r o
n ariz d ela .
A p orta s e f e cha à s s u as c o sta s, e e u f ic o o uv in d o o s s a lto s b ate nd o n o p is o d e v in il.
Talv ez e la te nha ra zã o . T alv ez m in ha v id a e ntr a sse n o s e ix o s se e u c o nse guis se p erd er c in q uenta
q uilo s. P re nd o a s l á grim as q ue b ro ta m n o s o lh o s. T alv ez m eu c o rp o e e u s e ja m os o s ú nic o s c ulp ad os.
Mitc h e stá e sp era nd o fie lm ente p or m im a tr á s d o D J, q ue n ão é r e alm ente u m D J, m as u m té cnic o d e
t i m e d e b asq uete u niv ers itá rio c o m u m i P od e a cesso à s c aix as d e s o m .
Dou u m a c o to vela d a n o s e u b ra ço .
— V am os d ançar.
Ele m e s e gue a té a p is ta d e d ança, o nd e e nco ntr o M illie c o m o n am ora d o, M alik . A mand a e stá a o l a d o
d ele s.
Esto u c o m eçand o a a d ora r A mand a. E la é r ís p id a, e sq uis ita e o o posto d e to do m und o q ue c o nheço . É
o ti p o d e p esso a q ue v ai fu nd o e m q ualq uer s itu ação e le v a a s b rin cad eir a s lo nge d em ais . N o m om ento ,
c o m a c ab eça b ala nçand o e o s b ra ço s e a s p ern as s e a gita nd o, e la q uase p are ce u m a d aq uela s b and as d e

um h o m em s ó , p oré m s e m o s i n str u m ento s.
Apre se nto -o s a M itc h, e m bora to dos n ó s e stu d em os j u nto s h á s é culo s.
Amand a m e d á u m a c o to vela d a e c o chic ha:
— N ad a m au. M as n ão s e c o m para c o m o
Bundin ha d e P êsse g o
.
— E v ocê? C onv id ou a lg uém ?
Ela s e i n clin a p ara m im , s e m p ara r d e a gita r a c ab eça.
— M in has o pçõ es e ra m l im ita d as, p or i s so d ecid i v ir s o zin ha.
— V ocê n ão e stá s o zin ha! — g rita M illie . — E stá c o m a g ente . N ão é , M alik ?
Malik s e gura a m ão d e A mand a.
— S im , é c la ro .
Meu c o ra ção d e m ante ig a s e d erre te . P orq ue, p ara m im , M alik e M illie s ã o o r e i e a r a in ha d e to dos o s
baile s, o d o H om eco m in g, o d e i n v ern o , o d e p rim av era e o d e f o rm atu ra c o m bin ad os n um s ó .
A p ró xim a m úsic a c o m eça a to car, e é o ti p o d e le nti n ha q ue fa z o s c asa is e sfr e gare m o s u m big o s.
Com o sã o se re s hum ano s ho rrív eis , M illie , A mand a e M alik no s ab and onam , in d o até a m esa d os
sa lg ad in ho s e r e fr ig era nte s.
O e sp aço a o n o sso r e d or n ão p ara d e s e e ncher d e a d ole sc ente s n o c io . M itc h d ev e n o ta r o p ânic o n o
meu r o sto . E le s e gura m eus b ra ço s, f a ze nd o c o m q ue e u o s p asse p elo s e u p esc o ço . S uas m ão s f o rte s m al
to cam m in ha cin tu ra , m as m esm o assim co ntr a io o estô m ago o m áxim o possív el. N ão co nsig o m e
co ntr o la r. E , n o m eio d e to dos a q uele s a m asso s e b eijo s, c o m eçam os a d ançar.
— G osto d e ir c o m c alm a — d iz M itc h. E le e stá u m p erfe ito c av alh eir o s u lis ta c o m c alç a c áq ui d e
vin co , c am is a x ad re z c o m b otõ es d e p re ssã o i m ita nd o m ad re p éro la e b ota s m arro ns.
Aos p ouco s, d eix o q ue m eu c o rp o r e la xe c o ntr a o d ele .
Dançam os d ev agar a o s o m d e m úsic as r á p id as e d ançam os r á p id o a o s o m d e m úsic as le nta s, c ria nd o
no sso p ró prio r itm o.
Patr ic k s e a p ro xim a d e n ó s, ti r a nd o u m a c asq uin ha d o m aio r n úm ero p ossív el d e g aro ta s n o c am in ho .
— B ele za , M itc h. S e e u f o sse v ocê, c ara , to m av a c uid ad o c o m e ssa a í. E la é v io le nta . — E p ara m im :
— O f a b ric ante d e b eb ês a in d a f u ncio na, c aso e ste ja s e p erg unta nd o.
— Q ue D eus n o s p ro te ja — c o m ento , b ala nçand o a c ab eça.
Patr ic k m ovim enta o c o rp o, f le xio nand o o s c alc anhare s.
— O uv i d iz e r q ue v ocê c o nv enceu a lg um as a m ig as a p arti c ip are m d o c o ncurs o . D ev eria p erg unta r a
ela s s e s a b em q ue é u m c o ncurs o d e b ele za , n ão u m a e xp osiç ão a gro pecuária .
E v ai e m bora a nte s q ue e le o u e u p ossa r e sp ond er.
Mitc h d á u m p asso à f r e nte , m as a p erto s e u b ra ço , p uxand o-o d e v olta .
— V ocê s a b e q ue e le é p odre , n ão s a b e? — p erg unto .
— N ão e sto u ti r a nd o s u a r a zã o .
Só v ejo B o e B ekah d ura nte u m a m úsic a l e nta , p are cend o o ti p o d o c asa lz in ho q ue p osa p ara f o to s d e
cam is a b ra nca e j e ans, o u q ue s a i d e f é ria s c o m a f a m ília n o v erã o .
E q ue ó dio q ue i s so m e d á.
Enco sto o r o sto n o o m bro d e M itc h. B o le v anta o s o lh o s, m as d essa v ez n ão d esv io o s m eus. A li, n a
pis ta d e d ança d o g in ásio , n o sso s o lh are s s e e nco ntr a m . E e u im agin o q ue s o m os e le e e u d ançand o,
to ta lm ente a s ó s. N ão p orq ue o s a lã o e ste ja v azio , m as p orq ue n in guém m ais i m porta .
— F ui a u m b aile n o e nsin o fu nd am enta l — c o nta M itc h. — M in ha m ãe m e o brig o u. T iv e q ue u sa r
aq uele te rn o to do e m pete cad o q ue a g ente u sa n o d om in go d e P ásc o a. E u e ra o ú nic o g aro to q ue e sta v a
pro duzid o d aq uele j e ito .
Meus o lh o s c o nti n uam e m B o, e te nho a gud a c o nsc iê ncia d o i n cênd io q ue d ev ora m eu p eito .
— V ocê te v e u m e nco ntr o ? — M in ha v oz v em d e m uito l o nge.
— N in guém chegav a a te r enco ntr o s na ép oca. Q uer diz e r, hav ia casa is que se co nsid era v am
nam ora d os, m as e ra s ó i s so .
Bekah d iz a lg um a c o is a e , a p ós u m m om ento q ue m e d ói c o m o u m a d esp ed id a, B o d esv ia o s o lh o s. E
os d ois s e a fa sta m p or tr á s d e u m a m ura lh a d e g ente .
Fic o o lh and o p ara o e sp aço v azio d eix ad o p or e le .
— V ocê d ançav a c o m a lg uém ? — p erg unto .
Mitc h p assa o d ed o l e nta m ente p ela m in ha c o lu na, e s e i q ue e sse p eq uenin o g esto é u m g ra nd e a v anço
para e le .
— N ão . F ic av a a n o ite i n te ir a s e nta d o n um a c ad eir a d obrá v el p erto d os a d ulto s q ue a co m panhav am a
mole cad a. O u c o m u ns g aro to s q ue tr e in av am a rre m esso s n a c esta d e b asq uete d o o utr o la d o d o g in ásio .
Mas d ançar, n ão .

— B om ... — L ev anto a c ab eça. — A go ra v ocê e stá d ançand o.
Ele s o rri.
— V ale u a p ena e sp era r.
Mais ta rd e, q uand o n o s d ir ig im os a o e sta cio nam ento c o m o s s o ns d o b aile s ile ncia nd o a tr á s d e n ó s,
meus s a p ato s d e s a lto g ati n ha p are cem q uere r s e l iv ra r d os m eus p és, e M itc h e ste nd e o b ra ço p ara m im .
No b aile , a s r e g ra s n ão s e a p lic av am . E u ti n ha p erm is sã o p ara e nco sta r a c ab eça n o s e u p eito e d eix ar
que e le m e a b ra çasse , p orq ue e ra u m b aile e é i s so q ue a g ente f a z n o s b aile s. M as a q ui, f o ra d a b olh a, é
dife re nte . N ão q uero i n centi v á-lo a tr a nsfo rm ar n o ssa a m iz a d e e m a lg o q ue n ão é .
Ele s o rri. P asso o b ra ço p elo d ele , p orq ue j á e str a guei c o is a s d em ais n o s ú lti m os te m pos e n ão e sto u
dis p osta a a cre sc enta r e ssa n o ite à l is ta .
— V ocê a in d a n ão e stá f a la nd o c o m a E lle n?
— N ão . — S em e sp ecific ar a s c ir c unstâ ncia s, e u ti n ha lh e c o nta d o s o bre a n o ssa b rig a, e q ue fo ra
fe ia . N ão q ueria f a la r m ais d o q ue i s so , e n em e le p erg unto u.
— V ocês se m pre fo ra m in se p ará v eis . E u m e le m bro d aq uele d ia , n o se xto a no , e m q ue e stá v am os
le nd o n o ssa s d is se rta çõ es s o bre
When t h e R ed F ern G ro w s
, * na f r e nte d a s a la .
*
Rom ance in fa nto ju venil d o a uto r W ils o n R aw ls , s o bre u m m enin o q ue c om pra e a destr a d ois c ães d e r a ça. ( N .T .)
Faço q ue s im .
— E la se m pre c ho ra v a q uand o n ó s c hegáv am os à p arte e m q ue o c acho rro m orre . — E l d ete sto u
aq uele l iv ro . N ão é d o ti p o d e p esso a q ue l ê u m a h is tó ria q ue a f a ça c ho ra r e p ensa q ue f o i b oa p orq ue a
co m oveu. N ão , liv ro s e film es q ue fa ze m E lle n c ho ra r a e nfu re cem , c o m o se fo sse m u m a e sp écie d e
tr a iç ão .
— E a í v ocê te rm in o u d e l e r a d is se rta ção p ara e la .
— E la ti n ha e nsa ia d o d eze nas d e v eze s n a fr e nte d o e sp elh o . F ic av a fu rio sa q uand o c o m eçav a a
cho ra r. — L ev anto a c ab eça a o m e d ar c o nta d e q ue e sta v a o te m po to do e nco sta d a a o b ra ço d e M itc h.
Ele a b re a p orta d o c arro p ara m im .
— P or q uanto te m po m ais v ocê v ai d eix ar q ue r o le e sse c lim a?
Por u m a f r a ção d e s e gund o, p enso q ue e le e stá s e r e fe rin d o a n ó s d ois .
— O lh a... — c o m eça M itc h. — O bvia m ente e u n ão c o nheço a h is tó ria in te ir a , m as a s b oas a m iz a d es
sã o d ura d oura s. E la s tê m q ue s o bre v iv er a o s v ão s, à s f e nd as e à s d ific uld ad es d a a d ole sc ência .

TR IN TA E O IT O
Amand a L um bard é u m a tr e m end a b arb eir a , m as, c o m o M illie n ão v ai p oder u sa r a v an
d a m ãe h o je à n o ite , é a ú nic a d e n ó s q ue d is p õe d e u m c arro q ue e ste ja fu ncio nand o e q ue te nha
c ap acid ad e d e a co m odar a s q uatr o c o nfo rta v elm ente .
— F oi m uito l e gal d a p arte d a s u a m ãe d eix ar a g ente u sa r a v an — d iz M illie .
Amand a d á d e o m bro s, o p é f u nd o n o a cele ra d or.
— E la fic o u a nim ad a q uand o s o ub e q ue e u ia s a ir c o m u m as a m ig as. M esm o s e nd o n um a n o ite d e
t e rç a.
Bala nço a c ab eça. N ão c heguei a d ar to dos o s d eta lh es q uand o a s c o nv id ei p or u m a m ensa gem d e
g ru p o.
EU : M enin as, a cho q ue to das c o nco rd am os. A in d a f a lta r e so lv er a lg um as q uestõ es a nte s d o c o ncurs o .
Vai te r u m e v ento n o m esm o e sti lo e m O dessa a m anhã à n o ite , e a cho q ue a g ente p odia d ar u m a
co nfe rid a p ara v er s e p egam os a lg um as d ic as.
HANNAH: M in ha a gend a e stá l o ta d a.
EU : E ta m bém v am os p re cis a r d e u m a c aro na. M eu c arro e stá f o ra d e c ir c ula ção .
MIL LIE : E sto u a q ui c o m a A mand a. N ós to pam os. E la p ode d ir ig ir. M al p odem os e sp era r!
HANNAH: T ud o b em . E u v ou.
A m eia v erd ad e é q ue e sto u m e se nti n d o re sp onsá v el p ela s tr ê s, e a chei q ue ta lv ez e sti v ésse m os
m esm o p re cis a nd o d e u m as d ic as e m r e la ção a o c o ncurs o . N ão e sto u te nta nd o b ancar a c hefo na, m as, s e
n ão ti v esse s id o e u a c o m eçar tu d o i s so , n ó s n ão e sta ría m os n esse b arc o .
A v erd ad e in te ir a é q ue e sto u p re cis a nd o d e u m a c aro na. É m eio e go ís ta d a m in ha p arte , e u s e i. M as
p aguei p ara p ôr g aso lin a n o c arro d a A mand a, e e ncher ta nq ue d e v an n ão s a i n ad a b ara to . P orta nto , a té
c erto p onto , e sto u a b so lv id a.
Enq uanto n o s d is ta ncia m os c ad a v ez m ais d a c id ad e, f ic o o uv in d o M illie e A mand a d is c uti r e m a lg um a
s é rie l ite rá ria q ue e stã o l e nd o, s e nta d a n o b anco tr a se ir o c o m H annah e u m a f o lh a a m assa d a n a m ão .
NO IT E D A D OLLY P A R TO N!
Ven ha t o rc er p or s u a s ó sia f a vo rita d a D olly c o m petin do p elo t ítu lo d e m elh or p erig uete d o
Texa s! A v en ced ora g anha o d ir e ito d e f ic a r t o da-to da e u m s u prim en to d e b ato ns d a A vo n
dura nte u m a no, c o rte sia d a n ossa q uerid a K iw i L aven der! T he H id ea w ay, e sq uin a d a P alm er
co m a F ourth , O dessa , T exa s. A s p orta s s e a bre m à s 2 0! O s h ow c o m eça à s 2 1!
Quand o e ntr a m os n o e sta cio nam ento , M illie s e v ir a p ara m im .
— T em c erte za d e q ue e sse é o l u gar c erto ?
Dou u m a c o nfe rid a n a r u a tr a nsv ers a l e a p onto o l e tr e ir o e m n éo n r o sa --c ho que c o m o n o m e p is c and o:
T H E H ID EAW AY. R eco nheço o l o cal d a f o to d e L ucy q ue a S ra . D ry v er m e d eu d e l e m bra nça.
— T enho , é a q ui m esm o.
— Q ue ti p o d e c o ncurs o r o la ria n um b ar? I s so é u m b ar, n ão é ? — p erg unta e la .
Pig arre io .
— A cho q ue o m elh o r a f a ze r é n ão te r p re co nceito s. E e u n ão d is se q ue e ra e xata m ente u m c o ncurs o .
Hannah d á u m a r is a d a.
— E stá c o m p in ta d e s e r d iv erti d o.
Saím os d o c arro .
Amand a p ara n o m eio d a p oça d e l u z q ue p is c a a b aix o d o l e tr e ir o .
— A v an d a m in ha m ãe v ai f ic ar s e gura a q ui, n ão v ai?
Nenhum a d e n ó s r e sp ond e.
Há u m a c urta fila d ia nte d a p orta , c o m u m g ru p o d e g ays à n o ssa fr e nte . O u c ara s q ue p re su m o q ue
s e ja m g ays. V ou p are cer u m a p erfe ita c aip ir a p or c o nfe ssa r is so , m as a cho q ue n unca c o nheci u m g ay.
Q uer d iz e r, q ue fo sse a ssu m id o. T enho c erte za d e q ue h á g ays e m C lo ver C ity , m as to dos d e q ue o uv i
f a la r era m tr a ta d os co m o le nd as urb anas o u ad vertê ncia s. L ucy ti n ha v ário s am ig o s gays em re d es
s o cia is , p orq ue, c o m o c o stu m av a d iz e r, D olly P arto n é a d iv a p ad ro eir a d os g ays.
Há m om ento s n a m in ha v id a e m q ue m e s in to c o m o s e j á s o ub esse tu d o, c o m o s e j á ti v esse e xp lo ra d o

tu d o, s e m d eix ar p ed ra s o bre p ed ra . M as c o is a s a ssim m e l e m bra m d e c o m o o m eu m und o é p eq ueno .
— G ente , a cho q ue o s c ara s s ã o g ays — s u ssu rra A mand a d ep ois q ue e le s e ntr a m n o b ar.
Hannah r e v ir a o s o lh o s.
— N ão d ig a! S ério ?!?
Amand a n em s e a b ala c o m o c o m entá rio .
— C om o é q ue e le s c o nse guem te r s o bra ncelh as tã o p erfe ita s?
O s e gura nça p ara d o d ia nte d a p orta é u m ti p o g ra nd alh ão , c o rp ule nto e b arrig ud o, m as s ó e stá u sa nd o
um a c alç a j e ans e u m c o le te d e c o uro .
É d ifíc il i m agin ar L ucy n esse l u gar, m as e ntã o l e m bro a s o m bra a zu l- tu rq uesa q ue a v i u sa nd o n aq uela
fo to , e i s so j á n ão p are ce tã o i m possív el.
— I d enti d ad e — r o sn a o s u je ito .
— H um , p ra q uê? — p erg unta M illie .
— S ó e ntr a m aio r d e d ezo ito — r e sp ond e e le .
Sin to u m d esâ nim o m orta l.
— N ão e ra i s so q ue o e -m ail d iz ia — r e cla m o.
— P ois é o q ue e u e sto u d iz e nd o — r e b ate e le .
Hannah p assa p or M illie e A mand a.
— E sc uta a q ui, m oço , a g ente s e d esp enco u d e C lo ver C ity p ra v ir a o s h o w . T em n o ção d a d is tâ ncia ?
Ele s o lta u m r e sm ungo .
— J u sta m ente — d iz e la . — É c la ro q ue n ão te m , p orq ue é u m c afu nd ó d o J u d as q ue n in guém c o nhece.
Nós d ir ig im os p or m ais d e d uas h o ra s p ara s a ir d aq uele fim d e m und o, e v ocê n ão p ode a go ra v ir n o s
diz e r q ue f o i p ura p erd a d e te m po.
O s u je ito u m ed ece o s l á b io s. Q uase c hego a p ensa r q ue H annah c o nse guiu d obrá -lo . A fin al, é s ó o lh ar
para n ó s: M illie e stá c o m u m m acacão d e p olié ste r e A mand a u sa nd o u m s h o rt d e fu te b ol — a cho q ue
pode a té s e r o m esm o d e o nte m . N ão fa ze m os o ti p o d e g aro ta s q ue v ão a u m b ar p ara e ncher a c ara .
Bem , H annah a té q ue s e ria c ap az.
— N ad a f e ito — te im a o c ara . — D esc ulp e, m enin as, m as n ão v ai r o la r.
— D á s ó u m a o lh ad a n esse e -m ail — i n sis to , c o m o s e f o sse f a ze r a lg um a d ife re nça.
Ele ti r a o p ap el d a m in ha m ão e f ix a o s o lh o s n o a lto d a p ágin a, a nte s d e d iz e r:
— E sse e -m ail n ão é s e u.
Engulo e m s e co .
— É d a m in ha ti a . L ucy.
Ele d obra o p ap el c o m c uid ad o e o d ev olv e. T ir a q uatr o p uls e ir a s l a ra nja f o sfo re sc ente s d o b ols o d o
co le te e a s p re nd e e m n o sso s p uls o s.
Meu q ueix o d esp enca.
— S e a lg um a d e v ocês d er u m a o lh ad in ha s e q uer n a d ir e ção d o b ar, v ai s e r e xp lu ls a n a h o ra . — E le
se gura m eu b ra ço e nq uanto a s o utr a s e ntr a m . — L ucy e ra g ente f in ís sim a.
Faço q ue s im e a gra d eço à m in ha ti a e m s ilê ncio p elo p eq ueno m ila gre .
No sa lã o , e nco ntr a m os u m a m esin ha a o la d o d o p alc o , a lé guas d o b ar. O g arç o m p assa , d á u m a
olh ad a e m n o ssa s p uls e ir a s e tr a z q uatr o g arra fa s d e á gua m in era l.
Millie p uxa a c ad eir a p ara m ais p erto e a je ita o s c ab elo s.
— T em h o m em a q ui q ue n ão a cab a m ais , h ein ?
Hannah d á u m a o lh ad a a o r e d or p or u m m om ento , e a e xp re ssã o n o s e u r o sto s e tr a nsfo rm a.
— D eix a e u v er a q uele e -m ail?
Eu m e a fa sto d ela .
— C om o a ssim ? P or q uê? N ão .
Ela e ste nd e a m ão p ara o m eu b ols o e , e m bora e u e m purre s u as m ão s, c o nse gue a rra ncá-lo . M illie e
Amand a e stã o c ad a u m a n o s e u m und o, a p re cia nd o o p ano ra m a. H annah d á u m a s e gund a o lh ad a n o e -
mail.
— P uta m erd a — m urm ura .
As l u ze s c o m eçam a s e a p agar.
— O q ue é ?
Ela b ala nça a c ab eça.
— A h, m eu D eus. V ocê n em s a b e, n é? — E la d á u m ta p a n a m esa , s o lta nd o a lta s g arg alh ad as. —
Millie , a s u a m ãe v ai te f a ze r l a v ar o s o lh o s c o m s a b ão q uand o v ocê c hegar e m c asa !
A b oca d e M illie fo rm a u m O , m as é tu d o q ue v ejo a nte s d e to das a s lu ze s s e a p agare m n a b oate ,
meno s o s tu b os f lu o re sc ente s q ue c o nto rn am o b alc ão d o b ar.

Dos a lto -fa la nte s s a i u m a v oz b aix a e s e nsu al:
— V ad ia s e v agab und os, d iv as e d iv os, b em -v in d os à N oite d a D olly P arto n n a T he H id eaw ay!
A g ale ra v ai a o d elír io .
— A p rim eir a a h o nra r o n o sso p alc o h o je s e rá a a d orá v el S rta . C and ee D is c h!
* Vam os r e ceb ê-la c o m
um a s a lv a d e p alm as!
* Tro cadilh o c om
ca ndy d is h
, b om boneir a . ( N . T .)
Um r e fle to r i lu m in a o c entr o d o p alc o o nd e e stá u m a m ulh er a lta , c o m u m a p eru ca l o ura e sc and alo sa ,
usa nd o u m l o ngo d e v elu d o v erd e-lim ão . A m aq uia gem é e xagera d a e o s l á b io s, c arn ud os e d elin ead os a
lá p is . A m úsic a c o m eça, e b asta m a lg um as n o ta s p ara e u r e co nhecê-la : “ H ig her a nd H ig her” .
“Y our l o ve h as l ifte d m e”, c anta e la .
“H ig her, h ig her, a nd h ig her.”
*
*
Seu a m or f o i m e e le va ndo/ C ada v ez m ais a lto .
(N .T .)
Entã o o r itm o a cele ra e , e m bora e la s e ja r e ta e m agra , o s q uad ris p are cem m ágic o s q uand o c o m eça a
re b ola r, e e la e x ib e n o p alc o tu d o a q ue te m d ir e ito . F ic o to ta lm ente f a sc in ad a. T anto , q ue n em m e l e m bro
de o bse rv ar a r e ação d e m in has a m ig as. C anto ju nto c o m C and ee D is c h, e s ó q uand o e la e stá p re ste s a
sa ir d o p alc o é q ue p erc eb o q ue H annah e stá à s g arg alh ad as.
Meus o lh o s j á s e a co stu m ara m a o e sc uro . M illie s e v ir a p ara m im , a b oca a in d a n o m esm o f o rm ato d e
O d e q uand o a s l u ze s s e a p agara m .
— W illo w dean, c o rrija -m e s e e u e sti v er e rra d a, m as i s so e ra u m h o m em . E u m h o m em m uito b onito .
Dou u m a o lh ad a r á p id a a o r e d or. H om ens d e m ão s d ad as. M ulh ere s s e a b ra çand o.
— É m elh o r q ue o
Big B ro th er
— c o m enta A mand a.
A m ulti d ão a p la ud e e C and ee D is c h f a z u m a r e v erê ncia .
— A go ra , u m a s a lv a d e p alm as p ara a l e nd ária B ritn ey S w ears !
*
*
Tro cadilh o c om o n om e d a c anto ra p op B rit n ey S pears e o v erb o to
sw ea r
, n a a cepção d e “ x in gar” . ( N . T .)
Outr a m ulh er sa i d os b asti d ore s, e d essa v ez p erc eb o o c o nto rn o á sp ero d o m axila r q uad ra d o, o s
om bro s l a rg o s e a l e v e s o m bra d a b arb a p or b aix o d a m aq uia gem , a p esa r d a d ep ila ção b em -fe ita .
É u m s h o w d e d ra g q ueens.
End ir e ito a s c o sta s n a c ad eir a .
Sin to u m a o nd a d e e xcita ção s e e sp alh ar p elo c o rp o. P ela p rim eir a v ez d esd e a n o ite e m q ue m e s e nte i
na tr a se ir a d a c am in ho nete d e B o p ara a ssis ti r à c huv a d e m ete o ro s, e u m e s in to c o m o s e m in ha v id a
esti v esse a co nte cend o.
— E sto u q uase d eslu m bra d a — d ecla ra H annah.
Fic am os a ssis ti n d o a o d esfile d e d ra g q ueens d e to dos o s ti p os, c o re s e ta m anho s q ue d ão tu d o d e s i e
esb anja m ta le nto n o p alc o d aq uela b oate zin ha f u le ir a n o s c o nfin s d o T exas. E la s u sa m v esti d os c in ti la nte s
e s o fis ti c ad os, s a lto s a ltí s sim os e p eru cas i n sa nas. C ad a u m a te m s e u p ró prio ti p o d e b ele za . R ola a té u m
dueto c o m u m a m ulh er tr a v esti d a d e K enny R ogers , n um a i n te rp re ta ção d e “ Is la nd s i n th e S tr e am ”.
Mas a m in ha fa v orita é um a dra g asiá ti c a m ig no n, co m o no m e de L ee W ei. E stá usa nd o um
min iv esti d o a zu l- c la ro c o m u ns p aetê s tã o lo ngo s q ue to da v ez q ue e la s e m ove é c o m o s e d esse u m a
pin cela d a d e c o r n o p alc o . Q uand o o r e fle to r a ilu m in a e a m úsic a c o m eça, b asta u m a n o ta p ara a b oate
in te ir a i r a o d elír io . “ Jo le ne.”
Sei q ue é u m c lic hê, m as, s e ti v esse q ue o uv ir u m a ú nic a m úsic a p elo r e sto d a v id a, s e ria “ Jo le ne”.
Todo m und o a d ora , m as, p ara m im , s ó q uem c o nhece a s m ais p ro fu nd as m ágo as te m o d ir e ito d e c ham á-la
de s u a. A fin al, D olly P arto n — A A utê nti c a — c anta p ara u m a J o le ne m is te rio sa q ue p ensa q ue é m ais
bonita e m elh o r d o q ue e la , im plo ra nd o q ue n ão r o ub e o s e u h o m em . É ir re sis tí v el e to do m und o s a b e a
le tr a , m as, p ara m im , o q ue v ale é e sse l e m bre te d e q ue, s e ja v ocê q uem f o r, s e m pre h av erá a lg uém m ais
bonito , m ais esb elto ou m ais in te lig ente . A perfe iç ão não é nad a m ais do que um fa nta sm a que
pers e guim os. S e e u ti v esse v oz p ara c anta r, e ssa s e ria a m úsic a q ue a p re se nta ria n o c o ncurs o .
Quand o a c anção te rm in a, s e co a s l á grim as q ue n em ti n ha n o ta d o q ue e sta v am e sc o rre nd o.
No fim d a n o ite , n ó s q uatr o sa ím os d a b oate c o m u m a e xp re ssã o d e p asm o, c o m o se ti v ésse m os
passa d o h o ra s s e nta d as p erto d em ais d a te v ê.
Quand o e sta m os v olta nd o p ara a v an, a lg uém n o s c ham a d a p orta d os f u nd os.
— E i! M enin as!
Dou m eia -v olta . É o s e gura nça d e h o ra s a tr á s.
— P odem i r — d ig o a M illie , H annah e A mand a. — V olto n um s e gund o.
O c ara c o rp ule nto e stá s e nta d o n um b anq uin ho , m ante nd o a p orta a b erta c o m a s c o sta s.
— M eu n o m e é D ale — d iz e le . — S e d iv erti u c o m o s h o w ?
Faço q ue s im .
— A cho q ue é s e guro d iz e r q ue f o i u m a e xp eriê ncia tr a nsfo rm ad ora n a m in ha v id a.

— P are ce a lg o j u sto a d iz e r s o bre a m aio ria d os s h o w s d e d ra g q ueens.
Meneio a c ab eça e m d ir e ção à v an.
— M in has a m ig as ta m bém s e d iv erti r a m .
— L ee! — e le c ham a a lg uém à s c o sta s, a m assa nd o a g uim ba d e c ig arro c o m o p é. — Q uerid a!
Lee W ei, a d ra g q ueen q ue c anto u “ Jo le ne”, s a i re b ola nd o d a p orta d os fu nd os. P are ce a in d a m ais
baix in ha e r e cho nchud a s e m o s s a lto s a lto s. E la o lh a p ara n ó s d ois e s o rri, e m bora o bvia m ente n ão f a ça a
meno r i d eia d e q uem e u s e ja .
— S e l e m bra d a L ucy? — p erg unta D ale . — A q ue c o stu m av a v ir a q ui c o m S uze D ry v er?
A m ãe d e E l. O h, J e su s. C om o g o sta ria q ue E l e sti v esse a q ui. É a ú nic a c o is a q ue p oderia to rn ar e ssa
exp eriê ncia a in d a m ais p erfe ita .
Lee l e v a a m ão a o p eito .
— A h, a g ra cin ha d a L ucy! É c la ro q ue m e l e m bro . — S ua v oz é m ais g ro ssa d o q ue e u e sp era v a.
— E ssa é a s o brin ha d ela — i n fo rm a D ale .
Conco rd o c o m a c ab eça.
— W illo w dean.
Sem h esita r p or u m s e gund o, L ee s e gura m in ha m ão .
— L am ento d em ais — d iz e la . — F ic am os m uito tr is te s q uand o e la f a le ceu.
— O b-b rig ad a — g aguejo , e n ão s e i p or q uê, m as a cre sc ento : — T enho m e s e nti d o m uito p erd id a s e m
ela . C om o s e e la f o sse u m a b ússo la q ue e u n em s a b ia q ue ti n ha.
Lee f a z q ue s im , e D ale a p erta o s l á b io s n um a l in ha f in a.
— P ode m and ar u m e -m ail p ara a b oate s e p re cis a r d e a lg um a c o is a — a v is a e le .
Lee s e a p ro xim a e s a p eca u m b eijo n a m in ha te sta .
— N ão h á n ad a d e b om e m p erd er a lg uém — d iz e la . — M as ta lv ez L ucy n ão d ev esse s e r s u a b ússo la
para s e m pre . T alv ez e la s ó te nha e sta d o a q ui p ara te o rie nta r p or u m te m po, a té v ocê a p re nd er a s e r a s u a
pró pria b ússo la e e nco ntr a r o s e u c am in ho n o m und o. — E la p is c a p ara m im . — O u niv ers o é m uito
estr a nho .
Deix o D ale e L ee n a s a íd a d o c am arim e e ntr o n a tr a se ir a d a v an.
— O q ue e le s q ueria m ? — p erg unta A mand a.
— D iz e r q ue n ão p osso v olta r a té f a ze r d ezo ito a no s.
— V ocê e stá c o m b ato m n a te sta — a v is a H annah.
— E u s e i. — E m in ha v onta d e é d eix á-lo lá p ara s e m pre , c o m o u m a b ênção . A ú lti m a p erm is sã o d e
que p re cis o p ara m e to rn ar m in ha p ró pria m usa i n sp ir a d ora .

TR IN TA E N O VE
Um a s e m ana s e tr a nsfo rm a e m d uas, e e u m e d ou c o nta d e q ue, a lé m d e s e m pre a lm oçar
c o m M itc h, te nho p assa d o c o m e le q uase to dos o s m om ento s q ue n ão d ed ic o a o tr a b alh o o u a o c o ncurs o .
Q uase c hego a c o nta r s o bre o s h o w d as d ra g q ueens n a T he H id eaw ay, m as é c o m o te nta r e xp lic ar a c ena
f a v orita d e u m f ilm e p ara a lg uém q ue n unca o v iu — é i m possív el f a ze r j u sti ç a a e la .
Cria m os u m a e sp écie d e r o ti n a tr a nq uila , e m q ue v ou à s u a c asa e fic o v end o-o jo gar v id eo gam e, à s
v eze s a té ro ub and o o jo ysti c k d a m ão d ele . F ic o p ara ja nta r u m a n o ite , m as te nho a s e nsa ção d e e sta r
u ltr a p assa nd o u m l im ite p ro ib id o.
Confo rm e d esc o bri, M itc h e a m ãe ja nta m ju nto s to das a s n o ite s, e nq uanto o p ai fa z a re fe iç ão c o m
u m a b and eja n a fr e nte d a p oltr o na. V ejo -o c hegar d o tr a b alh o , p egar u m a c erv eja e fic ar e sp era nd o n a
s a la q ue a c o m id a l h e s e ja s e rv id a.
Ja nta m os n ó s tr ê s à m esa e m to ta l s ilê ncio , s o m ente o s ta lh ere s ra sp and o a lo uça d os p ra to s. S in to
v onta d e d e p erg unta r a M itc h a r a zã o d e s e r d is so , m as te nho a im pre ssã o d e q ue é u m s e gre d o q ue n ão
d ev o c o nhecer.
Alg uns d ia s d ep ois , e sta m os à m esa a lm oçand o, e nq uanto c o nv ers a m os s o bre o q ue p re te nd em os f a ze r
a p ós n o s f o rm arm os, q uand o e le m esm o to m a a i n ic ia ti v a d e to car n o a ssu nto .
— N ão s e i s e p osso d eix ar m in ha m ãe — c o nfe ssa . — Q uer d iz e r, e le n ão c hega a b ate r n ela , n em
n ad a. M as e le s n ão s e f a la m . N em u m a p ala v ra . E te nho a v aga e sp era nça d e q ue ta lv ez o p ro ble m a s e ja
c o m ig o , e a í, s e e u f o r e m bora , a s c o is a s v ão m elh o ra r.
— P or q ue e le s n ão s e d iv orc ia m ? — O l a r d e u m a m ãe s o lte ir a f o i tu d o q ue c o nheci, e L ucy m ais d o
q ue c o m pensa v a a a usê ncia d e u m p ai v agab und o e a p ro veita d or. M eu p ai b io ló gic o fo i u m c ara q ue
p asso u p ela c id ad e. E le f ic o u p or u m te m po, m as n ão o b asta nte p ara s e to rn ar m ais d o q ue u m q ualq uer.
A go ra e stá e m O hio , I d aho o u s e ja l á q ual f o r o e sta d o f a m oso p or s u as b ata ta s.
Mitc h s o rri d e u m j e ito tr is te .
— M in ha m ãe n ão a cre d ita e m d iv órc io . E f ic a m uito i r rita d a q uand o to co n o a ssu nto .
Quand o e sto u p re ste s a r e sp ond er, T im p assa d ir e to p or n ó s.
— E sp era u m s e gund o? — p eço , já m e le v anta nd o p ara ir a tr á s d ele . — T im ! — O lh o e m v olta p ara
v er s e h á a lg um s in al d e E lle n e nq uanto o s ig o a té a f ila d a c anti n a.
Passo p or tr ê s a lu no s d o n o no a no p ara m e e sp re m er a tr á s d e T im .
— T im , p or f a v or. F ala c o m ig o .
Ele p ega u m a b and eja , e e u, o utr a .
— N ós ta m bém s o m os a m ig o s — r e le m bro .
Ele p ega u m a ti g ela d e e sp aguete c o m q ueijo d erre ti d o n o b alc ão .
— E u s e i d is so , W ill.
Torn o a o lh ar p ara tr á s à p ro cura d e E l, e m bora n ão a te nha v is to n o s e gund o te m po.
— E la f ic o u d oente h o je — i n fo rm a e le .
A a te nd ente m e o fe re ce u m p ra to d e p eito d e f r a ngo à m ila nesa , m as r e cuso c o m u m g esto .
— V ocê te m q ue c o nv encer E l a f a la r c o m ig o .
Ele f a z q ue n ão c o m a c ab eça.
— Q uand o é q ue a lg uém c o nv ence E lle n a f a ze r a lg um a c o is a ?
Ele te m r a zã o .
— Por fa v or, Tim . Faz alg um a co is a . E u posso m e enco ntr a r co m vocês um dia desse s no
e sta cio nam ento , o u, s e i lá , d e r e p ente v ocê p ode m arc ar u m e nco ntr o c o m e la n o g in ásio , e a í e u v ou n o
s e u l u gar.
— N ão v ou e nganar a E lle n p ara q ue e la f a le c o m v ocê. N ão q uero f ic ar n o m eio d is so .
Tim p aga p elo a lm oço e nq uanto a a te nd ente d á u m a o lh ad a n a m in ha b and eja v azia . P ego u m a ti g ela d e
g ela ti n a d e l im ão e l h e e ntr e go a lg um as m oed as, s e m e sp era r p elo tr o co .
— N ão v ai m e d iz e r q ue e la n ão e stá i n fe liz s e m m im .
— T ud o b em , e u p ro m eto q ue v ou te nta r. M as n ão v ejo c o m o i s so v á f a ze r a m eno r d ife re nça.
Bala nço a c ab eça m il v eze s, f in gin d o q ue e le n ão d is se a ú lti m a f r a se .
— O brig ad a. M uito o brig ad a.
— E u o deio a q uela ta l d e C allie — c o nfe ssa e le .

Sin to u m a o nd a d e a lív io n o p eito . N ão h á v ín culo m ais fo rte e ntr e a s p esso as d o q ue u m in im ig o
co m um .
Volto a p re ssa d a p ara a m esa o nd e d eix ei M itc h.
— F oi m al — p eço .
Mas e le n ão e stá a b orre cid o.
— N ão s o u m ais i m porta nte d o q ue u m s ú b ito d ese jo d e c o m er g ela ti n a.
Enfio u m a c o lh era d a n a b oca. E u p odia te r, p elo m eno s, p egad o a d e m ora ngo .
— O lh a s ó — d iz M itc h. — S em q uere r f o rç ar a b arra , a m in ha m ãe te m f a la d o e m f a ze r u m
mum
p ra
você u sa r n o H om eco m in g, e e u q ueria te r c erte za d e q ue n ão p egaria m al, s e i l á .
Sorrio .
— N ão , n ão “ p egaria m al, s e i l á ”.
Os m ensa geir o s d o v ento n a p orta d o C hili B ow l ti lin ta m m uito ra ra m ente , o q ue
sig nific a q ue e sto u s e m pre c o rre nd o o r is c o d e l e v ar u m s u sto q uand o i s so a co nte ce.
Ron, m eu ex-p atr ã o , entr a no re sta ura nte . C om o o in te rio r é ig ual a um a cab ana de to ra s co m
acessó rio s v erm elh o s, e le fic a p are cend o u m a b engala d e N ata l n o m eio d e u m d ep ósito d e m ad eir a s,
co m e ssa c am is a d e l is tr a s v erm elh as e c alç a b ra nca.
— R on — s u ssu rro , c o nto rn and o o b alc ão . — O q ue f a z p or a q ui?
— T alv ez e u q ueir a c o m er u m c hili — r e sp ond e e le , u m p ouco a lto d em ais .
Cru zo o s b ra ço s e l h e d ou o m elh o r o lh ar d e “ até p are ce” d o m eu r e p ertó rio .
— T ud o b em . — S ua v oz c ai a lg uns d ecib éis . — O lh a, e sta m os d ese sp era d os e c o m o q uad ro d e
fu ncio nário s r e d uzid ís sim o. L yd ia e stá c o m u m a c arg a h o rá ria d e s e sse nta h o ra s s e m anais p ara c o brir o
se u tu rn o , p orq ue to do m und o q ue c o ntr a ta m os a cab a e nco ntr a nd o c o is a m elh o r e in d o e m bora . E la e stá
am eaçand o p ed ir a s c o nta s, e e u n ão p osso m e d ar a o l u xo d e p erd ê-la .
Já e sto u f a ze nd o q ue n ão c o m a c ab eça a nte s m esm o d e e le te rm in ar.
— M e o uv e. — E le le v anta a m ão . — V ocê s e d em iti u à s p re ssa s. P osso e sta r v elh o , m as n ão s o u
burro . N ão s e i o q ue a co nte ceu, m as, s e ja lá o q ue fo r, p ro m eto q ue o s g aro to s v ão s e c o m porta r c o m o
cav alh eir o s d e a go ra e m d ia nte . D ep ois q ue v ocê fo i e m bora , e nco ste i o s d ois n a p are d e, M arc us e B o,
mas n ão c o nse gui a p ura r n ad a. — E le b ala nça a c ab eça, e v ejo a s r u gas d e e xaustã o a o r e d or d a b oca e
dos o lh o s. — D á m ais u m a c hance p ra g ente . E sto u te i m plo ra nd o, W ill.
Abro a b oca p ara d iz e r q ue n ão , m as n ão s a i n ad a. R on s e m pre fo i m uito b om c o m ig o , e a cho q ue
dev o a e le , p elo m eno s, f in gir q ue v ou p ensa r n o a ssu nto .
— E u te d ou u m a r e sp osta n o f im d e s e m ana. V ou te r q ue p ensa r p rim eir o .
Ele l e v anta a s m ão s.
— M uito r a zo áv el. M uito r a zo áv el. — T ir a a c arte ir a d o b ols o tr a se ir o d a c alç a. — V ou q uere r u m
bow l d e c hili.
Só v ejo m ais a lg uns c lie nte s a té o fim d a n o ite , o q ue m e d á te m po d e s o bra p ara
pensa r. N o c o m eço , s o u l ó gic a.
Você n ão g anha m eta de d o q ue g anhava n o
Harp y’s ,
e o s e u c a rro a in da e stá p re so n a o fic in a. P elo m en os, l á o m ovim en to é m uito m aio r, o q ue f a z o t e m po
passa r m ais r á pid o.
Entã o , le m bro c o m o te nho m e se nti d o so zin ha n essa s ú lti m as se m anas. M illie , H annah, A mand a e
Mitc h s ã o m uito l e gais — m ara v ilh o so s, n a v erd ad e. M as n enhum d ele s é E lle n. A i d eia d e v olta r p ara o
Harp y’s é te nta d ora c o m o u m a b arra d e c ho co la te n um m om ento d e tr is te za . E n ão é s ó p or c ausa d e B o.
Tam bém s in to s a ud ad es d e M arc us e R on.
Bo fo i a r a zã o d e e u te r id o e m bora . A r a zã o p or q ue n ão a guenta v a m ais tr a b alh ar lá . M as a go ra a
ra iv a q ue m e f o rc ei a s e nti r p are ce f a ls a . U m a e sp écie d e e ncenação d o q ue e u a chav a q ue d ev eria s e r. E
é ó bvio q ue e le ta m bém j á m e ti r o u d a c ab eça. N ão te nho c erte za , m as o uv i u ns b oato s s o bre e le e B ekah.
Se e u n ão fic ar m e le m bra nd o d os b eijo s q ue tr o cam os, ta lv ez a té p ossa m e c o nv encer d e q ue o s d ois
fo rm am um lin d o casa l. T êm q uím ic a. E ta lv ez essa ard ência no p eito q ue só p ode se r d e ciú m es
fin alm ente p asse .
Ante s d e s a ir d o tr a b alh o , f a ço u m a f a xin a g era l n a l o ja e r e ab aste ço o b alc ão d e c o nd im ento s, e m bora
já e ste ja p ra ti c am ente c o m ple to .
Ain da e sto u p en sa ndo,
d ig o a m im m esm a.
Ain da n ão m e d ecid i.
D ou
boa-n o ite a A le ja nd ro e e ntr o n o c arro d a m am ãe.
Em v ez d e d obra r à e sq uerd a d o C hili B ow l, m eu p é a fu nd a n o a cele ra d or e q uase v oo p ela r u a a fo ra
até o e sta cio nam ento d o H arp y’s . A go ra n ão p osso m ais v olta r a tr á s.

As p orta s d o s a lã o d e j a nta r e stã o tr a ncad as, m as b ato m esm o a ssim .
Marc us a b re o c ad ead o e m e d eix a e ntr a r.
— O paaa. O lá ! O q ue a co nte ceu, W ill? E stá c heir a nd o a c eb ola .
Bo m e o bse rv a d e tr á s d o b alc ão c o m o s o lh o s a rre gala d os e o q ueix o tr ê m ulo .
Não c o nsig o d esv ia r o s o lh o s d ele .
— R on e stá n o e sc ritó rio ? — p erg unto a M arc us.
Se ele ti r a sse o s o lh o s d o cad ead o em v ez d e fic ar m exend o naq uele chav eir ã o , v eria tu d o q ue
aco nte ceu e ntr e m im e B o, p orq ue n esse m om ento e stá c la ro c o m o á gua. E sc ancara d o. P ara q uem q uis e r
ver. E stá a li, n a c ara , e xp osto c o m o u m c o ra ção d ura nte u m a c ir u rg ia d e p eito a b erto .
— A cho q ue s im . — E le fin alm ente tr a nca a p orta à s m in has c o sta s. — M as v ocê a in d a n ão d is se o
que v eio f a ze r a q ui.
Não r e sp ond o. A m onta nha-ru ssa n o m eu e stô m ago m e l e v a p ela s a la d os f u ncio nário s a té o e sc ritó rio
de R on. D ou u m a b ati d in ha n a p orta a b erta .
Lyd ia , q ue e stá s e nta d a n um c aix o te d ia nte d a m esa d ele , s e v ir a a o m e o uv ir.
— A h, g ra ças a D eus. A c aix a p ró dig a à c asa to rn a! — E la s e l e v anta e p ega s e u m aço d e c ig arro s n a
mesa . — V ou d eix ar v ocês a s ó s. — D ep ois d e d ar a s c o sta s a R on, a b re u m s o rris in ho m in úsc ulo p ara
mim e f e cha a p orta .
Sem m e d ar a o tr a b alh o d e s e nta r, v ou l o go d iz e nd o a R on:
— Q uero u m a um ento . E ta m bém v ou p re cis a r d e d ois d ia s d e f o lg a p ara ... r e so lv er u m l a nce m eu a í.
Ron r e sp ond e s e m h esita ção :
— P osso te d ar u m a um ento d e s e te nta e c in co c enta v os. E v ou c o m bin ar u m n o vo h o rá rio c o m v ocê.
A g ente c hega a u m a co rd o.
— B ele za . — N ão e sp era v a q ue f o sse s e r tã o s im ple s a ssim . — B em , e ntã o , n egó cio f e chad o.
— V ocê e stá v olta nd o?
— E sto u.
— A quele c hili e sta v a h o rrív el. T ente i c o m er o tr o ço , m as L yd ia ti n ha â nsia s d e v ôm ito to da v ez q ue
passa v a p elo e sc ritó rio . A cho q ue e sta v a b rin cand o, m as, e nfim ...
— H orrív el é a p elid o.
Ele r i b aix in ho .
— E sto u fe liz p or v ocê te r v olta d o. — E le s e le v anta e m e le v a p ela c o zin ha a té o re sta ura nte . —
Pode c o m eçar a tr a b alh ar n a s e gund a?
— E sta re i a q ui.
Ele e ste nd e a m ão p ara m im e tr o cam os u m a p erto .
Volto p ara o c arro e nq uanto o o lh ar d e B o m e s e gue, e a s e nsa ção f a z s u rg ir u m a b ola d e f o go n o m eu
peito q ue s e e sp alh a c o m o o r a ia r d o s o l.

QUAREN TA
Avis e i a A le ja nd ro q ue v ou e m bora , e e le m e o lh o u c o m u m a r d e q uem p erg unta : “ M as
p or q ue d em oro u ta nto ?” P ro m ete u q ue e u s e m pre te ria u m e m pre go n o C hili B ow l e m e p ed iu p ara d ar
s e u n úm ero a E lle n. G uard ei o p ap elz in ho d obra d o n o b ols o e ju re i e sq uecer q ue o ti n ha c o lo cad o a li.
E sta v a u m a p ilh a d e n erv os q uand o c o nte i a M itc h q ue v olta ria p ara o H arp y’s , m as e le d eu d e o m bro s e
c o nti n uo u jo gand o o v id eo gam e. E ntã o m e o co rre u q ue e le n ão ti n ha m oti v os p ara fic ar c hate ad o. P ela
p rim eir a v ez, a o m is sã o d a m in ha h is tó ria c o m B o p are ceu u m a m enti r a .
Min ha p rim eir a n o ite n o H arp y’s c o rre n a m ais s a nta p az. M arc us m e b om bard eia c o m m il p erg unta s
s o bre o C hili B ow l, ti p o “ Q uem f a z o c hili? ” o u “ É v erd ad e q ue e le s n ão l a v am a s p anela s? ”.
Bo fic a n a d ele , tr a b alh and o n a c o zin ha, m as e ntr a m os n um a e sp écie d e jo go d e g ato e ra to c o m o s
o lh o s p or c im a d os b alc õ es. N a h o ra d o i n te rv alo d e B o, M arc us s e i n clin a p ara m im e d iz :
— E le q uase f o i d em iti d o d uas s e m anas d ep ois d e v ocê i r e m bora .
— O q uê? — D o je ito c o m o R on p in to u a s itu ação , n ão p odia s e d ar a o lu xo d e d em iti r n in guém ,
p orta nto n ão p osso i m agin ar o q ue B o te ria f e ito d e tã o g ra v e a ssim p ara q uase s e r d em iti d o.
— R on m and ou B o f ic ar n o b alc ão d a f r e nte e nq uanto e le tr a b alh av a n a c o zin ha, o q ue p or s i s ó j á f o i
u m a p éssim a i d eia , e a í c hegara m u ns c ara s d a e sc o la e m q ue e le e stu d av a e B o s e r e cuso u a a te nd ê-lo s.
A ssim , n a la ta , d is se q ue e le s n ão e ra m b em -v in d os. E o s c ara s c ria ra m o m aio r c aso . A té o s p ais
e ntr a ra m n a p ara d a, e , p ra e ncurta r a h is tó ria , o ú nic o je ito d e B o n ão p erd er o e m pre go se ria R on
c o lo cá-lo d e v olta n a c o zin ha.
— N ossa .
— O c ara é m uito lo uco . T enho p ra m im q ue o u e le v ai s e to rn ar u m s e ria l k ille r o u u m a str o d o
c in em a. C om e le , n ão te m m eio te rm o.
E e u g o sto d is so e m B o. O u v ocê e stá c o m e le , o u c o ntr a e le .
Marc us c o m eça a fa la r s o bre a s m il fa culd ad es q ue a n am ora d a, T iffa nie , a nd a v is ita nd o e c o m o e le
p re te nd e i r p ara a lg um a e sc o la té cnic a p erto d a q ue e la e sc o lh er. E m n enhum m om ento s e i n te rro m pe p ara
m e fa ze r u m a p erg unta o u p ed ir m in ha o pin iã o so bre o q ue e stá d iz e nd o, m as p are ce se nti r u m c erto
a lív io p or c o nv ers a r c o m a lg uém q ue n ão f iq ue e nchend o s e us o uv id os s o bre o s m oti v os p elo s q uais n ão
d ev eria p la neja r a v id a e m f u nção d e u m a n am ora d a. S ei l á . T alv ez o s d ois f a çam f a culd ad e, s e f o rm em ,
s e c ase m e s e ja m fe liz e s p ara s e m pre . S ó n ão q uero e ntr a r p ara a h is tó ria c o m o a id io ta c o m q uem e le
t r a b alh o u n um a l a ncho nete q ue p la nto u a s s e m ente s d a d úv id a n a s u a c ab eça.
Dep ois d a lim peza , ti r o a b ols a d o a rm ário e e nco ntr o u m p ir u lito v erm elh o n a p ra te le ir a . T ento n ão
s o rrir a o g uard á-lo n a b ols a .
Bo n ão fa z c o m entá rio s. N em o lh a p ara m im . M as, q uand o e sta m os in d o p ara a p orta , d ese m bru lh o o
p ir u lito e o c o lo co n a b oca.
É u m r a m o d e o liv eir a c o m s a b or d e c ere ja .
Quand o c hego e m c asa , e nco ntr o m am ãe a jo elh ad a d ia nte d e u m b anq uin ho , L acey
Sand ers d e p é e m c im a d ele c o m u m v esti d o d e b aile e B ekah C otte r s e nta d a n o s o fá ,
d ig ita nd o n o c elu la r.
— O i, D um plin ’ — d iz m am ãe, c o m v ário s a lfin ete s p re so s n o s l á b io s. — L acey, c o m o é q ue e stá e ssa
b ain ha, q uerid a? N ão p ode s u b ir m ais d o q ue i s so c o m a q uele s s a lto s, o uv iu ?
Lacey e sto ura o c hic le te e s o pra u m a b ola .
— S im , s e nho ra .
Muita s c o is a s a co nte cem d ura nte a te m pora d a d o c o ncurs o , m as m am ãe r e fo rm and o v esti d os n o m eio
d a s a la é n o vid ad e. E o p io r é q ue, c o m B ekah a q ui e m c asa , m eu c ére b ro e ntr o u n o m odo d e a le rta
m áxim o d aq uele s v id eo gam es d e M itc h, c o m le tr a s v erm elh as p is c and o a cim a d a c ab eça d a g aro ta :
A LV O . A LV O .
Não p ega n ad a b em ir p ara o q uarto e d eix ar to das e la s n a s a la , p or is so m e s e nto n o s o fá e e sta lo a
l ín gua a té R io t s a ir d o s e u e sc o nd erijo .
Bekah l e v anta o s o lh o s d o c elu la r e s e v ir a p ara m im .
— A h, o i. V ocê n ão tr a b alh a n o H arp y’s ? D ev e c o nhecer o B o. — E la n em s a b e q ue s o u u m a a m eaça;
c o m o p oderia s a b er?

Lacey g ir a o c o rp o e v ejo a e xp re ssã o a p av ora d a d e m am ãe.
— L acey, q uerid a, v ocê te m q ue f ic ar p ara d a.
— D esc ulp e, S ra . D . — E la s o pra o utr a b ola d e c hic le te .
Dou u m a o lh ad a n o m eu u nifo rm e.
— E u c o nheci o B o n o v erã o , e s ó v olte i a tr a b alh ar lá h o je . P or q uê? — M eu to m é rís p id o, m as
Bekah p are ce n ão n o ta r.
— A quele c ara é e str a nho — c o m enta L acey.
— E le v ai se r m eu a co m panhante n o c o ncurs o — in fo rm a B ekah. — Q uer d iz e r, a in d a n ão fiz o
co nv ite , m as a cho q ue e le v ai a ceita r.
— P ois é ... — d iz L acey p ara B ekah. — A ti m id ez d ele p ode s e r... — e la a b aix a a v oz — ...
um a
merd a
, m as, p elo m eno s, e le v ai fic ar b em d e sm okin g. T alv ez a té te d eix e fa ze r m ala b are s... c o m o
bastã o d ele .
Sin to v onta d e d e v om ita r. N os s a p ato s d ela .
— M enin as! — r e p re end e m am ãe, l e v anta nd o a v oz.
Bekah a b re u m s o rris o .
— É q ue n ó s f o m os j u nto s a o B aile d a M aria C eb ola — e xp lic a e la .
Ig no ra nd o o s p ro te sto s d e R io t, p onho -o d eb aix o d o b ra ço e m e l e v anto p ara i r p ara o q uarto .
— B elo v esti d o, L acey.
Eu m e s e nto n a c am a, a in d a d e u nifo rm e, e e sc re v o m ensa gens p ara E lle n q ue n unca v ou e nv ia r. D ou
um a o lh ad a p ara v er s e p erd i a lg um a d o T im . T oda v ez q ue o v ejo n a e sc o la , e sp ero a lg um ti p o d e o lh ar
cúm plic e, m as o m áxim o q ue e le m e d eu a té a go ra f o i u m tí m id o a p erto d e m ão .
Dep ois d e u m te m po, m am ãe b ate à p orta e e ntr a s e m e sp era r q ue e u d ê p erm is sã o .
— E sto u re fo rm and o v esti d os e ste a no p ara fa tu ra r u m d in heir in ho e xtr a . — E la ti r a o e lá sti c o d os
cab elo s e o s p ente ia c o m o s d ed os.
— V ocê p odia te r, p elo m eno s, m e a v is a d o. — B ekah C otte r. N o m eu s o fá . N ão e sto u m ais s e gura n em
na m in ha p ró pria c asa . M as, e ntã o , n o to a s o lh eir a s f u nd as d e m am ãe. — D esc ulp a.
Ela f a z q ue s im .
— P or p ouco v ocê n ão e nco ntr a a E lle n. E la d eu u m p ulo a q ui c o m a m ãe.
— E la e ste v e a q ui? — N a m esm a h o ra m eus o lh o s s e e nchem d e l á grim as q uere nd o s e d erra m ar.
— S ó p ara f a ze r a b ain ha d o v esti d o. V ocê c o nhece a q uela m enin a. P ode c o m pra r q ualq uer v esti d o d e
baile s e m n em e xp erim enta r, e a in d a a ssim c ai c o m o u m a l u v a n ela .
— H um -h um . — N em s e i o q ue e la v ai u sa r n o c o ncurs o . O u q ue ta le nto v ai a p re se nta r. O u s e já
co m eço u a f a ze r o a d ere ço p ara o n úm ero d e a b ertu ra .
— A fin al, o q ue é q ue e stá h av end o e ntr e v ocês d uas?
— E u e E l? — D ou d e o m bro s. — S ó u m a d ife re nça d e o pin iõ es.
— V ocês v ão fa ze r a s p aze s. E u e L u s e m pre fa zía m os. — E la a v ança m ais a lg uns p asso s e s e s e nta
ao s p és d a m in ha c am a. T ento m e le m bra r d a ú lti m a v ez q ue a v i a co m odad a a li, m as n enhum a im agem
me o co rre , e é c o m o u m a d essa s le m bra nças q ue a g ente p ensa q ue sã o re ais , m as n ão sã o , a p enas
go sta ria q ue f o sse m . — J á p enso u n o s tr a je s q ue v ai u sa r n o c o ncurs o ?
— H um , n ão m uito . — M ord o a p ele a o r e d or d a u nha d o p ole gar. — M ãe, v ocê s e nte s a ud ad es d ela ?
— D e q uem ?
Acho h o rrív el q ue e la n ão s a ib a p or i n tu iç ão .
— L ucy.
— L u. — E la p ro nuncia o a p elid o c o m o s e s o lta sse o a r. — S in to . É c la ro . O te m po to do.
Fic am os e m s ilê ncio p or u m m om ento .
— N o a no e m q ue v enci o c o ncurs o , e la p asso u u m a n o ite in te ir a a co rd ad a p re gand o la nte jo ula s n o
meu v esti d o. Q ue e u ti n ha c o m pra d o n um b re chó . F ale i p ra e la q ue n in guém n o ta ria a lg um as la nte jo ula s
fa lta nd o, m as e la n em s e a b alo u, d iz e nd o q ue a d ife re nça e ntr e a v itó ria e a d erro ta e stá n o s d eta lh es.
As b rig as e ntr e a s d uas o cup am ta nto e sp aço n a m in ha m em ória , q ue à s v eze s c hego a m e e sq uecer d e
que, a cim a d e tu d o, e la s s e a m av am .
Mam ãe s e l e v anta d a c am a.
— O s v esti d os d a b uti q ue d a C in d y s ã o c arís sim os e e la te ria q ue e nco m end ar u m p ara v ocê, m as
ta lv ez n ó s m esm as p ossa m os f a ze r u m .
Quero m e s e nti r g ra ta p or i s so , p or e la ti r a r a c o ro a d e e x-ra in ha d o c o ncurs o p ara s e r s ó m in ha m ãe.
Mas n ão p are ce s e r o s u fic ie nte .
— À s v eze s — d ig o — , p enso q ue n ão s e ria c ap az d e s e nti r m ais s a ud ad es d e L ucy d o q ue já s in to ,
mas a í s u rg e a lg um a c o is a , c o m o a n ecessid ad e d e c o m pra r u m v esti d o, e e u m e le m bro d e tu d o q ue e la

não v ai e sta r a q ui p ara v er.
Pela p rim eir a v ez e m m uito te m po, m am ãe n ão d iz u m a p ala v ra . N unca m e d ei c o nta d o q uanto f a lta v a
na n o ssa r e la ção a té o m om ento e m q ue L ucy já n ão e sta v a m ais a q ui p ara p re encher a s la cunas. A go ra ,
so m os s ó n ó s d uas, ta te and o n o e sc uro .

QUAREN TA E U M
Hoje é o d ia d o H om eco m in g, e a e sc o la v ir o u a m aio r m uv uca. A a gend a d o d ia e stá
l o ta d a d e e xib iç õ es d e c heerle ad ers , c o m peti ç õ es e v is ita s d e e x-a lu no s. Q uand o m e s e nto a o la d o d e
M itc h n o s e gund o te m po, l o go e nco ntr o n a c arte ir a u m
mum
a zu l, a m are lo e b ra nco . E no rm e. L ongas f ita s
c in ti la nte s a d orn am u m b uq uê d e c ris â nte m os a rti fic ia is , c o m u m c asa l fo fin ho d e u rs in ho s d e p elú cia
c o la d os: e le d e u nifo rm e d e fu te b ol a m eric ano , e la d e v esti d o c o r-d e-ro sa e ti a ra . O s
mum s
s ã o c o m o a
b oa c o m id a: o s m elh o re s s ã o o s f e ito s e m c asa .
— U au! — C hego a p erd er o f ô le go .
— N ão g o sto u? — p erg unta M itc h, q ue u sa u m a v ers ã o m eno r d o m eu
mum
n a b ra çad eir a d e c ap itã o .
E stá c o m o c ab elo p ente ad o e a c am is a d o ti m e p ara d entr o d a c alç a. — M in ha m ãe, à s v eze s, e xagera u m
p ouco , e e nfim , n ão p osso n em ...
Eu m e s e nto p esa d am ente n a c arte ir a .
— N ão , n ão é i s so . E u a d ore i. N unca ti n ha g anhad o u m
mum
. O brig ad a. D e c o ra ção .
— M as...?
Susp ir o .
— V ou te r q ue tr a b alh ar à n o ite .
Ele s o rri, m as o r o sto e stá c o ntr a íd o d e d ecep ção .
— I m agin o q ue v ocê n ão te nha c o m o s e l iv ra r d is so , n ão é ?
— Q uem m e d era . — E sto u s e nd o h o nesta . — M as a cab ei d e v olta r a o H arp y’s , e ta m bém v ou te r q ue
r e se rv ar u m te m po p ara o c o ncurs o .
Ele a p erta m in ha m ão .
— T ud o b em . P elo m eno s, a m anhã é H allo w een.
Por u m m om ento , m e d is tr a io c o m a e ntr a d a d e E lle n e C allie n a sa la , a s d uas rin d o e tr o cand o
c o m entá rio s s o bre a s fa nta sia s q ue p la neja m u sa r a m anhã à n o ite . E u d ete sta v a m e fa nta sia r c o m E lle n.
E la ti n ha m ania d e c o ord enar p are s d e f a nta sia s q ue c o ub esse m e m n ó s d uas, m as, p or m ais q ue te nta sse ,
n unca d av a m uito c erto . E la n em s e d ig na a o lh ar n a m in ha d ir e ção .
Há m il c o is a s d e q ue n ão c o nsig o m e l e m bra r. C om o a ta b ela p erió dic a. O a niv ers á rio d a m am ãe. O u
m esm o o s e gre d o d o c ad ead o d o m eu a rm ário n o H arp y’s .
Mas, se h á u m a d e q ue n ão c o nsig o m e e sq uecer, sã o a s p ala v ra s q ue e la d is p aro u c o ntr a m im à
q ueim a-ro up a.
Ta lv ez a n ossa a m iz a de t e n ha m esm o f ic a do n o p assa do. T a lv ez e ste ja m os e m pata ndo a v id a u m a d a
o utr a . E u p erc o u m m ilh ão d e c o is a s p or s u a c a usa .
Com o e u o deio c ad a u m a d ela s. C om o e u o deio q ue e la p ense q ue e stá m elh o r s e m m im . Q ue m e v eja
c o m o u m a g o rd a d ig na d e p ena q ue f ic a s e a rra sta nd o n o s s e us c alc anhare s.
Eu s e i q ue d ev eria m e d esc ulp ar.
Mas ta lv ez e la ta m bém d ev esse .
Uso o
mum
d ura nte o d ia in te ir o . É tã o g ra nd e q ue s o u o brig ad a a p end urá -lo n o p esc o ço . H annah e
A mand a d eb ocham d e m im ; M illie a cha a d orá v el. M as, n o fim d o d ia , o p eso d o tr o ço m e d eix a c o m o
p esc o ço d olo rid o e o s o m bro s c urv ad os.
Para o H allo w een, R on n o s p ed e p ara u sa r fa nta sia s, p ois a A sso cia ção d e P ais e
Mestr e s d o e nsin o fu nd am enta l v ai d ar u m a fe sta e sc o nd end o o s d oces n o s p orta -
m ala s d os carro s em no sso esta cio nam ento . C om o eu d is se a M itc h d ura nte o M ais C onstr a nged or
E nco ntr o d e T odos o s T em pos, o H allo w een não fa z m uito o m eu gênero . C om exceção d as fe sta s
e sc o la re s, m am ãe n unca m e le v ou a p arte a lg um a. Q uer d iz e r, a lé m d a “ fe sta d a c o lh eita ” d a ig re ja , q ue
e ra s ó u m d is fa rc e p ara a d o H allo w een p ro pria m ente d ita . A lé m d is so , s ó p odía m os n o s fa nta sia r d e
p ers o nagens b íb lic o s. P ara o s garo to s, is so não é um p ro ble m a, m as p ara as m enin as só re sta E va
( a lg uém a í e stá a f im d e u sa r u m b iq uín i d e f o lh as? ), E ste r, a V ir g em M aria o u u m a p ro sti tu ta . E a in d a p or
c im a n ão te nho n o m eu a rs e nal o utr a c o is a a lé m d a B etty d a d up la B etty & W ilm a d os F lin ts to nes, q ue E l
e e u u sa m os h á a lg uns a no s.
Ron e stá to do d e p re to , c o m o Z orro , c o m u m a e sp ad a d e p lá sti c o p re sa à c in tu ra .
— E u j á ti n ha i m agin ad o q ue n enhum d e v ocês i r ia s e f a nta sia r. — E le p õe u m a c aix a d e p ap elã o e m

cim a d o b alc ão . — T ro uxe u ns c hap éus e o utr o s b ad ula q ues d o te atr o d a i g re ja .
Marc us p ega u m a e sp écie d e ti a ra c o m c hifr e s d e d ia b o n a c aix a e a i n sp ecio na.
— O q ue é i s so , a lg um a s o bra d o A uto d o I n fe rn o d o a no p assa d o?
Ron ti r a o s c hifr e s d a m ão d ele e o s r e co lo ca n a c aix a.
— V am os esc o lh er co is a s m eno s polê m ic as. E os doces sã o só para as cria nças, não para os
ad ole sc ente s. — E le s a i d a l o ja e v ai a té a m áq uin a d e p ip oca q ue p ôs n a c alç ad a, p ara d is tr ib uir s a co s
in te ir o s d e b rin d e.
Bo ti r a u m b oné d e m aq uin is ta lis tr a d o d e a zu l e b ra nco e p assa a m ão p or c im a d o m eu o m bro p ara
pegar u m p ir u lito n a ti g ela d e d oces. A pesa r d a o rd em d e R on, M arc us c o lo ca a ti a ra c o m o s c hifr e s, e e u
pego a fa ix a d e te sta b ord ad a d e la nte jo ula s e e nfe ita d a p or u m a lo nga p lu m a b ra nca, n o e sti lo d as
melin d ro sa s.
Com exceção de um ou outr o garo to quere nd o ja nta r, o H arp y’s está se m m ovim ento . F ic o tã o
ente d ia d a q ue c o m eço a l im par a g ela d eir a d os f u ncio nário s. Q uand o te rm in o , d ou d e c ara c o m C allie e o
nam ora d o, B ry ce, p ara d os d ia nte d o b alc ão . E le e stá d e je ans e u m a c am is e ta r e co rta d a p ara s e p are cer
co m a tú nic a d o P ete r P an, e nq ua nto e la te nta s e p assa r p or u m a v ers ã o d a W end y, c o m u m a c am is o lin ha
azu l s e xy.
— O q ue v ocês e stã o f a ze nd o a q ui? — C ad a p ala v ra c ai c o m o u m a g o ta d e á cid o.
— N ossa ! — e xcla m a C allie . — A a gre ssiv id ad e d e a lg uém e stá e le v ad a à e nésim a p otê ncia .
A c am pain ha a cim a d a p orta ti lin ta , e a s itu ação v ai d e m al a p io r. E lle n e stá fa nta sia d a d e T in ker
Bell, e, sin cera m ente , ap esa r d e se r um a d as garo ta s m ais alta s q ue co nheço , ela fic a p erfe ita na
pers o nagem . T im e stá d e C ap itã o G ancho e , a o c o ntr á rio d e B ry ce, l e v ou a p ro dução m uito a s é rio .
Ai, q ue ó dio . T er q ue v er a g ale rin ha to da fa nta sia d a — fe ito id io ta s — d a m esm a h is tó ria . T er q ue
ver E l f a ze nd o e sse a r d e q ue e sto u v io la nd o s e u e sp aço p elo s im ple s f a to d e r e sp ir a r o m esm o a r.
Os o lh o s d e T im s e a rre gala m p or u m s e gund o, e nq uanto E l m anté m o s s e us fix o s n o c hão . T ento n ão
so lta r u m “ ah!” . F oi e le q uem b olo u e sse e nco ntr o . F oi e le q uem c o nv enceu E l a v ir a q ui. T eria p re fe rid o
que n ão tr o uxesse C allie e B ry ce, m as e ssa é a m in ha c hance e te nho q ue a p ro veitá -la .
Elle n l e v anta o s o lh o s.
— P ense i q ue v ocê n ão tr a b alh av a m ais a q ui. — E é s ó o q ue e la te m a d iz e r. D ep ois d e to das e ssa s
se m anas d e s ilê ncio , é s ó o q ue e la d ecla ra .
— V olte i. — A pesa r d a n o ssa p la te ia , o m om ento p are ce e xtr e m am ente p esso al. — O i, T im .
Ele m e c um prim enta c o m a c ab eça, se m fa ze r m ais d o q ue re co nhecer a m in ha e xis tê ncia . T enho
vonta d e d e c ham á-lo d e tr a id or, m as é ó bvio d e q ue l a d o e le e stá .
— V am os n essa — d iz E l.
— É s ó i s so ? E u n ão f a lo c o m v ocê h á s e m anas, e é s ó i s so ? — P osso s e nti r q ue a go ra M arc us e B o
ta m bém e stã o o lh and o.
Callie s e v ir a p ara E lle n.
— V ocê n ão d ev e n ad a a e la .
Os o lh o s d e E l n ão s e m ovem .
— E sto u i n d o m uito b em s e m a g ente s e f a la r, p orta nto , s im , a cho q ue é s ó i s so .
Os q uatr o s a em d a l o ja e , n esse m om ento , T im d á d e o m bro s p ara m im .
Marc us e B o tê m j u íz o o b asta nte p ara n ão p erg unta r o q ue e stá a co nte cend o.
Marc us p assa o in te rv alo n o e sta cio nam ento , in d o d e u m a c am in ho nete à o utr a c o m
um a s a co la d e p ap el d o H arp y’s .
— G oste i d a p lu m a — d iz B o, a p onta nd o p ara o s m eus c ab elo s.
Já ti n ha a té m e e sq uecid o d e q ue e sto u u sa nd o e sse a d ere ço . N ão p ara v a d e p ensa r e m E lle n. N ão
co nsig o a cre d ita r n o q ue a co nte ceu. U m a p arte d e m im s e a p egav a à e sp era nça d e q ue e nco ntr a ría m os u m
je ito d e q ueb ra r o g elo — e d e q ue tu d o fic aria b em . M as n ão fic o u. L ev o a m ão à p lu m a, q ue m e fa z
có cegas n o s d ed os.
— V ale u. O brig ad a.
— F ic o f e liz q ue v ocê te nha v olta d o.
Bala nço a c ab eça. T am bém e sto u fe liz . E sse p é-s u jo é u m p ed acin ho d o m eu m und o. E B o ta m bém .
Gosta ria q ue n ão f o sse v erd ad e, m as é .
Ele ti r a o b oné d e m aq uin is ta e to rn a a a je itá -lo n a c ab eça.
— E m e d esc ulp e p or te r f e ito c o m q ue v ocê q uis e sse i r e m bora .
— T ud o b em . — F ic o arru m and o se m p ara r a m esm a p ilh a d e sa co la s d a lo ja . — T em se nti d o

sa ud ad es d a H oly C ro ss?
Ele s o rri.
— P ara s e r f r a nco , s ó d o u nifo rm e.
— C om o a ssim ? P or q uê?
— S ei lá . É le gal n ão te r q ue p ensa r n o q ue v esti r q uand o a co rd o. — E le p assa o p ole gar p elo lá b io
in fe rio r. — A cho q ue d á p ra d iz e r q ue n ão m e s in to m uito b em d e m anhã c ed in ho . — O uv i- lo f a la r ta nto
dep ois d e d ois m ese s d e s ilê ncio é c o m o s e r p ega d e s u rp re sa p or u m te m pora l d ep ois d e u m a lo nga
esti a gem . — E o m eu i r m ão e stá o dia nd o. — E le r ó i a p ele e m v olta d a u nha d o p ole gar p or u m s e gund o
ante s d e a cre sc enta r: — E f o i p or m in ha c ulp a q ue n ó s ti v em os q ue s a ir d e l á .
Já e sto u p re ste s a p erg unta r p or q uê, q uand o M arc us to rn a a e ntr a r.
— G ente , a s m ães n ão e stã o f a ze nd o a m eno r c erim ônia c o m o s d oces!
Coro a té a r a iz d os c ab elo s, c o m o s e ti v ésse m os s id o f la gra d os d ura nte u m a m asso .
No f im d a n o ite , s a ím os to dos j u nto s d o r e sta ura nte , M arc us e B o z o and o a f a nta sia d e Z orro d o R on.
Bo a in d a e stá c o m o b oné d e m aq uin is ta , e n ão p osso n em o lh ar p ara e le s e m c o m eçar a s o rrir f e ito u m a
perfe ita i d io ta .
No e sta cio nam ento , d ep aro c o m M itc h e nco sta d o n o m eu c arro .
Sei q ue é h o rrív el d a m in ha p arte , m as n ão m e a gra d ou n ad a e nco ntr á -lo a li. S ou d essa s p esso as q ue
não g o sta m q ue a c o m id a s e m is tu re n o p ra to . Q uero q ue M itc h f iq ue d o l a d o d e l á , n ão d o l a d o d e c á.
— B om ... — d ig o a M arc us e B o. — V ejo v ocês m ais ta rd e. — E m e v ir o p ara M itc h. P ode s e r
fis ic am ente im possív el, m as s in to o p eso d o o lh ar d e B o n as m in has c o sta s. — H um , o i! Q ue fa nta sia
maneir a .
Mitc h e stá v esti d o d e I n d ia na J o nes, c o m u m a c alç a c áq ui, u m a j a q ueta d e a v ia d or e u m c hap éu d e a b a
la rg a.
— É n o ite d e s á b ad o — d iz e le . — H allo w een.
Com eço a r ir.
— N o m eu v ocab ulá rio , i s so s ig nific a “ q uero i r p ara c asa ”.
— N egati v o. N em p ensa r! V ou te m ostr a r p or q ue o H allo w een é o m áxim o. V am os. E ntr a a í.
— N ão e sto u f a nta sia d a.
Ele d á d e o m bro s.
— V ocê p ode i r d e f u ncio nária d e l a ncho nete . O u d e e nfe rm eir a .
Meus se nti m ento s p or e le p assa m d o fr io p ara o q uente , d o q uente p ara o fr io . G osta ria q ue n ão
esti v esse a q ui. G osto q ue e ste ja a q ui. E le e stá i n v ad in d o o m eu e sp aço . P oderia c hegar m ais p erto . S in to
um s o rris o s e e sb oçar n o s m eus l á b io s.
— T ud o b em . E ntã o p ro ve q ue e u e sto u e rra d a.

QUAREN TA E D O IS
De d entr o d o c arro , m and o u m a m ensa gem p ara m am ãe, a v is a nd o q ue v ou v olta r u m
p ouco ta rd e, m as e nco ntr o o utr a à m in ha e sp era .
BO : F ic o f e liz q ue v ocê te nha v olta d o.
Mord o o s l á b io s e p onho o c elu la r n o p orta -c o po.
Mitc h m e le v a a té S to neb rid ge, o b air ro m ais c hiq ue d e C lo ver C ity . Q uer d iz e r, c hiq ue p ara o s
p ad rõ es d e C lo ver C ity , m as fo i c o nstr u íd o n a ú lti m a d écad a e te m p ortõ es. Q ue p or s in al e stã o s e m pre
a b erto s, m as, e nfim ...
Dep ois d e e sta cio nar a le ato ria m ente n um a r u a d o b air ro , e le j o ga u m a f r o nha p ara m im .
— E sp era a í. A g ente n ão p ode s a ir b ate nd o d e p orta e m p orta a e ssa h o ra p ara p ed ir d oces.
— N ão é tã o ta rd e a ssim .
— J á p asso u d a m eia -n o ite .
— B om , m as n ó s v am os. — D e r e p ente , M itc h s e v ir a e c o m eça a v olta r. — E sq ueci u m a c o is a . — D á
u m a c o rrid in ha a té o c arro e r e to rn a c o m u m c hic o te m arro m e nro la d o e m v olta d o p uls o .
— E stá te nta nd o m e a ssu sta r c o m e sse tr o ço ?
— C om o a ssim ? É s ó p ara d ar a ute nti c id ad e à f a nta sia .
Cam in ham os n o m eio d a ru a p or a lg um te m po, p ro cura nd o u m a c asa q ue a in d a e ste ja c o m a s lu ze s
a cesa s. A s c alç ad as s ã o l is a s, c la rin has, n em u m p ouco p are cid as c o m a s d o b air ro o nd e e u c re sc i, tu d o
r e m end ad o, o asfa lto to m ad o d e ta p a-b ura co s. T odas as casa s sã o am pla s e im ponente s, m as m uito
e sp re m id as, c o m ti r in has í n fim as d e g ra m a b em tr a ta d a e ntr e e la s.
Quand o e sse b air ro a in d a e sta v a e m c o nstr u ção , m am ãe e L ucy c o stu m av am v ir a q ui d e ta nta s e m
t a nta s s e m anas, c o m ig o n o b anco tr a se ir o . F ic áv am os v end o a s r u as s e nd o a b erta s e a s m ansõ es e rig id as.
L em bro q ue a s n o vas p la cas d e r u as m e d eix av am f a sc in ad a, c o m o s e a ssin ala sse m u m te rritó rio v ir g em
r e cém -d esc o berto q ue é ra m os d as p rim eir a s a v is ita r. E u n ão ti n ha c o nhecim ento d e c o m o C lo ver C ity
e ra p eq uena, m as, p ara m im , e ra a q ui q ue v iv ia m to das a s p esso as g la m oro sa s: e str e la s d e c in em a,
m úsic o s, to p m odels . E , n a é p oca, m am ãe a in d a e ra g la m oro sa p ara m im . P or i s so , e u a chav a q ue u m d ia
n ó s tr ê s te ría m os u m a m ansã o l u xuo sa .
Nossa p rim eir a p ara d a é u m a c asa d e ti jo lo s v erm elh o s, c o m u m a a m pla j a nela d e s a cad a e u m l u str e
c in ti la nte v is ív el d a ru a. M itc h to ca a c am pain ha, e m e p osic io no u m p ouco a tr á s d ele . J á é ta rd e, e a
p esso a q ue a te nd er n ão v ai f ic ar e ufó ric a a o e nco ntr a r d ois a d ole sc ente s p ara d os d o o utr o l a d o d a p orta .
Nin guém a te nd e. M itc h to ca d e n o vo.
Com eço a r e cuar n a c alç ad a.
— N ão e stã o a te nd end o. V am os e m bora .
— E sp era ! — p ed e e le .
A p orta s e e ntr e ab re e a p are ce u m a m ulh er v esti n d o u m ro up ão , c o m g o ta s d ’á gua e sc o rre nd o p elo
p esc o ço e o c ab elo e nro la d o n um a to alh a. J á te m m uita id ad e p ara s e r m in ha m ãe, m as n ão o b asta nte
p ara s e r m in ha a v ó.
— P osso a ju d á-lo s?
Mitc h e ste nd e a f r o nha s e m a m eno r h esita ção .
— D oces o u tr a v essu ra s!
A m ulh er f a z u m a r d e q uem a co rd ou e m o utr o f u so h o rá rio .
— A h. — E la l e v anta o p uls o p ara d ar u m a o lh ad a n a h o ra , m as e stá s e m r e ló gio . — T ud o b em .
Ela f e cha q uase to ta lm ente a p orta e v olta m om ento s d ep ois c o m u m p ir e x c heio d e d oces. S em p ensa r
d uas v eze s, d esp eja m eta d e d entr o d a f r o nha d e M itc h.
Ele m e d á u m a c utu cad a e , a p esa r d e e sta r m e s e nti n d o u m a i d io ta , a b ro m in ha f r o nha.
Ela d esp eja o s d oces r e sta nte s. D ev e e sta r p ensa nd o q ue, s e d ois a lu no s d o e nsin o m éd io tê m c o ra gem
d e ir p ed ir d oces a e ssa h o ra d a n o ite n o b air ro m ais lu xuo so d a c id ad e, e le s m ere cem m esm o g anhar
a lg uns.
A S enho ra d o R oup ão d á ta p in has n a b arrig a.
— É m elh o r m esm o e u n ão f ic ar c o m tu d o i s so d entr o d e c asa .
Mitc h l e v anta a a b a d o c hap éu.
— G ra cia s, s e ñ orita .

Quand o e sta m os v olta nd o p elo j a rd im , e le b ate c o m o o m bro n o m eu.
— V iu s ó ? F oi d iv erti d o.
A m aio ria d os m ora d ore s q ue v is ita m os te m a m esm a r e ação d a S enho ra d o R oup ão : o u d em ora m a
ate nd er, o u n ão a te nd em , o u a té a p agam a s l u ze s q uand o n o s v eem d ia nte d a c asa .
Em u m a d ela s, s o m os re ceb id os p or u m v elh o d e c ueca. O ro sto é m arc ad o p or u m a q uanti d ad e d e
ru gas tã o f u nd as, q ue e le p are ce u m b oneco d e c era s e d erre te nd o.
— F ora d aq ui, s e us v ând alo s d o i n fe rn o ! — g rita .
— D oces o u tr a v essu ra s! — M itc h e le v a a v oz p or c ausa d os l a ti d os d e u m c acho rro a tr á s d o s u je ito .
— P ois e u já m ostr o a v ocês o q ue é u m a tr a v essu ra ! — O v elh o e sc ancara a p orta , r e v ela nd o u m a
esp in gard a a o l a d o. — V ou é p assa r c hum bo g ro sso n o r a b o d e v ocês!
Mitc h s e gura a m in ha m ão .
— C orre , c o rre , c o rre !
Cru za m os o ja rd im e m a lta v elo cid ad e e d obra m os a e sq uin a, e nq uanto u m a g arg alh ad a s in is tr a e co a
atr á s d e n ó s.
Quand o já esta m os a um a d is tâ ncia se gura , fin alm ente p aro , co m as m ão s no s jo elh o s. N ós d ois
esta m os o fe gante s.
— A quele . B ab aca. D oid o. — R esp ir o f u nd o. — P oderia te r n o s m ata d o.
— Q ue n ad a — d iz M itc h. — S ó q uis d ar u m s u sto n a g ente .
End ir e ito a s c o sta s, d eix and o q ue o s m úsc ulo s s e a lo nguem .
— M is sã o c um prid a.
Exib o a f r o nha c heia d e d oces, m uito m ais p esa d a d o q ue ti n ha e sp era d o q ue f ic asse .
Mitc h l e v anta o d ed o e e str e m ece u m p ouco .
— M ais u m a c asa — p ed e. — P or f a v or?
Ao l u ar, e le p are ce d ife re nte . Q uase m is te rio so . T alv ez a té b onito . D eix o e sc ap ar u m a r is a d in ha.
— A ú lti m a — r e sp ond o. — E sc o lh a c o m s a b ed oria .
Ele e sc o lh e u m a m ansã o b ra nca, c o m u m l o ngo j a rd im , n o f im d e u m a r u a s e m s a íd a.
Mitc h to ca a c am pain ha e , d ep ois d e a lg uns m in uto s, u m a m ulh er c o m c ara d e e xausta , u sa nd o u m
chap éu d e b ru xa e u m c o nju nto d e m ole to m , a te nd e a p orta .
— A h, q ue p ena — m urm ura , a nte s q ue M itc h te nha c hance d e d iz e r “ d oces o u tr a v essu ra s!” . —
Nosso s d oces j á a cab ara m f a z te m po.
— In d ia na J o nes! — g rita u m g aro ti n ho c o m u m a fa nta sia d e p ir a ta a lg uns p asso s a tr á s d ela . É u m a
fa nta sia f e ita e m c asa . D aq uela s q ue s ã o c o nfe ccio nad as c o m g ra nd e a te nção a o s d eta lh es. — I r a d o!
Mitc h a b re u m s o rris o r a d ia nte .
— T ud o b em — r e sp ond o à m ulh er. — E sta m os s ó b rin cand o u m p ouco . J á e stá m esm o n a h o ra d e i r
para c asa .
Ela n o s d ese ja u m a b oa-n o ite .
Já e sta m os n a m eta d e d o j a rd im , q uand o o uv im os o g aro ti n ho g rita r: “ E i! E i! E sp ere m a í!” O P eq ueno
Pir a ta v em c o rre nd o n a n o ssa d ir e ção c o m u m a a b óbora d e p lá sti c o s u sp ensa n a m ão . Q uase e sc o rre ga a o
para r d ia nte d e n ó s, e e ste nd e u m d oce p ara c ad a u m .
— O brig ad o, r a p azin ho . S ua f a nta sia d e p ir a ta é
muuuito
m aneir a . — M itc h n ão s e d ir ig e a e le c o m o
se f o sse s ó u m p ir ra lh o q ualq uer. P orq ue, p ara M itc h, e le n ão é . P ara M itc h, to do m und o é a lg uém .
O g aro ti n ho v olta c o rre nd o p ara c asa , o nd e s u a m ãe e sp era à p orta .
Senta m os n o m eio -fio c o m a s f r o nhas c aíd as a o s n o sso s p és. É a p rim eir a n o ite d o a no q ue m ostr a q ue
o o uto no p ode e sta r c hegand o, e u m a b ris a f r ia p enetr a a té o f u nd o d os m eus o sso s s u lis ta s.
— E u n ão te d is se q ue o H allo w een é o m áxim o? — r e le m bra M itc h.
Reso lv o m e d eita r u m p ouco n o g ra m ad o d e a lg um ric o (a v erd ad eir a g ra m a d o T exas é á sp era e
marro m ), e ntr e a r u a e a c alç ad a.
— F oi l e gal.
— Q uand o a q uele g aro to m e v iu , e le v iu o In d ia na J o nes. N ão u m c ara q ue e rro u to dos o s la nces n a
parti d a d e o nte m à n o ite . O u q ue p assa o d ia i n te ir o j o gand o v id eo gam e. P ara e le , e u e ra o utr a p esso a. —
Ele s e d eita a o m eu l a d o.
— M as v ocê n ão te m a s e nsa ção d e e sta r s e e sc o nd end o d e s i m esm o? — E u m e v ir o p ara e le ; a
gra m a e sp eta m eu r o sto . — A té e nte nd o q ue u m a p esso a n ão q ueir a s e r e la m esm a. M as n ão c hega a s e r
quase m ais tr is te f in gir q ue é o utr a ?
— S ei lá , a cho q ue v ocê d ev e s e r q uem q uis e r s e r, a té s e nti r q ue é a p esso a q ue e stá te nta nd o s e
to rn ar, s e ja l á q uem f o r. À s v eze s, f in gir q ue a g ente é c ap az d e f a ze r u m a c o is a é m eio c am in ho a nd ad o.
— E le s e v ir a e a p oia o c o rp o s o bre o c o to velo . — P or e xem plo , n a p rim eir a v ez q ue f a le i c o nti g o , v ocê

me a p av oro u. E a in d a m e a p av ora u m p ouco . M as, q uanto m ais e u m e c o m porto c o m o s e n ão a p av ora sse ,
meno s a p av ora .
Ente nd o o q ue ele q uer d iz e r, p orq ue acho q ue b rin q uei d e fa z d e co nta a v id a in te ir a . N ão se i
exata m ente quand o, m as, m uito te m po atr á s, decid i quem eu queria se r. E desd e entã o venho m e
co m porta nd o c o m o e ssa p esso a — s e ja e la q uem f o r. M as a cho q ue a e ncenação e stá p erd end o a f o rç a, e
não s e i s e g o sto d essa q ue s o u p or b aix o d a o utr a . Q uem m e d era q ue h o uv esse p ala v ra s m ágic as c ap aze s
de e ste nd er u m a p onte e ntr e q uem e u s o u e q uem e u g o sta ria d e s e r. P orq ue e sse la nce d e fic ar fin gin d o
se r a lg uém a té p oder c hegar l á n ão e stá m ais d and o c erto c o m ig o .
— Q ue f o i? — p erg unta e le .
Faço q ue n ão c o m a c ab eça e ta p o a b oca, s o rrin d o s o b o s d ed os.
— E u te a p av oro , é ? — A id eia m e d eix a e ncab ula d a, m as ta m bém te m u m la d o g o sto so . P orq ue e u
deix o d e s e r a q uela q ue s e a ssu sta o te m po to do.
Mitc h a fa sta m in has m ão s d o r o sto . A s p alm as e stã o s u ad as, e p erc eb o c o m o e le e stá p erto d e m im .
Dá p ara v er a té o s c ra v os d o n ariz .
— A cho q ue a s c o is a s b oas d a v id a s ã o s e m pre m eio a ssu sta d ora s — d iz e le .
Seus l á b io s r o çam o s m eus. F ic o i m óvel e nq uanto e le p assa o b ra ço p ela m in ha c in tu ra . N ão u sa m os a
lín gua, s ó o s l á b io s. S eus g esto s tr ê m ulo s tr a nsm ite m to do o te rro r e a e ufo ria q ue to m am c o nta d ele .
Mas n ão fic o a ssu sta d a. N em u m p ouco . E é e ntã o q ue p erc eb o q ue e sse m om ento é u m a fa rs a . S ei o
que d ev eria e sta r s e nti n d o, m as n ão e sto u.

QUAREN TA E T R ÊS
No d ia s e guin te , é c o m o s e ti v esse m jo gad o u m a b om ba a tô m ic a n a n o ssa c asa . T ud o
c o m eça n o i n sta nte e m q ue m am ãe v olta d a i g re ja e d ecid e e xp erim enta r o v esti d o d o c o ncurs o .
— D um plin ’? — c ham a e la d o q uarto . — F ilh o ta , m eu z íp er f ic o u p re so .
E lá v ou e u m e a rra sta r e sc ad a a cim a. D esd e q ue e la fo i c o ro ad a, n ão h o uv e u m ú nic o a no e m q ue o
v esti d o n ão te nha c ab id o n ela . In clu siv e n o a no e m q ue m e d eu à lu z. P elo q ue L ucy c o nto u, n o ssa c asa
v ir o u u m a a cad em ia 2 4h, s e te d ia s p or s e m ana. F oi u m s u fo co , m as m am ãe c o nse guiu .
Já v i ta nta s v eze s e sse v esti d o — c o m u m c o rp ete d e l a nte jo ula s v erd e-á gua e u m a s a ia d e c hiffo n — ,
q ue j á n em c o nsig o m ais a chá-lo b onito .
Com o a c asa é m uito a nti g a, n ão h á u m a s u íte n o s e gund o a nd ar, s ó u m b anheir o c o m parti lh ad o n o f im
d o c o rre d or. É e str a nho p ensa r q ue o s q uarto s d e m am ãe e d e L ucy s ã o o s m esm os e m q ue e la s c re sc era m
e p assa ra m a v id a i n te ir a . I m agin o a s d uas a d ole sc ente s b ate nd o p orta u m a n a c ara d a o utr a , o u e ntr a nd o
e s a in d o d e fin in ho d os re sp ecti v os q uarto s. J á o uv i ta nta s h is tó ria s s o bre a v id a d as d uas a nte s d e e u
n asc er, q ue à s v eze s m e p erg unto o q ue e la s d ecid ir a m n ão m e c o nta r, e s ã o e ssa s la cunas q ue g o sto d e
p re encher.
Atr a v esso o c o rre d or, s e guro a m açaneta d e v id ro e a b ro a p orta d o q uarto .
Ah, q ue m erd a.
Da p orta , j á d á p ara v er q ue o p ro ble m a n ão é o z íp er. H á u m e sp aço d e u ns tr ê s c entí m etr o s e ntr e a s
d uas m eta d es d o v esti d o n as c o sta s d e m am ãe.
Com a te sta c o berta d e s u o r, e la a cena p ara q ue e u m e a p ro xim e.
Fin jo te nta r p uxar o z íp er d ura nte u m o u d ois m in uto s, a nte s d e d iz e r:
— H um ... m ãe... a cho q ue o p ro ble m a n ão é o z íp er.
Ela s e v ir a e d á u m a o lh ad a p or c im a d o o m bro , p ara p oder v er o p ró prio r e fle xo .
— P uta q ue p ariu ! — e xcla m a.
Min ha m ãe d ev e te r d ito p ala v rõ es u m a o u d uas v eze s n a v id a. E s ó d e u m a e u r e alm ente m e l e m bro .
— P ode p uxar p ara b aix o .
O z íp er d esliz a c o m o u m s u sp ir o d e a lív io .
Ela s e nta n a b eir a d a c am a, s e gura nd o a f r e nte d o v esti d o c o ntr a o c o rp o.
— T ud o b em , v ou te r q ue f a ze r u m r e gim e, b ic ic le ta e rg o m étr ic a e a ula s d e P ila te s. — E la p ro nuncia
P ile ite s
, o to que fa nho so e m s u a v oz s e to rn and o m ais p ro nuncia d o c o m o a um ento d a a nsie d ad e. —
A cho q ue M ary lo u te m h o rá rio p ara u m a a ula q ue p osso f a ze r a m anhã à n o ite .
— M as e u te nho q ue i r tr a b alh ar — p ro te sto . — P re cis o d o c arro .
Ela o lh a p ara m im c o m a s s o bra ncelh as e rg uid as, c o m o s e e sti v ésse m os à b eir a d o p re cip íc io e e u n ão
c o m pre end esse a g ra v id ad e d a s itu ação .
— B em , f ilh o ta , v am os te r q ue d ar u m j e ito . V ocê c o nti n ua i n d o p ara a e sc o la d e c arro , e e u f ic o c o m
e le à n o ite . A m aio ria d as m enin as d a s u a id ad e n em c arro te m . C ad a u m d is p õe d o q ue a v id a d eix a e
n ão s e q ueix a.
Não m e d ou a o tr a b alh o d e d is c uti r c o m e la .
Esto u s e nta d a n a s a la d os fu ncio nário s, c utu cand o a m açã q ue e la m e d eu q uand o m e
deix o u aq ui. Ju ro por D eus, assim que ela entr o u no esta cio nam ento , fo i lo go
p re nd end o a r e sp ir a ção , c o m o s e f o sse g anhar c alo ria s e xtr a s s ó p or r e sp ir a r p erto d e ta nta g o rd ura tr a ns.
Fiq uei e sp era nd o q ue M itc h m e p ro cura sse o nte m . Q ue m e d esse u m te le fo nem a s ó p ara d iz e r q ue
e sta v a tu d o b em e ntr e n ó s d ep ois d o H allo w een. O u, d e r e p ente , u m d aq uele s d e c lie nte , ti p o p esq uis a d e
s a ti s fa ção , p ara d ar u m a n o ta a o m eu a te nd im ento , p or a ssim d iz e r. M as n ad a.
Aco rd ei n a m anhã d e o nte m e p re cis e i m e c o nv encer d e q ue e le ti n ha m esm o m e b eija d o. N ão f o i u m
b eijo r u im . S ó n ão f o i d e p ara r o c o ra ção , c o m o o s q ue B o m e d av a.
Mas, h o je , e le e stá o m esm o d e s e m pre . S em fa ze r m enção a lg um a a o B eijo . C om eço a p ensa r q ue
t a lv ez e le te nha sid o o utr a p esso a n aq uela n o ite , e q ue fo i a m agia d o H allo w een. M as a c ulp a e o
a rre p end im ento q ue s in to s ã o b em r e ais .
Entã o , já n o fim d o d ia , q uand o n ó s fo m os p ara o e sta cio nam ento , e le s e guro u m in ha m ão c o m fo rç a.
F oi d ifíc il n ão s e nti r q ue n ão tí n ham os p ula d o a lg um a e ta p a n o c am in ho . E u n ão ir ia e m barc ar e m o utr o

ro lo q ue fo sse p ura a ção , s e m q ualq uer d efin iç ão . A nte s d e e u ir p ara c asa , e le m e d eu u m liv rin ho d e
cap a d ura ,
Mágic a p ara J o ven s d os O ito a os O ite n ta
.
— L em bro d e v ocê te r c o m enta d o q ue p re cis a v a a p re se nta r u m ta le nto . P ara o c o ncurs o .
Guard ei o l iv ro n a m ochila e a gra d eci.
— D eix ei u m b ilh ete e ntr e a s p ágin as — a cre sc ento u e le . — M as l ê d ep ois .
Ouço u m a b ati d a à p orta d a s a la d os f u ncio nário s, e m bora e ste ja a b erta .
— O lá — d iz B o.
Sorrio i n v olu nta ria m ente .
— O i.
— E u q uis te r c erte za d e q ue v ocê c hegaria b em e m c asa o nte m à n o ite . — E le f ic a b rin cand o c o m o s
ded os, e e ntã o e nfia a s m ão s n o s b ols o s tr a se ir o s d a c alç a. — F iq uei m eio p re o cup ad o d e te d eix ar
so zin ha c o m a q uele c ara , m as d ep ois o r e co nheci d o b aile . — E le p ig arre ia . — V ocês d ev em s e r m uito
ín ti m os, n ão ?
Meu r o sto c o m eça a a rd er.
— A h, s im . É , a q uele e ra o M itc h.
Ele to sse n a c urv a d o b ra ço d obra d o.
— L egal.
Deix o e sc ap ar u m a r is a d in ha.
— L egal.
Ele s e v ir a e v olta p ara a c o zin ha.
Solto u m le nto s u sp ir o p elo s lá b io s fr a nzid os. A cho q ue d ev e te r s id o a in te ra ção m ais c alm a q ue já
ti v em os. E e u m e s in to c o m o s e e sti v esse p egand o f o go .
Dep ois d e fe charm os a lo ja , a p rim eir a c o is a q ue n o to é a a usê ncia d o c arro d e m am ãe. Já e sto u
lig and o p ara e la a nte s m esm o d e a s p orta s d os f u nd os s e f e chare m .
— A lô ? — S ua v oz e stá b êb ad a d e s o no .
Dro ga.
— M ãe?
— A h, D um plin ’! — O uço -a p egand o a s c hav es e f e chand o a p orta d e v id ro . — J á e sto u i n d o, f ilh o ta !
A l in ha f ic a e m s ilê ncio .
Marc us e B o o lh am p ara m im .
— P odem i r — d ig o .
Marc us i n d ic a o c arro d e T iffa nie , o nd e e la o e sp era .
— Q uer u m a c aro na?
— O brig ad a, m as m in ha m ãe j á e stá v in d o.
Os d ois s e e ntr e o lh am .
— E u e sp ero c o m v ocê — s e o fe re ce B o.
— E u p osso e sp era r l á d entr o — r e sp ond o. — R on a in d a v ai f ic ar m ais u m p ouco .
— N ão m e c usta n ad a. — E le ti r a a s c hav es d o b ols o . — V am os e sp era r n a c am in ho nete . — E le d ev e
te r v is to m in ha e xp re ssã o im óvel. — S ó fic ar lá . E u a té d eix o o d esc anso d e b ra ço a b aix ad o e ntr e a
gente .
Já a co m odad os, B o c um pre s u a p ala v ra e a b aix a o d esc anso e ntr e n ó s.
Fic am os e m s ilê ncio p or u m m in uto , o uv in d o o z u m -z u m d o tr â nsito à s n o ssa s c o sta s. O c heir o d ele m e
ati n ge, c ere ja a rti fic ia l e l o ção p ós-b arb a. A cho q ue p are i d e n o ta r n o v erã o , m as a go ra j á f a z u m te m po
desd e q ue e sti v e n a c am in ho nete . N ão e nte nd o m uito b em c o m o u m a c o is a p ode s e r tã o fa m ilia r e tã o
estr a nha a o m esm o te m po. C om o u m d éjà -v u.
Com eço a z a p ear a lg um as e sta çõ es n o r á d io . B o n ão d iz n ad a s o bre a i n ic ia ti v a.
— N ão p osso m ais o uv ir D olly P arto n s e m m e l e m bra r d e v ocê.
Sin to u m a p erto n o e stô m ago e s o lto u m a r is a d a n erv osa .
— B em , s o rte a s u a p or e la n ão to car m ais ta nto a ssim . — M in ha v oz s a i m ais r ís p id a d o q ue p re te nd i.
Mas a v erd ad e é q ue a d ore i a i d eia d e te r c o nq uis ta d o u m e sp aço n a s u a m em ória . O p ro ble m a é q ue n ão
co nsig o p ensa r e m D olly s e m m e l e m bra r d e E l o u L ucy. E i s so n ão m e p are ce l á m uito j u sto .
— P or q ue D olly ? — p erg unta e le . — N ão e nte nd o m uito b em . E la é tã o ... a rti fic ia l.
— S im , o s p eito s sã o . O bvia m ente . — F ic o fa ze nd o d ese nho s c o m o d ed o n o d esc anso , e nq uanto
pro curo a s p ala v ra s c erta s. — E la é o ti p o d e p esso a q ue p are ce n unca te r ti d o u m d ia d ifíc il n a v id a.
Acho q ue D olly é c o m o u m g uru p ara m im . A s m úsic as q ue e la c anta s ã o ó ti m as. M as p orq ue é
ela
q uem

canta . C om a q uele p ente ad o p are cend o u m p om pom e a q uele s p eito s d e s ilic o ne. N unca v i o utr a p esso a
co nse guir v iv er e xata m ente a v id a q ue e sc o lh eu v iv er, c o m o e la .
Ele m e o bse rv a, m as n ão f a z c o m entá rio s.
— É c o m o s e to dos o s d ia s fo sse m o H allo w een p ara D olly . — R ele m bro a fa nta sia d e M itc h. —
Mas, p ara e la , n ão é u m m und o d e fa nta sia s, n ão é u m fa z-d e-c o nta . É a v id a r e al. E xata m ente c o m o e la
esc o lh eu. — P aro d e f a la r a nte s q ue m eu d is c urs o d esc am be p ara o b re ga.
— H um . — E le c ru za o s b ra ço s e s e r e co sta m ais n o b anco . — S em pre a chei q ue e la ti n ha s a íd o d as
págin as d as h is tó ria s e m q uad rin ho s. M as ta lv ez n ão te nha.
O l e tr e ir o d o H arp y’s s e a p aga e d eix am os q ue o r á d io f a le p or n ó s.
— E stá s e m c arro ? — p erg unta e le d ep ois d e u m te m po. — Q ue f o i q ue h o uv e?
In clin o a c ab eça n o d esc anso .
— P ro ble m a n a i g niç ão . A cho q ue c o m eço u h á u ns d ois m ese s. — S erá q ue é s ó i s so ? P are ce te r s id o
há s é culo s q ue tu d o a co nte ceu. Q ue m e in sc re v i n o c o ncurs o . Q ue p erd i E lle n. — E stá n a o fic in a d esd e
entã o . N ão te nho d in heir o p ara p agar o c o nse rto .
— S ei b em c o m o é is so — d iz e le . — O d in heir o d ev eria to rn ar a s c o is a s m ais fá ceis , m as s e m pre
acab a f a ze nd o o c o ntr á rio . G osta ria q ue a e co no m ia s e b ase asse n um s is te m a d e tr o cas.
Suas p ala v ra s m e ir rita m . B o fr e q uento u u m a e sc o la p arti c ula r n o s ú lti m os a no s, e is so n ão s a iu d e
gra ça p ara o s p ais .
— Q ue f o i? — p erg unta e le .
Bala nço a c ab eça, te im osa .
— N ão , f a la — i n sis te B o. — D ese m bucha.
Após u m l o ngo m om ento , r e sp ond o:
— V ocê f o i a lu no d a H oly C ro ss. E nte nd o q ue e ste ja te nta nd o s e r g enti l, m as n ão a cho j u sto d iz e r q ue
sa b e o q ue é n ão te r u m c enta v o.
— U au. E sse é u m p re co nceito e ta nto .
Um p ar d e f a ró is à s n o ssa s c o sta s i lu m in a o i n te rio r d a c am in ho nete .
— P ode s e r. M as v ocê p erg unto u. B oa n o ite . L em bra nças p ara B ekah.
Desç o d a c am in ho nete e b ato a p orta .
Ele a b aix a o v id ro .
— P ara o se u go vern o — d iz — nem to do m und o q ue fr e q uenta um a esc o la p arti c ula r é ric o .
Prin cip alm ente o s g aro to s p obre s q ue j o gam b asq uete m uito b em .
O v id ro to rn a a s u b ir, s e p ara nd o-o d e m im , a nte s q ue e u te nha c hance d e r e sp ond er.
Meu r o sto a rd e d e v erg o nha. M as, p rin cip alm ente , e sto u c o nfu sa . P or q ue e le n ão m e c o nto u q ue ti n ha
bols a d e e stu d os?
Min ha m ãe sa i d o c arro e d á u m a c o rrid in ha a té a ja nela d e B o. F ic o o lh and o d o o utr o la d o d a
cam in ho nete e nq uanto e la b ate n o v id ro c o m o i n d ic ad or e c o m eça a f a la r n um a v oz e str id ente q ue s ó u sa
para s e c o m unic ar c o m o s “ m acho s” . B o d iz a lg um a c o is a e o r o sto d e m am ãe s e ilu m in a, e nq uanto e la
pousa a m ão n o s e u b ra ço e l e v a a o utr a a o p eito .
— Q ue D eus te a b enço e, B o! — o uço -a d iz e r.
Ela v olta p ara o c arro e e u a s ig o .
— H um ? M ãe?
Quand o e ntr a m os, e la d iz :
— M e p erd oe, W ill. A quele ta l d e
Pile ite s
d eix o u m eu b um bum e m p eti ç ão d e m is é ria , e e u a p aguei
fe ito u m a l â m pad a a ssim q ue c heguei e m c asa .
— T ud o b em — r e sm ungo , e nq uanto e la m ano bra p ara a r u a. — M as q ue p ap o f o i e sse , a go ra ?
— A quele s e u c o le ga s im pati c ís sim o, B o, n ão é e sse o n o m e d ele ? — E la r i e m urm ura c o m o c anto
da b oca: — O q ueix o d aq uele g aro to c o rta ria a té v id ro .
— M ãe.
— E u e xp liq uei q ue v ocê e e u a nd áv am os n o s a rra sta nd o d e u m l a d o p ara o o utr o , d iv id in d o o c arro , e
agra d eci a a te nção q ue e le m e d eu. — E la v ir a n a e sq uin a, m as n ão n um â ngulo f e chad o o s u fic ie nte p ara
deslig ar o p is c a-p is c a. — M as a í e le d is se q ue v ocês tr a b alh am n o m esm o h o rá rio , e q ue p oderia te l e v ar
para c asa to das a s n o ite s.
— M ãe! V ocê re cuso u, n ão re cuso u? — F ic o e m p ânic o .
Clic , c lic , c lic .
O p is c a-p is c a co nti n ua
lig ad o.
— M as p or q ue e u f a ria i s so ? E le f o i tã o g enti l d e s e o fe re cer. N ão v ou i m ped ir o r a p az d e f a ze r u m a
boa a ção .
Susp ir o . U m s u sp ir o d ra m áti c o , q uilo m étr ic o .

— W illo w dean, já c hega d e s u sp ir a r. A gra d eça p ela s c o is a s b oas q ue a v id a te d á. — E la e ntr a n o
ja rd im . — P rin cip alm ente s e f o re m b onita s.
— E u te o deio — r e sp ond o, s a in d o d o c arro .
— A h, p obre c o ita d a — d iz e la a tr á s d e m im . — E f a ça e sse c ab elo a nte s d e i r tr a b alh ar a m anhã! S e
pente ie p ara a p ro fis sã o q ue v ocê q uer te r e n ão a q ue te m . Q uem a nd a b em p ente ad a s e d esta ca e ntr e a
mulh era d a.

QUAREN TA E Q UATR O
A c am pain ha d a a ula d e h is tó ria to ca e , m al e ntr o n a s a la , a S rta . R ub io f e cha a p orta .
Paro . B em a li, n a c arte ir a o nd e A mand a c o stu m a s e s e nta r, a o l a d o d a m in ha, e stá B o. S in to o c ére b ro
e sc o rre nd o p ela s o re lh as. D o fu nd o d a s a la , e la d á d e o m bro s e d iz p or m ím ic a la b ia l:
Bundin ha d e
P êsse g o n ão q uis s a ir.
A ceno p ara d iz e r q ue e stá tu d o b em . M as, n a v erd ad e, n ão e stá , p or q ue, a fin al,
q ue n egó cio é e sse ?
Não te m os lu gare s fix o s n a a ula d e h is tó ria , m as, c o m o n in guém tr o co u d e c arte ir a d esd e a p rim eir a
a ula , fic o u e sta b ele cid o n ão o fic ia lm ente . C onhecend o A mand a c o m o e u c o nheço , d ev e te r ro la d o u m
c o nfr o nto q uand o e la v iu B o n a s u a c arte ir a , m as a lg uém ti n ha q ue c ed er. E n ão f o i e le .
Bo d á u m m eio s o rris o q uand o m e s e nto e d iz :
— W illo w dean. — E s ó . É a ú nic a p ala v ra q ue p ro nuncia d ura nte a a ula i n te ir a .
Quand o a c am pain ha to ca, s a io d a s a la o m ais d ep re ssa p ossív el.
Enco ntr o M itc h n o e sta cio nam ento . S eu r o sto s e a nim a, p ois e le p ensa q ue o s o rris o id io ta n o m eu é
p ara e le .
Não
, te nho v onta d e d e e xp lic ar.
Não m e d ê e sse s o rris o c a rin hoso . E u n ão m ere ço .
No d ia s e guin te , l á e stá B o d e n o vo n a c arte ir a d e A mand a. E u f ic o o bse rv and o-o c o m o c anto d o o lh o
e nq uanto e le p assa o s n ó s d os d ed os p elo q ueix o . S in to v onta d e d e to cá-lo . P are ce in ev itá v el. E le é u m
p olo n egati v o, e u s o u u m p olo p ositi v o, e tu d o q ue r e sta e ntr e n ó s é u m a q uestã o d e te m po.
Com o o nte m , e le d iz m eu n o m e n o c o m eço d a a ula , m as d essa v ez a cre sc enta :
— T e v ejo h o je à n o ite .
Senti n d o um verd ad eir o enxam e de ab elh as no estô m ago , esc uto B o asso via r na
co zin ha. Ele se m pre asso via quand o pensa que não te m nin guém ouv in d o.
N orm alm ente n ão é n enhum a m úsic a e m p arti c ula r, s ó u m a lis ta a le ató ria d e c ançõ es. M as h o je e le e stá
c o m o s l á b io s f r a nzid os, a sso via nd o “ Jo le ne”. O q ue m e d eix a c o m o s j o elh o s b am bos.
Ron s a i d o e sc ritó rio e c o m eça a c anta r ju nto , e nq uanto re ab aste ce o e sto que d e ta lõ es d e p ed id os.
F alta nd o a lg uns m in uto s p ara a h o ra d e f e char, M arc us p erg unta e m to m r ís p id o:
— V ocê n ão c o nhece n enhum a o utr a m úsic a?
O a sso vio s e in te rro m pe p or u m m om ento e nq uanto B o v ir a u m h am búrg uer. O p ão a te rris sa n o g rill,
c hia nd o, e e le r e co m eça a a sso via r.
Marc us n o s o bse rv a c o m a r c urio so q uand o, n o f im d a n o ite , v am os j u nto s p ara a c am in ho nete d e B o.
Entr o n a c am in ho nete n o i n sta nte e m q ue o c elu la r to ca. E le a te nd e, e e u f ic o s ó o lh and o e nq uanto e le
e sc uta p or u m m om ento . C om a v eia n o p esc o ço e stu fa d a, e le fa z q ue n ão c o m a c ab eça. R esp ond e
a lg um a c o is a e ntr e o s d ente s e d eslig a a nte s d e s e s e nta r a o v ola nte .
— Q uem e ra ?
Ele m ord e a p arte i n te rn a d o l á b io i n fe rio r p or u m m om ento .
— M eu i r m ão .
— A h.
— E le p re cis a q ue e u v á b usc á-lo d ep ois q ue te d eix ar e m c asa . — E le o lh a a d ia nte p ara o c am po q ue
f ic a a tr á s d o H arp y’s . — N ós a nd am os m eio b rig ad os.
Não te nho ir m ão s, m as s e i c o m o é v iv er e m p é d e g uerra c o m u m a p esso a q ue a g ente v ê to das a s
m anhãs e to das a s n o ite s.
— À s v eze s, s in to in v eja d ele — d iz B o. — N ão fo i a m esm a c o is a p ara e le q uand o m am ãe m orre u.
N ão s e i a té q ue p onto is so é v erd ad e, m as à s v eze s a cho q ue e le a b so rv eu m uito m elh o r o g o lp e d o q ue
e u.
Conco rd o c o m a c ab eça. E u c o nhecia L ucy d e u m je ito q ue m am ãe ja m ais c o nheceu, e é d ifíc il n ão
s e nti r q ue o p eso q ue c arre go é m aio r p or c ausa d is so .
— M e p erd oe — p eço , e nq uanto a fiv ela m os o s c in to s. E sto u s e gura nd o e ssa b ata ta q uente h á d ia s. —
P elo q ue f a le i s o bre v ocê te r f r e q uenta d o u m a e sc o la p arti c ula r.
Ele s e gura o v ola nte e v ir a o p esc o ço a o d ar m arc ha à r é .
— O q ue a co nte ceu? V ocê ti n ha u m a b ols a d e e stu d os, n ão ti n ha?
— I s so . — A doro o j e ito c o m o e le d ir ig e c o m u m a d as m ão s n a b ase d o v ola nte e nq uanto u sa a p alm a
p ara g ir á -lo a o v ir a r, c o m o s e e sti v esse d ir ig in d o u m c am in hão .

— À e sq uerd a, n a R ow le tt — i n str u o .
— E u e sta v a n o o ita v o a no q uand o o p ai d e u m a lu no d a H oly C ro ss m e v iu jo gar. M odésti a à p arte ,
acho q ue e u d ev ia s e r m esm o m uito b om . S ó q ue e u n ão s a b ia d is so , p orq ue n in guém d á a m ín im a p ara o
basq uete n esta c id ad e.
— M eno s n a H oly C ro ss — d ig o . A H C é p eq uena d em ais p ara te r u m ti m e d e f u te b ol a m eric ano , m as
o ti m e d e b asq uete d ele s s e m pre v ence o c am peo nato m unic ip al, à s v eze s a té o e sta d ual.
— É , p or is so a cho q ue v ário s p ais s e r e unir a m e c o nv ers a ra m c o m o m eu p ai s o bre a p ossib ilid ad e
de eu estu d ar lá . M as nó s não tí n ham os co m o, p rin cip alm ente d ep ois d o q ue ti n ha aco nte cid o co m
mam ãe. E o s a lu no s d o e nsin o m éd io n ão p odem r e ceb er b ols a s e sp orti v as. P elo m eno s, n ão s e gund o a
asso cia ção a tl é ti c a e m q ue e le s c o m pete m . P or i s so , d esc o la ra m e ssa b ols a a cad êm ic a p ara m im . E p ara
o m eu i r m ão ta m bém . M eu p ai d is se q ue e u n ão p oderia i r, a m eno s q ue e le ta m bém f o sse .
— M as v ocê n ão d is se q ue ti n ha s id o p or s u a c ulp a q ue v ocês f o ra m o brig ad os a s a ir ? — A ponto p ara
o m eu j a rd im , a lg um as c asa s a d ia nte . — A m in ha é a q uela a li à e sq uerd a.
— E u e sto ure i o jo elh o n o fim d a te m pora d a n o a no p assa d o. N ós n ão tí n ham os p la no d e s a úd e, p or
is so n ão s e i q uem p ago u a s d esp esa s. O utr o s p ais r ic o s, p ro vav elm ente . M as e u n ão v olta ria a jo gar tã o
ced o.
O c arro p ara d ia nte d a m in ha c asa . G osta ria q ue o p erc urs o a té a q ui ti v esse sid o tr ê s v eze s m ais
lo ngo .
— M as a s u a b ols a n ão e ra a cad êm ic a? E le s n ão ti r a ria m i s so d e v ocê.
Ele c ru za o s b ra ço s.
— D ep ois d a m in ha le sã o , e u m e m eti n um a b rig a c o m u m c ara d o ti m e. C ollin , a q uele g aro to q ue
ap are ceu n o H arp y’s n o v erã o .
— E a b rig a f o i p or c ausa d e q uê?
Ele b ala nça a c ab eça.
— P elo m esm o m oti v o p or q ue to dos o s c ara s b rig am . U m a g aro ta .
O c lim a n a c am in ho nete f ic a p esa d o, e s in to i s so a té o s o sso s.
— A quela q ue e sta v a c o m e le ?
— A mber. N ós n am ora m os d ura nte d ois a no s. M as e u f u i u m a m erd a d e n am ora d o p ara e la .
Sin to v onta d e d e p erg unta r d e q ue j e ito , m as n ão s e i s e q uero s a b er a r e sp osta p or e nq uanto .
— E u q ueb re i a c la v íc ula d o C ollin . E e le q ueb ro u o m eu n ariz . Q uand o f o m os n o s m atr ic ula r n o a no
se guin te , a v is a ra m q ue a g ra na s e co u, o d oad or te v e q ue s u sp end er a d oação . E a go ra m eu i r m ão e stá c o m
ódio d e m im .
— E le s e nte s a ud ad es d a H oly C ro ss?
Bo s o rri a m are lo .
— S ente , e le e ra u m v erd ad eir o r e i p or lá . E sta v a n am ora nd o a m esm a m enin a d esd e o s é ti m o a no .
Quem f a z i s so ? — E le b ala nça a c ab eça, a in d a s o rrin d o. P osso o uv ir o q ue e le n ão d iz : q ue a m a o i r m ão
caçula d em ais e p ro vav elm ente jo garia a té c o m o jo elh o a rre b enta d o p ara d eix á-lo fe liz . — E le a go ra
está n o n o no , n o p rim eir o a no d o e nsin o m éd io . E le r e agiu à s itu ação m uito p io r d o q ue e u. E , c o m o e stá
co m q uin ze a no s e tu d o é u m a m erd a n essa i d ad e, a n am ora d a te rm in o u c o m e le . D is se q ue n ão a guenta v a
mais n am ora r a d is tâ ncia .
— A d is tâ ncia ?
— P ois é , a e sc o la f ic av a a d ez m in uto s a p é d a n o ssa c asa .
— C ara m ba. — M in ha m ão p air a s o bre a m açaneta d a p orta .
— P osso te a co m panhar a té a p orta ? — p ed e e le .
— N ão , n ão p re cis a .
— F aço q uestã o — i n sis te e le .
— É q ue n ó s u sa m os a p orta d os f u nd os.
— P or q uê?
— P orq ue a d a f r e nte e stá e m perra d a. H á s é culo s.
— M as p or q ue v ocês n ão m and am c o nse rta r? — p erg unta B o.
— S ei l á . É u m a d essa s c o is a s q ue a g ente a cab a n unca f a ze nd o. E a go ra j á e sta m os tã o a co stu m ad as,
que n em i n co m oda m ais .
Ele to rc e o s l á b io s c o m o s e ti v esse a lg o a d iz e r, m as f ic a e m s ilê ncio .
Saio d a c am in ho nete e d eix o a p orta a b erta p or u m m om ento q uand o u m a i d eia m e o co rre .
— P or q ue v ocê s e s e nto u p erto d e m im n o s ú lti m os d ois d ia s? N a a ula . V ocê p ode fa la r c o m ig o n o
tr a b alh o .
Ele f a z a q uele l a nce d e p assa r o s n ó s d os d ed os n o q ueix o .

— A cho q ue p re fir o f a la r c o m v ocê e m to dos o s l u gare s.
Por tr á s d a c erc a d o q uin ta l, a b ro u m s o rris o .
Esv azio a m ochila n a c am a, e sp era nd o c o nse guir fa ze r, p elo m eno s, u m a p arte d o
dev er d e c asa a nte s d e p egar n o s o no . A berto e ntr e o s liv ro s d id áti c o s e stá o m anual
de m ágic a q ue M itc h m e d eu. P uxo -o p ara o p eito e d esliz o até o chão . H á d ia s q ue m e esq ueci
co m ple ta m ente d o ta le nto q ue p re cis o a p re se nta r — a liá s, m e e sq ueci d o c o ncurs o i n te ir o . A v olta d e B o
ao m eu m und o, m esm o q ue d e u m je ito m in úsc ulo , tr a nsfo rm a o m eu c ére b ro n um v ácuo o nd e n ad a m ais
exis te , p orq ue s o u to ta lm ente c o nsu m id a.
Mas n ão q uero i s so . N ão p osso q uere r i s so .
Folh eand o a s p ágin as, e nco ntr o v ário s tr u q ues d ife re nte s, m as n enhum d e fa to m e a tr a i. U m b ilh ete
desliz a d entr e a s f o lh as, e e u o d esd obro .
Will, q uando e u e ra p eq uen o, t iv e u m a f a se d e m ágic o e m q ue u sa va c a pa e c a rto la e m t u do
quanto é c a nto . A ch ei q ue t a lv ez u m p ouco d e m ágic a n o s e u m undo p oderia s e r ú til. — M itc h
Torn o a g uard ar o b ilh ete e ntr e a s p ágin as e s u sp ir o . Q ue r id íc ulo . E u, fa ze nd o tr u q ues b obos. M as o
que m e re sta fa ze r? N ão te nho nenhum ta le nto q ue m e d efin a, co m o B ekah, nem p ra ti q uei q ualq uer
ati v id ad e p or te m po o b asta nte p ara p oder, p elo m eno s, q ueb ra r o g alh o a go ra .
Reco sto -m e n a c am a c o m o liv ro n o c o lo e c o m eço a p ra ti c ar m ovim ento s d e tr u q ues c o m m oed as.
Pare ce a co m odação . U m a o portu nid ad e p erd id a. M as n em p or i s so c hega a s e r u m e rro .
Tento re v iv er o ím peto d o e ntu sia sm o q ue m e fe z e ntr a r n o c o ncurs o . M as e sse to que d e m ágic a
sim ple sm ente e v ap oro u.

QUAREN TA E C IN CO
No d ia se guin te , q uand o v ou b usc ar m am ãe no tr a b alh o d ela , enco ntr o -a co m um a
s a co la d e l o ja p end ura d a n o b ra ço . E la a e xib e a o e ntr a r n o c arro .
— A nte s d e d iz e r q ualq uer c o is a , m e o uv e.
— T ud o b em . — M as n ão te nho c o m o e sc o nd er a a p re ensã o n a m in ha v oz.
— D eb bie e e u d em os u m p ulo e m a lg uns b re chó s n a h o ra d o a lm oço . E u s a b ia q ue v ocê a in d a n ão
t i n ha c o m pra d o s e u v esti d o, e e le p re cis a s e r a p ro vad o d entr o d e p oucas s e m anas, p or i s so v ocê n ão te m
m uito te m po. T alv ez n ão s e d ê c o nta d is so , m as n ão p ode c o m pra r q ualq uer c o is a à s p re ssa s. N ão é a ssim
q ue f u ncio na.
Sei q ue p re cis o d e u m v esti d o e q ue e sto u a tr a sa d a. M as n ão h á r e ceita d e d esa str e m ais g ara nti d a d o
q ue m in ha m ãe c o m pra nd o r o up as p ara m im . E u já v i e sse film e. N ós d uas já v im os. E a in d a te m os a s
c ic atr iz e s.
— E le é b em s im ple sin ho , m as p odem os d ar o s n o sso s to ques p esso ais . C om o s e ti v esse s id o fe ito
s o b m ed id a.
Pro m eto a m im m esm a, p elo m eno s, e xp erim entá -lo . V ou d ar a e la o b enefíc io d a d úv id a.
Mam ãe d eix a q ue e u m e v is ta n o q uarto d ela , p ara e u p oder u sa r o e sp elh o m aio r. Q uand o fe cha a
p orta , p erc eb o c o m o é e str a nho q ue n ão f iq ue c o m ig o . E la s a i a nd and o p ela c asa , tr o cand o d e r o up a a o s
p ouco s, p ro cura nd o u m a m eia s e m p ar o u p assa nd o a f e rro o u nifo rm e. N ão q ue j a m ais te nha m e i n cuti d o
v erg o nha d a n ud ez. M as c hego u u m a é p oca, q uand o e u d ev ia e sta r c o m u ns o nze , d oze a no s, e m q ue e la
p aro u d e entr a r co m ig o no s p ro vad ore s e d e esc o var o s d ente s enq uanto eu to m av a b anho . T alv ez
e sti v esse te nta nd o se r se nsív el a a lg um a nse io d e p riv acid ad e q ue e u p ud esse te r. M as, n o fu nd o, n o
f u nd o, a cho q ue e la n ão e stá n em u m p ouco i n te re ssa d a e m s e l e m bra r d o c o rp o q ue e u te nho .
Seja i s so v erd ad e o u n ão , a in d a m e m ago a.
Mas, j u sti ç a l h e s e ja f e ita : o v esti d o n ão é h o rrív el. É v erm elh o , d aq uele to m p erfe ito q ue é r e se rv ad o
a o s e sm alte s d e u nha s e xy e a o s c arro s e sp orti v os, c o m u m d eco te p ro fu nd o e a lç as q ue e sc o rre gam d os
o m bro s d e p ro pósito . E m m im , e la s n ão fic am n o â ngulo r e to q ue v ejo n as a tr iz e s e m odelo s, c aem u m
p ouco n a c urv a, m as, m esm o a ssim , g o ste i.
Até o i n sta nte e m q ue p uxo o z íp er.
E e le s o be.
Mas i s so n ão s ig nific a q ue o v esti d o te nha f ic ad o b em e m m im .
Meu D eus. O fa to d e te r c o nse guid o fa ze r c o m q ue o z íp er fo sse a lé m d os q uad ris s ó p ode s e r u m a
l iç ão d e i n érc ia o u f o rç a d e v onta d e. O te cid o s e e sti c a n as c o stu ra s, a m eaçand o s e r o m per s e e u s e q uer
o lh ar to rto p ara u m a c ad eir a . E o b usto é tã o l a rg o q ue d á a té p ara e nfia r o s b ra ço s n ele . ( S e s e nti r f r io ,
p or e xem plo .)
— P ro nto — d ig o a m am ãe e m v oz a lta . — P ode e ntr a r!
Ela fic a a tr á s d e m im , e o bse rv o n o sso s re fle xo s n o e sp elh o . V ejo se u o lh ar p asse and o p elo m eu
c o rp o, e o s c anto s d e s e us l á b io s s e a b aix and o q uand o e la p erc eb e c o m o o te cid o e stá q uere nd o e sg arç ar
n o s q uad ris .
Nosso s o lh are s s e e nco ntr a m , e e la r e so lv e s e gura r a o nd a. S ua b oca s e c urv a n um s o rris o .
— P odem os a la rg ar a lg uns c entí m etr o s. E a p erta r o b usto . — A v oz e stá m uito a lta e o s o rris o la rg o
d em ais , m as n ão m e im porto . P osso ti r a r tu d o is so d e le tr a . P orq ue, p elo m eno s, e la e stá s e e sfo rç and o
p ara e nfr e nta r a m in ha re alid ad e. — O q ue a cha? — P uxa o d eco te d o v esti d o p ara tr á s, a p erta nd o a s
s o bra s d e te cid o n o s p unho s.
Já d á q uase p ara i m agin ar c o m o f ic aria e ... g o sto d o q ue v ejo .
— F ic o u b om . S ó v ou u sa r p or v in te m in uto s, n ão é ? D ou m eu j e ito , p ode d eix ar.
Esto u n a te rc eir a fila d o a ud itó rio d a e sc o la . M illie e stá a o la d o, le nd o u m p ocket, e
do la d o d ela , A mand a, b ate nd o c o m o s p és n o c hão e ta m borila nd o c o m o s d ed os n a
c o xa.
Hoje é o d ia e m q ue v am os te r n o sso s ta le nto s a p ro vad os ( o u n ão ) p ara o c o ncurs o . N ão te nho n ad a
p ara a p re se nta r a lé m d e u m tr u q ue q ue a p re nd i n o l iv ro q ue g anhei d o M itc h. A s r e gra s d ete rm in am q ue a
c and id ata d ev e e xib ir u m a a m ostr a d o ta le nto , p or i s so e sto u c o nta nd o q ue s e ja o b asta nte .

Hannah p assa p elo c o rre d or, e sp re m end o-s e e ntr e A mand a e M illie .
— V ou c air f o ra d aq ui a ssim q ue a p ro vare m o m eu ta le nto .
— N ão a cha q ue se ria m ais e d ucad o fic ar p ara a ssis ti r à a p re se nta ção d as o utr a s c and id ata s? —
perg unta M illie .
Hannah s e j o ga n um a p oltr o na a o m eu l a d o, s e m s e d ig nar a r e sp ond er.
A p aciê ncia d e M illie c o m H annah e stá p ouco a p ouco s e e sg o ta nd o, e e xtr a io u m p ra ze r p erv ers o
dis so . A dora ria v er a b aix in ha b em -h um ora d a s o lta nd o o s c acho rro s e m c im a d a r a b ugenta H annah.
Assim q ue to das a s c and id ata s s e a co m odam , m am ãe f a z s e u d is c urs o e d iz q ue o s tr a je s p ara a p ro va
dos ta le nto s p re cis a rã o s e r a p ro vad os a o m esm o te m po q ue o r e sta nte d o g uard a-ro up a.
— A s s u rp re sa s s ã o a p enas p ara a p la te ia — a rre m ata .
A p rim eir a a s e a p re se nta r é B ekah C otte r, q ue — tc han-ra n! — g ir a u m b astã o c o m o u m a s u p er-
hero ín a d ia b ólic a. S ó q ue, d essa v ez, n ão e stá c o m o n o m e d e B o e sta m pad o n a b und a. S ei q ue n ão s e
ju sti fic a q ue e u a d ete ste ta nto . E la n ão d ev e te r tr o cad o m ais d e v in te p ala v ra s c o m ig o , m as b asta e u
im agin ar B o d e s m okin g, a co m panhand o-a a o c o ncurs o , p ara m e tr a nsfo rm ar n um a f e ra q ue c o sp e f o go .
Dep ois v êm c in co c and id ata s e m s e q uência c anta nd o te m as d e v ário s m usic ais , c o m o
Os M is e rá veis
e
Chic a go
. A in te rp re ta ção d e
Chic a go
d e K are n A lv are z é co nsid era d a se xy d em ais , e lh e d ão um a
se m ana p ara a p re se nta r o utr a m úsic a. E la s a i d e c ab eça b aix a d o p alc o , a b ra çad a a o s o ngb ook. D á p ara
ver q ue e stá m orti fic ad a, m as o l a nce c heir a a e sc ând alo d e c o ncurs o e e u a d oro e ssa s c o is a s.
— A mand a L um bard — c ham a M allo ry B uckle y.
Millie b ate n as c o sta s d e A mand a, q ue p ega u m a s a co la e m baix o d a p oltr o na. Q uand o s o be a o p alc o ,
no to q ue n ão e stá u sa nd o a s b ota s o rto péd ic as d o F ra nkenste in . U m d os s a lto s é m ais a lto d o q ue o o utr o ,
e é u m m odelo e sp orti v o.
— A cho q ue n ão é m uito tr a d ic io nal, m as é o q ue s e i fa ze r. — S ua v oz s a i u m p ouco tr ê m ula . E la s e
agacha e ab re a sa co la , de ond e ti r a um a bola de fu te b ol. S em m aio re s ro deio s, co m eça a fa ze r
em baix ad in has, e d ep ois v ai p assa nd o a b ola d e u m a c o xa p ara a o utr a . É in crív el. E la c o nse gue fa ze r,
in clu siv e, c o m a c ab eça e o s o m bro s, s e m d eix ar q ue c aia e m m om ento a lg um .
Lá e stá A mand a fa ze nd o u m a c o is a q ue e u n unca s o nharia e m fa ze r, m esm o te nd o a s d uas p ern as d o
mesm o c o m prim ento . D ep ois d e m ais a lg uns m ala b aris m os, e la p õe a b ola d eb aix o d o b ra ço , p ega a
sa co la e s a i d o p alc o .
Millie e e u a p la ud im os fr e neti c am ente , e o r e sta nte d o a ud itó rio fic a e m s ilê ncio , e nq uanto o c o m itê
chega a u m a d ecis ã o .
Dem ora o d obro d o te m po d as o utr a s c and id ata s, m as, p or fim , m am ãe a nuncia , n um to m d e v oz n ão
muito i m pre ssio nad o:
— B em , n ão é o ti p o d e a ti v id ad e q ue e sta m os a co stu m ad os a v er, m as p assa .
— E sto u a p ro vad a? — p erg unta A mand a.
Mam ãe f a z q ue s im .
Amand a s o rri, to da tí m id a e a liv ia d a a o to rn ar a s e s e nta r.
Em s e guid a, v em u m m onó lo go —
Muito B aru lh o p or N ada
— d e S hakesp eare , q ue é m ara v ilh o so ,
mas o s j u ra d os v ão b oia r c o m ple ta m ente .
— W illo w dean D ic kso n?
Pego o m ate ria l n a m ochila e a tr a v esso o c o rre d or e m d ir e ção a o p alc o .
Quand o e u e ra p eq uena, p arti c ip ei d e v ária s p eças n a e sc o la . A s lu ze s in te nsa s n unca m e d eix av am
ver a p la te ia , e e ra o q ue to rn av a a e xp eriê ncia s u p ortá v el p ara m im . M as h o je o a ud itó rio é q ue e stá
ilu m in ad o, e a s l u ze s d o p alc o , a p agad as.
— P osso c o m eçar? — p erg unto .
Tento n ão c o nta r a s c and id ata s n a p la te ia , p orq ue, s e c o m eçar, n ão v ou p ara r m ais .
A S ra . C la w so n, q ue e stá s e nta d a a o l a d o d a m am ãe, d á o s in al c o m a c ab eça.
Exib o u m a g arra fa P E T v azia e ti r o u m a m oed a d o b ols o .
— V ou fa ze r u m tr u q ue. — O r o sto d a m am ãe e stá im passív el. — P re te nd o fa ze r o utr o s ta m bém , m as
esse é s ó u m a a m ostr a . — F ic o e sp era nd o q ue d ig am q ue e stá b em o u q ue n ão p re cis o m e p re o cup ar, m as
a ú nic a r e sp osta q ue r e ceb o é u m s ilê ncio m orta l.
Aqui v ão o s d eta lh es d e c o m o o tr u q ue é fe ito : p ego u m a g arra fa d e á gua v azia , e m q ue fiz u m a
ab ertu ra c o m u m a fa ca. D ev o s e gurá -la d e m odo q ue a p la te ia n ão v eja (ó bvio !) e sse c o rte n a la te ra l.
Dep ois d e b ate r n a g arra fa e p ro var q ue é n o rm al, m ostr o à p la te ia u m a m oed a d e v in te e c in co c enta v os
e a e nfio d ep re ssa n a a b ertu ra d a g arra fa . T chan-tc han-tc han-tc han!
— I s so a q ui q ue e sto u s e gura nd o é u m a g arra fa d e á gua p erfe ita m ente n o rm al. F oi c o m a á gua d ela q ue
to m ei m in has v ita m in as h o je d e m anhã. — S e e u c o nse guir fa ze r a q uela e nto nação b em p ró pria d os

mágic o s, ta lv ez n in guém n o te c o m o s o u c anastr o na. B ato c o m o s d ed os p or to da a s u p erfíc ie . — U m a
garra fa c o m um , i g ual à s o utr a s.
Mostr o a m oed a. N a p rim eir a fila , m am ãe fr a nze o s o lh o s. D esa ta rra xo a ta m pa p ara m ostr a r q ue a
moed a n ão p assa p elo g arg alo . O a ud itó rio fa z o m aio r s ilê ncio . S erá p or is so q ue o s m ágic o s s e m pre
co nta m p ia d in has? O u to cam a q uela s m úsic as d ra m áti c as, c heia s d e e fe ito s s o no ro s, c o m o a s d os film es
de fic ção c ie ntí fic a? M ostr o a m oed a m ais u m a v ez a nte s d e c o lo cá-la e ntr e o s d ed os c o m o o liv ro
ensin av a e b ato c o m e la n a l a te ra l, p ela a b ertu ra .

Voilà !
— e xcla m o, o q ue a té te ria s o ad o e ngra çad in ho , s e e u n ão ti v esse fa la d o a nte s d a h o ra .
Sacud o a g arra fa , m as, a lé m d as g o ta s q ue r e sta ra m n o i n te rio r, e la c o nti n ua v azia . N ão ti v e o c uid ad o d e
ver s e e sta v a b ate nd o d o l a d o c erto .
— T á n o c hão — a v is a C allie d a te rc eir a f ila , o nd e s e s e nta a o l a d o d e E lle n.
Elle n. Q ue e stá m ord end o o l á b io .
Sua p re se nça n a p la te ia . M eu ta le nto d e m erd a. O a ud itó rio c o m to das a s l u ze s a cesa s. E sto u p erd end o
te m po c o m e sse c o ncurs o . N ão a cho q ue te nha s id o is so q ue L ucy im agin o u a o g uard ar a q uele v elh o
fo rm ulá rio n a g av eta . E a c ulp a n ão é d e n in guém , s ó m in ha. A s lá grim as b ro ta m n o s c anto s d os m eus
olh o s, m as n ão d eix o q ue e sc o rra m .
Olh o p ara o c hão e v ejo a m oed a c aíd a a o s m eus p és. R ap id am ente , e u m e a b aix o e a p ego a nte s d e
enfiá -la d o o utr o l a d o d a g arra fa .
O p io r tr u q ue d e to dos o s te m pos.
O ú nic o a p la uso v em d e M illie . O bvia m ente .
— A in d a e sto u a p re nd end o — j u sti fic o .
Fic o p ara d a n a b eir a d o p alc o e nq uanto o s m em bro s d o c o m itê — m am ãe in clu siv e — d is c ute m .
Fin alm ente , e la a nuncia :
— A pro vad a. — M as s e u r o sto d iz tu d o. D ecep cio nad a. M uito m al i m pre ssio nad a.
Passo p or H annah e M illie a o v olta r p ara a p oltr o na.
— B em f r a q uin ho — s u ssu rra H annah.
— C om o s e v ocê ti v esse p la neja d o c o is a m elh o r — r e b ato .
— H annah P ere z — c ham a m am ãe.
Hannah a tr a v essa o p alc o a p asso s d uro s, u sa nd o a q uele s c o tu rn o s q ue a s F orç as A rm ad as p õem à
vend a q uand o tê m s o bra nd o.
E e ntã o — g ra ças a o g aro to n a c ab in e d e s o m — a m úsic a q ue e la e sc o lh eu c o m eça a to car. É u m a
canção q ue m e le m bro d e o uv ir n o to ca-d is c o s d e L ucy: “ S end in th e C lo w ns” . É o ti p o d e m elo dia q ue
entr a nha n o s n o sso s o sso s e d eix a a g ente tr is te , s e m c o nse guir i d enti fic ar o m oti v o.
A v oz d e H annah e stá l o nge d e s e r e xcep cio nal, m as e la r e alm ente i n te rp re ta a m úsic a. C om o s e f o sse
a c o m posito ra . O te m a v ai n um
cre sc en do
, e s u a v oz ta m bém . E v ou d eix and o d e v er a H annah d e r o sto
aze d o, d ente s e no rm es e r o up as p re ta s s u rra d as, a té v er a p enas u m a m enin a i n te rp re ta nd o u m a m úsic a d e
co rta r o c o ra ção p orq ue e la a e nte nd e, e m bora n ó s n ão .
A m úsic a é in te rro m pid a n o m eio , e s e gue-s e u m b re v e m uti s m o a nte s d e o a ud itó rio ir ro m per e m
ap la uso s.
Quand o v olta a f ic ar e m s ilê ncio , m am ãe d iz :
— F oi m ara v ilh o so , H annah. — C om o s e m e a lfin eta sse :
É a ssim q ue s e f a z, D um plin ’.
Hannah b ala nça a c ab eça e d esc e o s d egra us d a e sc ad a d e d ois e m d ois . S em a gra d ecer. A penas p ega
a m ochila q ue e stá a o s s e us p és e s a i.
Assis to a to das a s a p re se nta çõ es. C allie tr a d uz o te m a d e
Tita nic
n a lin guagem d e s in ais , e te nho q ue
ad m iti r q ue é u m a r e v ela ção . M illie to ca n o x ilo fo ne “ S om ew here O ver th e R ain b ow ”, d e
O M ágic o d e
Oz
, u m a in te rp re ta ção q ue n ão c hega a s e r im pre ssio nante , m as q ue g ara nte s u a c la ssific ação . E E lle n
sa p ate ia c o m ta m anco s d e m ad eir a a o so m d e u m a c anção fo lc ló ric a a le m ã. E la fo i m em bro d e u m a
eq uip e d e s a p ate ad o a té o s é ti m o a no , e c o nti n ua s a p ate and o tã o m al c o m o n a é p oca.
Is so m e fa z s o rrir. E la m e v ê, m as n ão m e c um prim enta . Q uand o o n úm ero te rm in a, b ato p alm as a lto
dem ais , e a té m am ãe s e v ir a .
Já a c am in ho d e c asa , e la a b aix a o v olu m e d o r á d io d ia nte d a p la ca d e
Pare
q ue f ic a e m f r e nte à n o ssa
casa e d iz :
— A a p ro vação d o s e u ta le nto f o i o p rim eir o e ú lti m o f a v or q ue te f iz . — R esp ir a f u nd o p or e ntr e o s
dente s. — S ei q ue v ocê n ão l e v a e sse c o ncurs o a s é rio , m as ta lv ez p ud esse , p elo m eno s, f in gir q ue l e v a.
Ela te m r a zã o . N ão é ju sto c o m e la , n em c o m A mand a, M illie e H annah. Q uand o e ntr o n o q uarto , a
prim eir a c o is a q ue fa ço é s e nta r d ia nte d o c o m puta d or c o m R io t e nro sc ad o a o s m eus p és e e sc re v er u m
e-m ail. N o c am po d o a ssu nto , d ig ito : S O S.

QUAREN TA E S E IS
À lu z d o d ia , a T he H id eaw ay n ão p assa d e u m b arz in ho c o m p in tu ra d esc asc ad a e
a sso alh o s e ncard id os.
Ao m eu l a d o, H annah n ão p ara d e c am bale ar s o bre u m p ar d e s a lto s d ez.
— N ão v ou u sa r e sse s tr o ço s n o c o ncurs o .
Lee W ei n o s e nfile ir a n o p alc o , to das d e s a lto a lto , e nq uanto D ale , o s e gura nça/d ono , s e nta d ia nte d o
b ar, b eb eric and o u m a la ta d e c erv eja . M and ei u m e -m ail p ara e le a b rin d o o jo go , m uito m ais d o q ue
t e nho fe ito n o s ú lti m os te m pos. C onte i q ue ti n ha e nco ntr a d o o v elh o fo rm ulá rio n a c ô m oda d e L ucy e
e xp liq uei tu d o s o bre M illie , A mand a e H annah.
Já fu i lo nge d em ais ,
d is se a e le .
E n ão s ó v o u d ar o
m aio r v exa m e, c o m o v o u a rra sta r e ssa s m en in as c o m ig o. P re cis a m os d e a ju da. D e u m t ip o q ue a g en te
n ão e n co ntr a e m C lo ver C ity .
Porq ue a v erd ad e é q ue n ão te m os a m eno r id eia d o q ue e sta m os fa ze nd o. N ão s a b em os c o m o a nd ar,
f a ze r p ose s o u n o s a p re se nta r. N ão q uero s u b ir n aq uele p alc o e s e r a g o rd a q ue c aiu d e b und a n o c hão e
c o nse guiu fa ze r a lg uns tr u q ues m al e p orc am ente . N ão s o u in gênua. S ei q ue n ão v ou v encer. N em q uero .
M as q uero c hegar l á e p ro var q ue n ão h á r a zã o p ela q ual e u n ão p ossa o u n ão d ev a p arti c ip ar.
Do m eu o utr o l a d o, e stá M illie , n um s ilê ncio to ta lm ente a tí p ic o e c o m o s j o elh o s i m óveis .
— V ocê e stá b em ? — s u ssu rro .
Seus o lh o s s e f ix am n o r e fle to r e sc uro m etr o s a cim a.
— E sto u te nta nd o m e c o ncentr a r e m n ão c air.
— D obra o s j o elh o s! — i n str u i L ee.
Hannah a p onta o p ole gar n a d ir e ção d e A mand a.
— N ão e nte nd o p or q ue e la n ão p re cis a u sa r e sse s i n str u m ento s p onti a gud os d e to rtu ra .
Amand a a b re u m s o rris o i n o cente .
— H annah — c o m eça M illie . — V ocê s a b e q ue...
Lee a i n te rro m pe e m to m s é rio :
— P orq ue a v id a n ão é u m r io , e n em to dos e sta m os i n d o n a m esm a d ir e ção .
Hannah r e v ir a o s o lh o s.
— E , q uerid a — a cre sc enta L ee — , v ocê p re cis a m elh o ra r u m p ouq uin ho e sse s e u h um or.
Ped i a L ee e a D ale p ara s a crific are m a ta rd e d e s e xta , e a q ui e stã o o s d ois s e l a m uria nd o.
— V am os l á , p esso al.
— A cab ar l o go c o m i s so — c o m ple ta A mand a.
Lee p ig arre ia .
— A p rim eir a c o is a q ue v ocês p re cis a m d efin ir é o m odo d e a nd ar. O a nd ar f a z d a m ulh er u m a r a in ha.
P orq ue, m in has a m ig as, n ão é o q ue s a i d a s u a b oca q ue c ausa a p rim eir a im pre ssã o . E stá tu d o... — e la
m exe o s q uad ris p ara a d ir e ita , e e ntã o p ara a e sq uerd a — ... n o b ala nço d as o nd as d o m ar.
Com o c anto d os o lh o s, v ejo M illie r o end o a s u nhas s e m p ara r.
Lee n o s m and a se nta r e nq uanto m ostr a e xata m ente o q ue q uer d iz e r, e so lta m os su sp ir o s d e a lív io
q uand o n o sso s tr a se ir o s to cam a s c ad eir a s. E la re b ola d e u m la d o p ara o o utr o d o p alc o , o s sa lto s
f a ze nd o u m
to c
d efin id o a c ad a p asso .
— V eem co m o esto u cam in hand o co m um passo à fr e nte do outr o ? F in ja m que é um te ste de
s o brie d ad e...
— E la s s ã o a d ole sc ente s — r e sm unga D ale .
— E ntã o d ev em s a b er e xata m ente d o q ue e sto u fa la nd o, n ão é , m enin as? — A ú nic a q ue b ala nça a
c ab eça é H annah. — E ntã o , v ocês v ão c am in har c o m o s e e sti v esse m p is a nd o n um a lin ha a m are la . N ad a
d e p assin ho s d e b eb ê. C ad a p assa d a d ev e te r, n o m ín im o, o c o m prim ento d o a nte b ra ço . — E la d á m ais
u m a v olta . O j e ito c o m o e sse tr a v esti b aix in ho e g o rd ucho s e m ove n um r o be d e s e d a e u m p ar d e s a lto s
e str a to sfé ric o s o tr a nsfo rm a n um a v erd ad eir a d iv a. T alv ez e u e ste ja v end o o q ue q uero v er, m as é d ifíc il
p ensa r e m L ee c o m o s e nd o m eno s d o q ue i s so .
— V ocês n ão p odem j o gar to do o p eso d o c o rp o e m c im a d o c alc anhar. N ão é j u sto f a ze r c o m q ue o s
p obre s s a lti n ho s s u ste nte m v ocês s e m a ju d a. D is tr ib uam a f u nção p elo r e sto d o p é. A go ra , q uero v er u m a
d e v ocês te nta r.
Lev anto a m ão . P osso f a ze r i s so . E m g ra nd e e sti lo .

Dale s o lta u m a sso vio .
Com c uid ad o, c o m eço a a v ançar.
Lee f a z u m f lo re io c o m o b ra ço , p ond o o p alc o à m in ha d is p osiç ão .
— B ota u m s o m a í p ra m enin a, D ale !
Resp ir o f u nd o. N ão r e co nheço a m úsic a, m as b asta o uv i- la p ara i g no ra r a d or n o s d ed os e sp re m id os e
a a rd ência n as s o la s d os p és. O s p rim eir o s p asso s s ã o tã o lo ngo s c o m o L ee m and ou, e m bora le nto s e
hesita nte s. E la te m ra zã o q uand o d iz q ue o tr u q ue é p is a r p rim eir o co m o s d ed os e d ep ois co m o
calc anhar, um p é na fr e nte d o o utr o . F az co m q ue o s q uad ris b ala ncem e p õe o co rp o in te ir o em
movim ento , c o m o u m a b ic ic le ta n um a d esc id a: d ep ois q ue a g ente c o m eça, n ão c o nse gue m ais p ara r.
Quand o m e v ir o p ara o o utr o la d o d o p alc o , D ale m e b rin d a c o m u m s e gund o a sso vio . C am in ho c o m
dete rm in ação e a c o nsc iê ncia d e q ue, s e o s a lã o e sti v esse l o ta d o d e g ente , to dos o s o lh o s s e c o la ria m e m
mim .
Lee b ate p alm as e m e a b ra ça p ela c in tu ra . Q uand o e nco sta a c ab eça n o m eu p eito , p or u m b re v e
mom ento l e m bro q ue e la é e le . G osta ria q ue to dos o s d ia s d a m in ha v id a f o sse m tã o a b su rd os c o m o e sse .
Queria q ue L ucy te ste m unhasse is so . Q ue v is se q ue lig uei to dos o s p onto s e sp alh ad os d a s u a v id a, a té
chegar a o nd e e sto u.
Fic o a ssis ti n d o e nq uanto H annah c am in ha a o s tr o peçõ es e le v a n ão u m , m as d ois to m bos. A o v olta r,
arra nca o s s a p ato s n a m eta d e d o p alc o e o s j o ga n a p la te ia v azia . M as r in d o o te m po to do, c o is a q ue n ão
posso d iz e r q ue a v i f a ze r m uita s v eze s.
O a nd ar d e M illie é c o m ed id o e c uid ad oso . L ee é o brig ad a a fic ar le m bra nd o a e la q ue o s o lh o s
dev em s e f ix ar n o h o riz o nte e n ão n o s p és. V olta e m eia e la te m q ue l e v anta r a s m ão s p ara s e e q uilib ra r,
mas a cab a c o nse guin d o. E A mand a c am in ha tã o à v onta d e c o m s u as b ota s o rto péd ic as, q ue p ra ti c am ente
dis p ensa o rie nta çõ es.
Ante s d e ir m os p ara c asa , s e nta m os u m p ouco n o b ar, e nq uanto D ale p re p ara d rin q ues n ão b ati z a d os
para n ó s e b ati z a d ís sim os p ara L ee.
Ela n o s f a la d e tu d o, d esd e m aq uia gem d e p alc o a té o s ti p os d e r o up as q ue e xp re ssa m p onto s d e v is ta ,
até j á te r to m ad o ta nto s d rin q ues q ue e nco sta a c ab eça n o b alc ão .
— G osta ria d e te r c o nhecid o v ocês q uand o e u e ra a d ole sc ente .
— P or q uê? — p erg unta H annah. — G osta d e s e r a lv o d e b ully in g?
— N ão , n ão , é p orq ue g o sta ria d e te r ti d o a m ig as q ue c o rre sse m a tr á s d as c o is a s p ro ib id as. E u ti n ha
muito m ed o d e m im m esm a n aq uela id ad e. M ed o d e q ue to das a s c o is a s g ra nd es q ue e u q ueria fo sse m
fic ar s ó n a v onta d e.
Dale c o nto rn a o o utr o l a d o d o b alc ão .
— É m elh o r e u te l e v ar p ara c asa a nte s d a h o ra d e a b rir o b ar.
Lee s e e nd ir e ita .
— É m elh o r m esm o — c o nco rd a. — O lh a s ó p ra m im . E sto u v iv end o m eu s o nho . A paix o nad a. F eliz .
Mas e sp ere i a té q ue e ssa s c o is a s a co nte cesse m c o m ig o . E v ocês e stã o f a ze nd o e a co nte cend o a go ra , i n d o
à l u ta .
Fic am os beb eric and o no sso s drin q ues por alg uns m om ento s. N ão dig o nad a, m as su as pala v ra s
desp erta ra m a lg o d entr o d e m im . C om o s e e u e sti v esse u sa nd o u m m úsc ulo d e c uja e xis tê ncia j á ti n ha a té
me e sq uecid o.
— O brig ad a p or n o s a ju d ar — a gra d ece A mand a. — E m bora e u n ão p ossa u sa r s a lto a lto .
Com a a ju d a d e D ale , L ee d esc e d o b anq uin ho .
— F ilh in ha, v ocê n ão p re cis a d e s a lto a lto . V ocê j á é p odero sa c o m o q ue a n atu re za l h e d eu.
Ela c am in ha p or e ntr e n ó s e n o s d á d ois b eijin ho s. M illie fa z m enção d e a b ra çá-la , e L ee n ão se
afa sta . Q uand o D ale a a co m oda n o c arro , p egam os n o ssa s c o is a s e e ntr a m os n a v an d a m ãe d e A mand a.
Volta m os p ara c asa e m s ilê ncio . N em H annah é c ap az d e fa ze r c o m entá rio s á cid os. M illie n o s p ed e
para darm os um a para d a num a pap ela ria , para co m pra r um cartã o de agra d ecim ento . Todas nó s
assin am os, e M illie p ro m ete c o lo cá-lo n o s c o rre io s.
Há a lg o d ife re nte e m n ó s. D á p ara s e nti r. N ão te m a v er c o m o a nd ar, n em c o m a s d ic as d e m aq uia gem .
Não é u m a c o is a q ue s e p ossa r o tu la r o u fo to gra fa r, m as q ue fic a lá n o fu nd o c o m o a s e nsa ção d e s e r o
dia d o s e u a niv ers á rio — n ad a q ue s e ja v is ív el, m as q ue i n tu iti v am ente s e s e nte .

QUAREN TA E S E TE
— D um plin ’! V is ita p ra v ocê!
Desç o c o rre nd o a s e sc ad as. B o s e o fe re ceu p ara v ir m e b usc ar, m as e u d is se a e le , d e m aneir a m uito
e xp líc ita , q ue m e m and asse u m a m ensa gem q uand o e sti v esse e sta cio nand o. A cho q ue e le n ão é m uito
d ad o a s e guir i n str u çõ es.
Na n o ite p assa d a, q uand o e u e sta v a i n d o d orm ir, m eu c elu la r v ib ro u. N ão d ev eria te r o lh ad o, m as, p or
u m s e gund o, a chei q ue f o sse E lle n.
BO : O i, o i. Q uer e stu d ar p ra q uela p ro va d e h is tó ria n o f im d e s e m ana?
Resp ond i q ue s im , s e m n em p ensa r s e d ev eria f a ze r i s so .
Ago ra B o s e e nco ntr a n a c o zin ha a o l a d o d a m am ãe, q ue a in d a e stá to m and o c afé . E la l h e d á a s c o sta s
o ste nsiv am ente e m exe a s s o bra ncelh as p ara m im .
— V ou e stu d ar n a c asa d o B o, m ãe.
O r o sto d ela e stá v erm elh o c o m o s e e sti v esse d e p orre .
— C om porte m -s e , v ocês d ois .
Bo a b re a p orta d e v id ro e e sp era q ue e u s a ia p rim eir o .
— N ão s e e sq ueça d e p ed ir o o rç am ento a o s e u p ai, q uerid o! — g rita e la n um a v ozin ha c anta ro la d a
p ara B o.
Conto rn am os a p are d e e s e guim os e m d ir e ção a o j a rd im .
— Q ue o rç am ento ? — p erg unto .
— A h, s im . — E le fa z u m g esto e m d ir e ção à c asa . — N ós e stá v am os fa la nd o s o bre a p orta d a s a la .
M eu p ai é c hav eir o . M as e le ta m bém c o nse rta p orta s.
Seguim os e m s ilê ncio n a c am in ho nete d ura nte a lg um te m po, a té e u d iz e r:
— M in ha m ãe é d oid a d e p ed ra . D esc ulp e.
— V ocês s e p are cem .
Tento e ngo lir, m as m in ha b oca e stá s e ca f e ito u m d ese rto . N in guém j a m ais ti n ha d ito i s so s o bre m im e
m am ãe. E ra s e m pre e m re la ção a L ucy.
Você s e p are ce c o m a s u a tia .
N ão m e e nv erg o nho d is so , m as
g o sto d a i d eia d e te r p uxad o à m in ha m ãe.
— N o b om s e nti d o — a cre sc enta e le .
Base ad a n o q ue B o m e c o nto u s o bre a b ols a d e e stu d os, i m agin ei q ue n ão v iv esse e m
nenhum d os b air ro s m ais n o vos, m as n ão c heguei a e sp era r e xata m ente is so . A c asa
e m q ue e le m ora — c o m u m g ra m ad o b em -c uid ad o — f ic a n um a r u a o nd e s ó s e v eem te lh ad os a fu nd ad os,
t i n ta d esc asc ad a e j a rd in s c o m m ato c re sc id o.
Bo e sta cio na n a e ntr a d a, o c alç am ento e stá d ecré p ito .
— É a q ui q ue e u m oro .
Sig o -o p ela tr ilh a a té a p orta , o nd e e stá p end ura d o u m c arta z c o m o s d iz e re s: F IA DO S Ó A M ANHÃ!
O in te rio r da casa é quente , m as não de um je ito desc o nfo rtá v el. Só te m um and ar e é
c o nsid era v elm ente m eno r do que a m in ha. O s m óveis dev em te r, no m ín im o, duas décad as, m as
c o m bin am e ntr e s i. I m agin o c o m o d ev e s e r p ara a m ad ra sta d e B o v iv er n um a c asa q ue f o i d eco ra d a p ela
m ãe d ele .
O lu gar te m um cheir o fo rte d e in censo q ue se harm oniz a co m o re sta nte d o am bie nte . F ic o m e
p erg unta nd o s e B o a cho u q ue a m in ha c asa te m u m c heir o p are cid o c o m o m eu.
Não s e i o nd e e sp era v a q ue e le m ora sse , m as n ão e ra a q ui.
— D eix a e u te a p re se nta r p ara a m in ha m ad ra sta .
Sig o -o p elo c urto c o rre d or q ue s e p ara a p orta d a c o zin ha, o nd e h á u m in censo q ueim and o. E la e stá
x in gand o o fr e eze r d a gela d eir a , o s p és cerc ad os p or um a p oça d ’á gua co m cub os so lto s d e gelo
d erre te nd o. N ão e stá p are cend o tã o b em -c uid ad a c o m o n o d ia e m q ue a c o nheci n o s h o ppin g, m as m esm o
a ssim é u m a m ulh er b onita , d e u m je ito m uito d ife re nte d e m am ãe. U m a b ele za n atu ra l. S em a s u nhas
p in ta d as, a m aq uia gem e o l a q uê.
— L ora in e — d iz B o — , a W illo w dean v eio e stu d ar c o m ig o .
Ela s e v ir a d ep re ssa c o m u m f a cão n a m ão .
— A h! — S olta u m a r is a d a, a b aix and o o b ra ço . — A m enin a c o m d ois n o m es. E u m e l e m bro d e v ocê.

Bo f a z q ue s im c o m a c ab eça.
Ela s o rri e m e a b ra ça. S em u sa r a m ão q ue s e gura o f a cão .
Bo d á u m a to ssid a.
— O f r e eze r p aro u d e f u ncio nar?
Ela to rn a a l e v anta r o f a cão , c o m o s e f o sse a p unhala r.
— A h, c o ngelo u tu d o. T ente i q ueb ra r u m a p arte , p ara s e u p ai n ão te r e sse tr a b alh o . E le fo i c ham ad o
para f a ze r u m s e rv iç o b em q uand o e sta v a to m and o c afé .
— N ós v am os e stu d ar n o m eu q uarto — i n fo rm a B o.
Os o lh o s d e L ora in e p asse ia m e ntr e n ó s d ois . F ic o e sp era nd o q ue r e sp ond a a lg o c o m o
Seria m elh or
que e stu dasse m a qui
o u
Deix em a p orta a berta
, m as e la s e l im ita a d iz e r:
— M e a v is e m s e p re cis a re m d e a lg um a c o is a .
O q uarto d ele n ão é s u jo , m as b asta nte s u rra d o. É c o m o s e c ad a u m a d e s u as id ad es ti v esse d eix ad o
vestí g io s p or a li: p ôste re s d e b and as q ue a té m e su rp re end e q ue e le c o nheça, u m a b ola d e b asq uete
auto gra fa d a n a e sc riv anin ha, u m p ote c o m p ir u lito s v erm elh o s s o rti d os, u m a r e d e s u sp ensa d o te to c heia
de b ic ho s d e p elú cia , u m a c am is a d o S an A nto nio S purs e m old ura d a.
Ele fe cha a p orta a tr á s d e n ó s, e te nho a s e nsa ção d e q ue to do o a r q ue re sto u p ara s e re sp ir a r n o
mund o fic o u tr a ncad o a q ui d entr o . Q uand o a cab ar, b ab au. V ai s e r a m orte d e W illo w dean D ic kso n n o
quarto d e B o L ars o n.
Senta m os e m a lm ofa d as n o c hão c o m o s liv ro s e a s a no ta çõ es e sp alh ad os à n o ssa fr e nte . D ura nte u m
te m po, co nv ers a m os so bre o que pode cair na pro va, m as só co nsig o pensa r em B O -B O -B O -O -
QUA RTO -D E-B O -E LE -D ORM E-A QUI- B O -B O -B O -É -A QUI- Q UE-E LE -T IR A -A -R O UPA .
Bem a tr á s d a s u a c ab eça, p end ura d o n a m açaneta d a p orta , h á u m l a rg o m olh o d e c hav es, c o m c ente nas
dela s p end ura d as.
— O q ue é e sse c hav eir ã o d e z e la d or? — p erg unto .
Ele d á u m a o lh ad a a tr á s d e m im .
— A h. G anhei d o m eu p ai. — E le g ir a o c o rp o e s e r e co sta n a c am a. F aço o m esm o. — C om ecei a
co le cio nar c hav es q uand o e ra p eq ueno . M eu p ai b olo u u m je ito p ara a ju d ar e le a d ar u m a g era l n a
cam in ho nete , d iz e nd o q ue e u p odia fic ar c o m to das a s c hav es a v uls a s q ue e nco ntr a sse . Q uase to das s ã o
peças q ue f ic ara m m alfe ita s o u v elh as e n ão p odia m m ais s e r u sa d as.
Esta m os c o m a s m ão s e sp alm ad as n o ta p ete , a c entí m etr o s u m a d a o utr a .
— V ocê a in d a a ju d a s e u p ai?
Ele f a z q ue n ão c o m a c ab eça.
— A s c o is a s m ud ara m q uand o c o m ecei a e stu d ar n a H oly C ro ss. E sta v a se m pre o cup ad o c o m o s
tr e in o s d e b asq uete . E c o m o s a m ig o s. S ei lá . M in ha v id a c o m eço u a p are cer m uito m ais im porta nte d o
que e ssa s c hav es b obas. S ab e q uand o a g ente c o m eça a fa ze r m il p la no s p ara o fu tu ro e d e re p ente o
tr a b alh o dos pais pare ce in sig nific ante ? E acho que eu ta m bém se nti a verg o nha dele . Fiq uei tã o
aco stu m ad o a v er o s o utr o s p ais n a H oly C ro ss u sa nd o c am is a s p olo e c alç as c áq ui, q ue p ed i a e le p ara
não i r m ais m e b usc ar n a c am in ho nete . — E le b ala nça a c ab eça. — E u e ra u m b ab aca. E à s v eze s a in d a
so u.
— A cho q ue s e nti r v erg o nha d os p ais f a z p arte d o p ro cesso d e a m ad ure cim ento , ta nto c o m o f ic ar m ais
alto .
Ele s o rri c o m o s l á b io s f e chad os.
— E u a d ora v a v er o v elh o a b rin d o c ad ead os. O j e ito c o m o e le f ic av a l á c o m o o uv id o n o tr o ço , c o m o
se e sti v esse e sc uta nd o s u a m úsic a f a v orita . E , d e r e p ente , a g ente o uv ia a q uele
clic
.
— N ão s e i s e f a z d ife re nça, m as n ão a cho q ue v ocê s e ja u m b ab aca. P elo m eno s, n ão to ta lm ente .
— N ão fo i s ó m eu p ai — c o nti n ua B o. — M in ha e x-n am ora d a ta m bém . A mber. F ui h o rrív el c o m a
garo ta . E la f a zia tu d o p ara m e a p oia r. N ão f a lta v a a u m a p arti d a d o m eu ti m e. M esm o q uand o j o gáv am os
em o utr a c id ad e, e la ia , s e a rra nja sse te m po. E , e m tr o ca, e u d av a u ns a m asso s n ela n o e sc urin ho d o
cin em a o u m e e nfia v a c o m e la n a sa la d a c asa d o p ai só p ara v er jo go s d e b asq uete n a te v ê. C om o
pensa v a q ue e la e sta v a m e u sa nd o c o m o s ím bolo d e s ta tu s, n ão a chav a q ue i s so i m porta sse . M as e la n ão
esta v a r e ceb end o n ad a d e m im q ue n ão p ud esse r e ceb er d e u m o utr o q ualq uer.
Sin to u m g o sto a ze d o n a b oca. E sse e sq uem a m e p are ce m uito fa m ilia r. E n ão é n ad a q ue e u e ste ja a
fim d e r e le m bra r.
— O q ue a L ora in e f a z?
Ele f ic a v erm elh o d a c ab eça a o s p és e c o bre o r o sto c o m a s m ão s, p or i s so n ão p osso v ê-lo .
— E la d á r e uniõ es n a c asa d as c lie nte s e v end e... c erto s a cessó rio s.
— E sp era a í. — F aço u m e sfo rç o b árb aro p ara n ão r ir. — D esc ulp e. O q ue f o i q ue v ocê d is se ?

Ele r e co sta a c ab eça n a c am a.
— E la d á r e uniõ es n a c asa d as c lie nte s e v end e c erto s a cessó rio s.
— T ip o s e x to ys?
Ele f ic a a in d a m ais v erm elh o .
— M in ha m ãe tr a b alh a n um l a r d e i d oso s — c o nto a e le , te nta nd o s o co rrê -lo , e m bora s e u r u b or s e ja a
co is a m ais f o fa d o m und o.
Ele s e v ir a p ara m im , o v erm elh o c o m eçand o a s e a p agar d o r o sto .
— P ense i q ue e la f o sse a d ir e to ra d o c o ncurs o .
— E é . E la é a d ir e to ra d o c o ncurs o q ue l im pa a b und a d as a v ós d as c and id ata s d ura nte o d ia .
— N ossa . N unca te ria i m agin ad o.
Susp ir o .
— P uro g la m our.
— E a í, v ocê s e i n sc re v eu m esm o n aq uele tr o ço ?
— H um -h um . — B ala nço a c ab eça. — P or q uê? — T odo m und o p are ce te r a lg um a c o is a a d iz e r s o bre
a m in ha p arti c ip ação , e te nho c erte za d e q ue B o n ão é e xceção à r e gra .
— B om , e u s e m pre a chei q ue e sse s c o ncurs o s e ra m u m a id io ti c e, m as ta m bém p ensa v a o m esm o d a
Dolly P arto n.
Sorrio .
— R esp osta c erta .
— E a s u a ti a ? — p erg unta e le . — A q ue f a le ceu.
Engulo e m s e co .
— E la n ão tr a b alh av a. E ra a p ose nta d a.
— A h, e ntã o v ocês j á e sp era v am ? N ão q ue i s so m elh o re a s c o is a s. O q ue e u q uis d iz e r f o i q ue...
— N ão . — M in ha v oz é s u av e, m as e le m e o uv e. — N ós n ão e sp erá v am os.
Ele a guard a q ue e u f a le .
— E la e ra o besa . N ão c o m o e u. P esa v a d uze nto s e v in te e c in co q uilo s. T ev e u m in fa rto . M as e la
cuid av a d e m im . C om o u m a s e gund a m ãe.
— G osta ria q ue h o uv esse a lg um a c o is a m elh o r p ara d iz e r d o q ue “ sin to m uito ”.
Fic am os e m s ilê ncio p or a lg uns m in uto s, o bse rv and o a s s o m bra s c ria d as p elo s g alh o s d as á rv ore s q ue
o v ento f a z b ala nçar p or tr á s d as p ers ia nas d e P V C.
— A cho q ue e le f ic o u a té f e liz q uand o p erd i a b ols a d e e stu d os.
— P or q ue fic aria fe liz c o m u m a c o is a d essa s? — p erg unto , s e m te r a m eno r d úv id a s o bre q uem é
“ele ”. B o c ru za o s b ra ço s e , n esse m om ento , s u a m ão r o ça a m in ha. C ad a p eq ueno d eta lh e, a s m ão s s e
to cand o, a p orta s e tr a ncand o, f a z c o m q ue u m a o nd a d e c alo r s u b a p ela m in ha c o lu na.
— N ão fe liz , e xata m ente . M as a liv ia d o. — E le to rn a a e nco sta r a c ab eça e o bse rv a a s m in ib ola s d e
basq uete p end ura d as n as c o rre nte s d o v enti la d or d e te to . Im agin o q ue d ev a se r e str a nho v iv er n este
sa ntu ário d ed ic ad o a u m e sp orte q ue e le n ão p ode m ais p ra ti c ar. — A cho q ue e u já e sta v a c o m u m p é
fo ra d a c id ad e. E ra u m b om a rm ad or. B om o b asta nte p ara s e r n o ta d o p or a lg um as f a culd ad es m eno re s, e
ta lv ez e le ta m bém te nha p erc eb id o is so . M as n ão e ra p ara e u ir e m bora d e C lo ver C ity . A nte s d a H oly
Cro ss, o q ue e sta v a p la neja d o e ra q ue e u v iv eria e m orre ria a q ui, tr a b alh and o c o m m eu p ai.
Cad a p ala v ra m e é f a m ilia r. S ua v erd ad e é a m in ha v erd ad e. H á u m a v ers ã o d o f u tu ro n a m in ha c ab eça
em q ue fic o a q ui p ara s e m pre . V end o m in ha m ãe tr a b alh ar a té o ú lti m o d ia d a s u a v id a. E a í e u fic o
so zin ha n aq uela c asa c o m a p orta d a s a la e m perra d a, c heia d e m ate ria is d o c o ncurs o e d is c o s d a D olly
Parto n. P ois é , u m fu tu ro s o m brio . M as, m esm o a ssim , s in to u m c erto c o nfo rto p or s a b er o q ue o fu tu ro
me r e se rv a. E u n unca s o ub e o q ue é u m a s u rp re sa f a v orá v el n a v id a.
— N ão c ulp o o v elh o — c o nti n ua B o. — A s e nsa ção d e v er a s p esso as i r e m e m bora é a ssu sta d ora .
— É , e u e nte nd o o q ue q uer d iz e r. — A cho q ue ta lv ez e ste ja m os fa la nd o d e u m ti p o d ife re nte d e
perd a. O ti p o q ue n ão p ode s e r r e so lv id o c o m u m a p assa gem d e a v iã o .
Bate m à p orta .
— E ntr a .
— O i, f ilh o . — O p ai d e B o é u m a v ers ã o m ais b aix a d ele . P arru d a, c o m o m bro s l a rg o s. E le m e n o ta e
cum prim enta c o m u m a ceno d e c ab eça.
— P ai, e ssa é a W illo w dean. N ós s o m os c o le gas d e e sc o la . E e la ta m bém tr a b alh a n o H arp y’s .
Fic o d e p é.
— P ra ze r e m c o nhecê-lo , S r. L ars o n.
Ele f a z u m g esto d is p ensa nd o a f o rm alid ad e.
— P ode m e c ham ar d e B illy . — V ir a -s e p ara B o. — P re cis o d a su a a ju d a p ara tr o car o p neu d a

cam in ho nete , e te m q ue s e r a go ra .
— C la ro . — B o s e l e v anta e p ro m ete v olta r l o go .
Fic o p ara d a n o q uarto p or u m m om ento . N o q uarto d e B o L ars o n. S ozin ha. N a e sc riv anin ha, a o la d o
da b ola d e b asq uete a uto gra fa d a, h á tr ê s p orta -re tr a to s. O p rim eir o m ostr a u m a fo to d e B o ti r a d a h á
alg uns a no s. E le e stá c o m u m a c am is a d a H oly C ro ss, s e gura nd o u m a b ola d e b asq uete d eb aix o d o b ra ço .
Pare ce b em m ais j o vem c o m o c ab elo c urto e o r o sto s e m b arb a, m as o c o nto rn o d os b íc ep s j á a nte cip a o
pre se nte . U m a p ro m essa d o B o q ue c o nheço h o je . A f o to s e guin te é a nti g a e e stá m eio d esfo cad a, c o m o s e
ti v esse s id o ti r a d a d e u m c elu la r. N ela a p are cem B o, o p ai e o i r m ão , S am my. B o n ão p are ce te r m ais d e
no ve a no s. O s tr ê s e stã o n a a re ia s u ja d e u m a tí p ic a p ra ia te xana, c o m o m ar a o f u nd o. B o e stá a o l a d o d o
pai, c o m o s b ra ço s c ru za d os e a s p ern as b em a fa sta d as. O S r. L ars o n s e gura S am my a cim a d a c ab eça
co m o s e fo sse u m h alte re . O ú lti m o p orta -re tr a to s é o d a fo to d o c asa m ento d os p ais . E a go ra v ejo d e
quem B o h erd ou a a ltu ra . A S ra . L ars o n e ra , p elo m eno s, u ns d ez c entí m etr o s m ais a lta d o q ue o m arid o.
Ela e stá u sa nd o u m v esti d o a m are lo -c la ro , c o m u m a s a ia ro dad a a té o s jo elh o s, u m p ar d e s a nd ália s
doura d as e o c ab elo s o lto s o bre o s o m bro s. É u m a fo to b em n atu ra l, o nd e e la a p are ce c o m a c ab eça
jo gad a p ara tr á s, r in d o, e nq uanto o m arid o e xib e o s o rris o q ue ta nta s v eze s j á v i n o r o sto d e B o.
— E la e ra l in d a. E u m a tí p ic a e sc o rp ia na.
Eu m e v ir o . L ora in e e stá p ara d a d ia nte d a p orta , c o m u m s o rris o tr a nq uilo .
— D esc ulp e — p eço , s e m s a b er d ir e ito p elo q uê. — E sto u e sp era nd o q ue B o v olte .
— N ão te m d o q ue s e d esc ulp ar.
Mord o o l á b io p or u m m om ento a nte s d e p erg unta r:
— V ocê a c o nheceu?
— S ó d e p assa gem , m as, p or tu d o q ue o uço d iz e re m , e ra u m a b oa p esso a.
Olh o p ara a f o to m ais u m a v ez.
— V em to m ar u m c há g ela d o c o m ig o — c o nv id a L ora in e.
A m aio ria d as m ulh ere s n o S ul te m o m aio r o rg ulh o d as s u as r e ceita s d e c há g ela d o, q ue s ã o p assa d as
de g era ção e m g era ção . M as L ora in e n ão é c o m o a m aio ria . E la p õe c há e m p ó n a á gua. P ara m am ãe, c há
gela d o fe ito co m esse s chás que já vêm pro nto s é quase tã o ru im quanto a possib ilid ad e de se r
ab and onad a d ep ois d e u m a n o ite d e p aix ão .
— Q uer c o m l im ão ? — o fe re ce L ora in e.
— Q uero , s e ria ó ti m o. — E sp re m o u m l im ão n o c o po a nte s d e d ar u m g o le .
Delic io so .
C om o la sa nha
gela d a. O nd e q uer q ue m am ãe e ste ja , a cab a d e d esm aia r.
Lora in e s e nta à m in ha fr e nte c o m u m c o po p ara s i m esm a. É u m a d essa s p esso as q ue p oderia m te r
vin te e c in co o u q uare nta e c in co a no s, e n in guém p erc eb eria a d ife re nça.
— Q ual é o s e u s ig no , W illo w dean?
— S ig no ?
— S eu s ig no d o z o día co . A str o lo gia .
— E u... Ih , não se i. — D e aco rd o co m m am ãe, a astr o lo gia está a dois passo s da posse ssã o
dem onía ca. — N unca p re ste i m uita a te nção n essa s c o is a s.
Ela b ala nça a c ab eça, s o lta nd o u m m uxo xo .
— N unca v ou e nte nd er c o m o a s p esso as p odem p assa r a v id a in te ir a s e m c o nhecere m o s p ró prio s
sig no s. Q ue d ia é o s e u a niv ers á rio ?
— V in te e u m d e a go sto .
— A h! U m a l e o nin a, m as p asso u r a sp and o.
Eu m e i n clin o p ara L ora in e.
— O q ue i s so s ig nific a? — E sto u e ntr a nd o n um u niv ers o to ta lm ente n o vo.
— V ocê, m in ha q uerid a, é u m a le o a. — Is so é d ito c o m a m ais e xtr e m a d ra m ati c id ad e, m as n ão
ente nd o o s e nti d o d a f r a se . E la s u sp ir a . — V ocê é a r a in ha d a s e lv a, f e lin a. A a uto co nfia nça e m p esso a.
Bom , p elo v is to , a a str o lo gia é u m a tr e m end a f u ra d a.
Ela b ra nd e o d ed o p ara m im .
— N ão d uv id e d as m in has p ala v ra s a nte s d o te m po. T em m ais . L eão é u m s ig no d o fo go . V ocê a m a
pro fu nd am ente , m as ta m bém s e m ago a p ro fu nd am ente . M as n em s e m pre d eix a q ue a m ágo a tr a nsp are ça,
porq ue é u m a v uln era b ilid ad e. V ocê é c o m o o s o l. E stá s e m pre a í. M esm o q uand o n ão p odem os te v er.
Ela a cre d ita tã o p ia m ente n is so , q ue a cho d ifíc il n ão a cre d ita r ta m bém . E e u n ão d esg o sto d a i d eia d e
se r d o j e ito q ue s o u p orq ue e sta v a e sc rito n as e str e la s.
— E ntr e ta nto ... — lá v em o la d o r u im d a c o is a — v ocê ta m bém s e nte n ecessid ad e d e a p ro vação . E
essa f a lh a é g ra nd e o b asta nte p ara te p ara lis a r. M as o q ue i m porta l e m bra r é q ue, a p esa r d o s ig no , c ad a
um f a z o s e u p ró prio d esti n o .

É d ifíc il n ão s e nti r o q uanto e ssa s p ala v ra s s ã o v erd ad eir a s.
— C om o v ocê s a b e to das e ssa s c o is a s?
— T odo m und o te m u m a re lig iã o , n ão é v erd ad e? — E la d á d e o m bro s. — M esm o q ue n ão se ja
exata m ente u m a r e lig iã o .
— Q ual é o s e u s ig no ?
Ela s o rri.
— S agitá rio , m as o m ais i n te re ssa nte é o s ig no d e B o e m r e la ção a o s e u.
Fiq uei v id ra d a. A go ra e la m e p ego u. E e la s a b e.
— B o é d e A quário . C om o o p ai. E nsim esm ad o e r e fle xiv o, m as c o m u m b om c o ra ção .
Dem oro u m s e gund o p ara p erc eb er q ue e sto u b ala nçand o a c ab eça.
— D e a co rd o c o m a s e str e la s, v ocês d ois f o rm am u m p ar p erfe ito . — D á u m g o le n o c há e p is c a p ara
mim .
Sei q ue
par
p ode q uere r d iz e r q ualq uer c o is a : a m ig o s, c o le gas, s ó cio s. M as is so n ão im ped e m eu
ro sto d e f ic ar q uente c o m o s e e sti v esse q ueim ad o d e s o l.
Ela p õe a m ão n o m eu j o elh o .
— A h, q uerid a, v ocê e stá b em ?
Bala nço a c ab eça u m p ouco r á p id o d em ais .
— V ocê... O nd e é o b anheir o ? — M eu r o sto e stá p egand o f o go .
Ela f r a nze o c enho , p re o cup ad a.
— A s e gund a p orta d ep ois d o q uarto d e B o, à e sq uerd a.
Fic o d e p é e d ou a s c o sta s a e la , p ara d a e ntr e a c o zin ha e a s a la d e j a nta r.
— G oste i d e c o nv ers a r c o m v ocê — d ig o .
Ouço a p orta d a g ara gem s e a b rir.
— V ocê é s e m pre b em -v in d a p ara v ir b ate r u m p ap o c o m ig o .
No b anheir o , jo go u m p ouco d e á gua n o ro sto . Q uero a co rd ar to dos o s d ia s c o m o n aq uele film e,
Feitiç o d o T em po
, e r e v iv er e sse d ia u m a v ez a tr á s d a o utr a .
Mas a q ui, so zin ha, é d ifíc il n ão m e p erg unta r se e le já tr o uxe B ekah p ara c asa . O u se A mber se
entr o so u c o m L ora in e tã o b em c o m o s in to q ue n ó s d uas n o s e ntr o sa m os.
Bo e stá e sp era nd o n o q uarto . E le tr o co u d e c am is a e c o lo co u n o sso s liv ro s e a no ta çõ es e m c im a d a
cam a. E M . C IM A. D A. C A M A.
Mas a p orta e stá a b erta , e e u s in to u m c erto a lív io p or i s so . A fin al, c o m o a s p esso as p odem f u ncio nar
num a s itu ação d essa s? C om o c o nse guem p ôr g aso lin a n o c arro , p agar a s c o nta s o u a m arra r o s s a p ato s
quand o e stã o a p aix o nad as? O u p oderia m e sta r a p aix o nad as. O u e stã o a p aix o nad as. O u e ntr e u m a c o is a e
a o utr a .
O c elu la r v ib ra n o m eu b ols o .
MIT C H : O q ue v ai f a ze r h o je à n o ite ? E stá a f im d e i r c o m er u ns ta co s? V er u m f ilm e?
Saio d as m ensa gens.
— D e q uem e ra ? — p erg unta B o.
— D e n in guém e m e sp ecia l. S ó m in ha m ãe.
Estu d am os d ura nte as ho ra s se guin te s até esc ure cer e p re cis a rm os acend er o ab aju r d a m esa d e
cab eceir a . T ro cam os d e p osiç ão e n o s r e co sta m os n as a lm ofa d as e m m eio a u m m ar d e p ap éis .
Quand o e le m e le v a p ara c asa , p erc eb o q ue e sto u v ic ia d a n o c o nfo rto d a s u a p re se nça. P asse i o d ia
in te ir o s e nd o to ta lm ente e u m esm a. N em filh a, n em s o brin ha, n em a g o rd a d e q uem a s p esso as fic am
am ig as p ara s a lv ar a p ró pria a p arê ncia . S ó W illo w dean. E a s e nsa ção m e f a z s e nti r s a ud ad es d e E l. M as
já e sto u c ansa d a d esse l a nce d e o s o utr o s m e f a ze re m s e nti r a ssim . E sto u p ro nta p ara s e r e u m esm a a m e
fa ze r s e nti r a ssim .
— G oste i d a L ora in e — d ig o a e le .
— E la te m u m j e iti n ho q ue c o nq uis ta a s p esso as. C ati v ante , c o m o d iz m eu p ai. T ente i a o m áxim o n ão
go sta r d ela . M as, q uanto m ais e u te nta v a, m ais e u q ueria g o sta r. E la n ão te nta b ancar a m in ha m ãe. N ão
co m o a lg um as m ulh ere s f a ria m . M as e la é o utr a c o is a p ara m im . N ão u m a a m ig a, m as n ão u m a m ãe. N ão
se i.
É
assim
— e ssa d esc riç ão c urta e e xata — q ue e u m e s in to e m re la ção a L ucy. M as n ão e xis te u m
te rm o e sp ecífic o p ara is so , e à s v eze s p enso q ue é o q ue to rn a a d or d e tê -la p erd id o tã o d ifíc il d e
aceita r.
Ele e sta cio na d ia nte d a m in ha c asa .
— É i s so q ue v ocê c o stu m a f a ze r a o s s á b ad os? F ic ar e stu d and o e m c asa ? — Q uero s a b er tu d o s o bre
cad a m in uto d a s u a v id a.

— H um -h um — r e sp ond e e le . — A m eno s q ue m eu p ai p re cis e d e m im .
— E n o s d om in go s? — E sse é o n o sso d ia d e fo lg a n o H arp y’s , o q ue s ig nific a q ue é o ú nic o d a
se m ana e m q ue B o é u m to ta l m is té rio p ara m im .
— V ou à i g re ja . À m is sa .
— E sp era a í, v ocê é c ató lic o ?
Ele tr a ça d ese nho s c o m o d ed o n o v ola nte .
— S ei l á .
— C om o p ode n ão s a b er?
A l u z d os p oste s s e r e fle te n a c o rre nti n ha d e p ra ta q ue a p are ce a cim a d a g o la d a c am is e ta .
— O té cnic o s e m pre m and av a a g ente i r à m is sa d ura nte a te m pora d a, e a cho q ue a d quir i o h áb ito .
— A in d a b em q ue s e m d up lo s e nti d o.
Seus l á b io s f o rm am u m s o rris o m eio to rto .
— S ei l á , e u g o sto d a tr a d iç ão d a c o is a .
— S ua f a m ília ta m bém v ai?
Ele r i.
— N em à f o rç a.
O s ilê ncio d a m in ha r u a d ese rta e ntr a p ela s f r e sta s d a c am in ho nete .
— É m elh o r e u i r — s u ssu rro .
Ele s e i n clin a p ara m im e e ntr e la ça o s d ed os n a m in ha n uca, m e p uxand o. N osso s l á b io s s e r o çam , tã o
de l e v e q ue c hego a s e nti r c ó cegas. M as n ão é e xata m ente u m b eijo .
— Q uero te b eija r. Q uero te b eija r e m b re v e. — S uas p ala v ra s s e d erra m am d entr o d a m in ha b oca. —
Mas d essa v ez n ão v ou d ar m ancad a.
Tenho u m m ilh ão d e p erg unta s p ara f a ze r, m as a cho q ue p or h o je b asta .
Ele a b aix a a s m ão s, d eix and o q ue o s d ed os d esliz e m p elo m eu r o sto .
— V em à m is sa c o m ig o a m anhã.
Mord o o s l á b io s.
— T á.

QUAREN TA E O IT O
No i n sta nte e m q ue e ntr o , a r e alid ad e d esp enca a o m eu r e d or. M am ãe e stá tr a b alh and o
n o m eu v esti d o e a ssis ti n d o a u m f ilm e n a te v ê c o m o v olu m e a lto d em ais .
Tud o q ue e u m ais q uero é l ig ar p ara E l e c o nta r s o bre c ad a s e gund o d esse s d ois ú lti m os d ia s. L ee W ei,
D ale , B o, L ora in e. T ud o. D esp enco num a cad eir a d a co zin ha e p asso as m ensa gens no celu la r até
e nco ntr a r a s ú lti m as q ue tr o cam os h á q uase d ois m ese s. C lic o p ara e sc re v er.
EU : P asse i o d ia c o m o B o d a E sc o la P arti c ula r. E le g o sta d e m im , m uito . C onv ers a m os s o bre tu d o e
so bre n ad a. E le q uase m e b eijo u e f o i o n ão b eijo m ais f a ntá sti c o d e to dos o s te m pos. E sto u te nta nd o
não p ensa r e m M itc h. Ig no re i a s m ensa gens d ele d ura nte to do o fim d e s e m ana. C om o p ode o fa to d e
eu te r p assa d o u m d ia tã o m ara v ilh o so c o nse guir m e fa ze r s e nti r u m a p esso a tã o h o rrív el? S in to fa lta
de L ucy. E u m a s a ud ad e g ig ante d e v ocê. M e p erd oa. P or tu d o q ue f iz d e e rra d o. T U D O.
Fic o o lh and o p ara a s p ala v ra s, i m agin and o o q ue p oderia a co nte cer s e e u a p erta sse o b otã o d e E nv ia r.
A cab o a p agand o o te xto . O m ed o d e E l n ão r e sp ond er é g ra nd e d em ais p ara c o rre r o r is c o .
Bo m e m and a u m a m ensa gem q uand o c hega a q ui e m c asa , e n ão p oderia te r s id o e m
melh o r h o ra , p ois m am ãe e stá e ntr a nd o n o c huv eir o .
— V olto m ais ta rd e! — a v is o e m v oz a lta .
Se e la p erg unta r a o nd e v ou, b asta f in gir q ue n ão o uv i p or c ausa d a á gua.
Não e sto u te nta nd o e sc o nd er q ue v ou s a ir c o m B o, e s im q ue v ou a u m a i g re ja c o m e le , p orq ue m am ãe
p re fe rir ia q ue e u n ão fo sse à ig re ja a lg um a a q ue fo sse a u m a c ató lic a. O q ue n ão fa z o m eno r s e nti d o
p ara m im . C ató lic o s, ev angélic o s, bati s ta s... to dos acre d ita m nas m esm as co is a s, só tê m m aneir a s
d ife re nte s d e e xp re ssá -la s, n a m in ha o pin iã o , c la ro . A cho q ue so m os b ati s ta s. A fin al, e la fr e q uenta a
P rim eir a I g re ja B ati s ta d e C lo ver C ity , e e u ta m bém , n o s f e ria d os.
Usa nd o u m a c alç a c áq ui p assa d a a fe rro e u m a c am is a p olo p re ta , B o e stá e nco sta d o n a p orta d o
c aro na, à m in ha e sp era . E sto u m e s e nti n d o m eio e m pete cad a c o m o v esti d o p re to q ue u se i n o s e rv iç o
r e lig io so d e L ucy, m as é o ú nic o q ue te nho a p ro pria d o p ara i r à m is sa .
Ele a b re a p orta p ara m im , e p assa m os to do o p erc urs o a té a ig re ja c o m a s m ão s n o d esc anso e ntr e
n ó s. N ad a se to ca a lé m d os m in d in ho s, e a se nsa ção é d e u m a c ente lh a p re ste s a se in fla m ar n um a
l a b are d a.
Nunca e sti v e d entr o d e u m a i g re ja c ató lic a n a v id a. I m agin o q ue s e ja m e ssa s c o nstr u çõ es a nti g as c o m
c o nfe ssio nário s, v itr a is e b anco s p ara s e a jo elh ar q ue a g ente v ê n o c in em a.
Mas a d a H oly C ro ss é m ais n o va. M esm o a ssim , te m tu d o o q ue e u im agin av a. É m ais s ile ncio sa d o
q ue a ig re ja da m am ãe. M ais tr a nq uila . N enhum volu ntá rio vem no s re ceb er fa la nd o em voz alta ,
t a m pouco h á p ro fe sso re s f o fo queir o s d e e sc o la d om in ic al.
É s im páti c a.
Dos d ois l a d os d o a lta r h á v ela s e m c o pin ho s v erm elh o s, m as n em to das e stã o a cesa s.
— P ara q ue s ã o a s v ela s? — s u ssu rro p ara B o d ep ois d e e nco ntr a rm os a sse nto s n o m eio d a i g re ja .
— É p ara a g ente d eix ar u m d óla r, o u q ualq uer q uanti a , n a c aix a d e c o le ta e a cend er u m a v ela e m
m em ória d e a lg uém . E a cho q ue f a ze r u m a o ra ção ta m bém , s e q uis e r.
A m is sa c o m eça e , a p ós a lg uns a núncio s e h in o s, o p ra to d e c o le ta é p assa d o e ntr e o s b anco s, d e m ão
e m m ão . B o ti r a u m a a m assa d a n o ta d e d ez d a c arte ir a e a c o lo ca n o p ra to a nte s d e p assá -lo a d ia nte .
P ad re M ik e fa z o s e rm ão . E u e sp era v a q ue fo sse e m la ti m , m as n ão , é n a n o ssa lín gua m esm o. C ad a
p ala v ra é c o m ed id a. O l a nce to do é m eio p are cid o c o m u m a c erim ônia , c o m o a d a p assa gem d o n ív el d e
M arg arid a p ara o d e B ro w nie , n o s m eus te m pos d e b and eir a nte .
Dep ois d a m is sa , s ig o B o a té a p arte e m q ue e stã o a s v ela s, o nd e a lg um as p esso as s e r e unir a m . E le
p õe u m as m oed as n a c aix in ha e m e d á u m a v are ta p ara a cend er u m a v ela n a c ham a d a o utr a m aio r. C ad a
u m d e n ó s a cend e u m a. N ão c hegam os a d iz e r p ara q uem s ã o , n em é n ecessá rio .
Im agin o c o m o s e ria f a ze r i s so to dos o s d om in go s e m c o m panhia d e B o. M esm o s e m s a b er s e a cre d ito
n esse r itu al, g o sto d a i d eia d e f a ze r p arte d e a lg um a c o is a . A o l a d o d ele .
Saím os p ara o e sta cio nam ento , o nd e o s fié is e stã o se c o nfr a te rn iz a nd o. B o a cena p ara a lg uns. E le
a p onta p ara u m s u je ito d e b la ze r a zu l- m arin ho e c alç a c áq ui.
— A quele é o m eu té cnic o . — S in to u m a tr is te za e no rm e p or o uv i- lo fa la r d o c ara c o m ta nta ê nfa se ,

no p re se nte , c o m o s e a in d a f o sse s e u té cnic o .
— B o! — D em oro um m om ento p ara re co nhecê-lo , m as é C ollin . O cara q ue fo i v is ita r B o no
Harp y’s . E le d á u m a c o rrid in ha a té n ó s. — O i — d iz e le , a p onta nd o p ara m im . — E sto u te r e co nhecend o.
Com eço a m e e nco lh er.
Bo e ste nd e a m ão , e o s d ois tr o cam u m a p erto tã o f ir m e q ue m ais p are ce u m a d em onstr a ção d e f o rç a.
Mas B o n ão e stá i r ra d ia nd o a q uela te nsã o s u fo cante d a ú lti m a v ez q ue o s d ois s e v ir a m .
— O q ue te m f e ito , c ara ? — p erg unta C ollin .
Bo d á d e o m bro s.
— T ra b alh ad o. E stu d ad o.
Outr o s c ara s d o ti m e e stã o s e a p ro xim and o. E e u m e s in to c o m o u m e le fa nte b ra nco — o u p re to , j á q ue
é a c o r d o m eu v esti d o.
Ele a p erta a m ão d e c ad a u m d ele s.
Os c ara s p erg unta m a e le so bre a e sc o la , so bre o jo elh o , se v ai fa ze r fis io te ra p ia p ara v olta r à s
quad ra s. M eus o m bro s r e la xam u m p ouco , e q uase c o m eço a m e s e nti r i n v is ív el.
De r e p ente , C ollin a p onta p ara m im e p erg unta :
— E e ssa a í? É a s u a n am ora d a a go ra ?
Bo o lh a p ara m im e r e sp ond e:
— E ssa é a W illo w dean. — E le s e v ir a p ara o s a m ig o s. — E e u e sto u f a ze nd o d e tu d o p ara q ue s e ja .
— Segura m in ha m ão . E a ap erta . B em ali, na fr e nte de to do m und o. Fic o tã o eufó ric a quanto
env erg o nhad a.
Alg uns d os a m ig o s a sso via m q uand o e le s e d esp ed e e v olta m os p ara a c am in ho nete . D e m ão s d ad as.
Entr a m os e f ic am os e sp era nd o n a f ila p ara s a ir d o e sta cio nam ento .
— O q ue f o i i s so ?
Ele p assa a s c o sta s d a m ão n o q ueix o .
— E u te d is se q ue q uero fa ze r a s c o is a s d o je ito c erto . E já e sto u c ansa d o d e te m ante r e m s e gre d o.
Aliá s, n unca ti v e a i n te nção d e f a ze r i s so . E u e sta v a... s e i l á . À s v eze s, a s c o is a s l e gais a co nte cem c o m a
gente n a p io r h o ra p ossív el. V ocê f o i u m a ó ti m a c o is a , W illo w dean.
— E a B ekah?
— Q ue é q ue te m e la ?
— V ocês n ão e stã o n am ora nd o?
Ele d á u m a r is a d a.
— Q ue n ad a. S ó s a ím os a lg um as v eze s. — E le fa z u m a p ausa . — T ud o b em . A cho q ue a g ente m eio
que n am oro u. M as e u e sta v a te nta nd o te e sq uecer. O u te d eix ar c o m c iú m es, d e re p ente . S ei lá . N ão
esp era v a q ue v ocê f o sse f ic ar v id ra d a n aq uele g ig ante , p or i s so a cho q ue e u é q ue e sta v a c o m c iú m es.
— M itc h. O n o m e d ele é M itc h. E le n ão é e sse ti p o d e c ara . É s ó u m a m ig o .
Ele n ão r e sp ond e p or u m m om ento .
— N ad a a lé m d is so ?
— N ad a — r e sp ond o, c o m o s e a i d eia m e c ho casse .
Sin to s e u o lh ar e m m im .
— S ei lá . — A h, m eu D eus. É c la ro q ue n ó s s o m os m ais d o q ue a m ig o s. P elo m eno s, n a c ab eça d o
Mitc h. E a cho q ue, à s v eze s, n a m in ha ta m bém . — N unca d efin im os o s ta tu s d a n o ssa r e la ção , m as a cho
que e le g o sta ria d is so .
— E v ocê ta m bém g o sta ria ? C om e le ?
— E u... n ão s e i. N a m aio r p arte d o te m po, n ão . M as n ão c heguei a d iz e r i s so a e le . — G ir o u m a m echa
de c ab elo e ntr e o s d ed os. — M as e v ocê e a B ekah? — B ala nço a c ab eça. — N unca v ai c hegar a h o ra
certa p ara n ó s, B o.
— E u n ão d is se a e la q ue e stá v am os n am ora nd o, s e é i s so q ue q uer s a b er.
— M as e ntã o e sta v am f a ze nd o o q uê? V ocê p re te nd ia d ar u m f o ra n a g aro ta ?
— E la e e u n ão s o m os n am ora d os.
— E n em n ó s d ois — r e b ato .
Com u m m ovim ento b ru sc o , e le g ir a o v ola nte e e ntr a c o m a c am in ho nete n um a r u a s e m s a íd a. P ara e
puxa o f r e io d e m ão .
Bo d esa fiv ela o c in to d e s e gura nça e s e a p ro xim a.
— E u q uero m ais . C om v ocê. E u q uero s e gura r s u a m ão e m p úb lic o . T e l e v ar p ara c asa d o tr a b alh o e
te d ar u m b eijo d e b oa-n o ite . E f ic ar c o nv ers a nd o n o te le fo ne a té tã o ta rd e q ue a g ente a cab e p egand o n o
so no .
Mord o o lá b io in fe rio r p ara q ue p are d e tr e m er. H á m uita s r a zõ es p ara q ue a g ente n ão d ê c erto . S ei

que te m os u m a h is tó ria ju nto s — h á p ro vas in co nte stá v eis d is so — , m as... S e e u fo sse s a cud ir a B ola 8
Mágic a, p osso p ra ti c am ente g ara nti r q ue e la m e d ir ia :
O p ro gnóstic o n ão é d os m elh ore s.
Mas B o n ão s e d eix a a b ate r.
— V ocê n ão m e c o nhecia n o a no p assa d o, W illo w dean. E fic o fe liz p or is so . E u e ra u m o tá rio . S ó
queria s a b er d e ir e m bora d esta c id ad e. E u b rin q uei c o m v ocê n o v erã o . S ei d is so . E n ão v ou te p erd er
de n o vo. E u v ou c o nv ers a r c o m a B ekah e s e r c em p or c ento h o nesto c o m e la . N ão v ai h av er n enhum m al-
ente nd id o.
— N ão é tã o s im ple s a ssim , B o. T alv ez a té s e ja p ra v ocê, m as p ra m im n ão é .
Ele f r a nze o s o lh o s.
— É i s so q ue e u q uero : q ue v ocê s e ja m in ha n am ora d a. Q uero p ôr u m r ó tu lo n a n o ssa r e la ção . Q uero
que to do m und o s a ib a e xata m ente o q ue e u s in to p or v ocê, W illo w dean. A cho q ue i s so é b asta nte s im ple s.
Eu n ão d ev eria c ed er, m as m e a p ro xim o p ara b eijá -lo . M eus n erv os e stã o à flo r d a p ele , e e ste
mom ento e m q ue m eu c o rp o v ir a u m a m is tu ra d e c ao s e d ete rm in ação é e xata m ente o q ue fa lta v a c o m
Mitc h.
Ele s e a fa sta .
— P rim eir o , q uero s u a r e sp osta .
Desv io o s o lh o s, d eix and o q ue s e f ix em e m m il l u gare s, m eno s n o s d ele . N ão s e i s e p osso e nfr e nta r o s
olh are s e o s c o chic ho s d os o utr o s. M esm o q ue c o nsig a s u p era r a r e p uls a p or m im m esm a q uand o e le m e
to ca — m e to ca p ra v ale r — , n ão a cho q ue e u te nha c o ra gem d e e nfr e nta r a s p esso as s e m pre p erg unta nd o,
co m a r a tô nito , c o m o s e f o sse o m ila gre d a á gua e d o v in ho , c o m o n ó s f o m os a cab ar j u nto s.
E a go ra se i e xata m ente c o m o L ucy se se nti a q uand o d ecid iu q ue n ão p oderia to m ar o a v iã o p ara
Dolly w ood. T odos esse s ano s, p ense i q ue ela só esta v a se sa b ota nd o, m as ago ra se i q ue não ti n ha
esc o lh a. Q uand o a s o pçõ es d a g ente s e l im ita m a s o fr e r e m p riv ad o o u s e e nv erg o nhar e m p úb lic o , n ão h á
esc o lh a. N ão p osso e ntr a r n o a v iã o .
Mam ãe te m r a zã o . N unca v ou s e r f e liz c o m e ste c o rp o. N ão p le nam ente . N unca v ou c o nfe ssa r i s so e m
voz a lta , m as e la te m r a zã o . Q uero ta nto p ro var q ue e stá e rra d a, q ue q uase c hego a a ceita r, m as e m v ez
dis so r o o a p ele e m v olta d a u nha d o p ole gar e r e sp ond o:
— P re cis o p ensa r.
Porq ue n ão p osso s u p orta r a i d eia d e d iz e r n ão a e le . A in d a n ão . Q uero v iv er c o m a p ossib ilid ad e d o
que p oderia s e r. M esm o q ue s e ja s ó p or a lg uns d ia s.

QUAREN TA E N O VE
Só ti v e u m a r e ssa ca s é ria n a v id a. E lle n e e u fo m os a u m r e ti r o n a ig re ja d a m ãe d o
T im , e e le , se nd o o b om n am ora d o q ue é , le v ou p ara a g ente u m c o ole r c heio d e g arra fa s d e v in ho
a fa nad as d o p ai. E lle n e e u s e rv im os o v in ho e m c o pos d esc artá v eis e f ic am os to m and o u m a tr á s d o o utr o
a té a m ãe d ela ir n o s b usc ar n a m anhã s e guin te . N os s e nta m os n o b anco tr a se ir o e p egam os n o s o no ,
a co nchegad as u m a à o utr a . A pagam os d ura nte o d ia in te ir o e , q uand o a co rd am os, e u e sta v a m e s e nti n d o
c o m o s e ti v esse h ib ern ad o. T ud o e sta v a tã o lu m in o so , e a ú nic a c o is a q ue e u q ueria e ra m e e m pantu rra r
d e c o m id a e ngo rd ati v a a nte s d e v olta r p ara a c am a.
Na m anhã d e s e g und a, a co rd o d e r e ssa ca d o f im d e s e m ana q ue p asse i c o m B o. M eu c o rp o i n te ir o e stá
m ole , e s o u o brig ad a a m e l e v anta r d a c am a e m e ta p as. U m b ra ço d e c ad a v ez, u m a p ern a d e c ad a v ez.
Dev em os te r p assa d o u m as o ito h o ra s e stu d and o p ara a p ro va d e h is tó ria , m as m al m e le m bro d as
p erg unta s d o r e su m o, q ue d ir á d as r e sp osta s. E m in ha ta rd e d e s e xta n a T he H id eaw ay m ais p are ce u m a
v aga l e m bra nça p erd id a e m a lg um l u gar d o p assa d o.
Quand o M itc h e ntr a n a s a la n o s e gund o te m po, e sto u r e le nd o m in has a no ta çõ es, te nta nd o r e co rd ar u m
p ouco o q ue e stu d ei. É c o m o s e m eu c ére b ro ti v esse d ecid id o d ele ta r in fo rm açõ es p ara d ar e sp aço a o s
a co nte cim ento s d os d ois ú lti m os d ia s.
Quand o o c o rp anzil i n v ad e a p orta e str e ita , s u a l e m bra nça m e a ti n ge c o m o u m a c hic o ta d a. M itc h e e u
v iv em os n essa z o na i n d efin id a, m as a cho q ue é b em m ais i n d efin id a p ara m im d o q ue p ara e le .
— O i — d iz e le . — T e m and ei v ária s m ensa gens n o f im d e s e m ana.
— A h, s im . D esc ulp e. E u e sta v a a fo gad a n um m ar d e a no ta çõ es p ara a p ro va d e h is tó ria . V ia s u as
m ensa gens, e a í p ensa v a e m re sp ond er q uand o te rm in asse d e le r, m as e sq uecia . — E ntr e i e m m odo d e
b lá b lá b lá d oid o.
Seu r o sto p are ce r e la xad o, m as o s o lh o s e stã o te nso s e c o ncentr a d os.
— O c o ncurs o é d aq ui a d uas s e m anas. A nd ei p ensa nd o... — E le s e ca a lg um as g o ta s d e s u o r d a te sta
c o m a s c o sta s d a m ão . — E u p oderia s e r o s e u a co m panhante . F ui a o c o ncurs o h á u ns a no s, e s e i q ue a s
c and id ata s p re cis a m d e u m a co m panhante . E u p oderia , s e i lá , a lu gar u m s m okin g. A cha q ue é b obagem ?
N a v erd ad e, v ocê é q uem d ev ia m e c o nv id ar, m as v ocê e sc re v eu n o r o sto a q uele c o nv ite p ara o B aile d a
M aria C eb ola , e ntã o n ão s e i. O q ue a cha?
— E u... E u... S im . S eria le gal. Ó ti m o. — E já q uero r e ti r a r o q ue d is se . Is so é m ais d o q ue u m g esto
a m ig áv el. A in d a a ssim , p ensa nd o c o m to do o e go ís m o, p re cis o m esm o d e u m a co m panhante . E B o n ão s e
o fe re ceu, n ão c o m to das a s l e tr a s. A lé m d is so , s e n ão a guento a i d eia d e a tr a v essa r u m c o rre d or a o l a d o
d ele , c o m o v ou s u p orta r q ue m e a co m panhe d ia nte d a c id ad e i n te ir a ?
— T ud o b em . D ev o e sc o lh er a lg um a c o is a q ue c o m bin e c o m o s e u v esti d o? N o e sti lo d e u m b aile d e
f o rm atu ra , d e r e p ente ?
— A cho q ue p re to c ai m uito b em . E p ode i r d e te rn o . N ão p re cis a a lu gar u m s m okin g.
Ele b ala nça a c ab eça.
— I d eia d a m in ha m ãe. E la e stá to da a nim ad a.
Ah, m eu D eu s. A m ãe d ele .
— Q ue ó ti m o.
— E la e stá a d ora nd o q ue v ocê p arti c ip e. D iz q ue é m uito c o ra jo so d a s u a p arte .
Sorrio . M as n ão q uero q ue s e ja c o ra jo so . Q uero q ue s e ja n o rm al.
Dep ois d a a ula , M illie m e e nco ntr a n o e sta cio nam ento , o q ue n ão é d ifíc il, já q ue
esto u a li p ara d a, n a e sp era nça d e to par c o m E lle n s o zin ha.
Hoje , M illie e stá p are cend o u m a b alin ha d e m enta — a té a m ochila é v erd e. O c ab elo e stá p re so n um
r a b o d e c av alo c o m u m e lá sti c o fo rra d o d e te cid o c o m bin and o. M illie d ev e se r a ú nic a p esso a q ue
c o nheço q ue a in d a u sa e sse ti p o d e e lá sti c o .
— O i! — d iz e la . — A s e xta f o i m ara v ilh o sa .
— F oi m esm o.
Ela b ala nça o c o rp o p ara o s l a d os, to rc end o a s m ão s.
— E u... M in ha f a m ília é m eio r e lig io sa . N a v erd ad e, é m uito r e lig io sa . M eus p ais ta m bém . E nfim , e le s
n ão f ic aria m l á m uito s a ti s fe ito s s e s o ub esse m o nd e e sti v e. E c o m q uem a g ente e ste v e.

Sin to o s o m bro s s e c urv are m .
— C om o a ssim ?
— E sto u d iz e nd o i s so p orq ue... s e m pre a chei q ue p esso as c o m o L ee e D ale e sta v am e rra d as. C om o s e
esti v esse m v iv end o e m p ecad o.
Dete sto fr a se s a ssim . E l c ham aria a is so d e “ v ocab ulá rio e v angélic o ”. C ois a s q ue a p re nd em os n a
ig re ja e s ã o in cuti d as e m n ó s a té p are cere m tã o n o rm ais q ue e sp era m os q ue o s o utr o s q ue n ão v ão à
ig re ja e nte nd am o q ue q uere m os d iz e r.
Millie b ala nça a c ab eça.
— N ão e sto u c o nse guin d o e nco ntr a r a s p ala v ra s c erta s. O q ue e sto u te nta nd o d iz e r é q ue g o ste i d e L ee
e D ale e m e d iv erti n aq uela n o ite n o T he H id eaw ay. F ic o p ensa nd o a r e sp eito , e e le s s ã o b oas p esso as.
Gosta ria q ue to do m und o p ud esse v er i s so . — E la s o rri. — Q ueria a p enas q ue v ocê s o ub esse .
Sin to m eu p eito s e e ncher d e u m s e nti m ento q ue s ó p osso d efin ir c o m o s e nd o d e o rg ulh o . A perto o
om bro d e M illie .
— F ic o f e liz .
— A -lá ... a s le ito as d o c o ncurs o ! — g rita a lg uém d o o utr o la d o d o e sta cio nam ento , in te rro m pend o
meu m om ento c o m M illie . — O in c! O in c!
— V ão p ra m erd a! — g rito . E , p ara M illie : — D esc ulp e.
Ela p re nd e u m a m echa d e c ab elo a tr á s d a o re lh a e d á u m p asso a tr á s.
— N ão te m p ro ble m a. R ela xa.
Eu s a b ia q ue is so a cab aria a co nte cend o. F alta nd o d uas s e m anas p ara o c o ncurs o , to da a a te nção d a
cid ad e e stá c o ncentr a d a e m n ó s. E , n o n o sso c aso , i s so p ode n ão s e r b om .
Millie p uxa a s a lç as d a m ochila .
— E sta v a p ensa nd o e m c o nv id ar v ocê, A mand a e H annah p ara u m a f e sta d o p ija m a. A mand a v ai, m as
acho q ue H annah s ó v ai to par s e v ocê f o r. E a í... e stá a f im ?
Gera lm ente n ão v ou a e sse ti p o d e fe sta , a m eno s q ue a s n o ite s p assa d as n a c asa d e E l p ossa m s e r
cla ssific ad as a ssim . N ão a cho a m eno r g ra ça n a id eia d e d orm ir d e c am is e ta e c alc in ha n o c hão d a c asa
da M illie , e nq uanto o s p ais d ela v êm v ig ia r a g ente d e ta nta s e m ta nta s h o ra s. M as n ão te nho c o ra gem d e
diz e r n ão n este m om ento .
— C la ro — r e sp ond o. — E sta re i l á .
Na no ite se guin te , q uand o v ou b usc ar m am ãe no tr a b alh o , ela d iz q ue fe z alg uns
aju ste s no m eu vesti d o e perg unta se eu m e im porta ria de, ao chegar em casa ,
exp erim entá -lo .
Mais u m a v ez, e la m e d eix a tr o car d e r o up a s o zin ha n o s e u q uarto . A m eta d e d e c im a d o v esti d o e stá
sim ple sm ente p erfe ita . N em p osso i m agin ar q uanto te m po e la d ev e te r l e v ad o p ara a certa r a s b arb ata nas.
Já a m eta d e d e b aix o s ã o o utr o s q uin hento s. E la d is se q ue a la rg aria a s a ia o m áxim o p ossív el, m as a in d a
está s u p era p erta d a. M esm o a ssim , e sto u m e s e nti n d o b em n ele . N em c o nstr a ngid a, n em n ad a.
Mas v ejo s u a te sta f r a nzid a.
— O c o rp ete f ic o u b om — o bse rv o. — A liá s, f ic o u p erfe ito .
Ela p re ssio na m in has c o sta s c o m a m ão .
— T enta f ic ar u m p ouco m ais e re ta .
End ir e ito a c o lu na.
Ela s o lta u m m uxo xo .
O s o m d e s u a d ecep ção m e d ói c o m o a gulh as e nfia d as d eb aix o d as u nhas.
— M ãe, f ic o u ó ti m o, tá ? A dore i.
— D um plin ’ — d iz e la — , e stá c o la d o n o s s e us q uad ris f e ito c am is a d e f o rç a. — E la p assa o s d ed os
pela s l a te ra is . — N ão p osso a la rg ar m ais d o q ue i s so s e m c o rre r o r is c o d e r o m per a s c o stu ra s.
— M ãe, f ic o u b om . S ó v ou te r q ue u sa r p or d ez m in uto s.
Ela to rc e o s l á b io s.
— Q ue f o i? — D ou m eia -v olta p ara o lh á-la , s e m o r e fle xo e ntr e n ó s. — F ala l o go , m ãe. S eja l á o q ue
esti v er p ensa nd o, p ode d iz e r.
Ela f a z u m g esto , m e d esp achand o, e c o m eça a g uard ar a c aix a d e c o stu ra n a c ô m oda.
— P ense i... q ue v ocê p oderia s e e sfo rç ar p ara p erd er u ns q uilin ho s a nte s d o c o ncurs o . — E la s e v ir a
para m im . — A fin al, v ocê e stá o u n ão l e v and o i s so a s é rio ? E sp ero q ue e nte nd a q ue n ão é u m a p ia d a. S ó
perm iti q ue p arti c ip asse p orq ue e sp era v a q ue o l e v asse a s é rio .
Suas p ala v ra s m e d eix am to ta lm ente d eso rie nta d a.

— Q uer d iz e r q ue o v esti d o n ão c o ub e p orq ue v ocê e sp era v a q ue e u p erd esse p eso ? — F aço u m
gesto , e xib in d o m in has f o rm as. — M ãe, e sta s o u e u. E ste é o m eu c o rp o.
Ela n ega c o m a c ab eça.
— E u s a b ia q ue v ocê m e in te rp re ta ria m al. S em pre v ê o p io r e m tu d o q ue e u d ig o . N ão p osso n em
mais q uere r a ju d ar? N ão s o u a v ilã d a h is tó ria .
— E ntã o , q uem é ?
Ela f ic a e m s ilê ncio , e a s p ala v ra s q ue n ão d iz p air a m e ntr e n ó s c o m o e sta la cti te s g ig ante sc as p re ste s
a s e s o lta re m .
— E stá a p erta d o d em ais — d iz e la , p or fim . — N ão v ou a p ro vá-lo p ara o c o ncurs o . M as n ão p or
você s e r m in ha f ilh a. A gir ia d a m esm a f o rm a c o m q ualq uer c and id ata . É i n ap ro pria d o.
— M as e u e sto u m e s e nti n d o tã o b em , m ãe! — M in ha v oz c o m eça p ausa d a e c alm a. — E ste v esti d o
me fa z s e nti r u m a p esso a q ue e u n em s a b ia q ue p oderia s e r. N unca ti v e n ad a p are cid o c o m e le . M as, s e
quand o v ocê o lh a p ara e le , s e q uand o o lh a p ara m im , s ó p ensa q ue é u m a p ena q ue e u n ão te nha p erd id o
alg uns q uilo s, e ntã o , d ane-s e , m ãe. N ão p osso f a ze r n ad a.
Conti n uo o nd e e sto u p or u m m om ento , e sp era nd o q ue e la v á e m bora . E ntã o , le m bro q ue s o u e u q ue
esto u n o q uarto d ela . S usp end o o v esti d o p ara n ão tr o peçar n a b arra e d eix o m am ãe n o q uarti n ho s o litá rio
ond e v ai p assa r o r e sto d a v id a c o m a f a ix a, a c o ro a e o v esti d o v erd e-á gua.

CIN Q UEN TA
Quand o s a ím os d o tr a b alh o n a n o ite d e s e xta , B o m e d á u m a c aro na c o m o te m f e ito n as
ú lti m as d uas s e m anas, m as, d essa v ez, n ão m e l e v a p ara c asa .
Para m os d ia nte d a c asa d a M illie . R on n o s d eix o u s a ir u m p ouco m ais c ed o, p ara e u p oder c hegar a q ui
a nte s d a m eia -n o ite .
Ponho n o c o lo a s a co la c o m a s r o up as e m e p re p aro p sic o lo gic am ente p ara
a h ora d e m e s o cia liz a r
.
O c o ncurs o s e to rn o u a lg o p re cip ita d o p ara m im . A cho q ue m in ha i n te nção i n ic ia l a o m e i n sc re v er f o i
a c erte za d e q ue e u ti n ha u m p onto d e v is ta a p ro var. N ão s e i s e e ra p ara m im m esm a, p ara m am ãe o u
p ara a h um anid ad e, m as, a c ad a d ia q ue p assa , e u m e s in to c ad a v ez m eno s c o m o s e ti v esse a lg o a d iz e r.
— V ocês v ão s e r e unir p ara e nsa ia r p ara o c o ncurs o ?
— N ão e xata m ente . A cho q ue é m ais p ara p la neja r e str a té gia s. T em os q ue n o s m ante r u nid as.
Ele f r a nze o c enho , c o nfu so .
— V ocês q uatr o e ntr a ra m j u nta s n o c o ncurs o ?
Faço q ue s im .
— E u a p oio to ta lm ente a id eia d e q ue q ualq uer p esso a q ue q ueir a te nha o d ir e ito d e p arti c ip ar, m as
p or q ue é tã o i m porta nte p ra v ocês?
Sorrin d o, e u m e v ir o p ara e le .
— É m ais o u m eno s c o m o v ocê c o nti n uar in d o à m is sa m esm o d ep ois d e te r s a íd o d a H oly C ro ss. É
u m a c o is a q ue s e us c o le gas fa ze m ju nto s, n ão é ? M as s ó p orq ue v ocê n ão e stá m ais n o ti m e is so n ão
s ig nific a q ue n ão d ev a m ais i r. E s ó p orq ue n ó s n ão te m os o b io ti p o d e m is se s i s so n ão s ig nific a q ue n ão
t e nham os o d ir e ito d e p arti c ip ar.
— A cha q ue s e ria m uito b re ga d iz e r q ue e u te a cho d ez v eze s m ais b onita e m ais in te lig ente d o q ue
q ualq uer m is s?
Meu r o sto p ega f o go .
— É , s im . S up erb re ga.
— N ão s a b ia q ue a s g aro ta s a in d a d av am f e sta s d o p ija m a — d iz e le .
— P ois é , m as a cho q ue d ão , sim . E l e e u se m pre d orm ía m os n a c asa u m a d a o utr a , m as n unca
c ham áv am os i s so d e f e sta . — N os ú lti m os d ia s, c o nte i tu d o a B o s o bre m im e E l, e c o m o n ão e sta m os n o s
f a la nd o. E le a cho u q ue s u p era ría m os i s so , m as n ão c o nsig o c o nco rd ar c o m e sse p ro gnó sti c o .
Abro a p orta .
Ele s e gura a m in ha m ão .
— W illo w dean? V ocê já r e fle ti u u m p ouco m ais s o bre o q ue c o nv ers a m os? S ab e q ue e u n ão e sta v a
b rin cand o, n ão s a b e?
É i m possív el n ão r e sp ond er q ue s im . D iz e r a e le q ue e u q uero s e r s u a n am ora d a.
— P re cis o d e u m p ouco m ais d e te m po.
Ele b ala nça a c ab eça.
— T ud o b em . T em po.
Amand a e stá p ara d a d ia nte d a p orta , o q ueix o tã o c aíd o q ue q uase b ate n o p eito . À s su as c o sta s,
M illie e sti c a o p esc o ço .
— A h! M eu! D eus! — e xcla m a A mand a. — E ra o
Bundin ha d e P êsse g o
.
Dig o
sh hh
e f a ço u m g esto , m and and o a s d uas e ntr a re m . A p rim eir a c o is a q ue m e c ham a a a te nção n a
c asa d e M illie é o fa to d e tu d o c o m bin ar — d as flo re s a rti fic ia is à s a lm ofa d as, p assa nd o p ela c o r d as
p are d es. M illie e stá u sa nd o u m c o nju nto d e m ole to m , m eia s e u m a f a ix a d e c ab eça q ue a d eix am p are cid a
c o m u m a lg o dão -d oce l ilá s. É c o m o s e e la ti v esse p esq uis a d o n a i n te rn et “ ro up as p ara f e sta s d o p ija m a”
e ti r a d o e ssa p éro la d a c ap a d e u m a r e v is ta s o bre r e cém -n asc id os.
Amand a, s ó p ra v aria r, e stá c o m u m s h o rt d e fu te b ol e u m a c am is e ta , m as d esc alç a. É a p rim eir a v ez
q ue a v ejo s e m a s b ota s o rto péd ic as, e n ão q uero b ancar a id io ta q ue fic a e ncara nd o, p or is so fix o o s
o lh o s n o s e u r o sto , m as m esm o a ssim a e str a té gia p are ce ó bvia .
— A v erd ad e, s o m ente a v erd ad e — d iz e la . — E le te d eix o u a q ui. V ocê e sta v a n o c arro d ele . C onta
t u d o.
Millie n o s le v a p elo c o rre d or e p assa m os p ela sa la d e te v ê, o nd e se us p ais a ssis te m a u m a sé rie
e xib id a p ela B BC e m q ue i n gle se s f a la m a o s c o chic ho s s o bre c o is a s e sc and alo sa s, ti p o q uem v ai s e rv ir a

so pa d e e rv ilh as a o l o rd e e à l a d y.
— E sp era s ó a té o uv ir o fia sc o d o m eu v esti d o d o c o ncurs o . T om ara q ue v ocês e ste ja m te nd o m ais
so rte q ue e u — c o m ento .
Millie fa z q ue n ão c o m a c ab eça e s e gura m in ha m ão , m e p uxand o p ara a p orta d e u m q uarto q ue s e i
que é o d ela p orq ue te m u m c o ra ção d e m ad eir a c o m s e u n o m e p in ta d o e m l e tr a c urs iv a.
Amand a ta p a o r is o .
— Q ue f o i? — p erg unto .
Millie fix a o s o lh o s n o s m eus, e h á u m d ese sp ero n ele s q ue e u n unca ti n ha v is to . E la a b re a p orta d o
quarto e d ep aro c o m H annah s e nta d a n um p ufe l ilá s, to da v esti d a d e p re to . E la n em l e v anta o s o lh o s.
Millie p ega m in ha s a co la e a p õe a o p é d a c am a.
— S enta a í.
Faço i s so . N o c hão m esm o.
Millie s e nta n um a p oltr o na d e v im e i m ita nd o u m tr o no , n o c anto d o q uarto . P are ce u m a c o is a s a íd a d e
um la r d e id oso s, m as, d e u m je ito e str a nho , c o m bin a c o m e la . G osta ria d e ti r a r u m a fo to d e M illie
se nta d a n essa p oltr o na r é gia c o m o c o nju nto d e m ole to m c o m bin and o, o c ab elo c heio d e c achin ho s e o
nariz a d unco .
— V ocê n ão p ode f a la r s o bre o c o ncurs o n a f r e nte d os m eus p ais .
— P or q ue n ão ? — p erg unto .
— P orq ue e le s n ão s a b em q ue e la v ai p arti c ip ar — e xp lic a H annah.
Com u m l a rg o s o rris o , A mand a s e s e nta n o c hão d ia nte d e M illie .
— M as e a q uele c am po n o fo rm ulá rio q ue e xig e a a uto riz a ção d os p ais ? — É m ais u m a p erg unta
re tó ric a, p orq ue j á s e i a r e sp osta . N unca i m agin ei q ue M illie s e ria c ap az d e u m a f r a ud e d essa s.
Ela u m ed ece o s l á b io s.
— E u f a ls ifiq uei a a ssin atu ra d a m in ha m ãe.
Hannah e stá c hecand o m ensa gens n o c elu la r, c o m a b oca f e chad a, m as s o rrin d o.
O ro sto re d ond o d e M illie s e c o ntr a i u m p ouco , a s b ochechas c o lo rid as p or u m ro sa -c ho que a in d a
mais f o rte d o q ue o n o rm al.
— E u p ed i a e le s. Q uand o d esc o bri q ue v ocê i a p arti c ip ar.
Bala nço a c ab eça j u nto c o m e la , e nco ra ja nd o-a a m e c o nta r m ais .
— E a m in ha m ãe le v ou u ns d ia s p ara p ensa r n o a ssu nto . M as, n o fim , n ão d eix ara m . D is se ra m q ue
não p odia m f ic ar c o m e sse p eso n a c o nsc iê ncia . Q ue a s p esso as i a m “ caço ar” d e m im , e q ue n ão e ra u m a
maneir a c ris tã d e e u a p ro veita r o m eu te m po.
Hannah s o lta u m b ufo .
Rev ir o o s o lh o s p ara e la . O q ue n ão fa z a m eno r d ife re nça, p orq ue e la n ão le v anta o ro sto n em u m
se gund o d o c elu la r.
— M as o q ue v ai fa ze r? O c o ncurs o é n o fim d e s e m ana q ue v em . V ocê v ai a p are cer n o jo rn al. E a í
to do m undo
v ai f ic ar s a b end o.
É c la ro q ue to das n ó s já fo m os a lv o d e d eb oche a lg um as v eze s, m as, a ssim q ue o jo rn al c hegar à s
bancas, n ão h av erá m ais v olta . V am os s e r u m p ra to c heio p ara g ente c o m o P atr ic k T ho m as p elo r e sto d a
vid a.
— E u... n ão s e i. — E la r ó i a p ele a o r e d or d a u nha d o p ole gar, o s o lh o s f ix o s n o m eu r o sto , à e sp era
de u m a r e sp osta . A lg o q ue l h e d ig a q ue tu d o v ai a cab ar b em .
Ago ra e u e nte nd o. E nte nd o tu d o q ue e stá e m j o go p ara M illie , q ue n ão q uer o utr a c o is a s e não s a ir d a
re d om a d e c ris ta l e m q ue o s p ais a e nja ula ra m .
— T ud o v ai a cab ar b em — g ara nto . — M uito b em .
— A cho q ue fo i m uito
fu dero so
d a s u a p arte — d iz A mand a. — E u n unca te ria im agin ad o q ue v ocê
ti n ha e ssa c o ra gem d entr o d e s i.
— A h, a cho q ue e la te m e sp aço p ara m uita s o utr a s c o is a s — m urm ura H annah.
É a g o ta d ’á gua. J á e sto u c heia d esse c o m porta m ento .
— Q ual é o s e u p ro ble m a? — d is p aro . — T á a q ui p or q uê, e ntã o ? N ão p ode o dia r a lg um a c o is a n a
su a p ró pria c asa ?
— W ill — i n te rv ém M illie .
— É v erd ad e — in sis to . — M illie te c o nv id ou p ara v ir à c asa d ela , e a ú nic a c o is a q ue v ocê fe z
desd e q ue c heguei f o i f ic ar c o m a c ara e nfia d a n o c elu la r, r u m in and o.
Hannah f in alm ente l e v anta a c ab eça, a chand o a m aio r g ra ça.
— V ocê tá s e l ix and o p ra e ssa s d uas. S ó tá a q ui p ra s e s e nti r b em e m r e la ção a s i m esm a. Q ue ti m in ho
mais p até ti c o d e i d io ta s s o m os n ó s.

Sin to a s n arin as s e d ila ta re m .
— É v erd ad e — c o nti n ua H annah. — É a ú nic a ra zã o p or q ue v ocê e stá in sis ti n d o n esse c ir c o d e
ab erra çõ es. V ocê p is o u n a b ola c o m a s u a m elh o r a m ig a, e a go ra s ó te m a g ente .
— P aro u! — o rd ena M illie , te nta nd o a liv ia r a te nsã o . — V am os f a la r s o bre a s p erg unta s d a e ntr e v is ta .
Pesq uis e i a lg um as d e c o ncurs o s p assa d os p ara a g ente p ra ti c ar.
— N ão fa la a ssim c o m ig o c o m o se c o nhecesse to da a h is tó ria — d ig o a H annah. — P orq ue n ão
co nhece. — E p ara M illie : — T em a lg um l u gar o nd e e u p ossa tr o car d e r o up a?
Millie a p onta o b anheir o e m fr e nte , n o c o rre d or. T odos o s d eta lh es e m lilá s c o m bin am , in clu siv e a
pra te le ir a e m fo rm ato d e c asin ha c o m o ro lo e xtr a d e p ap el h ig iê nic o . C om o n o q uarto d e M illie , h á
vário s q uad rin ho s b re gas co m cita çõ es in sp ir a d ora s. M in ha fa v orita é:
O so rris o é u m a cu rv a q ue
en dir e ita t u do.
Ain d a s e nta d a n o tr o no d e v im e, M illie d iz :
— E nfim , c o m o e stá e xp lic ad o n aq uela p asta q ue a g ente r e ceb eu, v ai h av er u m a s e ssã o d e e ntr e v is ta s
na q uin ta a nte rio r a o c o ncurs o . O s ju ra d os v ão n o s d ar n o ta s e s o m á-la s c o m a d a e ntr e v is ta a o v iv o
dura nte o c o ncurs o . A cho q ue s ã o s ó u m a o u d uas p erg unta s.
— E n ão v am os f ic ar s a b end o q uais s ã o c o m a nte ced ência ? — p erg unta A mand a.
— N ão — re sp ond o, d eix and o aflo ra re m le m bra nças ad orm ecid as d e um a in fâ ncia p assa d a no s
basti d ore s d o p alc o . — É a ssim q ue e le s g o sta m d e te nta r p egar a s c and id ata s p elo p é.
— A e ntr e v is ta é a p arte q ue v ale m ais p onto s, p or i s so , s e a g ente ...
Millie é in te rro m pid a p or u m a b ati d in ha à p orta . Q ue s e e ntr e ab re . S ua m ãe, c o m u m p ente ad o a lto o
basta nte p ara e sc o nd er m il s e gre d os d e f a m ília , e stá c o m o s o lh o s ú m id os, p are cend o p re ste s a c ho ra r.
— E sta m os i n d o d orm ir.
— T ud o b em — d iz M illie , m ord end o ta nto o s l á b io s q ue c hegam a d esa p are cer.
— V ou d eix ar o c afé d a m anhã p ro nto p ara v ocês. E sta m os m uito fe liz e s d e v er M illie re ceb end o
am ig as e m c asa .
— T am bém e sta m os f e liz e s p or e sta r a q ui — d iz H annah, a v oz s e m e m oção .
Millie d á u m s o rris o f o rç ad o.
— B oa n o ite , m ãe.
— D urm a c o m o s a njo s, q uerid a.
Dep ois d e f e char a p orta , d is c uti m os a l is ta d e p ontu ação e c o m o é r id íc ulo q ue a p ro va d o m aiô v alh a
mais p onto s q ue a d o ta le nto . A ssim q ue M illie s e c erti fic a d e q ue o s p ais e stã o d orm in d o, v am os p ara a
sa la d e te v ê e a ssis ti m os a a lg uns v íd eo s d e a nti g o s c o ncurs o s q ue s u rru p ie i d a c o le ção d a m am ãe.
À m ed id a q ue m ais e m ais b eld ad es v ão e nfe ita nd o a te la , f ic a c ad a v ez m ais c la ro q ue s o m os p eix es
fo ra d ’á gua n esse tr o ço . D e v ez e m q uand o, a p are ce a lg um a o velh a n egra , m as n unca a lg uém q ue se
pare ça c o m q ualq uer u m a d e n ó s q uatr o . O q ue f a z c o m q ue e u m e s in ta m in úsc ula , u m a g o ti n ha n o o ceano
do c o ncurs o . E n o a no q ue v em ? E n o o utr o ? E m b re v e, v am os s e r to ta lm ente e sq uecid as, e , n esse c aso ,
que s e nti d o f a z p arti c ip ar?
Millie p assa a n o ite to m and o n o ta s fe b rilm ente , e nq uanto A mand a fa z p erg unta s ti p o “ E s e o m aiô
entr a r n a b und a d ura nte a p ro va d o tr a je d e b anho ?” o u “ V ocês a cham q ue já r o lo u a lg um a g afe , d o ti p o
alg uém p agar p eiti n ho ? V ai h av er i n te rv alo s p ra g ente p oder i r a o b anheir o ?”
Hannah l e v anta o s o lh o s d o c elu la r e c o m enta :
— I s so é m eio d ep rim ente . Q uer d iz e r, o c o ncurs o é o p onto a lto d a v id a d essa s g aro ta s. H oje e m d ia ,
as m is se s n esse s v íd eo s s ã o m ães, ta lv ez a té a v ós, e p ro vav elm ente e ssa fo i a m elh o r c o is a q ue fiz e ra m
na v id a.
— Q ue e xagero — re cla m a M illie , e m v oz b aix a. — S ó p orq ue e ssa s m ulh ere s fic ara m e m C lo ver
City o u s e to rn ara m m ães, d onas d e c asa o u c aix as d e s u p erm erc ad o, i s so n ão s ig nific a q ue a v id a d ela s
fo ra d o c o ncurs o te nha s id o u m d esp erd íc io .
Hannah n ão r e sp ond e, m as s e us l á b io s q uase tr e m em .
— O lh a a q ui, H annah — a cre sc enta M illie . — E u s e i q ue a s p esso as c o stu m av am s e r c ru éis c o m
você, m as...
— V ou d orm ir. — E la p õe o tr a v esse ir o d eb aix o d o b ra ço e v olta p ara o q uarto d a M illie .
Dep ois q ue s a i, e sp ero q ue M illie d ig a a lg um a c o is a s o bre c o m o H annah é e xecrá v el, m as e la g uard a
se us p ensa m ento s p ara s i.
Conti n uam os n ó s tr ê s n a s a la p or m ais u m te m po. M illie c o nta q ue u so u o d in heir o d o c o fr in ho q ue te m
desd e o p rim eir o a no d o e nsin o f u nd am enta l p ara e nco m end ar u m v esti d o n a b uti q ue d a C in d y.
— M and ei p ôr m angas n ele , m as, n a ú lti m a h o ra , d ecid i q ue p re fe ria o rg anza e m v ez d e c eti m , p or
is so e le f ic o u q uase tr a nsp are nte . E sto u m eio n erv osa p orq ue n ão s e i c o m o v ai f ic ar e m m im .

— T enho c erte za d e q ue v ocê v ai f ic ar l in d a — d ig o a e la .
Millie so rri, b ala nçand o a c ab eça. E stá e sc uro , p or is so n ão d á p ara te r c erte za , m as se us o lh o s
pare cem ú m id os. S in to v onta d e d e a co rd ar se us p ais e d iz e r a e le s q ue a filh a v ai p arti c ip ar d e u m
co ncurs o d e b ele za e q ue v ai v encer. O u, p elo m eno s, v enceria , s e d ep end esse d e m im .

CIN Q UEN TA E U M
Deito n o s o fá , o nd e v ou p assa r a n o ite , p ara d esc ansa r u m p ouco . C ochilo e a co rd o o
t e m po to do, c o m o s e m pre a co nte ce q uand o a g ente d orm e n a c asa d e o utr a p esso a. M eno s n a d a E l. L á, e u
s e m pre c o nse guia p egar n o s o no .
Meia h o ra d ep ois , o u ta lv ez d uas, n ão s e i, e sc uto o a sso alh o ra ngend o q uand o a lg uém a tr a v essa o
c o rre d or. V ir o a c ab eça p ara v er q uem é . P assa nd o p or u m a r é sti a d e lu ar, H annah s e d ir ig e à c o zin ha.
S em p ensa r d uas v eze s, e m purro a s c o berta s e v ou a tr á s d ela .
Hannah p ara d ia nte d a g ela d eir a , a l u z b ra nca tr a nsfo rm and o s e u c o rp o n um a s ilh ueta .
Acend o a l u z d o te to .
Ela l e v a u m s u sto e s e v ir a , m as a te nsã o n o s o m bro s r e la xa q uand o m e v ê.
— E sto u p ro cura nd o u m a g arra fa d e á gua.
— E ntã o , p or q ue p ego u u m a c erv eja ? — p erg unto , a p onta nd o p ara a l a ta d e M ille r n a m ão d ela .
— E nco ntr e i n a g ela d eir a d a g ara gem . A í r e so lv i v er s e ti n ha m ais a q ui. — E la a b re b em a p orta d a
g ela d eir a e m ostr a q ue n ão h á n ad a a lé m d e á gua m in era l e r e fr ig era nte d ie t p ara b eb er. — M as n in guém
v ai d ar p or f a lta d essa s a q ui. — E la a p onta v ária s l a ta s n a p ra te le ir a . — Q uer u m a?
— Q uero — d ig o , p ara m in ha s u rp re sa . A posto q ue a m ãe d a M illie n ão g o sta n ad a d a id eia d e te r
c erv eja e m c asa , p orta nto , e m te o ria , e sta m os f a ze nd o u m f a v or a o S r. e à S ra . M ic halc huk. — C la ro .
Senta m os n o s o fá , n o e sc uro , b eb end o n o ssa s c erv eja s. O lu ar b rilh a n a v id ra ça d a ja nela , la nçand o
u m v éu d e p ra ta s o bre o c hão a carp eta d o.
— Q ual é a p ara d a c o m a q uele c ara q ue te d eix o u a q ui o nte m ? — p erg unta H annah.
— Q ue c ara ?
— E sto u te nta nd o s e r s im páti c a, tá ? — É v erd ad e. N o e sc uro , e la p are ce s e r u m a v ers ã o m eno s h o sti l
d e s i m esm a. C om o s e fic asse m ais à v onta d e q uand o n in guém p ode v ê-la . — O uv i A mand a e M illie
f a la nd o s o bre e le q uand o f o ra m d orm ir.
Bundin ha d e P êsse g o
, é ?
— B o. — S e e la e stá d is p osta a re tr a ir a s g arra s, p osso lh e d ar a lg um as g o ta s d a v erd ad e. — B o
L ars o n. N ós tr a b alh am os j u nto s. S om os, h um , a m ig o s.
— A h... — E la d á u m lo ngo g o le n a c erv eja . — O G aro to d o B anheir o . T ô m e le m bra nd o. E le
p arti c ip a d o m eu g ru p o d e e stu d os. E u d aria n o ta o ito p ra e le . E n em m eno s u m d écim o. E u n em m e
a m arro e m h o m em , m as g o sto d e o lh ar p ra e le .
Obse rv o s e u r o sto n o e sc uro . S erá q ue a H annah a cab ou d e s a ir d o a rm ário ? N ão s e i o q ue d iz e r o u
f a ze r, m as s e i q ue n ão m e im porto s e e la g o sta d e m enin o s o u d e m enin as. P or is so , d ecid o n ão d iz e r
n ad a.
— É , e le é g o sto so a té d em ais . — J á e u n ão d aria m eno s d e d ez. U m d ez c o m e str e lin has d e g litte r.
— A mig o s, é ? N ão p are cia m a m ig o s q uand o v i v ocês d ois . — P osso o uv ir se u so rris o . — E n o
b anheir o d as m ulh ere s, a in d a p or c im a.
Dou d e o m bro s. O q ue é u m a b obagem , p ois e la m al p ode m e v er.
— A miz a d e c o lo rid a.
Ela s o lta u m a sso vio .
Sin to u m a a rd ência n o r o sto e n o p eito . E sp ero q ue s e ja d a c erv eja .
Ela a b re u m a s e gund a l a ta .
— C om o f o i q ue r o lo u?
— T em os ti d o i d as e v in d as. S ei l á . E stá c o m eçand o a i r m ais l o nge, e e le q uer q ue s e ja o fic ia l. É u m a
i d io ti c e, p orq ue, p or u m l a d o, é ó bvio q ue e le é tu d o q ue e u q uero , m as...
— M as c ara s c o m o B o n ão n am ora m g aro ta s c o m o n ó s. — O j e ito c o m o e la d iz i s so n ão é m esq uin ho ,
n em g ro sse ir o . É s in cero .
— E xata m ente . N ão e nte nd o p or q ue e le g o sta d e m im , m as a cre d ito q ue g o ste . S in cera m ente . S ó q ue
n ão a cho q ue o s o utr o s v ão e nte nd er o q ue e le v ê e m m im .
— É u m a s itu ação d ifíc il — d iz H annah. — A s p esso as s ã o p odre s. B asta p ensa r e m g ente c o m o
P atr ic k T ho m as. S e v ocê n am ora sse u m c ara c o m o o B o, i s so s e ria u m p ra to c heio p ra e le .
É m ara v ilh o so c o nv ers a r c o m a lg uém q ue e nte nd a. T alv ez H annah n ão s a ib a c o m o é v ocê s e p erg unta r
s e v ai c ab er n um a p oltr o na c o m b ra ço s o u c o m o to do m und o te o lh a q uand o o a sso alh o ra nge s o b s e u
p eso c o m o se o p ré d io in te ir o fo sse d esa b ar. E la p ode n ão sa b er o q ue é e ntr a r n um sh o ppin g e te r

certe za d e q ue n o venta p or c ento d as r o up as n ão v ão c ab er, o u q ue a té p ensa r e m ir a u m s e lf- s e rv ic e é
má i d eia , p orq ue u m g o rd o n um b ufê f a z c o m q ue o s d em ais c lie nte s s in ta m p ena d o d ono d o r e sta ura nte .
Mas e la n ão e stá m e d and o ta p in has n as c o sta s e m e d iz e nd o p ara f a ze r o q ue m e d eix a f e liz . E i s so m e d á
um c erto a lív io .
— G osta ria q ue a g ente v iv esse n um u niv ers o p ara le lo e m q ue e le p ud esse s e r m eu n am ora d o. — É a
prim eir a v ez q ue d ig o a p ala v ra e m v oz a lta , e u m a rre p io m e c o rre p elo c o rp o a té o s d ed os d os p és. —
E n in guém ti v esse q ue s a b er.
— M as n ão é e ssa a r a zã o d e s e r d e r ó tu lo s c o m o “ nam ora d os” ? F acilita r a s c o is a s p ara a s o cie d ad e?
— E la d á u m g o le . — N ão é d ep rim ente ? C om o s e a h um anid ad e in te ir a ti v esse q ue a nd ar p or a í c o m
eti q ueta s p ara to do m und o p oder s e s e nti r m ais tr a nq uilo ? A cho q ue a s c o is a s s ã o m eno s a ssu sta d ora s
quand o a s p esso as s a b em q ue n o m e d ar à s c o is a s.
Tom am os n o ssa s c erv eja s e m silê ncio . S uas p ala v ra s so am c erta s, m as p are cem e rra d as. S im , o s
ró tu lo s fa cilita m a c o m pre ensã o , m as g o sto d a s e gura nça d e s a b er a s c o is a s. P rin cip alm ente c o m B o. É
por i s so q ue a in d a n ão l h e d ei u m a r e sp osta . N ão s u p orta ria l h e d iz e r n ão .
— H annah, q uero te fa ze r u m a p erg unta . É m eio g ro sse ir a , m as n ão é e ssa a m in ha in te nção . —
Em bora i s so n ão m elh o re e m n ad a a s itu ação .
— M and a — d iz e la .
— P or q ue v ocê n unca u so u a p are lh o ?
— P or q ue e u d ev eria u sa r? — r e sp ond e e la n a m esm a h o ra . C om v oz m ais s u av e, a cre sc enta : — D e
mais a m ais , é m uito c aro . M in ha m ãe é c ab ele ir e ir a . M eu p ai é m ecânic o . N osso p la no d e s a úd e n ão é a
oita v a m ara v ilh a d o m und o.
— T em r a zã o — c o nco rd o. — Q uem m and a n a s u a v id a é v ocê.
Ela p ig arre ia .
— E u n ão q uis b ancar a e sc ro ta , v ocê s a b e, n ão s a b e?
— E u s e i.
Ela r i.
— É d ifíc il n ão m ostr a r a s g arra s o te m po to do. N ão te nho a m ig as c o m o v ocê. N ão te nho n in guém
para a tr a v essa r o c o rre d or a o m eu l a d o.
— V ocê te m a m ig as, s im . N ão s e ja b oba. — M as b asta e u f e char o s o lh o s p ara v ê-la n a e sc o la , u sa nd o
pre to d a cab eça ao s p és, co m a b oca esti c ad a so bre o s d ente s, co m o se q uis e sse q ue as p esso as
esq uecesse m s u a e xis tê ncia .
— N o i n íc io , m in ha i n te nção e ra s a b ota r e sse c o ncurs o d e d entr o p ara f o ra . F oi a ú nic a r a zã o p or q ue
me in sc re v i. N ão p ara s e r a g aro ta d entu ça, m as p ara s e r a g aro ta q ue fe rro u o c o ncurs o . — E la s e c ala
por a lg uns i n sta nte s. — M as a í, m in ha m ãe d esc o briu . V iu a p asta d a i n sc riç ão . F ic o u s u p ero rg ulh o sa d e
mim . E a go ra ...
— E a go ra v ocê n ão te m e sc o lh a s e não i r e m f r e nte . — F az s e nti d o. S e a s p esso as m e tr a ta sse m c o m
um d écim o d a c ru eld ad e c o m q ue tr a ta m H annah, e u ta m bém te ria v onta d e d e fe rra r c o m o c o ncurs o e m
gra nd e e sti lo .
— V ou d orm ir — d iz e la . — M e d á s u as l a ta s. E u j o go n o l ix o q uand o c hegar e m c asa .
Dou o ú lti m o g o le n a c erv eja . E la e ste nd e a m ão e e u l h e e ntr e go a s d uas l a ta s. S in to o s o fá s e r e m exer
quand o e la s e l e v anta . N ão s e i o nd e e stá , n em s e e stá v ir a d a p ara m im , m as d ig o :
— S ou s u a a m ig a. N ão e sto u d iz e nd o i s so p ara b ancar a f o fin ha. N em p orq ue v ocê d is se q ue n ão te m
am ig as. M as p orq ue g o sto d e v ocê. G osto d e c o nv ers a r c o m v ocê.
O s ilê ncio é tã o a b so lu to q ue, p or u m m om ento , c hego a p ensa r q ue e la n em e stá m ais n a s a la . M as
entã o , s u a v oz s a i n um s u ssu rro :
— T á.
Sin to s a ud ad es d a E lle n. N unca v ou d eix ar d e s e nti r. M as ta m bém s in to u m g ra nd e a lív io p or te r o utr a
am ig a c o m q uem p osso c o nv ers a r s o bre m uito m ais d o q ue e sse c o ncurs o i d io ta . M esm o q ue s e ja a p enas
no e sc uro .
Quand o chego em casa na m anhã se guin te , enco ntr o m am ãe no quarto de L ucy.
Nenhum a d e n ó s te m v in d o m uito a q ui d esd e q ue e la c o m eço u a tr a nsfo rm ar o c ô m odo
num a te liê . E stá to ta lm ente a b so rta n o s a ssu nto s d o c o ncurs o e e u m uito o cup ad a c o m m eus p ro ble m as
pesso ais . O q uarto d e L ucy a cab ou fic and o e m s e gund o p la no . P or u m m om ento m e p erg unto s e , d e v ez
em q uand o, e la d á u m as f u gid in has a té a q ui, c o m o e u. S ó p ara v er L ucy. S ó p ara f ic ar p erto d ela .
Mas h o je e la e stá c o m a q uele c o nju nto rid íc ulo d a Ju ic y C outu re , e ntr e c aix o te s o nd e e sc re v eu a

pala v ra D OAÇÃ O. N ão v eio a q ui p ara v is ita r L ucy, m as p ara s e l iv ra r d ela .
Quand o m am ãe s e s e nte fr u str a d a, r e so lv e fa ze r u m a lim pa n o s a rm ário s. E q uem fic a fr u str a d a c o m
essa lim pa n o q uarto d e L ucy s o u e u. E e sse s d ois s in ais n egati v os n ão r e su lta m n um p ositi v o. E la e e u
ain d a e sta m os p is a nd o e m o vos p or c ausa d o v esti d o, e , s in cera m ente , s e e la n ão m e d eix ar u sá -lo , v ou
me d ar m al. N ão te nho o utr a s o pçõ es. U m a g o rd a n ão p ode e ntr a r n um b re chó e , c o m o n um p asse d e
mágic a, e nco ntr a r u m b om v esti d o q ue c aib a f e ito u m a l u v a.
E é is so q ue m ais m e ir rita e m r e la ção a o v esti d o. M am ãe é a p odero sa c hefo na. É e la q uem d á a s
carta s. E la só p re cis a d iz e r sim . T enho ta nto tr a b alh o p ara enco ntr a r um a calç a je ans o nd e co nsig a
esp re m er a b und a, q ue s e ria d e e sp era r q ue e la d esse u m a f e sta p or e nco ntr a r u m v esti d o q ue n ão é n em
hed io nd o n em c o la nte e c ujo z íp er f e cha. C UJO Z ÍP E R F E C H A.
Mas o q uarto . L á e stá e la r e v ir a nd o tu d o, r e m exend o n as c o is a s d e L ucy, e c ad a g esto , p or m eno r q ue
se ja , m e d á a s e nsa ção d e te r e nco sta d o s e m q uere r n um a b oca a cesa d e f o gão .
— O q ue e stá f a ze nd o a q ui? — M in ha v oz j á s a i a lta e r ís p id a.
Ela m e d á u m a o lh ad a.
— N ão te o uv i e ntr a r. — T orn a a v ir a r a c ab eça. — E ssa s c o is a s n ão p odem f ic ar a q ui p ara s e m pre .
Esp ero s in cera m ente q ue, q uand o e u m orre r, v ocê n ão d eix e q ue a s m in has s e a cum ule m a ssim , d ura nte
mese s.
— M as e ssa s c o is a s s ã o
da L ucy
, m ãe. T odos e sse s o bje to s p erte ncem a e la .
— F ilh o ta — d iz m am ãe. —
Perte n cia m .
E sse s o bje to s
perte n cia m
a e la . J á v ai fa ze r u m a no e m
deze m bro . N ão v ou d eix ar tu d o i s so a q ui c o m o s e f o sse u m a e sp écie d e s a ntu ário .
Faço q ue n ão . L ágrim as m e e sc o rre m p elo r o sto . U m a no . U m a no i n te ir o .
— P ara — p eço . — P or f a v or, p ara .
Ela f in alm ente s e v ir a p ara m im . C om u m a e xp re ssã o d e p ânic o n o r o sto . A cho q ue v ou p assa r o r e sto
da v id a ju lg and o m am ãe e m fu nção d o q ue e la fiz e r e d is se r n esse m om ento . N ão te m os e sse ti p o d e
re la ção . N ão c ho ro n o s e u o m bro . N ós s ó p assa m os u m a p ela o utr a , m as n unca n o s e sb arra m os.
Ela d á a lg uns p asso s n a m in ha d ir e ção , a s s a nd ália s d e f ic ar e m c asa b ate nd o n o a sso alh o .
In clin o o c o rp o p ara fr e nte , e sp era nd o q ue e la m e a b ra ce. N ão c o m o s b ra ço s e m v olta d a m in ha
barrig a, c o m enta nd o c o m o s e us d ed os q uase s e e nco sta m . U m a b ra ço d e v erd ad e. O nd e e u p ossa m e
ab and onar.
— V ou l e v ar e ssa s c o is a s p ara a c asa d e r e p ouso n o f im d e s e m ana. S e h á a lg um a q ue v ocê q ueir a , a
ho ra é a go ra . — D á ta p in has n o m eu o m bro . — V ou p re p ara r o a lm oço a nte s d e v ocê i r p ara o tr a b alh o .
Quand o s a i e f e cha a p orta , e u m e j o go n a c am a d e L ucy. A l e m bra nça d as ú lti m as s e m anas to m a c o nta
de m im .
Não te nho u m v esti d o. T enho u m n am ora d o N ão -E xata m ente -S ó-T alv ez c o m q uem n ão su p orto se r
vis ta e m p úb lic o , p orq ue m e s in to re p uls iv a q uand o p enso e m n ó s d ois la d o a la d o. M itc h, c o m q uem
te nho s id o p éssim a. M am ãe. E lle n. E a a usê ncia d e L ucy.
Pre cis o d e L ucy. E la d ev eria e sta r a q ui p ara m e d iz e r o q ue fa ze r. A lg um a s o lu ção q ue n unca m e
oco rre ria s e m e la .
Penso n as c o is a s q ue p osso m ud ar.
O v esti d o.
Eu p oderia v iv er à b ase d e a lfa ce a té o c o ncurs o , e a í ta lv ez e le c o ub esse , c o m o m am ãe im agin o u.
Mas e d ep ois ? O c ír c ulo v ic io so d as d ie ta s, c o m o q uand o e u e ra m ais n o va. P erd eria o p eso p ara c ab er
no v esti d o, m as e a í? E d ep ois ? C om eçaria a c o m er m il c o is a s a lé m d e a lfa ce, re cup era ria to dos o s
quilo s p erd id os e , d e q ueb ra , m ais a lg uns e xtr a s.
Todas a s d ie ta s q ue m am ãe e e u fiz e m os d ura nte a s te m pora d as d o c o ncurs o p assa m p ela m in ha
cab eça c o m o u m s u m ário . V ig ila nte s d o P eso n o q uin to a no . B arrin ha d e c ere al n o q uarto . S ala d a n o
te rc eir o . E n ad a d is so j a m ais f u ncio no u.
Ela v ence. M in ha m ãe s e m pre v ence. E u n em s a b ia q ue tu d o is so n ão p assa v a d e u m a e sp écie d e
co m peti ç ão c o m e la a té e sse m om ento . M as e sto u p erd end o. N ão te nho v esti d o. T ale nto , q uase n enhum . E
um a co m panhante q ue e sto u m ago and o s e m e le n em s a b er.
Se e u p arti c ip ar d o c o ncurs o , v ou d eix ar m eu p onto d e v is ta c la ro — is so é in d is c utí v el. S ó q ue n ão
vai s e r a lg um p elo q ual q uero s e r l e m bra d a.

CIN Q UEN TA E D O IS
À n o ite , s e nta d a n a s a la d os f u ncio nário s, u so o e sp elh o d o p ó c o m pacto p ara e xam in ar
o a nel v erd e a o re d or d o p esc o ço . F echo o e sto jo c o m o s e fo sse u m a o str a , ti r o o c o la r d oura d o e o
c o lo co na m esa . A co rre nti n ha d e m eta l é d aq uele ti p o tr a nçad o q ue se v end e no s q uio sq ues d os
s h o ppin gs, e o p in gente e xib e o n o m e
Dolly
e m l e tr a s c urs iv as b em a rre d ond ad as.
Acab ei e nfia nd o d e q ualq uer je ito n o m eu a rm ário to das a s c o is a s d e L ucy q ue c o nse gui p egar. F iz o
p ossív el p ara r e unir to dos o s i te ns d e c o le cio nad or d a D olly , i n clu siv e u m p ar d e s a p ato s c o m p urp urin a
q ue e la u so u n um s h o w e m L as V egas. A s s o la s e stã o a uto gra fa d as, c o m a le tr a b em c ara cte rís ti c a, to da
c heia d e v olta s, p ara p ro var s u a a ute nti c id ad e.
Bo s e j o ga n a c ad eir a a o m eu l a d o.
— O q ue é i s so ?
Em purro a c o rre nte c o m o i n d ic ad or p ara q ue e le p ossa v ê-la .
— E ra d a m in ha ti a .
Ele f a z q ue s im .
— M in ha m ãe e stá e sv azia nd o o q uarto d ela . D e n o vo. E la te m fe ito is so a o s p ouco s n o s ú lti m os
m ese s. M as a cho q ue a go ra e stá l e v and o a c o is a a s é rio .
— S in to m uito . — E le p assa o d ed o p ela c o rre nte . — Q uand o m in ha m ãe e sta v a m orre nd o, e la j á f o i
d and o u m a e sv azia d a n o q uarto . A ssim q ue d esc o briu q ue a d oença e ra g ra v e, c o m eço u a c o nv id ar
p esso as p ara ir e m lá e m c asa , e n in guém s a ía d e m ão s a b anand o. Q uand o e la fa le ceu, s ó ti n ham r e sta d o
a lg um as c am is o la s e p are s d e s a p ato s. — E le s e c o ncentr a n o c o la r, b ala nçand o o q ueix o . — F iq uei m eio
i r rita d o c o m e la . M as, e nfim , n ão a cho q ue e u te ria s id o c ap az d e d ar c o nta s o zin ho . S e d ep end esse d o
m eu p ai, a in d a e sta ría m os u sa nd o o p erfu m e d ela c o m o o doriz a d or d e a m bie nte .
Bo m e o bse rv a p or u m m om ento a nte s d e d ar u m a p uxad a n a p ern a d a m in ha c ad eir a , m e tr a ze nd o p ara
m ais p erto . E le p assa o s b ra ço s p ela m in ha c in tu ra e e u r e la xo c o ntr a s e u c o rp o. F ic o m eio s e m fô le go ,
m as a v oz na m in ha cab eça q ue im plo ra p ara eu não d eix ar q ue ele m e to que já não p assa d e um
m urm úrio . B o p re ssio na a b oca n o s m eus c ab elo s, fa ze nd o c o m q ue v ib ra çõ es c alm ante s p erc o rra m m eu
c o rp o.
— E sto u in te rro m pend o a lg um a c o is a ? — M itc h e stá p ara d o d ia nte d a p orta , c o m u m a sa co la d e
m erc ad o n a m ão .
Lev anto a c ab eça tã o d ep re ssa q ue b ato n o q ueix o d e B o.
— D esc ulp e — d ig o , m as n ão s e i p ara q ual d ele s. U m a o nd a d e p ânic o in cend eia m eu c o rp o, m e
p ara lis a nd o. — O q ue e stá f a ze nd o a q ui?
Bo s e l e v anta , e sfr e gand o o p onto o nd e m in ha c ab eça b ate u.
— É m elh o r e u v olta r p ara o tr a b alh o . — S ua v oz e stá r íg id a.
A te nsã o e ntr e o s d ois z u ne c o m o u m a c erc a e lé tr ic a.
Mitc h n ão s a i d a fr e nte d a p orta , o brig and o B o a s e e sp re m er a o p assa r. E le fic a o lh and o p ara B o
a nte s d e e ntr a r n a s a la .
— U m c ara lá d a fr e nte d is se q ue v ocê e sta v a a q ui. — E le jo ga a s a co la n a m esa , p or u m s e gund o
c haco alh and o o c o nte úd o. — C om pre i a lg uns a rti g o s d e m ágic a. P ara a s u a e xib iç ão d e ta le nto .
Faço o p ossív el p ara m ante r a v oz tr a nq uila .
— S enta a í.
Ele c o nti n ua d e p é.
— Q uem e ra a q uele c ara ?
— B o. E le tr a b alh a a q ui.
Suas s o bra ncelh as s e e m end am n um a s ó .
— V ocê g o sta d ele ?
— C om o a ssim ? A g ente s ó e sta v a c o nv ers a nd o, M itc h. — M in ha v oz s a i d efe nsiv a, p orq ue e sto u
m esm o m e d efe nd end o. T á, n ó s n o s b eija m os u m a v ez. F ic am os d e m ão s d ad as d e v ez e m q uand o. Is so
n ão fa z d e n ó s d ois c o is a a lg um a. O u ta lv ez fa ça. E le n ão m e p ego u b eija nd o B o n em p ela d a, m as e sto u
m e s e nti n d o tã o c ulp ad a c o m o s e ti v esse s id o o c aso .
— V ocê g o sta d ele ? — i n sis te M itc h.
Afa sto o s c ab elo s p ara tr á s d as o re lh as e d em oro u m l o ngo m om ento a nte s d e r e sp ond er:

— G osto .
Ele b ala nça a c ab eça e a b aix a a v is e ir a d o b oné d e b eis e b ol.
— B oa s o rte c o m o c o ncurs o , W ill. — D á m eia -v olta e s a i p ela p orta m ais p ró xim a, q ue p or a caso é a
da s a íd a d os f u ncio nário s.
Meu c o ra ção d ói c o m a p erd a d e u m d os m eus p ouco s e p re cio so s a m ig o s, s a b end o m uito b em q ue, s e
alg uém é c ulp ad o p or i s so , s o u e u m esm a.
Naq uela n o ite , B o m e l e v a p ara c asa e m s ilê ncio .
Já e sto u n a m eta d e d o j a rd im q uand o e sc uto a p orta s e r b ati d a e e le d iz e r:
— G osta ria q ue m e d esse u m a r e sp osta . — E le c o nto rn a a f r e nte d a c am in ho nete .
— C om o a ssim ? — V olto a té e le . — T em q ue s e r a go ra ?
— Q uero f ic ar c o m v ocê. M as n ão p osso f a ze r i s so , s e v ocê n ão d eix ar.
— P or q uê? — S olto a s a co la n o c hão . — P or q ue v ocê q uer f ic ar c o m
is to
? — I n d ic o m eu c o rp o c o m
as m ão s. E n a m esm a h o ra s in to ó dio d e m im . A ú nic a p esso a q ue e stá fa ze nd o e ssa m ald ad e c o m m eu
co rp o s o u e u m esm a.
— P orq ue e u g o sto d e v ocê. E a cho q ue s e ria c ap az d e s e nti r a in d a m ais d o q ue
is to
, W illo w dean. P or
que é tã o d ifíc il a ssim d e a cre d ita r? Q uand o n ão c o nsig o d orm ir à n o ite , n ão é p or c ausa d o tr a b alh o , d a
esc o la , d a A mber o u d a B ekah. É v ocê q ue e stá m e d eix and o l o uco .
Nego c o m a c ab eça, n ão f a z s e nti d o.
— V ocê já p enso u n o q ue a s p esso as v ão a char? N o q ue e la s v ão d iz e r q uand o n o s v ir e m ju nto s, d e
mão s d ad as?
— V ocê n unca m e p are ceu s e r d o ti p o q ue d á a m ín im a p ara o q ue o s o utr o s p ensa m . — S eu q ueix o
tr e m e p or u m m om ento a nte s d e e le a b aix ar a v oz e d iz e r: — Q uero ir a to dos o s lu gare s c o m v ocê.
Quero e xib ir v ocê. Q uero v esti r u m te rn o b ara to e s e r o s e u a co m panhante n aq uele c o ncurs o r id íc ulo .
Meus d ente s c o m eçam a b ate r. E sto u m e e sfo rç and o a o m áxim o p ara n ão c ho ra r. P orq ue e stá tu d o a í.
Eu g o sto d o B o. E le g o sta d e m im . M as h á m uito m ais d o q ue i s so e m j o go . N ão p osso a cre d ita r q ue f a ça
dife re nça p ara m im , m as n ão v ou f ic ar m agra tã o c ed o, e n ão d ev eria m e i m porta r. E sto u f u rio sa p or n ão
te r m e a ti r a d o n o s b ra ço s d ele , b em a li, n o m eu j a rd im .
Mas e u m e r e cuso a o diá -lo p or s e to rn ar m ais u m a r a zã o p ara a s p esso as c o chic hare m p ela s m in has
co sta s.
— N ão p osso . S ei q ue v ou p are cer u m a c o vard e, m as... — A s l á grim as f in alm ente c um pre m a a m eaça.
Ele v em a té m im , e , p or c ausa d a i n clin ação d o j a rd im , f ic am os d a m esm a a ltu ra , n ariz c o m n ariz .
— W illo w dean O pal D ic kso n, v ocê é l in d a.
F oda-s e q ualq uer u m q ue j á te nha te f e ito s e s e nti r m eno s
do q ue i s so . — S eu p eito f ic a o fe gante . — Q uand o f e cho o s o lh o s, v ejo v ocê. P osso f a la r c o m v ocê. D e
um j e ito c o m o n unca f a le i c o m m ais n in guém .
Lin d a, fo i o q ue e le d is se . G ord a, é o q ue e u p enso . M as s e rá q ue n ão p osso s e r a s d uas c o is a s a o
mesm o te m po? L ev o a m ão a o r o sto d e B o, e a te nsã o q ue b orb ulh a s o b s u a p ele d im in ui. B eijo -o n o s
lá b io s m ais u m a v ez. E p ro lo ngo o b eijo p or u m m om ento , r e le m bra nd o to dos o s d eta lh es d e tu d o q ue e u
não d ev eria te r o d ir e ito d e r e ceb er.
— N ão p osso — s u ssu rro , s a b end o q ue e sto u f a la nd o s o bre m uito m ais d o q ue n ó s d ois .
Dou a s c o sta s e p ego a s a co la .
Ele f ic a p ara d o n o j a rd im a té e u a p agar a l u z d o q uarto , tr a nsfo rm and o a c asa n um a c o ncha e sc ura .

CIN Q UEN TA E T R ÊS
Na s e gund a, q uand o e sto u s a in d o d a a ula , M itc h s e gura m eu b ra ço . O S r. K ris p in j á s e
m and ou p ara a s a la d os p ro fe sso re s, e to do m und o f o i e m bora . E sta m os s ó n ó s d ois .
— Q ueria d iz e r q ue a cho q ue e u n ão d ev o s e r s e u a co m panhante n o c o ncurs o .
Olh o p ara M itc h, m as e le s ó p erm ite q ue n o sso s o lh o s s e e nco ntr e m p or u m s e gund o a nte s d e d esv ia r
o s d ele .
— N ão v ou m ais p arti c ip ar d o c o ncurs o . — N ão ti n ha d ito i s so c o m to das a s l e tr a s a té e ste m om ento ,
m as to m ei a d ecis ã o n a n o ite d e s á b ad o, q uand o e sta v a c o m B o n o j a rd im .
Dá p ara v er o s p ensa m ento s p assa nd o p elo r o sto d ele . O d e te nta r m e c o nv encer. O d e m e d iz e r p ara
p ensa r n o l a d o p ositi v o. M as e le n ão d iz n ad a.
— E m e d esc ulp e — a cre sc ento , ta rd e d em ais . — N ão ti v e i n te nção d e te m ago ar.
— M as v ocê g o sta d ele ?
Faço q ue s im .
— P ed ir d esc ulp as n ão m elh o ra a s c o is a s — r e sp ond e e le . — E u te ria s id o u m n am ora d o m uito l e gal
p ra v ocê.
— M ais d o q ue m ere ço .
Min ha v onta d e é d iz e r q ue e le c hego u m uito p erto , e q ue, s e e u n unca ti v esse c o nhecid o B o, te ria
g anhad o e sse p áre o . M as e u c o nheci B o, e a go ra s e i c o m o é a g ente f ic ar c o m o s n erv os à f lo r d a p ele s ó
d e o uv ir o n o m e d e u m a p esso a.
Mitc h e nfia a s m ão s n o s b ols o s d a j a q ueta e v ai e m bora .
Dou a lg uns s e gund os a e le , a nte s d e s e guir p ara a a ula n o o utr o l a d o d o c am pus.
Cam in ho s e m p re ssa . P re fir o m e a tr a sa r a f ic ar s e m f ô le go . N in guém g o sta d e v er u m a g o rd a b ufa nd o,
e sb afo rid a. A ú lti m a c am pain ha to ca, e o s c o rre d ore s s e e sv azia m .
Entã o , E lle n s a i d a ú lti m a s a la à d ir e ita .
No c o m eço , e la n ão m e v ê. E stá s e cand o o s o lh o s. C ho ra nd o. P ode s e r p or m il m oti v os. M as, s e ja l á
q ual f o r, n ão é n ad a q ue te nha c hegad o a o m eu c o nhecim ento .
Ela o lh a p ara tr á s e v ê q ue a e sto u s e guin d o. E la p ara , s e m s e d ar a o tr a b alh o d e s e car a s l á grim as q ue
e sc o rre m p elo r o sto . T alv ez e la e T im te nham te rm in ad o. T alv ez e la te nha ti d o u m a b rig a c o m a s n o vas
a m ig as. T alv ez te nha s e d ad o m uito m al n um a p ro va. N ão s e i. E sse é o m om ento p ara m e a p ro xim ar. P ara
p erg unta r c o m o te m p assa d o e p ed ir d esc ulp as p or tu d o.
Mas e la s e v ir a e c o rre p ara o b anheir o . O m om ento s e p erd eu.
Não fic o p ara a ssis ti r à s o utr a s a ula s. E sse d ia já d eu e rra d o d em ais p ara e u c o rre r o ris c o d e
c o nti n uar na esc o la . Q uand o chego em casa , enco ntr o um a m ensa gem de M illie perg unta nd o se
d ev ería m os no s re unir p ara p ra ti c ar o s ta le nto s. O co ncurs o . Já nem im porta m ais . Q uand o eu m e
i n sc re v i, f iz i s so p or L ucy. E c o m E lle n d o m eu l a d o. M as L ucy e stá m orta , e E lle n e stá m ais d is ta nte d o
q ue n unca.
Mand o u m a m ensa gem p ara M illie , H annah e A mand a.
EU : N ão p osso p arti c ip ar d o c o ncurs o . E sto u a v is a nd o e m c im a d a h o ra , e u s e i. M as v ou d esis ti r.
Vocês v ão a rra sa r. M ere cem p arti c ip ar. V ou f ic ar n a p la te ia , to rc end o p or v ocês.
Dep ois d e l ig ar p ara o H arp y’s e d iz e r q ue n ão v ou tr a b alh ar p orq ue e sto u d oente , d eslig o o c elu la r e
d ecid o m antê -lo a ssim d ura nte o r e sto d a n o ite .

CIN Q UEN TA E
QUATR O
P asso a te rç a e a q uarta f in gin d o q ue e sto u c o m f e b re e s e gura nd o u m s a co d e m in ib is c o ito s d e c ho co la te
q ue e nco ntr e i n a d esp ensa , d e a lg um as te m pora d as a tr á s. N ossa c asa n ão é b em a b aste cid a e m m até ria d e
d oces (s u rp re sa !) , prin cip alm ente co m m am ãe em ple na O pera ção E ntr a r à Forç a no Vesti d o do
C oncurs o .
Quand o d ig o q ue n ão e sto u m e s e nti n d o b em , e la f e cha a p orta d o m eu q uarto s e m f a ze r p erg unta s.
— D esc ulp e, q uerid a, m as, a e ssa a ltu ra , n ão p osso m e a rris c ar a p egar n ad a. V ai d esc ansa r. T ir a o
d ia d e f o lg a.
Para m am ãe, c ad a s e gund o n ão p assa d o n o tr a nsp ort d a a cad em ia o u n eglig encia nd o o c o ncurs o fa z
c o m q ue s o e u m e str o nd oso a la rm e. N ossa c asa e stá u m a z o na d e g uerra , c o m m il te cid os, a d ere ço s e
l a nte jo ula s, m as a té q ue e sse c ao s m e d á u m a c erta s e nsa ção d e p az.
Eu q uero — o u m elh o r, e u p re cis o p assa r a lg uns d ia s n a p re guiç a. N ão to m o b anho d esd e d om in go , e é
u m e str a nho c o nfo rto s a b er q ue m in ha a p arê ncia e stá q uase tã o n o je nta q uanto m e s in to . Q uand o R on m e
d eix o u e ntr a r d e l ic ença d ura nte a s e m ana d o c o ncurs o , n ão d ev ia s e r i s so q ue e le ti n ha e m m ente .
Na n o ite d e q uarta , o s e nso d e l ib erd ad e c o m eça a e v ap ora r, e e u m e v ejo d eita d a d e b ru ço s n a c am a
o uv in d o u m d os d is c o s d e L ucy, q ue, p ara fa la r se m ro deio s, é u m d os p io re s d a D olly P arto n. A s
m úsic as q ue e u q uero e sq uecer q ue e la g ra v ou. C om o “ M e a nd L ittl e A nd y”. F ala s é rio , q ual é a d essa
m úsic a, D olly ? É s o bre u m a g aro ti n ha c ujo c acho rro e stá m orre nd o. Q uem q uer o uv ir u m tr o ço d esse s?
A c am pain ha d a s a la to ca, i n te rro m pend o m eu d esa b afo i n te rio r. S orrio c o m o r o sto n o e d re d om . N ão
p oderia i r a te nd er n em q ue q uis e sse .
A c am pain ha to ca d e n o vo. M am ãe n ão d ev e e sta r e m c asa . E d e n o vo, e d e n o vo.
Acab o m e a rra sta nd o d a c am a e d esç o a s e sc ad as s e m a m eno r p re ssa . F ic o n a p onta d os p és e d ou
u m a e sp ia d a n o o lh o m ágic o .
Susp ir o .
B ato a c ab eça n a p orta .
— O q ue v ocê q uer? — g rito .
— M e d eix a e ntr a r — p ed e H annah. — P or fa v or. — E to ca a c am pain ha u m a v ez a tr á s d a o utr a .
U m as n o ve, d ez v eze s.
— V ai p ra p orta d os f u nd os — g rito f in alm ente .
Ela n em p erg unta p or q uê.
Abro a p orta p ara e la , q ue p assa d ir e to p or m im . R io t a f a re ja p or u m s e gund o a nte s d e s a ir c o rre nd o.
— E u te lig uei u m as o ite nta e c in co v eze s e ste fim d e s e m ana — d iz H annah. — E o lh a q ue e u n em
g o sto d e fic ar n o te le fo ne. — E la m e e ntr e ga u m T up perw are c o m u m ti p o d e c o zid o. — M in ha m ãe
q ueria q ue e u te tr o uxesse u m p ouco d o
sa nco ch o
q ue e la p re p aro u.
— S ua m ãe? — A bro a g ela d eir a e e nfio o p ote e ntr e u m a c aix a d e le ite e u m a ja rra d e s u co d e
l a ra nja . — E u n em c o nheço a s u a m ãe.
— P ois e la v ir o u s u a fã n úm ero u m p or c ausa d esse c o ncurs o id io ta , p or is so e sp ero q ue v ocê fiq ue
o rg ulh o sa . — E la s e jo ga n a c ad eir a d a m am ãe à m esa d a c o zin ha. A cho q ue H annah é o ti p o d e p esso a
q ue p ode f ic ar à v onta d e n a c asa d e q ualq uer u m , s e m f a ze r a q uela c erim ônia to da q ue a m aio ria d e n ó s
f a z q uand o v ai a u m lu gar p ela p rim eir a v ez. E la s e d eb ru ça s o bre o s c o to velo s. — V ocê n ão p ode s a ir
d o c o n... E sp era a í, e stá o uv in d o D olly P arto n?
Dou d e o m bro s.
Ela o lh a p ara m im , e e ntã o p erc eb e m eu e sta d o a tu al.
— T em m uita c o is a e rra d a c o m e ssa i m agem .
Encho u m a x íc ara c o m c afé f r io e a c o lo co n o m ic ro -o nd as.
— S e c o m “ erra d a” v ocê q uer d iz e r “ certa ”, e ntã o e u c o nco rd o.
— Q uand o f o i a ú lti m a v ez q ue v ocê to m ou u m a c huv eir a d a?
O m ic ro -o nd as a p ita .
— C huv eir a d a é u m a c o is a m uito s u b je ti v a. — D ou d e o m bro s. — V am os p ara o m eu q uarto .
— S ó s e v ocê ti r a r e ssa m úsic a h o rrív el.
No q uarto , l e v anto a a gulh a d o d is c o , e nq uanto H annah s e e sp arra m a n a m in ha c am a. E la p ega a B ola
8 M ágic a n a m esa d e c ab eceir a e a s a co de.
— S erá q ue W ill p ir o u g era l? — E la l ê a r e sp osta . —
Pode c o nta r c o m i s so .

Eu m e s e nto a o s p és d a c am a e m e d eito d e c o sta s, a tr a v essa d a n ela . T alv ez e sse p ap o s e ja m ais f á cil
se e u f ic ar o lh and o p ara o te to o te m po to do.
— E u v ou d ar u m c hute : a co nte ceu a lg um a c o is a c o m o G aro to d o B anheir o .
— G aro to s. E ra m d ois . E e u n em m esm o s e i p or q ue q uis fa ze r is so . — E ste nd o o s b ra ço s p ara fo ra
da c am a. — T alv ez te nha a chad o q ue m ere cia a s m esm as c o is a s q ue a s o utr a s g aro ta s m ere cem . S ei lá .
Mas s o u d ife re nte d ela s, e , m esm o q ue m ere ça a s m esm as c o is a s, n ão s ig nific a q ue e u v á c o nse gui- la s.
Sub ir n aq uele p alc o e c o m peti r c o m e la s s ó s e rv ir ia p ara p ro var i s so .
— N ão , s e nho ra — d iz H annah. — D is c o rd o to ta lm ente . V ocê n ão m ere ce v encer n ad a n em p arti c ip ar
de q ualq uer c o ncurs o a té i r à l u ta , b ata lh ar. T alv ez a s g o rd as, a s m ancas o u a s g engiv ud as e d entu ças n ão
co stu m em v encer c o ncurs o s d e b ele za . T alv ez n ão se ja a n o rm a. M as o ú nic o je ito d e m ud ar is so é
marc and o pre se nça. N ão podem os esp era r as m esm as co is a s que as outr a s garo ta s esp era m até
co m eçarm os a
exig i- la s
. P orq ue n in guém v ai n o s d ar n ad a d e b and eja , W ill.
— F ala r é f á cil p ra v ocê. E u e ntr o n um a s a la e a p rim eir a c o is a q ue a s p esso as n o ta m é c o m o e u s o u
eno rm e c o m para d a c o m e la s. M as v ocê s ó p re cis a f ic ar d e b oca f e chad a, e n in guém n o ta a d ife re nça.
— P orra — r e cla m a H annah. — G olp e b aix o . É v erd ad e q ue e u p osso f ic ar d e b oca f e chad a. A té te r
que d iz e r a lg um a c o is a . E xp erim enta s ó s e r a f ilh a l é sb ic a d e u m a d om in ic ana n um a c id ad ezin ha c are ta e
co nse rv ad ora d o i n te rio r d o T exas p ra v er s ó u m a c o is a .
Bala nço a c ab eça.
— D esc ulp e. E u e sto u p éssim a, e ...
— E e stá p ro je ta nd o i s so e m m im e tc ., e tc . M as s a ir d o c o ncurs o é f a ze r c agad a. S e n ão v ai p arti c ip ar
por s i m esm a, e ntã o q ue s e ja p or A mand a e M illie . — E la m ord e o l á b io e o lh a p ara o e sp elh o n a f r e nte
da m in ha c am a. — E p or m im ta m bém .
— V ocês v ão f ic ar m uito b em s e m m im .
— N ão v am os, n ão . M illie n ão v ai p oder p arti c ip ar, a m eno s q ue v ocê p arti c ip e.
Eu m e s e nto .
— C om o a ssim ?
— O s p ais d ela d esc o brir a m s o bre o c o ncurs o — c o nta H annah, c o m a m aio r n atu ra lid ad e. — M illie
im plo ro u d e j o elh o s. D is se a e le s q ue a s u a m ãe é q uem d ir ig e o tr o ço , e a í e le s d is se ra m q ue, s e v ocê i a
co m peti r, e ntã o e la ta m bém p odia . M as s ó s e v ocê c o m peti r — E la s e c ala p ara d ar e fe ito . — E a í, v ocê
re so lv e f u gir d a r a ia .
Sin to o p eso d a culp a no p eito . U m ed eço o s lá b io s d esc asc ad os. A os p ouco s, co m eço a to m ar
co nsc iê ncia d e c o m o m e s in to n o je nta d ep ois d e p assa r o f im d e s e m ana i n te ir o s e m to m ar b anho .
— O lh a s ó , i s so é u m a m erd a, r e alm ente , m as...
— M as o q uê? P or f a v or, m e d iz q ue v ocê n ão é u m a e go ís ta .
Ela te m r a zã o . I s so n ão é u m a p ia d a p ara M illie . E la p asso u a v id a i n te ir a ti e ta nd o e e stu d and o e ssa s
mis se s, a té f in alm ente s e p erm iti r s e r u m a d ela s. F ic o b ate nd o c o m a p ern a n a c am a e nq uanto p enso . N ão
se i s e i s so v ai m e v ale r u m b om c arm a. T alv ez e u e ste ja n um e sta d o d e e sp ír ito m uito n egati v o, m as d ev o
is so a M illie . S e n ão p re te nd o i r à l u ta e p egar a v id a p elo s c hifr e s c o m o e la , d ev eria , p elo m eno s, f a ze r
a g enti le za d e n ão a tr a p alh á-la .
Hannah p õe a m ão n a m in ha p ern a, a q uie ta nd o-a .
Eu m e v ir o p ara e la .
— V ai s e r u m d esa str e c o m ple to — d ig o .
Ela s o rri q uase s e m a b rir a b oca.
— C onto c o m i s so .

CIN Q UEN TA E
CIN CO
O s g aro to s s ã o l ib era d os d a e sc o la p ara v ia ja r e c o m peti r n o s j o go s d e f u te b ol a m eric ano , p or i s so a cho
q ue não dev eria m e su rp re end er m uito que as cand id ata s se ja m dis p ensa d as da se xta , vésp era do
c o ncurs o . O d ia e xtr a é p assa d o e ntr e p ro vas d e f ig urin o e xausti v as e e ntr e v is ta s. R esu m in d o: b olh as n o s
c alc anhare s, m etr o s d e f ita a d esiv a d e d up la f a ce e r io s d e l á grim as p or to da p arte . I s so n ão é u m m usic al
e sc o la r d e b aix o o rç am ento . É o C oncurs o M is s J o vem F lo r d o T exas.
Na n o ite p assa d a, H annah m e le v ou a o te atr o c o m unitá rio , o nd e m am ãe e sta v a tr a b alh and o, p ara q ue
a p ro vasse m m eu g uard a-ro up a in te ir o . C om o e u n ão p odia u sa r o v esti d o d e g ala , ti v e q ue p ôr u m p re to
d e p aetê s n o e sti lo “ m ãe d a n o iv a” q ue e nco ntr e i n o q uarto d a L ucy, n um a d as p ilh as q ue m am ãe s e p aro u
p ara d oar. E sta v a to do a m assa d o, m as n o vo e m f o lh a, a in d a c o m a e ti q ueta . M am ãe, M allo ry B uckle y e a
S ra . C la w so n m e fiz e ra m p ro m ete r p assá -lo a fe rro a nte s d o s á b ad o. Q uanto a o tr a je d e b anho , m in has
o pçõ es s e lim ita v am a o m aiô p re to e a o v erm elh o d e p oás b ra nco s q ue c o m pre i n o v erã o p assa d o, m as
a té h o je n ão ti v e c o ra gem d e u sa r. E sc o lh i o v erm elh o . S e é p ra f a ze r, f a z d ir e ito .
De to do m odo, o tr a se ir o d o p re to e stá c heio d e b olin has.
O tr a je d a p ro va d os ta le nto s fo i o utr o p ro ble m a. V ir e i o q uarto a o a v esso a té e nco ntr a r a q uela fa ix a
d e m elin d ro sa q ue e u ti n ha u sa d o n o H allo w een. C olo quei o v esti d o p re to d o s e rv iç o r e lig io so d e L ucy, e
m am ãe c o nco rd ou e m m e e m pre sta r a s lu v as p re ta s d e c eti m s e e u a s d ev olv esse a te m po d e e la p oder
u sá -la s n a p arte d os tr a je s d e g ala .
Na m anhã d e q uin ta , q uand o esto u m e v esti n d o, ela entr a no q uarto p ara v er o q ue v ou usa r na
e ntr e v is ta .
— G osto d essa s a ia — d iz e la . — M as v ocê p odia c o lo car o b la ze r a zu l- -p etr ó le o q ue te d ei d e
a niv ers á rio . — D ou u m a o lh ad a n o e sp elh o , c o nsid era nd o a s u gestã o , e c o nco rd o.
Vam os d e c arro a té o S ilv er D olla r B anq uet H all, o nd e v ão a co nte cer a s e ntr e v is ta s e o a lm oço . O a r-
c o nd ic io nad o z u m be a cim a d o v oze rio f a nho so d o r á d io . C om o o D ia d e A ção d e G ra ças j á é n a s e m ana
q ue v em , a te m pera tu ra e stá c o m eçand o a c air, m as m am ãe lig a o a r n o m áxim o p orq ue e stá c o m
aquele
c alo r.
Esta cio nam os e e la v este o p ale tó
bois d e r o se
.
— D um plin ’, e u te a m o. E sp ero q ue m e d eix e o rg ulh o sa .
Meu e stô m ago d á m il c am balh o ta s d e p av or. N ão q uero e nv erg o nhar m am ãe. N em e m m il a no s.
— M as — a cre sc enta e la — n ão p osso d eix ar q ue p ense m q ue e sto u te d is p ensa nd o u m tr a ta m ento
e sp ecia l, p or i s so v am os s e r e str ita m ente p ro fis sio nais a té a n o ite d e s á b ad o d ep ois d o c o ncurs o .
— C erto — m urm uro . — E str ita m ente p ro fis sio nais .
E e ste l u gar é m esm o e str ita m ente p ro fis sio nal. A s c and id ata s tê m q ue f a ze r f ila d ia nte
do sa lã o de banq uete s. N in guém te m perm is sã o de co nv ers a r até as entr e v is ta s
t e rm in are m , o q ue n ão f a z o m eno r s e nti d o, j á q ue n ão m e p are ce s e r o ti p o d e a ti v id ad e e m q ue s e p ossa
c o la r. E le s e sc o lh em a s p erg unta s d e u m a lis ta in te rm in áv el e n ão fa ze m a m esm a c o m bin ação p ara
n in guém .
Dep ois d as e ntr e v is ta s v em o a lm oço , e , p or fim , a s c and id ata s tê m p erm is sã o p ara a rru m ar se us
e sp aço s n o v esti á rio . E é a í q ue a m erd a c o m eça a f e d er. A manhã s e rá o d ia d a p ro va d e g uard a-ro up a; a
m anhã d e s á b ad o e stá r e se rv ad a p ara u m e nsa io r á p id o a nte s d a a p re se nta ção , q ue c o m eça p ontu alm ente
à s s e te d a n o ite .
Esta m os r id íc ula s e m ú lti m o g ra u. C om o s e e sti v ésse m os a q ui p ara te r u m a e ntr e v is ta d e e m pre go , e a
ú nic a e xig ência f o sse q ue a s c and id ata s u sa sse m u m te rn in ho d e p olié ste r d a m ãe.
Fic o a ssis ti n d o e nq uanto a s c and id ata s c o m s o bre no m es c o m eçand o p or A , B e C e ntr a m e s a em d a
e ntr e v is ta . A lg um as, c o m u m l a rg o s o rris o . O utr a s, e m e sta d o d e c ho que. E a lg um as à s l á grim as. S ei q ue
p are ce h o rrív el, m as u m a p eq uena p arte d e m im v ê a s q ue e stã o c ho ra nd o c o m o c o nco rre nte s e lim in ad as.
N em m esm o q uero v encer, m as a cho q ue h á u m in sti n to d e so bre v iv ência e m n ó s q ue e ntr a e m a ção
q uand o v em os o utr a s p esso as f a lh are m . F ic o m e s e nti n d o u m n o jo ; e e xtr e m am ente h um ana.
Com o e sta m os s e nd o c ham ad as e m o rd em a lfa b éti c a, E lle n e e u — D ic kso n e D ry v er — a cab am os

se nta d as a o la d o u m a d a o utr a . T oda v ez q ue n o sso s o m bro s s e ro çam u m m ilím etr o q ue s e ja , e la s e
afa sta d e u m j e ito b em a gre ssiv o, c o m o s e ti v esse l e v ad o u m c ho que.
— D ic kso n? W illo w dean D ic kso n?
Lev o u m s u sto e , p or in sti n to , o lh o p ara E l. N osso s o lh are s s e e nco ntr a m p or u m s e gund o, e v ejo u m
le nto s o rris o s e d em ora r n o s s e us l á b io s a nte s d e e la p erc eb er e d esv ia r o s o lh o s.
Vou m e d ar m al.
Mallo ry a b re a p orta p ara m im .
— L em bre -s e — su ssu rra e la — , n in guém te rá u m a se gund a c hance d e c ausa r u m a b oa p rim eir a
im pre ssã o .
— P uxa, q ue e nco ra ja d or — m urm uro .
Os q uatr o ju ra d os — q ue a té a go ra e ra m a nô nim os — e stã o s e nta d os e m fila n a fr e nte d o s a lã o , p or
tr á s d e u m a m esa q uilo m étr ic a.
Ele s c o m eçam a s e a p re se nta r. M as j á s e i e xata m ente q uem s ã o .
Tab ith a H erre ra . P ro prie tá ria n ão d e u m , m as d e d ois s a lõ es d e b ele za e m C lo ver C ity : o T ab ith a’s —
um n o m e e xtr e m am ente c ria ti v o — e o T ab ith a’s 2 . T ab ith a f a z d e tu d o, d esd e l u ze s a té p erm anente s. E la
é o ti p o d e c ab ele ir e ir a q ue te m a h ab ilid ad e d e c o ntr o la r a m ente d a c lie nte la . V ocê p ode s e nta r n a
cad eir a e j u ra r q ue v eio f a ze r c acho s, m as s a ir c o m u m c o rte C hanel. E c o m o i s so f a z p arte d o c harm e d a
Tab ith a, e la te d eix a p ensa r q ue a id eia fo i s u a. E la te m u ns p eito s e no rm es e u m m egahair q ue c o m bin a
co m e le s. Q uand o o s n o rti s ta s p ensa m n o T exas, é n a T ab ith a q ue e le s p ensa m .
Dr. M end ez. S ei m uito p ouco so bre e le , a n ão se r q ue é o ú nic o o rto donti s ta d a c id ad e. E le é d a
Fila d élfia , d e B osto n o u d e a lg um d esse s lu gare s e m q ue a s p esso as v iv em a o s g rito s, e s e m pre p are ce
meio i r rita d o c o m tu d o. M as, e nfim , a cho q ue, s e e u s a ís se d a F ila d élfia o u d e B osto n p ara v ir m ora r n um
cafu nd ó d esse s, ta m bém v iv eria c o m o s n erv os à f lo r d a p ele .
Gre ná M cC all. N ão e sto u b rin cand o, o n o m e é e sse m esm o. N ão , e la n ão é u m a e str e la p orn ô o u a
pro ta go nis ta d a n o va n o vela . O s p ais s ã o fo rm ad os p ela T exas A & M (a s c o re s d a u niv ers id ad e s ã o o
bra nco e o v in ho , m as a cho q ue “ G re ná” s o av a m elh o r), e é u m a e x-M is s J o vem F lo r d o T exas q ue s e
to rn o u p ro fe sso ra d e ja rd im d e in fâ ncia . E la c o nse guiu c hegar a o c o ncurs o e sta d ual, o nd e fo i a s e gund a
co lo cad a. M am ãe — q ue s ó c o m peti u n o c o ncurs o lo cal, p orq ue e u ti n ha n asc id o — , n unca c hego u a
co nfe ssa r q ue s e nte in v eja d a G re ná, m as, s e m pre q ue d iz o n o m e d a m ulh er, fa z u m a r d e q uem le v ou à
boca a lg um a c o is a f e rv end o e e stá p re ste s a c usp i- la .
Cla y D oole y. O u m elh o r: C la y D oole y F ord .
P ro vav elm ente é o c ara m ais ric o d e C lo ver C ity . O
cab elo e stá s e m pre p ente ad o à p erfe iç ão , e o j e ans é s ó u m p ouq uin ho m eno s j u sto d o q ue u m to rn iq uete .
As fiv ela s d os c in to s s ã o e no rm es, d e o uro , e d ev em v ale r m ais d o q ue o fin ancia m ento d a n o ssa c asa .
Cla y D oole y é c em p or c ento te xano . E le é o e ste re ó ti p o q ue o s p ais d o D r. M end ez d ev em tê -lo e nsin ad o
a o dia r. O c ara é tã o r ic o , q ue te m a té te m po d e s e r ju ra d o e m c o ncurs o s c o m o e sse , p orq ue n ão é e le
quem g anha a g ra na: te m e m pre gad os p ara f a ze re m i s so .
Eu m e se nto d ia nte d ele s e n enhum le v anta o s o lh o s, c o m e xceção d o D r. M end ez. O s o utr o s tr ê s
fo lh eia m p ap éis e ntr e si e m urm ura m a lg o so bre o m odo c o m o a c and id ata a nte rio r se e sq uiv ou d as
perg unta s.
Gre ná fin alm ente le v anta o s o lh o s e , q uand o m e v ê, a rq ueia u m a s o bra ncelh a p erfe ita m ente d ep ila d a.
Tanto C la y c o m o T ab ith a tê m o m esm o ti p o d e r e ação , m as c o nse guem d is fa rç á-la u m p ouco m elh o r. E é
entã o q ue m e d ou c o nta d e q ue s o u a p rim eir a d as... s u sp eita s i m pro váv eis , c o m o v ou n o s c ham ar.
Penso e m to dos o s b ons c o nse lh o s q ue já r e ceb i n a v id a. A m aio ria fo i d e L ucy. M as n enhum d ele s
se rv e, n enhum m e a ju d a n este m om ento . E ntã o , s in to niz o m am ãe. S e e la e sti v esse n o s a lã o n este e xato
mom ento , o q ue d ir ia ? S e n ão e sti v esse d ir ig in d o o c o ncurs o e fo sse a p enas m in ha m ãe, o q ue m e
aco nse lh aria f a ze r?
Sorria ,
d ir ia e la .
E n ão s e a tr e va a s u sp ir a r!
Sorrio . C om ta nta f o rç a, q ue a s b ochechas c hegam a d oer. E f a ço o p ossív el p ara n ão s u sp ir a r.
— W illo w dean D ic kso n? — p erg unta T ab ith a.
Bala nço a c ab eça. S orrio . N ão . P aro . D e. S orrir.
— D ic kso n — r e p ete G re ná. — V ocê n ão é a f ilh a d a R osie , é ?
— S ou — r e sp ond o. O uço a v oz d e m am ãe n a c ab eça:
Olh a a e d uca çã o.
— S enho ra — a cre sc ento .
— S im , s e nho ra — c o rrijo .
Cla y p ig arre ia .
— M uito b em , v am os p ôr m ão s à o bra . W illo w dean... — c o m eça e le , s e gura nd o u m a n o ta d e d óla r
no vin ha e m f o lh a. — S e e u l h e d esse e ste d óla r, o q ue v ocê f a ria c o m e le ?
É u m a p erg unta c ap cio sa . A in d a e sto u s o rrin d o. U m d óla r. O q ue e u p oderia fa ze r c o m o d óla r d o

Cla y? B em , p oderia d ar p ara u m m ora d or d e r u a. C om pra r u m d onut.
Sim , s e n hor, p or f a vo r, e u a dora ria
co m pra r u m d onut c o m o s e u d óla r.
Não, n ão.
T enho q ue v oar m ais a lto . C arid ad e é ó bvio d em ais .
— E u daria um a passa d a num a pap ela ria e co m pra ria um a caix a de caneta s. A í, na m anhã do
vesti b ula r, ir ia p ara a p orta d e u m a e sc o la e v end eria a s c aneta s a o s c and id ato s d is tr a íd os q ue ti v esse m
esq uecid o a s s u as e m c asa . P or tr ê s d óla re s c ad a.
Os j u ra d os f ic am e m s ilê ncio p or u m m om ento , e e ntã o C la y s o lta u m a r is a d a.
Ao s e u l a d o, G re ná a p erta o s l á b io s.
— E o q ue f a ria c o m o d in heir o ?
— C om pra ria m ais c aneta s — r e sp ond o. E la c o m eça a a no ta r a lg um a c o is a n a f o lh a d e p ontu ação . —
E d ep ois , q uand o e sti v esse c o m u m a b oa q uanti a , d oaria p ara u m a i n sti tu iç ão d e c arid ad e. O u c o m pra ria
um a c esta d e N ata l p ara u m a f a m ília c are nte . — C ria ti v a? S im . S ensa ta ? S im . A bnegad a? S im .
Tab ith a s o rri p ara s i m esm a, e te nho a i m pre ssã o d e q ue a té m e d á u m a p is c ad in ha.
Quand o o s j u ra d os te rm in am d e e sc re v er o s c o m entá rio s, T ab ith a e rg ue o r o sto .
— T em os m ais u m a p erg unta p ara v ocê. Q ual é s u a d efin iç ão d e l e ald ad e?
É c o m o s e u m a sp ir a d or s u gasse to da a a d re nalin a d o m eu c o rp o. N ão e sto u m ais s o rrin d o.
— L eald ad e. — P ro nuncio a p ala v ra s e m p re ssa , te nta nd o c alc ula r q uanto te m po m e r e sta a nte s d e te r
que r e sp ond er. — L eald ad e é ... L eald ad e é d ar u m a fo rç a p ara q uem p re cis a . É a b negação . É fic ar d o
la d o d e a lg uém m esm o q uand o n ão s e q uer. — E lle n. T ud o q ue v ejo é E lle n. — P orq ue s e a m a a p esso a.
Aquela n o ite e m q ue fic am os d eita d as n a c am a d e E l, c o nv ers a nd o s o bre a s u a p rim eir a n o ite , fo i
muito d ifíc il. E u m e s e nti a c o m o s e e sti v esse c o m o e stô m ago c heio d e p re go s, m as c o nti n uei a li, f ir m e e
fo rte . O uv i cad a d eta lh e, p orq ue é is so q ue a gente fa z p ela m elh o r am ig a. S in to su a p re se nça no
co rre d or, p ensa nd o em m im . P ois , p or m ais za ngad a q ue este ja co m ig o , se i q ue está lá se nta d a se
perg unta nd o c o m o e sto u i n d o d ia nte d esse s j u ra d os.
— A le ald ad e n ão é c ega. — E m bora e u p re fe ris se q ue fo sse . — Im plic a d iz e r a a lg uém q ue e stá
erra d o, q uand o n in guém m ais q uer fa ze r is so . — M orro d e v erg o nha p or te r d ito a E l q ue n ão p odia
parti c ip ar do co ncurs o . C om o se o fa to de co m peti r m os fo sse estr a gar o que eu esta v a te nta nd o
dem onstr a r. Q uand o, n a r e alid ad e, c o m e la , e u s ó f ic o m ais f o rte . E s o u a m elh o r v ers ã o d e m im m esm a.
Penso q ue m eu m und o in te ir o s e e sti lh aço u e m m il p ed aço s, e o ú nic o je ito d e p ôr tu d o e m o rd em é
re co lá -lo s u m d e c ad a v ez. E , p ara m im , o p rim eir o p ed aço é s e m pre E lle n.

CIN Q UEN TA E S E IS
É s e rv id o u m c hurra sc o n a h o ra d o a lm oço . A cho q ue o a lm oço d ev e s e r a lg um a p ro va
s e cre ta d a n o ssa n o ta fin al, p orq ue n ão h á p ro eza m aio r p ara u m a s u lis ta d o q ue a c ap acid ad e d e c o m er
c hurra sc o e s e le v anta r d a m esa s e m m anchas n as r o up as. D ep ois d o a lm oço , a in d a te m os q ue a guenta r
u m d is c urs o d a R uth P erk in s, u m a e x-M is s J o vem F lo r d o T exas d e s e te nta e o ito a no s, q ue p re fe re n ão
u sa r o m ic ro fo ne p orq ue d á m ic ro fo nia n o a p are lh o a ud iti v o. O q ue n o s o brig a a s o rrir e b ala nçar a
c ab eça, e nq uanto e la f a la n o to m d e v oz d e q uem c o nta u m s e gre d o.
Dep ois d e u m te m po, c hega u m m om ento c o nstr a nged or e m q ue R uth fic a e sp era nd o p elo s a p la uso s,
s e m q ue n enhum a d e n ó s s a ib a s e e la j á a cab ou d e f a la r. P or f im , b ate m os p alm as, e a S ra . C la w so n s o be
a o p alc o p ara l h e a gra d ecer e o fe re cer u m b uq uê d e f lo re s.
— M uito b em , s e nho rita s — d iz e la a o m ic ro fo ne. — N enhum a d e v ocês p ode s a ir a nte s d e ti r a r u m a
f o to p ara o j o rn al. H á c ad eir a s e nco sta d as à p are d e, e v ocês d ev em o cup á-la s n a m esm a o rd em a lfa b éti c a
e m q ue f o ra m c ham ad as h o ra s a tr á s. V ocês tê m c in co m in uto s p ara r e to car a m aq uia gem .
Olh o p ara H annah, q ue e stá s e nta d a a o m eu l a d o, e a rre ganho o s l á b io s.
— T em a lg um a c o is a n o s m eus d ente s? — p erg unto .
Ela f a z q ue n ão .
— E n o s m eus?
— N ad a.
Entã o n o s s e p ara m os e n o s d ir ig im os à s n o ssa s r e sp ecti v as c ad eir a s, e nq uanto a s d em ais r u m am e m
p eso p ara o b anheir o . E sp ero q ue E l v enha s e s e nta r a o m eu l a d o. N ão c o nsig o o brig ar m eu c ére b ro a s e
c o ncentr a r n o q ue e u p oderia d iz e r, m as v ou f a la r c o m e la . T enho q ue f a la r.
Ela se jo ga n um a c ad eir a a o m eu la d o, e la m be o p ole gar p ara te nta r re m over u m a m anchin ha d e
g o rd ura d a l a p ela d o b la ze r.
— A posto q ue e le s s a b em c o m o c o rta r m anchas d o e nq uad ra m ento d a fo to — d ig o . — O u ti r a r n o
P ho to sh o p.
Ela c o nti n ua l u ta nd o c o m a m ancha, e sfr e gand o-a c o m u m a o bsti n ação q ue a to rn a c ad a v ez p io r, m as
n ão r e sp ond e.
Com eçam a n o s c ham ar u m a p or u m a, e p assa m os d e u m a c ad eir a p ara a o utr a c ad a v ez q ue is so
a co nte ce.
Com d uas g aro ta s à m in ha f r e nte , d ig o :
— N ão q ueria m ais q ue a g ente c o nti n uasse b rig ad a.
E e sp ero p ela r e sp osta . A vançam os m ais u m a c ad eir a .
— E u e sta v a e rra d a. — M ais u m a c ad eir a . — M uito e rra d a, e n ão s u p orto m ais is so . N ão a guento
m ais f ic ar s e m f a la r c o m v ocê to dos o s d ia s. P or f a v or, n ão f iq ue z a ngad a c o m ig o .
— W illo w dean? — c ham a M allo ry .
Lanço u m o lh ar p ara E lle n a nte s d e m e l e v anta r. E la v ai c ed er e m b re v e. T em q ue c ed er.
— W illo w dean?
— N ão é tã o f á cil a ssim . — A v oz d e E l e stá r o uca, c o m o s e n ão f a la sse h á d ia s. — N ós e sta m os n o s
t o rn and o p esso as d ife re nte s.
— I s so n ão s ig nific a q ue n ão s e rv im os p ara s e r a m ig as u m a d a o utr a . — P enso q ue a s p arte s d a m in ha
i d enti d ad e q ue f o ra m c o nstr u íd as a p arti r d e l e m bra nças a o l a d o d e E lle n s ã o a s q ue m ais a p re cio . — M e
p erd oa? — p eço . — E u f u i c ab eça-d ura .
Sento no b anq uin ho d ia nte d o cenário . M am ãe fic a atr á s d o fo tó gra fo . E la fa z um gesto co m o s
i n d ic ad ore s, c o m o s e a b ris se u m s o rris o n o r o sto . E stá m e d and o u m a o rd em .
Resp ir o f u nd o e i m plo ro a m im m esm a p ara s o rrir. S orrir. S orrir. S orrir.
Elle n c o nti n ua n a c ad eir a e nco sta d a à p are d e, a in d a e sfr e gand o e m c ír c ulo s a m ancha d e s a ngue c o m
g o rd ura d o c hurra sc o .
Não s o rrio .
Dep ois d as f o to s, s o m os l ib era d as p ara a rru m ar n o sso s e sp aço s n o v esti á rio . O te atr o
co m unitá rio n o C entr o d a c id ad e fo i p ro je ta d o p ara s e d ia r o c o ncurs o , e p or is so o
v esti á rio f e m in in o é q uatr o v eze s m aio r q ue o m asc ulin o .

Cad a a sse nto te m u m a e ti q ueta . E nco ntr o m eu n o m e n um p ed aço d e p ap el c o la d o c o m d ure x a u m
canto d o e sp elh o . S ó q ue, p or c im a d o n o m e, e stá e sc rito D UM PLIN ’ e m p ilô p re to . R ab is c ad o à s
pre ssa s, c o m o s e a lg uém ti v esse q ue m e i d enti fic ar e n ão r e sis ti s se a u sa r m eu a p elid o. O lh o à d ir e ita e à
esq uerd a p ara v er s e e nco ntr o o c ulp ad o.
Elle n s o lta s u as tr a lh as a o l a d o d as m in has. V ejo s e u n o m e c o la d o a o e sp elh o . E sta m os n o vam ente e m
ord em a lfa b éti c a.
No r e fle xo , s e u o lh ar e nco ntr a o m eu. E la r e v ir a a b ols a p or u m m om ento a nte s d e ti r a r u m a c aneta .
Esti c and o-s e p or c im a d e m im , p ega o p ap el c o m m eu n o m e. F ic o s ó o lh and o e nq uanto e la e sc re v e m eu
no m e se m o D um plin ’ p or tr á s, d esc o la o p ed aço d e d ure x e o re ap lic a ante s d e co la r a eti q ueta
no vam ente n o e sp elh o .
— O brig ad a — d ig o .
Ela s e s e nta n o b anq uin ho a o m eu l a d o.
— É s ó u m a p ala v ra . N ão s ig nific a n ad a, a m eno s q ue v ocê d eix e. — E la s e v ir a p ara m im . S eus
olh o s n ão c hegam a s e f ix ar n o s m eus. — M as, s e é a lg o q ue te m ago a, e ntã o m e m ago a ta m bém .
Meu c o rp o i n te ir o r e la xa, m as o q ueix o c o m eça a tr e m er.
— M e p erd oa?
— M e p erd oa v ocê ta m bém ? — p ed e e la .
Bala nço a c ab eça.
— N ão , n ão , e u é q ue te nho q ue p ed ir.
Só e ntã o e la l e v anta o r o sto , n o ta m eu q ueix o tr ê m ulo e s e gura m in ha m ão .
O v esti á rio c o m eça a f ic ar c heio , à m ed id a q ue a s o utr a s g aro ta s v ão e ntr a nd o.
— V em — c ham a e la .
Sig o a tr á s d e E l, q ue m e l e v a p ela m ão a té u m s u rra d o s o fá d e c o uro d e d ois a sse nto s a a lg uns m etr o s
da m esa d a d ir e to ra d e p alc o .
Senta m os e , s e m a m eno r c erim ônia , E l j o ga a p ern a p or c im a d a m in ha.
— T ud o b em , p ode f a la r.
— T á. E u fiq uei m uito za ngad a c o nti g o p or te r se in sc rito n o c o ncurs o . E a í v ocê fic o u za ngad a
co m ig o p or fic ar z a ngad a c o m v ocê. E a í e u c o nti n uei z a ngad a c o m v ocê. E a í v ocê c o nti n uo u z a ngad a
co m ig o . — B ala nço a c ab eça. — E u s e i q ue a s c o is a s j á e sta v am i n d o n essa d ir e ção h á m uito te m po. N ós
está v am os n o s a fa sta nd o c ad a v ez m ais .
Ela f a z q ue s im .
— Is so m e a ssu sta . N ão q uero m e s e nti r a fa sta d a d e v ocê. M as d e r e p ente n ó s n ão d ev ería m os fa ze r
tu d o j u nta s. T alv ez d ev êsse m os te r u m m ín im o d e p riv acid ad e.
— É d ifíc il a ceita r is so . — P ro curo a s p ala v ra s c erta s. — Q uero v er v ocê fe liz . E fa ze nd o n o vos
am ig o s. M esm o q ue s e ja g ente c o m o a C allie . N ão q uero s e nti r c iú m es d e v ocê. — N unca ti n ha d ito i s so
em v oz a lta . A cho q ue a té p ensa r n is so m e a ssu sta v a, m as s e i q ue é v erd ad e n o in sta nte e m q ue s a i d a
min ha b oca. — N ão q uis d iz e r c iú m es n o s e nti d o p osse ssiv o e s u sp eito d a p ala v ra , m as à s v eze s a cho
que n o ssa s v id as e stã o s e guin d o e m v elo cid ad es d ife re nte s, e é d ifíc il n ão te r m ed o d e q ue v ocê m e
ultr a p asse .
Ela s o lta u m r is o p are cend o u m s o lu ço .
— N ão v ou te u ltr a p assa r tã o c ed o. E , s e e stá f a la nd o d e s e xo ... É v erd ad e q ue e u a m o o T im , m as ti v e
que a p re nd er m uita c o is a . — E la d á d e o m bro s, a cre sc enta nd o: — T alv ez e u s in ta in v eja d e v ocê, à s
veze s. V ocê n ão lig a p ara p esso as c o m o a C allie o u n enhum a d as g aro ta s c o m q uem tr a b alh o . M as e u
sin to n ecessid ad e d e q ue e la s g o ste m d e m im . É o ti p o d a c o is a q ue c hega a m e d ar i n sô nia . E u n em a cho
ela s d esc o la d as. M as s in to n ecessid ad e d e q ue g o ste m d e m im . M in ha c ab eça m anté m u m a e sp écie d e
re gis tr o d e q uanta s p esso as m e a d m ir a m , m e a d ora m , e e u m e im porto c o m is so . M esm o q ue n ão q ueir a
me i m porta r.
Sorrio , e o n ó n o p eito a fr o uxa u m p ouco .
— V ocê é a m in ha m elh o r a m ig a. M esm o n este s ú lti m os d ois m ese s, s e m pre fo i. E v ocê n unca m e
tr a to u d ife re nte . N ão c o m o o s o utr o s m e tr a ta m à s v eze s. E s e i q ue s o u b oa e m s e r q uem e u s o u. S ou b oa
em d iz e r: “ E ssa s o u e u. M e a m a o u v ai à m erd a.” C ê s a b e, n é? M as... — A h, m eu D eus. T em ta nta c o is a
que n ão c o nte i a e la . C om eço p elo c o m eço . — E u c o nheci u m c ara n o v erã o . B o. O G aro to d a E sc o la
Parti c ula r. N o tr a b alh o . E a g ente s e b eijo u.
— E v ocê n ão m e c o nto u? — E la e sta p eia m eu b ra ço . — P oxa, W ill!
Bala nço a c ab eça.
— E u s e i. D esc ulp e. M as n ó s n o s b eija m os m ais a lg um as v eze s d ep ois d is so . E a í a c o is a c o nti n uo u
ro la nd o.

— A h, m eu D eus. V ocê tr a nso u c o m e le . F oi u m e sp etá culo ? A in d a e sto u z a ngad a c o m v ocê p or n ão
te r m e c o nta d o.
Dou u m a r is a d a.
— N ão , n ão , n ão tr a nsa m os. M as e u g o ste i d o je ito c o m o fic ar c o m e le m e fe z s e nti r. — É c o m o s e
min ha c ab eça f o sse u m c arre te l s e d ese nro la nd o. — M as a í... A lg um a v ez v ocê s e nti u m ed o q uand o T im
te to co u? T ip o a ssim , n o c o m eço ?
Ela e nco sta a c ab eça n o m eu o m bro .
— A i. S enti , s im . E le to cav a a m in ha c in tu ra , o u a lg um a e sp in ha n o m eu q ueix o , e e u m e f e chav a c o m o
um a p erfe ita p ara no ic a.
Sou i n und ad a p elo d elic io so a lív io d o r e co nhecim ento .
— F oi o q ue a co nte ceu q uand o B o m e to co u. T ip o, e u m e s e nti a to ta lm ente b êb ad a q uand o a g ente s e
beija v a. M as a í e le c o lo cav a a m ão n as g o rd urin has d as m in has c o sta s o u n o m eu c ulo te , e e u m e f e chav a
fe ito u m a o str a .
— N ão a cre d ito q ue v ocê te nha e sc o nd id o i s so d e m im . — S ua v oz é s u av e. — E u d ev eria e sta r p au
da v id a c o m v ocê.
— E u s e i, e u s e i. D esc ulp e. M as, e nfim , a g ente já e sta v a n essa c o rre ria d o c o ncurs o , n ão e sta v a? E
você d is se q ue i a c o m eçar a f a ze r s e xo c o m o T im , e e u m e s e nti c o m o s e f o sse e xp lo dir. M as n ão s ó p or
ciú m e. F oi m ais p or m e s e nti r c ria nça e in exp erie nte . E e u n ão p odia ... a liá s, a cho q ue a in d a n ão p osso ,
pelo m eno s n ão c em p or c ento ... m e i m agin ar d eix and o q ue a lg uém m e v eja d esse j e ito .
— A h, W ill.
— E is so m e ir rito u d em ais . E ra c o m o s e e u e sti v esse te p erd end o. M as a o m esm o te m po e sta v a m e
achand o b iz a rra . T ud o i s so m e d eix o u n a m aio r r a iv a, p orq ue e u n ão q ueria s e r u m a d aq uela s g aro ta s q ue
se s e nte m m al e m r e la ção a s i m esm as p or c ausa d e u m c ara .
Elle n s e e nd ir e ita e e u d eito a c ab eça n o c o lo d ela , e nq uanto fa z c afu né n o s m eus c ab elo s. E ntã o ,
co nto tu d in ho , n o s m ín im os d eta lh es. S obre B o n o s h o ppin g, e c o m o e le n ão m e d is se q ue tr o caria d e
esc o la . S obre M itc h. E o b aile . O H allo w een. A v olta a o H arp y’s . B o, c o nto tu d o s o bre B o. E c o m o E l
go sta ria d em ais d ele . E o q uanto e le q uer s e r m eu n am ora d o.
— E le q uer q ue te nham os e sse r ó tu lo — c o nto a e la . — E v ocê s a b e q ue n ão v am os c o nse guir p assa r
um d ia n a e sc o la s e m s e rm os r id ic ula riz a d os. E le n ão e nte nd e i s so .
— O lh a s ó — d iz e la . — T em m uita g ente n o m und o q ue é b ab aca, tá ? N ão v ou m enti r e m r e la ção a
is so , m as p ensa e m m im e n o T im . E le é m uito m ais b aix o d o q ue e u. P ensa q ue a s p esso as n ão z o am ?
Pois z o am m uito .
É v erd ad e, m as, a té e sse m om ento , n ão e ra a lg o q ue e u j á ti v esse o uv id o E l m encio nar.
— M as n em s e m pre a g ente e sc o lh e q uem o c o ra ção q uer. E , m esm o q ue s e m pre p ud esse e sc o lh er, e u
esc o lh eria T im . T odas a s v eze s. P or i s so , v ocê te m q ue p ensa r: u m a r e la ção é e ntr e d uas p esso as. T odos
aq uele s b ab acas n a e sc o la s ã o e sp ecta d ore s e nte d ia d os. V ocê e B o a tr á s d a c açam ba n o H arp y’s , a q uilo
sim f o i o c o ra ção d e v ocês f a la nd o. M as u m n am oro e ntr e v ocê e B o. U m a r e la ção f ie l e e xclu siv a. I s so é
a s u a c ab eça. S eu c o ra ção e stá to ta lm ente a f im , m as i s so n ão s ig nific a q ue v ocê n ão te nha e sc o lh a. P elo
que p are ce, e le j á f e z a e sc o lh a d ele .
Penso e m c o m o é f á cil d iz e r i s so n a m in ha c ab eça. A té m esm o e m v oz a lta . M as f a ze r, s e gura r a m ão
dele e d iz e r: “ E u m ere ço i s so . N ós m ere cem os” — i s so é a p av ora nte .
— E u e sta v a c o m m ed o d e q ue v ocês ti v esse m te rm in ad o — d ig o a E l. — V ocê e T im . E u te v i
cho ra nd o n o c o rre d or o utr o d ia .
A m ão d ela p ara p or u m m om ento . E la d á u m a f u ngad a.
— M eus p ais e stã o b rig and o d e n o vo. M eu p ai ti n ha i d o p assa r a n o ite n a c asa d o ti o J a re d . E v olto u.
Mas s e i l á . T enho a i m pre ssã o d e q ue a go ra é o f im d a l in ha.
— P uxa, E l. S in to m uito .
— E u q ueria ta nto te c o nta r. M as e sta v a s e nd o te im osa . E b urra .
— N ão , e u é q ue d ev ia te r i d o f a la r c o m v ocê q uand o te v i n o c o rre d or.
— T ud o b em — d iz e la . — N ão é a p rim eir a v ez. A lg um as c o is a s n ão p odem s e r r e m ed ia d as. P elo
meno s, n ão p ara s e m pre .
A id eia fa z m eu co ra ção se ap erta r. E u aje ito as co sta s e fic am os ali por m ais alg um te m po,
enro sc ad as c o m o d ois g ati n ho s.

CIN Q UEN TA E S E TE
Eu a cab o p assa nd o o r e sto d a ta rd e c o m E lle n e T im . Q uand o e le s m e d ão u m a c aro na
n a v olta , v ejo a c am in ho nete d e B o e sta cio nad a n a f r e nte d e c asa .
— H um mm, a q uele é q uem e u p enso q ue é ? — p erg unta E l.
Ele e stá d ia nte d a p orta d a s a la , c o m u m a e no rm e c aix a d e f e rra m enta s a o s p és.
Tim e sta cio na n o j a rd im , e E l d esc e p ara e u p oder m e e sg ueir a r p elo b anco tr a se ir o d o J e ep .
Atr a v esso o j a rd im , s e nti n d o E lle n n o s m eus c alc anhare s. E u m e v ir o a b ru p ta m ente .
— A ond e a s e nho ra p ensa q ue v ai? — p erg unto a e la .
— Q uero a ssis ti r, u é.
— N ão . N egati v o. V ocê v ai p ara a
su a
c asa .
— M e l ig a — p ed e e la . — N ÃO. E SQ UEC E.
— T á.
Ela m e d á u m a b ra ço , e e u m e d em oro p or u m se gund o lo ngo d em ais , e sp era nd o q ue se u c arin ho
p enetr e m in ha p ele .
Aguard o o c arro d e T im s e a fa sta r a nte s d e d ar o s ú lti m os p asso s a té B o.
— I s so é u m a te nta ti v a d e i n v asã o d e d om ic ílio , o u o q uê?
Ele s e v ir a b ru sc am ente , c o m o s e n ão ti v esse o uv id o T im m e d eix ar e m c asa . E stá c o m u m c in tu rã o d e
f e rra m enta s e m c o uro m arro m p end ura d o n a c in tu ra .
— J u ro q ue n ão .
— A h, b om .
Seu s o rris o é f ir m e, m as n erv oso .
— E u s a í c o m m eu p ai, p ara a ju d ar e m a lg uns tr a b alh o s d ele , q uand o n ó s e sb arra m os c o m a s u a m ãe
n o p osto d e g aso lin a. A cho q ue e le s a nd ara m n am ora nd o n o e nsin o m éd io .
Dou u m a r is a d a.
— N ão m e s u rp re end e n em u m p ouco .
— E la v olto u a fa la r n o p ro ble m a d a p orta , e o m eu p ai... B om , n a v erd ad e, e u m e o fe re ci p ara v ir
c o nse rta r. E sp ero q ue n ão te nha p egad o m al.
Sento n o s d egra us, e e le f a z o m esm o.
— S ó u m p ouq uin ho .
Sin to n o p eito o p eso d as p ala v ra s r e p rim id as q ue n ão s e i c o m o d iz e r.
— V ocê c o nse rto u?
— F oi a c o is a m ais fá cil d o m und o. E u m al p osso a cre d ita r q ue v ocês te nham d eix ad o fic ar a ssim
d ura nte ta nto te m po.
Abra ço o s j o elh o s c o ntr a o p eito .
— E ra s ó p ra n ão te r q ue a te nd er.
Ele e ste nd e a m ão à s m in has c o sta s e g ir a a m açaneta . A p orta s e a b re .
— A go ra , n ão te m m ais d esc ulp a.
— P ois é . — A ponto s e u p esc o ço . — E sse c o rd ão é o q uê?
Ele o r e ti r a d e b aix o d a c am is e ta e m ostr a a m ed alh in ha.
— S anto A ntô nio . D iz e m q ue a ju d a a e nco ntr a r c o is a s p erd id as.
— E o q ue v ocê e stá p ro cura nd o?
— N ão s e i. — E le to rn a a e nfia r a m ed alh a p or b aix o d a g o la . — A cho q ue ta lv ez j á te nha e nco ntr a d o.
M as te m d ia s e m q ue a cho q ue f o i a c o is a q ue m e e nco ntr o u.
Bala nço a c ab eça. H á u m c erto c o nso lo e m sa b er q ue, p ara c ad a p esso a n o m und o e sp era nd o se r
e nco ntr a d a, h á a lg uém à s u a p ro cura .
— W illo w dean?
— D ig a.
Ele s e l e v anta e p ega a c aix a d e f e rra m enta s.
— V ocê f a z m ais p erg unta s q ue p erito d e c o m panhia d e s e guro s.

CIN Q UEN TA E O IT O
Aco rd o e d esc ub ro q ue m am ãe e nfio u u m e xem pla r d o j o rn al p or b aix o d a m in ha p orta .
E u o d esd obro e v ejo o m eu r o sto , b em n o m eio d a d obra . A m anchete d iz : C O NCURSO M IS S J O VEM
F LO R D O T EX AS D E C LO VER C IT Y: Q UEM É Q UEM . A p rim eir a p ágin a in te ir a e xib e a s fo to s q ue
t i r a m os o nte m . L ogo a b aix o v êm n o sso s n o m es, id ad es, p ra to s fa v orito s e d efin iç õ es d e C lo ver C ity e m
u m a p ala v ra .
Desc o nfio q ue m am ãe n ão te nha ti d o o portu nid ad e d e v er a s fo to s a nte s d e o jo rn al s a ir. M as, s e ja
c o m o f o r, l á e sto u e u. C om m eu r o sto n ad a s o rrid ente .
No e nsa io , p assa m os u m te m pão m ofa nd o, s e nta d as n o a ud itó rio , a guard and o o s té cnic o s d are m o s
ú lti m os r e to ques n a ilu m in ação . M ir a nd a S olo m on, a m usa d o te atr o c o m unitá rio d e C lo ver C ity , s e v ir a
n a p oltr o na e e xp lic a p ara m im , E l, H annah, A mand a e M illie q ue a s c and id ata s p assa m m eta d e d os
e nsa io s f in ais to m and o c há d e c ad eir a , e sp era nd o q ue o s té cnic o s f a çam s e us a ju ste s. E la d á d e o m bro s.
— F az p arte d o s h o w .
Quand o s e l e v anta p ara i r a o b anheir o , E l s e v ir a p ara m im c o m o s o m bro s e rg uid os e a v oz a lta :
— F az p arte d o s h o w .
Callie e stá s e nta d a a lg um as fila s a tr á s d e n ó s, c o m o utr a g aro ta q ue r e co nheço d a S w eet 1 6. P ro curo
m e e sfo rç ar a o m áxim o p ara n ão d ar u m a d e m eti d in ha, m as n ão é n ad a f á cil.
Tir a nd o i s so , a s c o is a s e stã o m uito q uie ta s, o q ue é s u sp eito . C oncurs o s s ã o u m a r e ceita i n fa lív el p ara
d ese nte nd im ento s. P orq ue v ocê te m q ue s e r p erfe ita . E , c o m o s e n ão b asta sse , a s u a p erfe iç ão te m q ue s e r
a m elh o r d e to das. E stá to do m und o co m o s nerv os à flo r d a p ele . P rin cip alm ente M illie . E la está
b ala nçand o a s p ern as c o m ta nta f o rç a, q ue d á p ara s e nti r a s v ib ra çõ es tr ê s p oltr o nas a d ia nte .
Elle n s e v ir a p ara m im .
— E a í, v ai m esm o fa ze r a q uele s tr u q ues? E u te a m o, s o u s u a a m ig a, m as s u a a p re se nta ção e sta v a d e
d oer.
— B om , a e ssa a ltu ra d o c am peo nato , n ão te nho e sc o lh a.
— S ei l á , m as... A cho q ue s e v ocê n ão q uer s e r d esc la ssific ad a, e ntã o n ão te m m esm o.
A i d eia d e f a ze r a lg o to ta lm ente d ife re nte n em ti n ha m e o co rrid o.
— M as n ão h á n ad a q ue e u
poderia
f a ze r.
Ela c o nti n ua s e nta d a p or u m m in uto , p ro fu nd am ente p ensa ti v a, m ord end o u m a m echa d e c ab elo . D e
r e p ente , s o lta u m g riti n ho e c o m eça a c o chic har n o m eu o uv id o. B asta m tr ê s p ala v ra s p ara a id eia m e
c o nq uis ta r. E la s e r e co sta n a p oltr o na, e sp era nd o m in ha r e sp osta .
Posso a té im agin ar a c ena p erfe ita m ente . J á q ue n ão te nho a m eno r c hance d e v encer o c o ncurs o , p or
q ue n ão te nta r a lg o a p ote ó ti c o ?
— E u p oderia a té ...
— M illie R anea M ic halc huk!!! — c ham a u m a v oz i r a d a d os f u nd os d o te atr o .
As v ib ra çõ es q ue s e nti d ura nte a ú lti m a m eia h o ra p ara m , e o c o rp o i n te ir o d e M illie s e c o ngela .
Esti c o o p esc o ço e v ejo a m ãe d ela a v ançand o e m p asso s f u rio so s p elo c o rre d or. O p ai n ão e stá m uito
l o nge.
Vir o d ep re ssa e d ou u m a c o to vela d a n a b arrig a d e H annah.
— O q ue e stá a co nte cend o? — s u ssu rro a lto d em ais n o o uv id o d ela .
Millie se e sp re m e p or e ntr e n ó s p ara ir a o e nco ntr o d a m ãe n o c o rre d or. L ev anta b em o q ueix o ,
t e nta nd o r e sp ir a r p ausa d am ente .
Os o lh o s d e H annah d em ora m u m s e gund o p ara s e a ju sta r.
— X iii... — e xcla m a e la , e e sc o nd e o r is o n o p unho .

Xi
o q uê?
— E u m enti . E f e io .
Ago ra , to do m und o e stá o lh and o. I n clu siv e o s té cnic o s d a i lu m in ação .
— E stá b rin cand o c o m ig o ?!? — p erg unto .
— M illic ent — d iz a S ra . M ic halc huk. — V ocê m enti u p ara n ó s. D esc ara d am ente . — A s lá grim as
b ro ta m n o s c anto s d e s e us o lh o s, e fic a ó bvio q ue e la n ão e stá u sa nd o r ím el à p ro va d ’á gua. O p ai d e
M illie p ara a tr á s d a e sp osa , d e b ra ço s c ru za d os. — V ocê a giu p or n o ssa s c o sta s d ep ois q ue d ecid im os
n ão a ssin ar o f o rm ulá rio . P or q uê? P or q ue f e z u m a c o is a d essa s?

— I s so é v erd ad e? — M in ha m ãe e stá n o p alc o , c o m u m a p ra ncheta e nfia d a d eb aix o d o b ra ço .
Com a s m ão s f e chad as e m p unho s a o l a d o d o c o rp o, M illie s e v ir a p ara m am ãe e d iz :
— É . E u fa ls ifiq uei a a ssin atu ra d a m in ha m ãe. — O ro sto s e c o ntr a i p or u m s e gund o, c o m o s e e la
esti v esse p re ste s a c ho ra r. T orn a a o lh ar p ara o s p ais . — M as v ocês e stã o e rra d os. — S ua v oz se
su av iz a . — E u s e i q ue q uere m m e p ro te ger. E u s e i d is so . M as... à s v eze s e u s ó p re cis o q ue m e a p oie m .
Mam ãe f r a nze o c enho .
— V am os c o nv ers a r n o f o yer.
Fic o o lh and o e nq uanto M illie se gue p elo c o rre d or, m am ãe re nte n o s c alc anhare s d ela . L ev anto d a
poltr o na e p asso p or c im a d as p ern as c o m prid as d a E l.
— A ond e v ocê v ai? — p erg unta e la .
— E la p re cis a d e a ju d a — d ig o .
Corro p elo c o rre d or e e m purro a p orta o b asta nte p ara q ue o a ud itó rio i n te ir o e sc ute m in ha m ãe d iz e r:
“S in to m uito , m as n ão p odem os p erm iti r q ue v ocê p arti c ip e s e m a a uto riz a ção d os s e us p ais .”
A p orta s e f e cha a tr á s d e m im .
— M illie te m q ue c o m peti r. — O s p ais d ela s e v ir a m . — E la s e e sfo rç o u d em ais — c o nto a e le s. — E
ela n ão é f r á gil. N ão m esm o. T em u m a c asc a b em m ais g ro ssa d o q ue v ocês i m agin am . T odo m und o n este
aud itó rio , a té a s g aro ta s d e p ern as c o m prid as e c ab elo s s e d oso s, s a b e o q ue é s e r o bje to d e d eb oche.
Millie e e u s a b em os. A mand a e H annah. E lle n. — A ponto m in ha m ãe. — A té m in ha m ãe s a b e. M as a
gente n ão p ode v iv er c o m m ed o o te m po to do. N ão p re cis a s e r a ssim .
Millie s e gura m in ha m ão e a a p erta c o m f o rç a.
— E u q uero m uito p arti c ip ar — p ed e e la . — S onho e m p arti c ip ar d este c o ncurs o d esd e q ue m e
ente nd o p or g ente . N ão h á n ad a n o e sta tu to q ue d ig a q ue a s g o rd in has n ão p odem p arti c ip ar. — A m ãe
dela fa z u m a e xp re ssã o d e d esa gra d o a o o uv ir a p ala v ra e s e ca d is c re ta m ente u m a lá grim a. — A ú nic a
co is a q ue m e i m ped e d e f a ze r i s so é v ocê, m ãe.
A S ra . M ic halc huk o lh a p ara o v asto b anner d o c o ncurs o p end ura d o s o bre a s p orta s d o a ud itó rio e
entã o p ara m am ãe, q ue e sb oça u m s o rris o . O m arid o s e gura s u a m ão . E la s e v ir a p ara M illie e fa z q ue
sim c o m a c ab eça.
Lad o a l a d o, v olta m os p ara o a ud itó rio , o nd e, o bvia m ente , to das a s o utr a s g aro ta s e sta v am d e o uv id o
lig ad o n a c o nv ers a . A lg um as a té se v ir a m e d ão so rris o s d e e nco ra ja m ento p ara M illie q uand o n o s
se nta m os. E lle n s e gura m in ha m ão , e d ep ois a d e M illie , q ue e ntr e la ça o s d ed os c o m o s d e A mand a. V ir o
para o o utr o l a d o o nd e e stá H annah, a p alm a p ara c im a. E la r e sp ir a f u nd o a nte s d e s e gura r m in ha m ão .
Um v ín culo m ais p odero so d o q ue q ualq uer c o ro a v ib ra e ntr e n ó s c in co , e , p ela p rim eir a v ez d esd e o
co m eço d o c o ncurs o , s e i q ue s o u e u q ue e sto u p or c im a.
Quand o fin alm ente c o m eçam os a e nsa ia r, é a m aio r b agunça. N enhum a d e n ó s p ra ti c a
os ta le nto s. N ão d á te m po. C allie e sc o rre ga n a r a m pa d ura nte o n úm ero d e a b ertu ra .
Todas n ó s e rra m os a s d eix as. R ola m to m bos. L ágrim as. E a té u m o u o utr o m achucad o. N o fim , s a i tu d o
exata m ente c o m o e u j á e sp era v a.
Em c asa , m am ãe e stá j o gad a n o s o fá c o m u m a g arra fa d e c ham panhe b ara to , c o m o f a z to dos o s a no s. A
essa a ltu ra , j á n ão r e sta m ais n ad a a f a ze r, e , m esm o q ue a in d a f a lte a lg um a c o is a , é ta rd e d em ais p ara s e
dar a e sse tr a b alh o : tu d o q ue e la p ode fa ze r é
deix a r q ue a p urp urin a c a ia o nde q uis e r
( p ala v ra s d ela ,
não m in has).
Eu m e se nto à m esa d a c o zin ha c o m u m a c aix a d e p ap elã o , a lg uns v id ro s d e g uache e u m p ar d e
te so ura s. T enho q ue d ar u m j e ito d e c ria r u m a d ere ço p ara o n úm ero d e a b ertu ra .
Não p re ste i a m eno r a te nção a o te m a s o rte ad o, C ad illa c R anch, d esd e o d ia d o e nsa io d a c o re o gra fia .
Norm alm ente e u a charia q ue u m tr o ço d esse s é p ura f r e sc ura d e c o ncurs o d e b ele za , m as a té q ue é l e gal.
Cla ro , o T exas te m m il p onto s tu rís ti c o s q ue to do m und o c o nhece d e n o m e, m as ta m bém e ssa s jo ia s
desc o nhecid as. C om o a s L uze s d e M arfa , o P oço d e J a co b, o V ale d os D in o ssa uro s e a té a e sc ultu ra d a
Pra d a, q ue f ic a a a lg um as h o ra s d aq ui. A cho q ue C ad illa c R anch s e e ncaix a n a c ate go ria d os e xcêntr ic o s.
É a c ara d o T exas, m as, p or o utr o l a d o, f o ge c o m ple ta m ente a o e ste re ó ti p o.
Cad illa c R anch é u m a i n sta la ção d e a rte p úb lic a e m A marillo , c o m posta p or u m a f ile ir a d e C ad illa cs
em bic ad os a o l a d o d a e str a d a. A p in tu ra d os c ara ngo s j á e ra h á m uito te m po, e p or i s so o s v is ita nte s s ã o
enco ra ja d os a s o lta r a i m agin ação c o m s p ra ys d e ti n ta . P ois é . N ão f a ço a m eno r i d eia d e c o m o c ria r u m
ad ere ço d ecente q ue d ig a: “ É ó bvio q ue e u s o u C ad illa c R anch.”
Mam ãe e ntr a n a c o zin ha p ara p egar g elo — s im , e la to m a c ham panhe c o m u m a p ed ra d e g elo .
— I s so é p ara a lg um tr a b alh o e sc o la r? V ocê te m q ue d esc ansa r b asta nte h o je à n o ite , D um plin ’.

Ela v ai m e m ata r p or n ão te r f e ito e sse tr o ço a nte s.
— É p ara o m eu, h um , a d ere ço d o n úm ero d e a b ertu ra .
Ela s e s e nta a o m eu l a d o.
— A h, m eu D eus.
Bala nço a c ab eça.
— T ud o b em — c o nte m poriz a e la . — A g ente d á u m j e ito . — M am ãe d á u m a o lh ad in ha n o p ap el c o m
o te m a. — C ad illa c R anch. — F ic o s ó o bse rv and o e nq uanto e la s e le v anta e p ega u m c o po p lá sti c o n o
arm ário . D esp eja u m p ouco d e c ham panhe e o e ntr e ga a m im .
Pego o c o po, m as n ão f a ço c o m entá rio s. N ão q uero q ue e la m ud e d e i d eia p or q ualq uer m oti v o.
— V ocê a cha q ue a s u a c in tu ra p assa p or e ssa c aix a?
Dou u m a o lh ad a n ela p or u m s e gund o e to m o u m g o le d e c ham panhe. B orb ulh a n o m eu p eito .
— A cho q ue p assa .
— E ntã o d á u m p ulo n a g ara gem e p ega p ra m im a q uele r o lo d e e lá sti c o la rg o , a p is to la d e c o la e a
min ha c aix a c o m s p ra ys d e ti n ta .
Volto c o m o s ite ns p ed id os, e , e m in sta nte s, e la já e stá tr a b alh and o n a c aix a, c o rta nd o-a c o m u m
esti le te .
— D um plin ’, v ocê v ai te r o a d ere ço m ais e sp eta cula r d aq uele n úm ero d e a b ertu ra .
Meu c o rp o i n te ir o v ib ra d e s a ti s fa ção , e d ou o utr o g o le n o c ham panhe.
Alg um as h o ra s e u m a g arra fa d ep ois , d ig o :
— M ãe?
— S im , D um plin ’.
— F oi m uito l e gal d a s u a p arte d eix ar a M illie c o nco rre r. M esm o d ep ois d ela te r m enti d o.
Ela v ir a o c o po n um g o le s ó .
— M illie é u m a b oa m enin a. M uito m eig a. E te m u m l in d o s o rris o .
Esp ero q ue e la d ig a a lg o s o bre o ta m anho d e M illie e c o m o e stá e m d esv anta gem , m as e la s e l im ita a
ab rir o utr a g arra fa .
Pin ta m os e m s ilê ncio u m a b ase b ra nca n o p ap elã o , e , q uand o já e stá q uase s e ca, s in to a lg um a c o is a
fr ia r e sp in gar n o m eu r o sto . P asso o d ed o n a p ele . T in ta .
— A h, n ão , v ocê n ão f e z i s so — d ig o , p assa nd o a ti n ta d o d ed o n o n ariz d ela .
Com eçam os a s o lta r g arg alh ad as. H is té ric as. D o ti p o q ue a g ente n ão c o nse gue c o ntr o la r. D o ti p o q ue
dói. A cho q ue e sto u b êb ad a. M am ãe c erta m ente e stá . M as e sto u m e s e nti n d o b em , e q uem p re cis a d orm ir
para f ic ar c o m u m a c ara b oa q uand o s e te m c ham panhe e m c asa ?
Quand o f in alm ente te rm in am os, à u m a d a m anhã, s a ím os d a c o zin ha d eix and o a m esa c o berta d e f o lh as
de jo rn al m anchad as d e ti n ta e p ed aço s so lto s d e carto lin a. R io t p ula na m esa e fa re ja o p ro je to
te rm in ad o. S eu r a b o b ate e d esliz a n a m aq uete d e c arto lin a c o berta d e ti n ta s p ra y.
Exp erim ento o a d ere ço . E le fic a su sp enso d os m eus o m bro s p or e lá sti c o s e v em a té a c in tu ra . É
sim ple sm ente r id íc ulo . E s im ple sm ente p erfe ito .
Ante s d e ir m os d orm ir, a b ro a p orta d a s a la . A r u a e stá s ile ncio sa e e sc ura . D aq ui d e o nd e e sto u, a
casa i n te ir a p are ce c heia d e n o vas p ossib ilid ad es.
Mam ãe a p aga a l u z d o c o rre d or a tr á s d e m im . F echo a p orta e p asso a tr a nca.
Já n a c am a, m and o u m a m ensa gem p ara E lle n c o m u m a l is ta d e to das a s c o is a s q ue v ou p re cis a r p ara a
ap re se nta ção d o m eu ta le nto a m anhã.
MAGNÍF IC O , r e sp ond e e la .
O c ham panhe q ue a in d a c o rre p ela s v eia s e m bala m eu s o no . É m esm o m agnífic o .

CIN Q UEN TA E
NO VE
E LLE N : H oje é o d ia d o s h o w , g ente . H OJE É O D IA D O S H OW !!!
A m ensa gem de E l é a prim eir a co is a que m e fa z so rrir. M as aco rd o num a tr e m end a cris e de
i n se gura nça. S erá q ue a n o ite p assa d a a co nte ceu m esm o? O lh o p ara a s m ão s e v ejo o s p in go s d e ti n ta
s e ca s a lp ic ad os n a p ele .
Ain d a f a lta m a lg um as h o ra s a té te rm os q ue s a ir, p or i s so to m o u m b anho b em d em ora d o, d aq uele s q ue
l a v am a té a a lm a, e e nfio m il g ra m pos n o c ab elo a té c o nse guir m onta r u m a e sp écie d e p ente ad o c o m o s
c acho s c ain d o p or c im a d a te sta . D ep ois , p asso e sm alte r o xo -e sc uro n as u nhas c o m o m aio r c ap ric ho .
Abro o a rm ário p ara te r c erte za d e q ue n ão e sq ueci n ad a d o q ue v ou p re cis a r. P end ura d o b em n a
f r e nte e n o c entr o e stá o v esti d o v erm elh o q ue m am ãe c o m pro u p ara m im . L ev anto a c ap a d e p lá sti c o e
p uxo a b ain ha, o bse rv and o o b rilh o d o te cid o.
Mam ãe b ate à p orta a nte s d e e ntr a r.
Fecho o a rm ário .
Ela e stá to da m aq uia d a, p ro nta p ara d ese m penhar o p ap el d e a p re se nta d ora g la m oro sa p or u m d ia .
— E stá n a h o ra . V ou te e sp era r n o c arro — a v is a . I n clin a a c ab eça p ara o l a d o. — S eu c ab elo ... E stá
b onito . — E f e cha a p orta a nte s q ue e u p ossa a gra d ecer.
Eu m e s e nto n a b eir a d a c am a p or u m m om ento . P ego a B ola 8 M ágic a e d ou u m a b oa s a cud id a.
É a ssim q ue t e m q ue s e r.
Abro a p orta d o a rm ário .
O c am arim e stá e m peste ad o p or u m a n év oa d e la q uê. S ério , s o u o brig ad a a r e sp ir a r
pelo n ariz , o u c o rro o r is c o d e e ngo lir v ap ore s tó xic o s. A s b ancad as e stã o r e p le ta s d e
i te ns d e m aq uia gem , f lo re s, u rs in ho s d e p elú cia , p ote s d e v ase lin a e b eb id as e nerg éti c as.
As m is se s e nsa ia m o s ta le nto s. C anta nd o b aix in ho e nq uanto a p lic am b ato m . C onta nd o o s p asso s d a
c o re o gra fia e nq uanto p assa m l a q uê n o c ab elo . R ecita nd o m onó lo go s e nq uanto p õem r ím el n o s c ílio s.
Mal te nho te m po p ara a b so rv er tu d o is so . V ejo M illie n o s fu nd os d o c am arim . O c ab elo d a g aro ta .
E stá e no rm e! T ão e no rm e q ue a té p oderia se rv ir d e d ub lê d a R ap unze l. F ala nd o sé rio , e la d ev e te r
g anhad o u ns q uin ze c entí m etr o s d e a ltu ra , s e m c o nta r o s s a lto s. E la s o rri e a cena p ara m im .
Dia nte d o e sp elh o e stã o u m s in gelo b uq uê d e g ir a ssó is e m bru lh ad o e m p ap el c elo fa ne a m arra d o c o m
u m b arb ante r ú sti c o , u m a s o litá ria r o sa v erm elh a e u m a g arra fa d e c id ra .
Pego o c artã o e nfia d o n o b uq uê.
To da a s o rte d o m undo! — B o & L ora in e
Cola d o a o c aule d a r o sa e stá u m P ost- it q ue d iz :
xo xo m am ãe
Por f im , a b ro o e nv elo pe p re so à g arra fa d e c id ra .
Queria te d ar d a a utê n tic a , m as o D ale d is se q ue n ão. D esm anch a-p ra ze re s. Q ueb ra tu do, g aro ta !
U m b eijo , L ee ( & D ale )
Gosta ria q ue L ucy e sti v esse a q ui. N ão p ara m e v er c o nco rre r, m as p ara v er
is so
. P orq ue s in to q ue
e sse m om ento é tã o d ela q uanto m eu.
Mal a cab o d e m e m aq uia r, a S ra . C la w so n a b re a p orta e a v is a :
— D ez m in uto s, s e nho rita s!
Elle n s e nta a o m eu la d o, c elu la r n a m ão . D ois c ír c ulo s p erfe ito s d e b lu sh c o lo re m s u as fa ces, m as o
b ato m v erm elh ão m ancho u o s d ente s d a f r e nte .
— T im — d iz e la . — O i d io ta e stá c o m i n to xic ação a lim enta r. É , W ill, f iq uei s e m a co m panhante !
Esse c o ncurs o já m e p are cia u m a c ausa tã o p erd id a d esd e o c o m eço , q ue n em m e le m bre i d e fic ar
p re o cup ad a c o m o f a to d e n ão te r u m a co m panhante .
— E u ta m bém .
El e stá r e sp ir a nd o m uito d ep re ssa . J á ti n ha m e e sq uecid o d e c o m o e ssa s c o is a s a d eix am n erv osa .
— M as tu d o b em — d ig o . — N ão s e p re o cup e c o m o s a co m panhante s, tá ? — E m v oz m ais b aix a,
a cre sc ento : — V ocê e e u p odem os s e r a s a co m panhante s u m a d a o utr a . É a ssim q ue d ev eria s e r m esm o,

não é ?
Ela m ord e o l á b io i n fe rio r p or u m m om ento a nte s d e c o nco rd ar.
— C in co m in uto s! — a v is a a S ra . C la w so n. — H ora d e f a ze r f ila , s e nho rita s.
Se h á u m D eus lá e m c im a, te nho c erte za d e q ue p ôs o s o lh o s e m m im e e m E lle n
quand o e stá v am os n a fila d os e m briõ es e d is se :
Esse s d ois .
D ic kso n. D ry v er. N ão
poderia s e r m ais p erfe ito .
Form am os u m a fila p or o rd em a lfa b éti c a n o s b asti d ore s, e sp era nd o n o ssa s d eix as. O te m a s o rte ad o
por E l f o i o D alla s C ow boys, p or i s so e la e stá s e gura nd o u m p ar d e p om pons a zu is e p ra te ad os e u sa nd o
um c hap éu d e c aub ói n as m esm as c o re s d o ti m e. E e u e sto u c o m m eu C ad illa c p end ura d o n o s o m bro s.
Esta m os a p erta nd o a m ão u m a d a o utr a c o m ta nta fo rç a, q ue a s c o ita d as c hegam a e sta r b ra ncas, s e m
cir c ula ção .
Tento m e le m bra r d a c o re o gra fia q ue e nsa ia m os u m m ilh ão d e v eze s, m as d e re p ente m e d eu u m
bra nco to ta l. É c o m o s e a m in ha c ab eça e sti v esse p erd id a n o m eio d e u m l a b ir in to , e e u à p ro cura d e u m a
so m bra .
Bekah C otte r e ste nd e u m p ote d e v ase lin a p ara E l.
— P assa n o s d ente s e n as g engiv as — i n str u i. — A ju d a a s o rrir.
El e e u n o s e ntr e o lh am os e d am os d e o m bro s, a nte s d e e nfia r o s d ed os n o p ote e l a m buza r o s s o rris o s
de v ase lin a. O g o sto é n o je nto .
— O brig ad a — a gra d eço a B ekah.
Mallo ry e stá à n o ssa f r e nte , u sa nd o f o nes d e o uv id o p re to s.
— V ão , v ão , v ão !
Passa m os c o rre nd o p or e la , e , n o in sta nte e m q ue a s lu ze s s e a cend em s o bre m im , a le m bra nça v olta .
Rodam os e m c ír c ulo s, d e m odo q ue c ad a c and id ata te m d ois s e gund os e m eio p ara d iz e r o n o m e.
A m úsic a te rm in a e a s l u ze s s e a p agam . N ão c o nsig o n em a ssim ila r a s c o is a s, d e tã o d ep re ssa q ue tu d o
aco nte ce. É c o m o s e a v id a ti v esse v ir a d o u m film e a cele ra d o e to do m und o fa la sse c o m v ozin ha d e
duend e.
Em s e guid a, v em a e xib iç ão d os tr a je s d e b anho .
Nem ti n ha m e o co rrid o q ue e u n ão c o nta ria c o m a m eno r p riv acid ad e p ara v esti r o m aiô . M as c á
esta m os n ó s, e p riv acid ad e q ue é b om , n eca. T ir o a s r o up as d a m aneir a m ais e str a té gic a p ossív el, c o m o
maiô p ara d o n a a ltu ra d as c o xas e a s a ia e nro la d a e m v olta d a c in tu ra . P or u m m om ento , e u m e p erm ito
dar u m a o lh ad a n o c am arim . E d esc ub ro q ue s o u a ú nic a i d io ta q ue e stá e sp io nand o e m v ez d e c uid ar d a
pró pria v id a. V ou s e r to ta lm ente h o nesta e d iz e r q ue p eito p or a q ui é o q ue n ão fa lta , m as n in guém e stá
dand o a m ín im a.
Enfr e nto a s itu ação e ti r o a b lu sa . D ep ois d e m e s a cud ir to da p ara p uxar o r e sto d o m aiô a té e m c im a,
ponho n o a lto d a c ab eça o s ó culo s v erm elh o s e m f o rm ato d e c o ra ção q ue B o m e d eu h á m ese s. J á n em m e
le m bra v a m ais d ele s, a té a s e m ana p assa d a, q uand o r e so lv i d ar u m a l im pa n o a rm ário .
Form am os fila s n o s b asti d ore s, e nq uanto a S ra . C la w so n n o s v is to ria , a nd and o d e u m a p onta à o utr a ,
passa nd o u m j a to d e l a q uê n o s n o sso s tr a se ir o s.
— O s m aiô s n ão p odem e ntr a r n o b um bum — e xp lic a.
Fic o a ssis ti n d o e nq uanto E l v ai p ara o p alc o . S ei q ue p or d entr o e la e stá m orta d e m ed o, m as e sb anja
se gura nça e xib in d o u m b iq uín i v erd e e u m p ar d e e sp ad rille s.
Sei ta m bém q ue n ão d ev eria , m as d ou u m a o lh ad a n as m in has s a nd ália s p re ta s e n o m aiô v erm elh o
esti c ad o p or c im a d a b arrig a r e d ond a. M as n ão é n em i s so q ue m e i n co m oda m ais .
Todo m und o te m a lg um a p arte d o c o rp o q ue n ão s u p orta . E u a té p oderia s a ir p or u m a ta ngente e d iz e r
que d ete sto o c o rp o in te ir o , m as o q ue n ão s u p orto m esm o s ã o a s c o xas. C oxo nas d e p otr a nca, p ern il d e
Nata l, o n o m e q ue v ocê q uis e r d ar. M in has p ern as n em p are cem p ern as. A b arrig a e u ti r o d e le tr a , m as,
no s ra ro s m om ento s e m q ue p asso d ia nte d o e sp elh o s e m n ad a p or c im a d a p ele , s ó c o nsig o v er d ois
barris d e c elu lite q ue m e c arre gam d e u m c anto p ara o o utr o e fic am s e r o çand o, c ria nd o u m a a ssa d ura
sim ple sm ente i n fe rn al.
A S ra . C la w so n b ate n o m eu o m bro , a v is a nd o q ue é a m in ha v ez.
Resp ir o f u nd o e s o rrio .
Sorria , D um plin ’
, e sc uto m am ãe d iz e r.
Posso a té e sta r m e s e nti n d o c o nstr a ngid a, m as m e r e cuso a m e s e nti r e nv erg o nhad a.
Talv ez s e ja p orq ue n ão d á p ara v er a p la te ia . O u ta lv ez p orq ue n in guém e ste ja g rita nd o p ara e u s a ir d o
palc o . O f a to é q ue m in has c o xas s o bre v iv em a o s e u m om ento s o b o s r e fle to re s. N ão f u jo c o rre nd o c o m o
fiz n aq uele d ia , n a p is c in a. N in guém m e v aia . O m und o n ão a cab a. A p la te ia n ão f ic a c ega.

Há a lg o n o b iq uín i q ue f a z c o m q ue a s m ulh ere s a chem q ue p re cis a m
co nquis ta r
o d ir e ito d e u sá -lo . E
is so é u m a b su rd o. N a v erd ad e, o c rité rio é m uito s im ple s: v ocê te m u m c o rp o, n ão te m ? E ntã o v este u m e
mand a v er!
Amand a e stá e sp era nd o p or m im n o s b asti d ore s.
— V ocê a rra so u!
Aperto s e u b ra ço .
— O brig ad a. E stá p ro nta p ara a e xib iç ão d e f u te b ol?
Ela f a z q ue s im . S eu r o sto f ic a c o r-d e-ro sa .
— E u e ntr e i n o ti m e d e f u te b ol — a nuncia .
— É m esm o?
Ela a b re u m s o rris o .
— Im agin ei que, se poderia so bre v iv er ao co ncurs o , ta m bém poderia entr a r no ti m e, m esm o
mancand o.
— I s so é i n crív el — d ig o a e la , e nq uanto E lle n v em f ic ar a o n o sso l a d o.
Dos b asti d ore s, o bse rv am os M illie , q ue e ntr a n o p alc o e xib in d o u m m aiô x ad re z c o m u m s a io te e u m
par d e s a lto s a nab ela . E stá u sa nd o ó culo s d e s o l e no rm es e b ato m v erm elh o -c heguei, e a té c arre ga u m a
bola d e p ra ia c o lo rid a d eb aix o d o b ra ço .
— M eu D eus — s u ssu rra E lle n. — E la n asc eu p ara i s so . T em u m a m is s d entr o d aq uela g o rd in ha f o fa .
Um s o rris o l e nto e s a ti s fe ito s e a b re n o m eu r o sto , e r e sp ond o:
— N ão . A quela g o rd in ha f o fa
é u m a m is s.

SE SSE N TA
— A rg h, m as q ue b ela p orc aria ! — M eu c râ nio p are ce te r s id o m assa cra d o p or u m
p ro cessa d or d e a lim ento s. — S erá q ue to das a s p eru cas m achucam ta nto a ssim ?
— É q ue e ssa d ev e se r u m p ouco p eq uena — e xp lic a E lle n. — S ó p ode. E u p eguei a ú nic a q ue
e nco ntr e i n o q uarto d a m in ha m ãe.
El e e u n o s a p ro pria m os d o b anheir in ho n o s b asti d ore s p ara e u p oder m e p re p ara r p ara a p ro va d e
t a le nto s. O c ab elo d ela e stá d iv id id o e m d uas tr a nças, e e la c o nse guiu d ar u m je ito d e s e e nfia r n o tr a je
q ue u sa v a p ara s a p ate ar n o s é ti m o a no . ( E m bora a m ãe te nha ti d o q ue c o stu ra r u m p ed aço d e e lá sti c o n a
c in tu ra .)
— T ud o b em , tu d o b em . — In sp ir o p ro fu nd am ente , te nta nd o a calm ar a te nsã o n essa m in ha c ab ecin ha
o ca, e f e cho o s o lh o s. — E nfia l o go a p eru ca.
Elle n v este a p eru ca l o ura n a m in ha c ab eça.
— P ro nto — d iz , d ep ois d e p ôr o ú lti m o g ra m po. — E ntr o u. D á u m a o lh ad a.
Lev anto a c ab eça. N o e sp elh o , D olly P arto n o lh a p ara m im . U m a D olly P arto n g o rd a e a d ole sc ente .
— A h, m eu D eus! — e xcla m a E l. — A cho q ue v ocê d ev e s e r o m eu a nim al d e p oder.
Esp ero no s basti d ore s do outr o la d o do palc o , enq uanto ela sa p ate ia alg uns
co m passo s a tr a sa d a e m r e la ção à m úsic a, s e m p ara r u m in sta nte d e r e v ir a r o s o lh o s.
S e e u n ão e sti v esse tã o n erv osa , c ho ra ria d e r ir.
Tiv em os o c uid ad o d e n o s e sc o nd er d o o utr o l a d o p ara q ue n in guém m e v is se . P rin cip alm ente m am ãe,
a S ra . C la w so n o u M allo ry .
A m úsic a d e E l a cab a a lg uns s e gund os a nte s d e e la d ar a c o re o gra fia p or e ncerra d a, e ntã o fin alm ente
t e rm in a e f a z u m a r e v erê ncia a nte s d e c o rre r p ara o s b asti d ore s.
— M and ou b em — d iz . — V ocê v ai b om bar.
Pagam os v in te p ra ta s a o c ara d a s o no pla sti a p ara s e r n o sso c úm plic e.
— F echad o — d is se e le . — G ra na p ra c erv ejin ha.
Mam ãe s a i d os b asti d ore s q ue f ic am m ais p erto d o a ud itó rio , d o o utr o l a d o d o p alc o .
— F oi m ara v ilh o so , E lle n. E q ue m alh ação d ev e s e r! — A p la te ia r i b aix in ho . — A go ra , W illo w dean
D ic kso n a p re se nta rá u m n úm ero d e i lu sio nis m o p ara n ó s.
Ah, sim , co nse guir enfia r aq uela p eru ca na m in ha cab eça fo i m esm o um núm ero d e ilu sio nis m o
i m pre ssio nante .
Entr o n o p alc o e v ou p ara b aix o d os r e fle to re s, a s b ota s e co and o n o c hão . M in ha s o m bra e m fo rm ato
d e p oncho f r a nja d o d e c am urç a s e e ste nd e p ara a lé m d a p oça d e l u z.
Mam ãe f ic a n a b oca d o p alc o , s e gura nd o o m ic ro fo ne. C om o s o lh o s a rre gala d os, o c o rp o r e te sa d o d e
t e nsã o .
A m úsic a c o m eça. S ão a q uele s p rim eir o s a co rd es q ue to do m und o n o a ud itó rio j á c o nhece tã o b em . D á
p ara v er o s j u ra d os c o chic hand o e ntr e s i n a m esa c o m a s l u m in ária s c in ti la nd o.
Eu m e v ir o p ara m am ãe e le v o à b oca o m ic ro fo ne d e b rin q ued o.
A v oz d a D olly c anta “ Jo le ne,
J o le ne, J o le ne, J o le ne, I’ m b eggin g o f y o u, p le ase d on’t ta ke m y m an”.
* Mexo o s lá b io s ju nto c o m c ad a
p ala v ra .
*
“Jo le ne, J o le ne, J o le ne, J o le ne, e sto u lh e im plo ra ndo, p or f a vor, n ão r o ube m eu h om em .” ( N . T .)
Fecho o s o lh o s e r e v ejo c ad a m om ento e m q ue o uv i e ssa m úsic a. V ia ja nd o d e c arro p ela e str a d a, c o m
m am ãe, L ucy e v ovó, a s j a nela s a b erta s, n ó s q uatr o a rra sta nd o a s m ão s p elo v ento . S enta d a n o q uarto d e
L ucy, e nq uanto “ Jo le ne” jo rra v a d o to ca-d is c o s. D eita d a n o s a zu le jo s fr io s d a c o zin ha d e E l e nq uanto a
m ãe d ela c anta ro la v a e p re p ara v a u m a m acarro nad a. N o s e rv iç o r e lig io so d e L ucy. N a c am in ho nete d e
B o. N a T he H id eaw ay, v end o L ee s e a p re se nta r. A qui, n este p alc o .
Canto “ Jo le ne”, e ta lv ez s e ja m in ha im agin ação , m as o uço a lg um as v oze s n a p la te ia c anta nd o ju nto
c o m ig o . É o ti p o d e h in o q ue u ltr a p assa to das a s f r o nte ir a s, i d io m as e r e lig iõ es.
É “ Jo le n e” .
A m úsic a te rm in a, e a p la te ia a p la ud e. P or u m s e gund o, c hego a te r a im pre ssã o d e o uv ir u m
oin c!
,
m as é l o go a b afa d o p elo s a p la uso s.
No i n sta nte e m q ue s a io d o p alc o , m am ãe m e s e gura p elo b ra ço .
— O q ue f o i i s so ? — M as n ão te nho te m po d e r e sp ond er, p orq ue e la j á e stá c o rre nd o p ara a nuncia r a

pró xim a c and id ata . — B em , n ão f o i u m a s u rp re sa ? — v ib ra s u a v oz p ara a p la te ia .
Passo p or C allie a c am in ho d o c am arim .
— V ocê s a b e q ue v ão te d esc la ssific ar p or n ão a p re se nta r o ta le nto a p ro vad o, n ão s a b e?
— V ale u a p ena — r e sp ond o, s e m m e d ar a o tr a b alh o d e p ara r.
No c am arim , d esa b o a o la d o d e E lle n. A in d a te m os u m te m pin ho e nq uanto a s o utr a s te rm in am d e s e
ap re se nta r.
Hannah p assa p or m im a o s a ir. L ev anta a m ão p ara m e d ar u m to ca a q ui, s e m d iz e r u m a p ala v ra .
Quand o a s a p re se nta çõ es te rm in am , h á u m in te rv alo a nte s d a p ro va d os tr a je s d e g ala . A ju d o E lle n a
pôr o v esti d o — u m m odelo f r e nte ú nic a e m to m c o ra l, b ord ad o c o m s tr a ss. E la d á u m a a je ita d a n o m eu
cab elo d ep ois d o e str a go f e ito p ela to uca d a p eru ca.
A S ra . C la w so n e nfia a c ab eça p ela p orta e d iz :
— A té a go ra , tu d o d entr o d o e sq uem a, s e nho rita s! D ez m in uto s! W illo w dean, s u a m ãe q uer d ar u m a
pala v ra c o m v ocê.
Sin to o ro sto fic ar v erm elh o . A lg um as g aro ta s fa ze m
oooooh
e nq uanto sig o a S ra . C la w so n a té o
cam arim p riv ad o d e m am ãe.
Bato à p orta e , a nte s m esm o d e a fa sta r o p unho , e la j á a b riu .
— E u s a b ia q ue v ocê i a a p ro nta r a lg um a — d iz , b ala nçand o a c ab eça.
— N ão , m ãe, n ão f o i n ad a d is so . N ão p la neje i n ad a. — B em , p elo m eno s n ão a té o nte m .
Ela e stá s e gura nd o o v esti d o d o c o ncurs o a o r e d or d o p eito .
— V ocê e stá d esc la ssific ad a — a v is a . — N ão p odem os p erm iti r q ue c hegue à s f in ais . N ão s e ria j u sto .
— E u n unca v enceria m esm o — re sp ond o. — M as p or q ue n ão p osso s ó s u b ir n o p alc o e d ar u m a
and ad a?
— S im ple sm ente p orq ue v ocê i n fr in giu a s r e gra s. E sto u u sa nd o o s m esm os p arâ m etr o s q ue u sa ria p ara
qualq uer c and id ata . S in to m uito , m as s u a p arti c ip ação s e e ncerra a q ui.
Sei q ue é u m a id io ti c e. U m a tr e m end a id io ti c e. M as p arte d e m im e stá d ev asta d a p or n ão c hegar à s
fin ais . D ep ois d e tu d o q ue a co nte ceu, e f a lta nd o m eno s d e u m a h o ra p ara e sse tr o ço te rm in ar. M as n ão m e
sin to s u rp re sa . O u n ão d ev eria m e s e nti r, p elo m eno s. S ab ia q ue o q ue e sta v a p re ste s a f a ze r s e ria p unid o
co m a d esc la ssific ação , m as, l á n o f u nd o, c o nta v a q ue m am ãe l iv ra sse a m in ha c ara .
Ela s e v ir a d e c o sta s.
— Q uer p uxar o z íp er?
O b end ito n ão c hega a e m perra r ta nto q uanto d a ú lti m a v ez, m as...
— M ãe, n ão c o nsig o p uxar m ais d o q ue is so — a fir m o, c ate gó ric a. A in d a e stã o fa lta nd o u ns d ez
centí m etr o s, m esm o q ue e u p uxe c o m to da f o rç a. M as o tr o ço n ão s o be u m m ilím etr o . F ato .
Ela v ir a a c ab eça e d á u m a o lh ad a n o e sp elh o .
— N ão é p ossív el. N ão , n ão . E u e xp erim ente i d ia s a tr á s. T enho fe ito re lig io sa m ente a s a ula s d e
Pile ite s
e d e tr a nsp ort. — A cho q ue e la e stá p re ste s a te r u m a c ris e n erv osa , e , s e is so a co nte cer, o
co ncurs o i n te ir o v ai p or á gua a b aix o .
— C alm a — p eço a e la . — N ós v am os d ar u m j e ito .
— D ois m in uto s! — a v is a a S ra . C la w so n d o o utr o l a d o d a p orta .
Gota s d e s u o r b ro ta m n as tê m pora s d e m am ãe.
— F ic a a q ui. — E sa io c o rre nd o. S ig o d ese sp era d a p elo p alc o a té a o fic in a o nd e sã o fe ito s o s
cenário s.
Serra s. F ura d eir a s. P re go s. M arte lo s. P ara fu so s. C hav es in gle sa s. A lic ate s. V ou e nchend o o s b ra ço s
co m tu d o q ue p ossa s e rv ir.
Quand o c o rro d e v olta a o c am arim , e nco ntr o m am ãe à b eir a d e u m a ta q ue d e n erv os.
— D um plin ’, e u te nho q ue e ntr a r n este v esti d o. E u u so to dos o s a no s d esd e q ue v enci. A s p esso as
estã o e sp era nd o m e v er c o m e le . É u m a tr a d iç ão .
— V ir a d e c o sta s. — J o go to das a s f e rra m enta s n a b ancad a.
— T odo m und o v ai n o ta r. — E la j á e stá à b eir a d as l á grim as.
— N ão , n ão c ho ra . C ab er n o v esti d o v ocê n ão v ai. T á i m possív el.
Ela s o lta u m g em id o.
— M as i s so n ão s ig nific a q ue a g ente n ão p ossa c ria r a i lu sã o .
Pego d ois g ra m pos g ig ante s q ue v i o s té cnic o s c arre gare m n as b erm ud as, m eio p are cid os c o m a q uela s
pin ças d os c ab ele ir e ir o s. E le s u sa m e sse s tr o ço s p ara q ueb ra r m il g alh o s, ti p o p re nd er fio s o u ju nta r
ped aço s d e m ad eir a e nq uanto a c o la s e ca.
— O lh a s ó , m ãe. V ocê n ão p ode s e v ir a r n o p alc o , e nte nd eu? T em q ue f ic ar p ara d in ha n o m esm o l u gar.
Ela f a z q ue s im .

Pre nd o u m d os g ra m pos a tr á s d o b usti ê e p onho o v esti d o p or b aix o d ele . E f a ço o m esm o c o m o o utr o
la d o.
Sua r e sp ir a ção s e tr a nq uiliz a p or u m m om ento q uand o e la n o ta a d ife re nça n o e sp elh o .
— E stá v end o? F ic o u ó ti m o.
Ela r e sp ir a f u nd o e c o lo ca a c o ro a s o bre o p ente ad o i m pecáv el.
— P erfe ito , D um plin ’. — E la s e v ir a p ara m im , a e xp re ssã o h esita nte . — V ocê d ete sta e sse a p elid o,
não d ete sta ?
Sorrio .
— N ão ta nto q uanto n o p assa d o.
— P osso p ara r d e te c ham ar...
— N ão . A cho q ue j á o a ssu m i. — À s v eze s, d esc o brir q uem v ocê é i m plic a e nte nd er q ue o s e r h um ano
é u m m osa ic o d e e xp eriê ncia s. E u s o u D um plin ’. W ill e W illo w dean. G ord a. F eliz . I n se gura . C ora jo sa .
— A c o rti n a v ai s u b ir ! — a v is a a S ra . C la w so n.
Mam ãe s e v ir a p ara o e sp elh o m ais u m a v ez.
— O brig ad a, o brig ad a, o brig ad a. E u te a m o, W illo w dean. — E la p re ssio na o s lá b io s v erm elh o s n a
min ha te sta . — M in ha d oce D um plin ’. — S ai co rre nd o p ela p orta , e, q uand o anuncia as p rim eir a s
cand id ata s e s e us a co m panhante s, c o rro p ara o c am arim .
Deb aix o d a b ancad a está m in ha m ochila , e enro la d o d entr o d ela o v esti d o v erm elh o q ue m am ãe
co m pro u p ara m im . A plic o u m a s e gund a c am ad a d e b ato m e c o lo co o v esti d o p ela c ab eça. C alç o o s
sa p ato s e a je ito a s ti r a s n o s c alc anhare s. T enta nd o p uxar o z íp er n o c am in ho , c o rro a té E lle n, q ue e stá
esp era nd o n a f ila , a tr á s d a C allie .
— P uxa m eu z íp er? — p eço , o fe gante .
Ela f a z i s so s e m h esita r.
— V ocê e stá l in d a.
Sorrio , a in d a te nta nd o r e cup era r o f ô le go .
— E u s e i.
— E lle n — d iz M allo ry , o bse rv and o s u a p ra ncheta . — O nd e e stá o s e u a co m panhante ? — E la s e v ir a
para m im . — E W ill, v ocê e stá d esc la ...
— S ou e u a a co m panhante d ela .
— E lle n D ry v er — c ham a m am ãe d o p alc o .
Mallo ry a rre gala o s o lh o s q uand o d ou o b ra ço a E lle n e e ntr a m os j u nta s.
— E a co m panhand o E lle n e stá T im oth y...
Avançam os re b ola nd o p ela ra m pa a té a fr e nte . C am in ho p ond o u m p é a d ia nte d o o utr o , c o m o L ee
ensin o u.
A b oca d a m am ãe e stá a b erta , m as e ntã o s e c urv a n um s o rris o a m are lo .
— E , a co m panhand o E lle n, e stá W illo w dean D ic kso n.
Solto o b ra ço d e E lle n p ara q ue e la d ê u m a v olti n ha n a b eir a d o p alc o , e d ep ois v olta m os p ara o s
basti d ore s.
Assis ti m os ju nta s à s o utr a s c and id ata s. A mand a c o m o ir m ão m ais v elh o . A s b ota s o rto péd ic as e stã o
enfe ita d as c o m u m a re nd a ig ual à d o v esti d o — id eia d a M illie , é c la ro . M alik a tr a v essa o p alc o d e
bra ço s d ad os co m M illie co m o um p erfe ito cav alh eir o . E , natu ra lm ente , H annah. A co m panhad a p or
Courtn ey G ans. C ourtn ey é u m d esse s n o m es g enia is q ue p odem s e r d e h o m em , m as n esse c aso n ão é . A
aco m panhante d e H annah, q ue im agin o s e r d e o utr a c id ad e, p ois n unca a v i a nte s, u sa o c ab elo lo uro
pente ad o p ara tr á s e p re so n um c o que b em -fe ito . Q ue c o m ple m enta m uito b em s e u s m okin g e str u tu ra d o.
E, o m elh o r d e tu d o, H annah, c o m u m lo ngo p re to d e a lc in has, c o tu rn o s e s e m u m a g o ta d e m aq uia gem ,
não e stá i n fr in gin d o n enhum a r e gra .
Todas n ó s c am in ham os r e b ola nd o, a s p assa d as c o m o s d ed os d os p és jo gand o o s q uad ris d e u m la d o
para o o utr o , c o m o L ee n o s e nsin o u.
Hannah s a i d o p alc o p ela d ir e ita , o nd e j á e sp era m os p or e la . C ourtn ey d á u m b eijo n o s e u r o sto a nte s
de d iz e r:
— T e v ejo l á f o ra m ais ta rd e.
Assim q ue C ourtn ey s e a fa sta , E lle n s o lta u m a g arg alh ad a e b ate n as c o sta s d e H annah.
— V ocê é d ia b ólic a, h ein ?
Está esc uro , porta nto não dá para sa b er, m as te nho certe za quase ab so lu ta de que H annah fic a
verm elh a.
Conti n uo n o s b asti d ore s, v end o o re sto d o c o ncurs o . A ssis to à s e ssã o d e P erg unta s & R esp osta s, e
alg um as c and id ata s m e s u rp re end em c o m ti r a d as q uase filo só fic as, e nq uanto o utr a s g agueja m . A mand a

co nta u m a p ia d a c o m u m tr o cad ilh o s im ple sm ente in fa m e, q ue m ata o s ju ra d os d e rir. M illie e ncanta a
to dos c o m s u a ris a d a c o nta gia nte . H annah é ir ô nic a c o m o s e m pre , m as d eix a a p la te ia p ro fu nd am ente
pensa ti v a.
Donna L ufk in d eix o u o s ta m anco s d e ja rd in agem e m c asa . E stá u sa nd o u m m acacão c o la nte c o r d e
am eix a e e sp era n o s b asti d ore s à m in ha f r e nte , m onta nd o g uard a à c o ro a.
Mam ãe c o nti n ua p ara d a n o m esm o p onto d eb aix o d os r e fle to re s, s e m s e m over, c o m o s e e sti v esse c o m
to rc ic o lo . E la e stá lin d a. E n ão só v is ta d e fr e nte . M esm o c o m to dos a q uele s g ra m pos se gura nd o o
vesti d o n as c o sta s, e la e stá m ara v ilh o sa .
Este m om ento . É a r e p re se nta ção m ais v erd ad eir a d a m in ha m ãe q ue e u já v i. A cho q ue, à s v eze s, a
perfe iç ão q ue v em os n o s o utr o s é f e ita d e m il p eq uenas i m perfe iç õ es, p orq ue te m d ia s e m q ue a p orc aria
do z íp er d o v esti d o n ão s o be d e j e ito n enhum .

SE SSE N TA E U M
Fic o te m po b asta nte p ara sa b er q ue M illie — a no ssa M illic ent! — é a se gund a
c o lo cad a. E la s e gura o b uq uê d e r o sa s e d á u m a ceno p erfe ito d e m is s. M as n ão f ic o p ara a c o ro ação d a
v enced ora . N em p re cis o .
Quand o e sto u i n d o p ara o f o yer c o m a g arra fa d e c id ra q ue g anhei d e L ee e D ale , v ejo M itc h c o m u m
g ru p o d e c ara s d o ti m e. E le s v encera m a p arti d a d a s e m ana p assa d a, p or i s so v ão p arti c ip ar d o e sta d ual
n o D ia d e A ção d e G ra ças.
Patr ic k T ho m as é o p rim eir o q ue m e n o ta .
— A mare lo u? — d iz p ara m e z o ar. — N ão a guento u a p re ssã o ?
Mitc h b ala nça a c ab eça, c o m u m a e xp re ssã o r e sig nad a.
— N ão f o i e la q ue...
Lev anto a m ão p ara i n te rro m pê-lo .
— N in guém a cha a m eno r g ra ça e m v ocê, P atr ic k. S erá q ue é tã o d ifíc il p erc eb er? N in guém e stá r in d o.
N em m esm o s e us a m ig o s.
Patr ic k f r a nze o c enho p or u m s e gund o, e e ntã o d á d e o m bro s a nte s d e s e v ir a r.
Mitc h b ala nça a c ab eça u m a v ez. D em oro m ais u m m om ento , e sb oçand o u m s o rris o .
A p la te ia n o a ud itó rio i r ro m pe e m a p la uso s n o i n sta nte e m q ue m e v ir o p ara i r e m bora .
Cam in ho o s tr ê s q uarte ir õ es c o m o v esti d o e o s s a lto s a lto s. A doro e ste m eu v esti d o.
Quero se m pre o lh ar p ara ele p end ura d o no arm ário e m e le m bra r d esta no ite d e
n o vem bro e m q ue fiq uei so b o s m eus p ró prio s re fle to re s. O v ento m e e m purra , o nd ula nd o o te cid o,
e nq uanto a v anço p ela s r u as d a m in ha c id ad ezin ha.
O s in in ho ti lin ta a cim a d a m in ha c ab eça q uand o a b ro a p orta e d ep aro c o m o H arp y’s o cup ad o p ela s
d ez p esso as d e C lo ver C ity q ue n ão c o m pare cera m a o c o ncurs o .
— U au — d iz M arc us, e ntr e gand o o r e cib o a u m c lie nte . — E stá p are cend o o utr a m ulh er, W ill.
Ao o uv ir m eu n o m e, B o c o nto rn a o b alc ão c o m u m p ir u lito d e c ere ja p end ura d o n a b oca m anchad a d e
v erm elh o .
Colo co a g arra fa d e c id ra n o b alc ão .
Ele d esa m arra o a v enta l d o p esc o ço e o d eix a p end ura d o n a c in tu ra . S eus l á b io s s e c urv am n um l a rg o
s o rris o .
— W illo w dean — d iz .
S usp ir o .

AG RADEC IM EN TO S
Sou um a m ulh er d e so rte . A co rd o to dos o s d ia s e fa ço aq uilo q ue am o e em q ue
a cre d ito . N ão e sta ria n esta p osiç ão s e m o a p oio e a o rie nta ção d e v ária s p esso as m ara v ilh o sa s.
Ale ssa nd ra B alz e r, v ocê é o ti p o d e ed ito ra co m q uem o s esc rito re s so nham em tr a b alh ar, e eu
a gra d eço to dos o s d ia s p elo fa to d e q ue esta te m sid o m in ha re alid ad e. O brig ad a p or in v esti r na
W illo w dean e p or s a b er o q ue e u q ueria d iz e r a nte s m esm o q ue e u s o ub esse c o m o f a ze r i s so .
Molly J a ffa , a cre d ito s in cera m ente q ue v ocê m overia u m a m onta nha p or m im , s e p ud esse . O brig ad a
p or m ante r m in ha v id a e m m ovim ento , e p or a q uele e m purrã o zin ho e xtr a n o liv ro q uand o e u e sta v a m e
s e nti n d o m eio d ese sp era d a. V ocê é m in ha a gente e a m ig a, e s o u g ra ta p or a m bas a s c o is a s.
Caro lin e S un, v ocê é a f e iti c eir a q ue f ic a e sc o nd id a n o s b asti d ore s. O brig ad a p or tu d o q ue f a z.
À e q uip e d e m ark eti n g d a T he S cho ol & L ib ra ry ( P atty R osa ti e M olly M otc h!) , s o u e te rn am ente g ra ta
p or te r to dos v ocês n a m in ha e q uip e.
Auro ra P arla gre co e A lis o n D onalty , e u n ão p oderia te r d ese ja d o u m a c ap a m ais p erfe ita . M in ha
p aix ão p or s e u d esig n é m aio r d o q ue e u p osso e xp re ssa r. R uik o T okunaga, a gra d eço p or f a ze r u m a c ap a
p erfe ita m ente tá cti l.
Há m uita s p esso as n a B alz e r+ B ra y/H arp erC ollin s/E pic R ead s/H CC F re nzy a q uem d ev o u m m und o d e
g ra ti d ão : S usa n K atz , K ate J a ckso n, A nd re a P ap penheim er, K erry M oynagh, H eath er D oss, D onna B ra y,
K els e y M urp hy, N ellie K urtz m an, B ooki V iv at, M arg o t W ood, A le xei E sik o ff, S um an S eew at, A ub ry
P ark s-F rie d , Je nnife r S herid an, K ath y F ab er e to dos a q uele s d e q ue p osso te r m e e sq uecid o (p orq ue
t e nho c erte za d e q ue m e e sq ueci!) , s u a b ond ad e e fé n o m eu tr a b alh o fo ra m in esti m áv eis . É u m a h o nra
t r a b alh ar c o m s e re s h um ano s tã o d ed ic ad os.
Je ssic a T aylo r, p or se m pre m e le r e p or m e d eix ar m ostr a r m eu la d o m ais ín ti m o e te rrív el. H aja
c up cakes!
Je ra m ey K ra atz , o brig ad a p or s e m pre s e r m eu c úm plic e e p or v ia ja r a o utr o e sta d o c o m ig o p ara v er
D olly P arto n — u m d ia d e q ue n unca v ou m e e sq uecer.
Nata lie P ark er, é c la ro q ue s o u g ra ta p or s u a h o nesti d ad e e s e nso d e ju sti ç a, m as p rin cip alm ente p or
s u a a m iz a d e e p or s e m pre m e d eix ar i r c o m v ocê a o s l u gare s s e m s e r c o nv id ad a.
Core y W hale y, o brig ad a p or to das a s h o ra s p assa d as le nd o n o S kyp e e c o nv ers a nd o s o bre tu d o e m
g era l e n ad a e m p arti c ula r.
Tessa G ra tto n, p or m e ti r a r d o b ura co n egro d o se gund o liv ro e p or p assa r d uas se m anas c o m ig o
d entr o d e u m c arro e a in d a m e a m ar n o f im .
Kris ti n T re v iñ o ( e to do m und o n a I r v in g P ub lic L ib ra ry !) , tu d o q ue v ocês f a ze m é i n crív el, e s o u m uito
g ra ta p or to das a s o portu nid ad es q ue ti v e d e p arti c ip ar.
Je nny M arti n , a q uerid a a m ig a d e m in ha c id ad e n ata l. O brig ad a p or s e m pre to rc er p or m im .
Com o d is se J o e C ocker:
I g et b y w ith a little h elp fr o m m y fr ie n ds
. K ati e C otu gno , A dam S ilv era ,
B eth any H agen, J e nnife r M ath ie u, K ris ti n R ae, S ara h C om bs, C hris ta D esir, M ic helle K ry s, A my T in te ra ,
K ari O ls o n, Je n B ig heart, C aro n E rv in , Pre eti C hhib ber, Ste f H offm an, C ourtn ey Ste v ens, A sh le y
M ere d ith , J o hn S ti c kney, H ayle y H arris , J e ffr e y K om aro m i e A sh er R ic hard so n.
T odos o s b lo gueir o s,
b ib lio te cário s, pro fe sso re s e le ito re s. M in ha co m unid ad e L one S ta r, O neF ourK id L it, #L ufk in 6 , T he
F ourte enery e T he H angin g G ard en. O brig ad a a to dos v ocês.
Mam ãe, p ap ai e J ill, o brig ad a p or s e m pre s e re m m eu l a r e p or a cre d ita re m e m m im e n o s m eus s o nho s
m ais l o uco s.
A D olly P arto n, p or n unca s e d esc ulp ar p or s e r q uem é e p or to dos o s s u cesso s q ue g ra v a. A s u a
m úsic a e ra o c o m bustí v el q ue f a lta v a a e ste l iv ro .
A I a n, p or s e m pre m e a m ar.
Aos jo vens g o rd os, m agro s, a lto s, b aix o s, e to dos q ue fic am e ntr e u m e xtr e m o e o o utr o : a in d a b em
q ue n ão h á g ente e xata m ente i g ual. O m und o s e ria e xtr e m am ente te d io so .

JU LIE M URPH Y
Viv e n o n o rte d o T exas c o m o m arid o q ue a a m a, o c acho rro q ue a a d ora e o s g ato s q ue
a to le ra m . Q uand o n ão e stá r e co rd and o d elic io so s m om ento s d e s u a v id a c o m o b ib lio te cária , e sc re v end o
ou m esm o te nta nd o r e co lh er a nim ais a b and onad os, J u lie p ode s e r e nco ntr a d a a ssis ti n d o a f ilm es f e ito s
para a T V, c açand o a p erfe ita f a ti a d e p iz za c ap ric had a n o q ueijo e p la neja nd o s u a p ró xim a g ra nd e
a v entu ra tu rís ti c a. A pós a b and onar a p ro fis sã o d e b ib lio te cária ( q uanta s a ud ad e!) , J u lie a go ra é e sc rito ra
em te m po i n te gra l. S eu a cla m ad o r o m ance d e e str e ia s e c ham a
Sid e E ffe cts M ay V ary
.
Vis ite J u lie e m
ju lie m urp hyw rite s.c o m

Sum ário
C ré d ito s
U m
D ois
T rê s
Q uatr o
C in co
S eis
S ete
O ito
N ove
D ez
O nze
D ois m ese s d ep ois
D oze
T re ze
Q uato rz e
Q uin ze
D eze sse is
D eze sse te
D ezo ito
D eze no ve
V in te
V in te e u m
V in te e d ois
V in te e tr ê s
V in te e q uatr o
V in te e c in co
V in te e s e is
V in te e s e te
V in te e o ito
V in te e n o ve
T rin ta
T rin ta e u m
T rin ta e d ois
T rin ta e tr ê s
T rin ta e q uatr o
T rin ta e c in co
T rin ta e s e is
T rin ta e s e te
T rin ta e o ito
T rin ta e n o ve
Q uare nta
Q uare nta e u m
Q uare nta e d ois
Q uare nta e tr ê s
Q uare nta e q uatr o
Q uare nta e c in co
Q uare nta e s e is
Q uare nta e s e te
Q uare nta e o ito
Q uare nta e n o ve
C in q uenta
C in q uenta e u m
C in q uenta e d ois

Cin q uenta e tr ê s
Cin q uenta e q uatr o
Cin q uenta e c in co
Cin q uenta e s e is
Cin q uenta e s e te
Cin q uenta e o ito
Cin q uenta e n o ve
Sesse nta
Sesse nta e u m
Agra d ecim ento s
Ju lie M urp hy

P assa rin ha

Ers k in e, K ath ry n
9788565859141
180 p ágin as
C om pre a go ra e l e ia
N o m und o d e C aitl in , tu d o é p re to e b ra nco . Q ualq uer c o is a e ntr e u m e o utr o d á u m a b aita s e nsa ção d e
r e cre io n o e stô m ago e a o brig a a f a ze r b ic ho d e p elú cia . É i s so q ue s e u i r m ão , D ev on, s e m pre te nto u
e xp lic ar à s p esso as. M as a go ra , d ep ois d o d ia e m q ue a v id a d esm oro no u, s e u p ai, d ev asta d o, c ho ra
m uito s e m s a b er a o c erto c o m o l id ar c o m i s so . E la q uer a ju d ar o p ai - a s i m esm a e to dos a s u a v olta - ,
m as, s e nd o u m a m enin a d e d ez a no s d e i d ad e, a uti s ta , p orta d ora d a S ín d ro m e d e A sp erg er, e la n ão s a b e
c o m o c ap ta r o s e nti d o.
C aitl in , q ue n ão g o sta d e o lh ar p ara a p esso a n em q ue i n v ad am s e u e sp aço p esso al, s e v olta , e ntã o , p ara
o s l iv ro s e d ic io nário s, q ue c o nsid era f á ceis p or e sta re m r e p le to s d e f a to s, p re to n o b ra nco . A pós l e r a
d efin iç ão d a p ala v ra d esfe cho , te m c erte za d e q ue é e xata m ente d is so q ue e la e s e u p ai p re cis a m . E
C aitl in e stá d ete rm in ad a a c o nse gui- lo . S eguin d o o c o nse lh o d o i r m ão , e la d ecid e tr a b alh ar n is so , o q ue a
l e v a a d esc o brir q ue n em tu d o é r e alm ente p re to e b ra nco , a fin al, o m und o é c heio d e c o re s, c o nfu so m as
b elo .
U m l iv ro s o bre c o m pre end er u ns a o s o utr o s, r e p le to d e e m pati a , c o m u m d esfe cho c o m ovente e
e ncanta d or q ue l e v ará o l e ito r à s l á grim as e d ará a o s j o vens u m p re cio so v is lu m bre d o m und o to do
e sp ecia l d essa m enin a e xtr a o rd in ária .
* V EN CED OR d o N ati o nal B ook A w ard , 2 010
* F IN ALIS TA d o R ed brid ge C hild re n's B ook A w ard ( R ein o U nid o), 2 012
* F IN ALIS TA d o U K LA A w ard ( A sso cia ção L ite rá ria d o R ein o U nid o), 2 012
* V EN CED OR d o I n te rn ati o nal R ead in g A sso cia ti o n A w ard , 2 011
* V EN CED OR d o C ry sta l K ite A w ard , 2 011
* H ONRA A O M ÉR IT O d o G old en K ite A w ard , 2 011
* V EN CED OR d o S outh ern I n d ep end ent B ookse lle rs A w ard , 2 011
* O BRA N OTÁ VEL P A RA C RIA NÇA S d a A meric an L ib ra ry A sso cia ti o n's , 2 011
* M ELH OR R O M ANCE P A RA J O VEN S d a A meric an L ib ra ry A sso cia ti o n's , 2 011
* O BRA E X TR A ORD IN ÁRIA n o B ank S tr e et B est C hild re n's B ooks, 2 011
* O BRA N OTÁ VEL P A RA C RIA NÇA S E A DOLE SC EN TES, C ap ito l C ho ic es, 2 011
* V EN CED OR d o D olly G ra y C hild re n's L ite ra tu re A w ard , 2 012
C om pre a go ra e l e ia

A h, o v erã o !

Belé m , F ern anda
9788565859196
230 p ágin as
C om pre a go ra e l e ia
M is tu re a s p ra ia s d e B úzio s, n o vas a m iz a d es, n o ite s e str e la d as e m uita a za ra ção . N essa s f é ria s, o q ue n ão
v ai f a lta r é b eijo n a b oca!
U huuu! E nfim , f é ria s! C am ila ( o u M ila p ara o s í n ti m os) e sta v a p re p ara d a p ara c urti r c o m a s a m ig as o
v erã o c ario ca. F esti n has, c lu b e, p ra ia , n o ita d as, c hurra sc o s... u fa ! E M ila ta m bém n ão q ueria p erd er a
o portu nid ad e d e s e a p ro xim ar e c o nhecer m elh o r R afa el, o m enin o c o m q uem ta nto s o nhav a. M as c o m o
n a v id a n em tu d o s ã o f lo re s, a m ãe d e C am ila j á h av ia b ola d o o utr a i d eia p ara o m ês d e j a neir o : v ia ja r. O
d esti n o ? B úzio s.
A lé m d e n ão p oder c o lo car e m p rá ti c a o p la no a rq uite ta d o p ara c o nq uis ta r o c o ra ção d o R afa , M ila
t a m bém te ria d e c o nv iv er c o m J u lia na, u m a m enin a q ue e ra o o posto d e to das a s a m ig as d o s e u g ru p o.
A rra sa d a, p arti u p ara B úzio s ( fa ze r o q uê?) a cre d ita nd o q ue a q uela s f é ria s s e ria m a s p io re s d a s u a v id a.
E la s ó n ão i m agin av a q ue...
Q ue o nd a a q uele v erã o r e se rv av a p ara e la ? N ovas a m iz a d es, c alo r, p ra ia , g arg alh ad as, m ic o s h o m éric o s
e m uito s, m uito s f r io s n a b arrig a e a rre p io s n o p esc o ço . Q uem n unca v iv eu u m a m or d e v erã o d esc o brir á
c o m a C am ila c o m o é p assa r p or e ssa e xp eriê ncia q ue d á u m a v onta d e d anad a d e v iv er d e f é ria s p ara
s e m pre . Q uem s a b e c o m o é , c o m c erte za te rá u m p ra ze r e no rm e e m r e le m bra r a q uele p ôr-d o-s o l e a s
n o ite s e str e la d as d e u m v erã o i n esq uecív el.
T rê s a m ig as, d ois c o ra çõ es a p aix o nad os e u m r o m ance i n esq uecív el. A h, o v erã o p ro m ete !
C om pre a go ra e l e ia

G ra ffiti M oon

Cro w le y, C ath
9788565859271
215 p ágin as
C om pre a go ra e l e ia
O a no l e ti v o a cab ou, a liá s, o ú lti m o a no d o e nsin o m éd io . L ucy p la nejo u a m aneir a p erfe ita d e
c o m em ora r: e ssa n o ite , f in alm ente , e la e nco ntr a rá o S om bra , o g enia l e m is te rio so g ra fite ir o , c ujo
f a ntá sti c o tr a b alh o s e e nco ntr a e sp alh ad o p or to da a c id ad e. E le e stá d e s p ra y n a m ão , e sc o nd id o e m
a lg um l u gar, e sp alh and o c o r, d ese nhand o p ássa ro s e o a zu l d o c éu n a n o ite . E L ucy s a b e q ue u m a rti s ta
c o m o o S om bra é a lg uém p or q uem e la p ode s e a p aix o nar — s e a p aix o nar d e v erd ad e.
A ú lti m a p esso a c o m q uem L ucy q uer p assa r e ssa n o ite é o E d, o c ara q ue e la te m te nta d o e v ita r d esd e
q ue d eu u m s o co n o n ariz d ele n o e nco ntr o m ais e str a nho d e s u a v id a.
M as q uand o E d c o nta p ara L ucy q ue s a b e o nd e a char o S om bra , o s d ois d e r e p ente s e j u nta m n um a b usc a
f r e néti c a a o s l u gare s o nd e s u a a rte , r e p le ta d e tr is te za e f u ga, r e v erb era n o s m uro s d a c id ad e. M as L ucy
n ão c o nse gue v er o q ue e stá b em d ia nte d os s e us o lh o s.
U m a a v entu ra e m ocio nante e p erig o sa c o m o u m g ra fite c la nd esti n o . U m a n o ite d e a rte e p oesia , h um or e
a uto desc o berta , e xp ecta ti v a e r is c o e , q uem s a b e, a m or v erd ad eir o .
C om pre a go ra e l e ia

M in ha v id a m ora a o l a d o

Fit z p atr ic k, H untle y
9788565859714
328 p ágin as
C om pre a go ra e l e ia
" M in ha m ãe n unca f ic o u s a b end o d e u m a c o is a , a lg o q ue e la r e p ro varia r a d ic alm ente : e u o bse rv av a o s
G arre tt. O te m po to do."
O s G arre tt s ã o tu d o q ue o s R eed n ão s ã o . B aru lh ento s, c aó ti c o s e a fe tu o so s. S ão d e v erd ad e. E , to dos o s
d ia s, d e s e u c anti n ho n o te lh ad o, S am anth a s o nha s e r u m a d ele s, s e r d a f a m ília . A té q ue, n um a n o ite d e
v erã o , J a se G arre tt v ai a té l á e ...
Q uanto m ais o s a d ole sc ente s s e a p ro xim am , m ais r e al e sse a m or g enuín o v ai s e to rn and o. C ontu d o,
p re cis a m a p re nd er a l id ar c o m a s e str a nheza s e m ara v ilh as d o p rim eir o a m or. A f a m ília d e J a se a co lh e
S am anth a, a p esa r d ela te r q ue e sc o nd er o n am ora d o d a p ró pria m ãe.
A té q ue a lg o te rrív el a co nte ce, o m und o d e S am anth a d esm oro na e e la é r e p enti n am ente f o rç ad a a to m ar
u m a d ecis ã o q uase i m possív el, p oré m d efin iti v a. A q ual f a m ília r e co rre r? O u, q uem s a b e, S am j á é
m ad ura o b asta nte p ara a ssu m ir s u as p ró pria s e sc o lh as? S erá q ue e stá p ro nta p ara a b ra çar a v id a e
e ncara r d esa fio s?
Q uem v ocê e sta ria d is p osto a s a crific ar p ela c o is a c erta a s e f a ze r? O q ue v ocê e sta ria d is p osto a
s a crific ar p ela v erd ad e?
É u m l iv ro e ncanta d or s o bre a f a m ília , o a m ad ure cim ento , a l e ald ad e, o p rim eir o a m or e , p rin cip alm ente ,
s o bre c o m o s e r s in cero c o m a lg uém q ue a m am os d em ais s e m tr a ir g ra nd es v erd ad es. C ad a e sc o lh a u m a
r e núncia . C ad a e sc o lh a u m a c o nse q uência : b em -v in d os à v id a!
M elh o r R om ance J u v enil p ela Y A LSA ( Y oung A dult L ib ra ry S erv ic es A sso cia ti o n)
F in alis ta d o P rê m io R IT A ( R om ance d e E str e ia )
C om pre a go ra e l e ia

Ô nix

L., A rm entr o ut, J e nnif e r
9788565859905
416 p ágin as
C om pre a go ra e l e ia
T ud o e stá p re ste s a m ud ar!
E sta r c o necta d a a e le é u m a d ro ga!
G ra ças a o s e u a b ra cad ab ra a lie níg ena, D aem on e stá d ete rm in ad o a p ro var q ue o q ue s e nte p or m im é
m ais d o q ue u m e fe ito c o la te ra l d a n o ssa b iz a rra c o nexão . E m v is ta d is so , f u i o brig ad a a d ar u m " c hega
p ra l á " n ele , a in d a q ue u lti m am ente n o ssa r e la ção e ste ja ... e sq uenta nd o.
A lg o p io r d o q ue o s A ru m r o nd a a c id ad e.
O D ep arta m ento d e D efe sa e stá a q ui. S e e le s d esc o brir e m o q ue o D aem on p ode f a ze r e q ue n ó s e sta m os
c o necta d os, v ou m e f e rra r. E le ta m bém . A lé m d is so , te m u m g aro to n o vo n a e sc o la q ue, ta l c o m o a g ente ,
g uard a u m s e gre d o. E le s a b e o q ue a co nte ceu c o m ig o e p ode a ju d ar, m as, p ara f a ze r i s so , p re cis o m enti r
p ara o D aem on e f ic ar l o nge d ele . C om o s e i s so f o sse p ossív el!
A té q ue, d e r e p ente , tu d o m ud a.
V i a lg uém q ue n ão d ev eria e sta r v iv o. E te nho q ue c o nta r a o D aem on, m esm o s a b end o q ue e le n ão v ai
p ara r d e i n v esti g ar a té d esc o brir to da a v erd ad e.
N in guém é o q ue p are ce s e r. E n em to do m und o i r á s o bre v iv er à s m enti r a s.
C om pre a go ra e l e ia