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    Depois a louca sou eu Tati Bernardi


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  • Название: Depois a louca sou eu
  • Автор: Tati Bernardi

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."

Sempre que tenho uma crise de pânico, a fantasia mais maluca é a de que vou
me desintegrar até deixar de existir. É como se no chão abrisse uma espécie de
ralo e eu começasse a rodopiar antes de sumir no buraco. É como se eu fosse um
saco de bolinhas de gude que alguém roubou e, na fuga, deixou cair. Na queda, o
saco se abriu (parecia tão bem amarrado, mas era mambembe, caseiro, lacinho
de bem-casado após dias esquecido numa bolsa de festa), e todas as bolinhas
saíram em disparada pelo mundo, cada uma para um canto, até elas se tocarem de
que não tinham vida suficiente para ir até o fim tão separadamente das outras
bolinhas, para descansar em gritante imobilidade em bueiros, no meio do esgoto,
no meio do que mandamos para debaixo do tapete. Milhares de fragmentos
vergonhosos escondidos que, quando amarrados pelo medo, formavam um
princípio de equilíbrio e boa intenção humana.
Escrevo para saber que tenho bordas, como um morto na cena do crime. Talvez
escrever me salve diariamente de não enlouquecer de verdade e eu possa
continuar mesclando estes dias em que apenas pago contas e dou de comer à
minha cachorra com outros em que escuto batimentos cardíacos tamborilando
pelas paredes da casa enquanto tento em vão descolar a língua do céu da boca.
Mas talvez eu sofra de ansiedade intensa justamente porque transformei uma
ansiedade “o.k. pra mais” em personagem e piorei tudo. Será que dei vaidade a
um mero prolapso da válvula mitral? O fato é que, quando comecei a escrever, foi
para não me assustar tanto guardando tanto só para mim. Mas não é só isso.
Tem muita arrogância em se esfaquear em praça pública. Achar que suas veias
e fezes e sangue importam a ponto de serem mostradas para alguém. Um amor
materno por você mesmo, “já te contei do cocô do nenê?”. A plaquinha “olhem,
estou cagado” tem muito de arte, de rir de você mesmo antes que alguém ria, de
coragem, de cara pra bater.
Mas tem algo de pavoroso nisso, de perverso. Para aturar o monstro-criança
que mora no meu estômago, toda hora eu faço um teatro macabro comigo: “vai lá,
mostre o que sabe fazer, diga algum absurdo pra entreter esse jantar insuportável
antes que eu me mate”. E lá vou eu, me expor até que todos estejam se divertindo
muito com meus destemperos, empanturrados das minhas mazelas, enquanto eu
preciso andar me apoiando em paredes, tão esvaziada e nua e com frio que só
sobrou uma enxaqueca para me levar até em casa.
Quem tem muito medo de se desintegrar, sofre também de perseguições
pretensiosas como “e se todos estiverem falando de mim?”. Daí o pânico. O
pânico é essa interseção entre a certeza absoluta de que você não importa nada
para o mundo e a certeza absoluta de que todos estão comentando o fato de você
não importar nada para o mundo. Um medo do palco lotado, só que todos estão te
assistindo pelas costas.
Uma vez fiz uma promessa. Eu havia me apaixonado por um homem casado e
ele tinha, naquele dia, saído de casa “pra ficar comigo”. Largou mulher
desesperada, criança chorando, mãe ameaçando infartar, amigos indicando
terapeutas para sua crise de meia-idade, e me ligou de um quarto de hotel no Rio
de Janeiro e disse: “venha”. Eu fiz a mala mais rápida do mundo, comprei a
passagem mais cara do mundo e entrei no avião, apesar da minha fobia imensa de
qualquer deslocamento mais acentuado, sem me dar conta de que estava caindo

granizo. As pedras esmurravam a janela. Eram quatro da tarde, mas parecia a
madrugada mais madrugada do inverno mais invernal da Islândia. O piloto se
desesperou com a violência da chuva “de lado” que estapeava a fuça do avião e
resolveu que voltaríamos a Congonhas. Ao chegar lá, o avião arremeteu e foi
tentar pousar em Campinas. A cena que nunca esquecerei: aeromoças de mãos
dadas. Foi quando tive certeza: eu merecia morrer. Tinha separado aquele bom
homem de sua família. As crianças choraram. Tinha separado outros bons homens
de suas famílias ao longo de minha vida. As crianças choraram. Aquele avião
estava praticamente vazio, sem mulheres grávidas, sem bebês, a única criança era
um pré-adolescente marrento. Aquele avião iria cair. Ele estava cheio de velhas
com cara de que tinham separado, ao longo de suas vidas, bons homens de suas
famílias. As crianças certamente choraram. Aquele avião estava fadado ao
insucesso. Programado para a queda. Tentei fazer o celular pegar, precisava dizer
à minha mãe: “desculpa todas as vezes que te empurrei contra a parede, era amor
também”. Precisava falar para o tiozinho voltar com a mulher porque, mesmo que
agora nossa relação fosse a mais “verdadeira e infinita do universo”, acabaria em
algumas semanas. As aeromoças continuavam de mãos dadas. As pessoas não
choravam nem gritavam, algumas até liam revistas e cobravam o serviço de
bordo. Tem gente que é fria até para morrer! Tem gente que acha que o importante
é ser chique até na hora de explodir em meio a um vendaval. Que gente
maravilhosa, essa. Eu já estava na oitava negociação com o meu intestino:
“segura mais um pouco, não quero morrer sozinha naquele banheiro minúsculo”,
no vigésimo vômito que esperava para dali a pouco, com as palmas, as duas,
unhadas, com o cabelo preso em coque porque o suor frio da nuca tinha
emaranhado tanto os fios que eu parecia ter sido eletrocutada.
Foi quando fechei os olhos e prometi: “se eu sobreviver, vou escrever um livro
sobre o medo”.

Síndrome da fuga repentina

A praia Preta fica a menos de três horas de casa. Mas, como é Ano-Novo, a
praia Preta pode ficar a mais de dez horas de casa. A praia Preta pode ficar a
“não dá pra chegar em casa” de casa dependendo do dia e da hora que eu decida
voltar. A praia Preta pode ficar a “quem teve essa ideia de merda?” dependendo
da hora que eu decida ir. A praia Preta, tranquila, não badalada, não conhecida,
dentro de um condomínio de casas familiares com labradores e bebês, no Litoral
Norte de São Paulo, pode ficar a “sério que você vai pra Marte de triciclo
trajando apenas sua carne viva?” de casa.
Se eu fosse realmente explicar (como se explicar não alimentasse ainda mais
um ciclo que é apenas ansiedade e que piora quando alimentado), diria que pode
acontecer muita chateação. Por exemplo, semana passada. A reunião era para
durar “uma horinha”, mas durou duas. O percurso de Higienópolis até em casa
era para durar vinte minutos, mas havia muito trânsito e durou mais de quarenta.
Tudo isso atrasou muito um xixi programado desde a metade da reunião, e
também impediu que eu tirasse logo uma calça que estava me apertando muito.
A soma de “segurar xixi” com “calça apertada” com “suar de muito calor” com
“nervoso de não conseguir chegar logo em casa para fazer xixi e tirar logo a
calça apertada e molhada de suor” me deu candidíase. A candidíase me deu dor
lombar e enjoo. Fiquei um dia inteiro meio pra baixo, querendo deitar, os olhos
ardendo. Cândida dá uma deprimida. A sensação de que somos mais abertas do
que gostaríamos. Agora me diz se eu não estivesse em casa, pertinho da minha
chaleira, da minha cama, do Onofre em Casa, do meu ginecologista, do
banheiro.
Por exemplo, semana retrasada. Eu comi o melhor polvo de todos os tempos.
E, porque era o melhor polvo de todos os tempos, comi muito. Onze da noite, tive
uma daquelas dores de barriga que dão calafrios e arrepios e você teria tempo de
ler Grande sertão: veredas no banheiro caso tivesse alguma condição de ler algo
em vez de ficar se contorcendo. Se abraçando como se dissesse o tempo todo
para si mesmo: “eu estou aqui com você”. Agora me diz se eu não estivesse em
casa, pertinho da minha chaleira, da minha cama, do Onofre em Casa, do meu
gastroenterologista, do banheiro.
Por exemplo, mês passado. Eu briguei feio com uma das minhas melhores
amigas. Um pouco porque ela mereceu, mas muito porque a verdade é que
tenho um pouco de mania de perseguição. A verdade é que tenho muita mania de
perseguição. E criei na cabeça uma história de que ela não estava sendo legal.
Bastava eu dizer que estava triste, mas eu disse outras cinquenta e seis coisas que
para mim queriam dizer: “estou triste” e para ela queriam dizer: “vou te foder,

sua vaca” e para nós, depois, acabaram querendo dizer que sou maluca. E a
gente brigou feio. E eu fiquei com muita gastrite e um pouco de labirintite e
ninguém vem me dizer que não foi o fígado, porque fígado pode até não doer
mas é quem dá tontura e é quem mais sofre quando a gente está sofrendo. Aquilo
que parece a boca do estômago, ninguém me tira da cabeça que é fígado. Isso,
meu pai me ensinou. Agora me diz se eu não estivesse em casa, pertinho da
minha chaleira, da minha cama, do Onofre em Casa, da minha analista, do
banheiro.
Se eu fosse realmente explicar, diria que hoje mesmo eu tive uma daquelas
enxaquecas insuportáveis que começam com dor no pescoço que começa com
uma tensão típica dos dias em que terei enxaqueca. Fiquei muito enjoada e deitei
no escuro com a cabeça para fora da cama, para alongar o pescoço. O que
piorou a enxaqueca, porque acho que mandar mais sangue para um lugar que já
me parecia inchado não foi bom negócio. Agora me diz se eu não estivesse em
casa, pertinho. Você já entendeu. Essas coisas dão uma segurança, é isso que eu
quero dizer.
Pode parecer papo de velha, e claro que a coisa piora com a idade. Mas eu já
pensava essas coisas aos quinze anos. Eu sempre pensei essas coisas, desde que
comecei a pensar coisas. Aos vinte viajei com um namorado para Ilhabela e ele
estava realmente preocupado se no dia seguinte “ventaria mais ao norte”, ou algo
parecido, para ele praticar kitesurf. “Olha bem pra minha cara”, eu queria dizer
a ele. Eu estava preocupada se meus pais morreriam antes do Natal, mesmo
ainda sendo eles muito jovens e saudáveis (e sendo ainda jovens e saudáveis até
hoje). Estava preocupada se acordaria às quatro da manhã com um ataque
intenso de pânico que inviabilizaria estar naquela pousada, namorar, tomar café,
ter amigos, trabalhar, ser promovida, ser promovida de novo, ter um parto
normal, ter mais um filho, ir passar o Natal na casa dos pais de um marido “x”,
andar pelas ruas, fazer compras num supermercado, envelhecer na companhia
de alguém, ter alguém próximo a mim no dia da minha morte, não sentir dor ao
morrer, ter alguém que eu amasse muito e com quem pudesse ficar muito à
vontade para gemer de dor e talvez estar meio suja e talvez precisar de ajuda
para ir ao banheiro no dia que eu bem velhinha tivesse que morrer.
E ele preocupado com o vento de Ilhabela. Ele era bem bonito, mas realmente
fiquei me perguntando de que me servia tudo aquilo. A pousada, o fato de ele ser
bonito, a praia. A festa que haveria no dia seguinte, com todos aqueles “jovens”
amigos dele, “você vai adorar”. Daí eu perguntava o que eles faziam da vida e
ele não entendia por que eu perguntava isso. E daí se uma das meninas não
trabalha, se um dos caras trabalha com o pai numa empresa em que o próprio
pai não trabalha e muito menos o filho que trabalha com o pai? E daí que eram
apenas jovens querendo curtir? Eu a noite inteira tentando ter um pouco de
conversa de verdade com algum daqueles “jovens”. Queria perguntar a uma das

meninas bêbadas amigas dele: “e você tem mais angústia em que hora do dia?”.
Eu desistindo deles, talvez meio enjoada, trancada no banheiro, deitada no
geladinho com as pernas em cima do bidê, algo como “parece o fim dos tempos,
mas sou só eu querendo que a minha pressão volte”. Ele estava preocupado com
o vento e me dizia o quanto eu ia adorar seus amigos.
Já está tudo combinado para o Ano-Novo na praia Preta. Cada um dos nove
amigos paga quatro mil duzentos e quarenta reais. Nesse valor estão inclusos
aluguel de uma casa enorme de frente para a praia, limpeza feita pelo caseiro
por seis dias, almoço e jantar feitos pela mulher do caseiro por seis dias, e muitas
bebidas alcoólicas que certamente vão acabar antes. Pensei em pedir um
desconto porque não bebo. Mas ninguém gosta de dificuldade na hora de dividir
uma conta. Nem eu. Prefiro pagar a mais a ficar com uma calculadora atrás dos
outros. Mas, quando a bebida acabar no quarto dia e todo mundo for dar mais
dinheiro, espero que tenham a decência de não me pedir. Porque não bebo. E
talvez esse pensamento nem seja necessário, porque muito provavelmente no
quarto dia já não estarei na casa.
O quarto dia é dia 30 de dezembro. Imagina o vazio da estrada nesse dia.
Ninguém volta da praia um dia antes da virada do ano. Ninguém volta da praia
um dia antes de fazer o que foi fazer na praia. É por isso mesmo, porque
ninguém vai travar minha passagem, que estou pensando em voltar no dia 30.
Vão achar estranho, eu sei. O cara que estou levando comigo “numas de
namorado mas ainda estamos nos conhecendo” talvez fique meio enojadinho,
talvez apenas me ache misteriosa. Os outros vão balançar a cabeça enquanto
estou ali e “falar de mim” depois que eu me for. Vão comentar: “que puta doida,
podia estar aqui agora com a gente” quando estiverem bêbados pulando ondinhas
e se achando mais que felizes e mais que espertos. Mas tudo isso é melhor que
seis dias ininterruptos pensando: “e se eu quiser ir embora agora, vão travar
minha passagem?”. Talvez eu aguente esse pensamento por dois dias, talvez por
nenhum. Nem por um único dia. Eu nem gosto de Ano-Novo. Eu tenho, na
verdade, pavor de Ano-Novo. Eu nem realmente gosto das pessoas que vão nessa
viagem. Eu nem gosto desse namorado. Então talvez, e, agora sim, esta é uma
decisão muito verdadeira e séria, eu nem vá. Não vou, acho.
Apesar do valor alto, estou tranquila em desmarcar a viagem e pagar mesmo
assim. Ou em ficar apenas quatro, dos seis dias, e pagar a quantia inteira, mesmo
assim. Ou em ir num dia, voltar no outro, e pagar os quatro mil duzentos e
quarenta reais, mesmo assim. Se bem que é uma sacanagem comigo, pagar por
algo que talvez eu não faça. Mas é uma sacanagem com os outros desistir em
cima da hora. Talvez eu vá de manhã e no fim da tarde já queira voltar. Porque
eu posso voltar. É importante que eu saiba disso, que fique muito claro, que fique
claro para todo mundo. É importante que eu chegue por último, para o meu carro
ficar mais perto da saída. É importante que não travem meu carro, caso eu

queira ir embora de madrugada (não quero incomodar, acordar os outros). Vou
porque quero e volto quando quero. Mesmo que seja meio doente voltar duas
horas depois de chegar. Ainda assim posso voltar. E é bem capaz que eu volte.
Talvez não duas horas depois, porque nem é muito seguro, preciso descansar. Mas
posso dormir um pouco e voltar. Talvez eu simplesmente vá embora, deixe um
bilhete, escolha a pessoa de quem gosto ao menos um pouco e avise: “minha
mãe tá mal”. Não é exatamente uma mentira, nunca é, minha mãe e meu pai
nunca estiveram exatamente bem em todas essas décadas. Quem é que está de
fato cem por cento bem qualquer que seja o dia e a idade e a década? Então não
é exatamente mentira.
Vou fazer a mala para seis dias, apenas para o caso de “e se”. Mas já meio
que negociei, só comigo, claro, que ficarei metade disso. Ou um terço. E tenho
essa opção maravilhosa, muito cristalina, muito real, muito ensolarada, muito
possível, de, quando chegar o dia, não ir. Ou de, no meio da estrada, indo, voltar.
Mas farei a mala, comprarei protetor solar, calcinha branca, uma canga enorme
para me refestelar na areia. Legumes, frutas e ovos orgânicos (porque sei que
vão ignorar meu pedido de “somente comida orgânica”, então vou me garantir).
Aliás, como farei isso sem que achem que estou segregando minha comida? Não
sei. Está vendo? Coisa demais para pensar, coisa demais para lidar. Seis
intermináveis anos em Marte, em carne viva, correndo o risco de travarem meu
carro, travarem a estrada, travarem minha saída com frases como “fica aí,
doida”. Como se faz para ir a qualquer lugar sem achar isso gigantescamente
insuportável? Sem ficar cansada antes mesmo de ir?
Vou com meu carro, mas, para o caso de “dar uma merda com o carro ou dar
uma merda com a minha capacidade de dirigir ou dar uma merda com o
namoradinho de quem eu nem gosto e ele precisar ficar com meu carro”,
descubro pelo Google um único ponto de táxi na praia Preta e ligo para o
Jerônimo. Jerônimo diz que está de férias. “É férias, moça. É Ano-Novo.” Eu
digo que é uma emergência e que posso pagar quinhentos reais, pergunto se ele
pode me indicar alguém. Ele rapidamente indica a si mesmo.
Explico que vou para a praia Preta no dia 27 de manhã, mas a qualquer
momento posso precisar voltar. Minto que minha mãe está internada num
hospital, fazendo exames, e que, a depender da gravidade do resultado deles, vou
precisar voltar com urgência. Mas vou precisar voltar na hora exata em que
precisar voltar. Pode ser, inclusive, de madrugada. Pode ser durante o almoço.
Eu preciso ligar e saber que, quinze minutos depois do segundo em que eu ligar,
ele estará na porta da casa. Ele topa. Diz que tem pai doente e entende. Me dá o
número do celular dele. Antes de sair, mando uma mensagem para confirmar
que nossos celulares estão sabidos e salvos e são aqueles mesmo. Vejo a foto
dele, parece boa gente. Ele responde um “vai com Deus”. Faço terapia há mais
de dez anos, mas só consigo ir para a praia Preta por causa do Jerônimo.

Preencho um cheque com o valor de quinhentos reais só para o caso de “estar
ansiosa demais pra preencher um cheque”, e vou. Só por causa do cheque
consigo ir.
Na estrada penso que meu pai não vai para a praia, vai passar o Ano-Novo
sozinho com seu cachorro. Outro cachorro, porque o primeiro morreu. Na
estrada penso que minha mãe não vai